Carijó - Capítulo 23
Anteriormente em "Carijó":
Em Paris, Ádama descobre que herdou todos os bens do falecido marido, deixando Moisés na miséria e furioso, enquanto ela jura retornar ao Brasil para se vingar. Paralelamente, em meio a uma rebelião de presidiários, Lucas consegue fugir do presídio, e Tilápia é expulsa da mansão de Soraya ao tentar denunciar Rinha aos policiais por ter causado o acidente de sua filha. Por fim, Tilápia revela a Canja que Rinha comprou seu filho recém-nascido no passado; em choque com a revelação, a idosa perde a visão, invade a mansão e esgana a rival, prometendo matá-la.
Fique agora com o capítulo de hoje.
Cena 01 - Mansão de Soraya [DIA]
Canja aperta o pescoço de Rinha com todas as forças. A vilã empalidece e cerra os olhos. Soraya se aproxima.
SORAYA |Gritando| - Por aqui, seguranças! Essa desmiolada vai desviver a minha avó!
Os vigilantes da mansão que estavam comendo na cozinha chegam e imbolizam Canja imediatamente. Rinha se recompõe, respirando ofegante.
SORAYA - Muito bem! Satisfeita, Dona sopa? Pois a polícia já está se aproximando para dar o troco. Espero que as suas colegas de cela façam pior. |Se direciona aos guardas.| Joguem-a na sarjeta!
Os funcionários a obedecem.
CANJA - Um momento! Me soltem! |Se liberta e encara Soraya| Há uma coisa que você, por mais que pertença a pior espécie, necessita saber...
RINHA |Fraca| - Não dêem ouvidos a essa abilolada.
CANJA - Soraya, eu sou sua verdadeira avó. É isso mesmo: você é do meu sangue, minha neta legítima. Essa daí |Aponta para Rinha| é inegavelmente uma imoral. Quero que saiba que a partir de agora com esse laço real concebido, podemos começar do zero. |Lacrimeja| Você merece uma segunda chance, minha netinha. Você só se tornou má pela criação.
Soraya permanece pensativa e impactada por alguns segundos até que se desmonta.
SORAYA: HAHAHAHAHAHAHAHAHA!
CANJA - Eu não entendo.
SORAYA - Você? Do mesmo sangue que eu?! Quer que nos conheçamos melhor? Me chamou de netinha? HAHAHAHAHAHAHA!
Rinha também solta um sorriso de canto. Soraya se aproxima dela.
SORAYA - Saiba que esta aqui é e sempre será a minha verdadeira avó, independente de tudo.
CANJA - Mas ela roubou o meu filho: Raul. Ela era gêmeo de outra criança gerada por mim. Você, como filha dele, faz parte da minha família. Você já sabia de tudo?
SORAYA - Eu não tinha ciência de nada, mas entenda de uma vez por todas, Dona Pelanca: a sua pessoa eu não quero nem como serviçal.
Canja engole seco.
SORAYA - Quiçá avó paterna! Aliás, graças a Deus que meu pai tá morto! Aquilo ali sempre foi um escosto no meu caminho. Pessoas como a vó Rinha é que são boas companhias, gente com pensamento puritano, de raça, coisa que talvez você não entenda, né, sua encardida.
Canja corre até Soraya e lhe dispara um tabefe da maior qualidade que a derruba no chão. Soraya fica desnorteada. Os seguranças retiram Canja do local, que no mesmo instante cospe e escarra no chão.
CANJA |Séria| - Boa estadia para vocês no inferno.
Ela é retirada. Rinha e Soraya se encaram, soltando gargalhadas semelhantes a de hienas.
Cena 02 - Rua [DIA]
Canja é carregada por dois homenzarrões. Ela pisa no calo de ambos, se libertando e em seguida desaparece em um beco.
SEGURANÇA 1 - E agora?!
SEGURANÇA 2 - Deixa! A Soraya não precisa e nem deve ficar sabendo. Boa sorte, Dona Caldinho!
Cena 03 - Casa de Canja [TARDE]
Canja abre a porta.
TILÁPIA - Até que enfim você voltou, tia! Onde foi? O que houve?
DANIEL - É, tia Canja. Nós podemos lhe ajudar.
MÉDICO - Eu não. Já fiquei tempo demais aqui preso. Acertem a minha conta depois, não trabalho de graça, seus velhacos.
TILÁPIA - Ah, cai fora!
O médico dá uma rabissaca e se retira.
CANJA - Saiam também!
DANIEL - Mas tia...
CANJA - SAIAM DAQUI!
Tilápia recolhe Daniel e ambos saem cabisbaixos. Canja se tranca e desaba em lágrimas escorregando suas costas pela porta ao som da música "Ontem, Hoje, Amanhã - Fernando Mendes". Ela vai até uma gaveta e retira uma foto que havia guardada de Raul da época em que trabalhava na mansão de Soraya. A senhora beija a imagem como se fosse uma pessoa real. Em outro take, ela está abraçando Raul fisicamente em sua imaginação.
RAUL - Eu sempre te amei, mamãe. Mesmo sem te dizer com essas palavras. Jamais te esquecerei.
CANJA |Chorando| - Nós vamos nos reencontrar o quanto antes, filho.
O delírio cessa. Alguém bate a porta. Canja pensa em ignorar. Ela está confusa. Rapidamente ela corre até uma gaveta da cozinha e segura uma faca, direcionando para si mesma. Sua vista escurece. A faca cai. Ela resolve ir até a entrada, para que a pessoa lhe ajude. O visitante se revela.
ÁDAMA - Boa tarde, Dona Canja!
CANJA - Quem é você? O que quer? Aqui não tem pão velho.
ÁDAMA - Não está me reconhecendo, vovó?
CANJA - O que?! Isso é uma brincadeira sua, Tilápia?
Ádama adentra o imóvel e retira os óculos escuros.
ÁDAMA - Sou eu, Dona Canja!
CANJA - Essa voz! |Limpa os olhos| Eu não acredito. Carijó?
ÁDAMA - E quem mais seria?
Ambas se abraçam desesperadamente. Canja encontra em Ádama uma alça de escape para o tormento que lhe tomara instantes atrás.
ÁDAMA - Eu senti tanto sua falta! Cadê todo mundo? Tilápia, Daniel, Viviane? |Percebe a faca jogada| O que significa isso, se acidentou?
CANJA - Ah, minha neta. Eu tenho tanto pra te contar, infelizmente. Sente-se! Você está belíssima!
ÁDAMA - Sou toda ouvidos!
Se abraçam novamente.
Cena 04 - Mansão de Soraya [TARDE]
Tainá prepara quitutes.
SORAYA - Tainá, imprestável, prepara uma gororoba melhorzinha. Hoje o dia foi puxado e você está mais inútil do que nunca.
TAINÁ - Pode deixar, Sô, digo, Dona Soraya. Aliás, eu gostaria de lhe pedir um favor.
SORAYA - Aumento salarial? Mas não tem nem seis meses que eu acrescentei um real no seu vale alimentação!
TAINÁ - Não! É que eu vou precisar trazer a minha filha para o trabalho agora.
SORAYA - Você tem filha?
TAINÁ - Sim, de duas patas e duas asas.
Tainá retira sua galinha de estimação do armário onde a havia escondido.
TAINÁ - Sabe o que é, com esses casos aí de gripe aviária, fiquei com medo de deixar a bixinha sozinha em casa. O veterinário recomendou repouso e atenção absoluta.
SORAYA - Ai, meu Deus! Eu mereço! Tá bom! Só não quero ver essa penosa sujando meu porcelanato. Bota ela lá na área de estrumes da horta.
TAINÁ - Certo, Sô, Dona, Raya! A senhora não vai se arrepender! Frida Kahlo é comportadíssima.
Soraya observa a ave atentamente, que retribui as investidas. A vilã olha fundo em seus olhos, capturando uma miragem de uma sepultura. Em sua visão, a galinha pisca os olhos e sorri maliciosamente.
SORAYA - Socorro! Meu Deus! Tire esse frango diabólico daqui!
Tainá agarra seu pet e some. Soraya toma um copo da água, enquanto ainda resfolega.
Cena 05 - Galpão [TARDE]
Fugitivos da prisão e Lucas conversam entre si, após a escapada.
PRESIDIÁRIO - O que vocês pretendem fazer agora? A barra tá limpa!
LUCAS - Eu ainda tenho muito o que fazer! Se algum de vocês pudessem me ajudar, ficaria grato.
PRESIDIÁRIO - Sai fora! |Retira uma Bíblia do bolso| Agora me converti. Se quiser me chamar pra ir pra igreja, eu topo. Roubar e matar, nunca mais.
LUCAS - E quem disse que eu vou assassinar alguém? Há coisas na Terra muito mais perversas do que isso.
Lucas pega um pedaço de gesso jogado no chão e escreve na parede o nome de Soraya. Seus olhos lacrimejam de ódio. O dia anoitece ao som de "Sensível Demais - Marília Mendonça"
Cena 06 - Casa de Canja [NOITE]
CANJA - E foi isso, Carijó. No mais, não aconteceu nada de mais.
ÁDAMA - Tem certeza, vó? Percebi a senhora tão aflita. Mas se não quiser contar, tudo bem. Darei tempo ao tempo.
CANJA - É que estou com princípio de diabetes, só isso.
ÁDAMA - Ai, meu Deus! Temos que tratar isso! Vou lhe marcar no meu médico particular.
CANJA - Médico particular? Você tá podendo, hein?! Perdeu até os sotaque nas Europa. Não é mais minha Carijó.
ÁDAMA - E não sou mesmo. Meu nome agora é Ádama. E ninguém nunca mais vai me rebaixar. Por falar nisso, preciso ir. Tenho contas a acertar.
CANJA - Posso saber do que se trata?
ÁDAMA - Bobagem! Trâmites do testamento do Thiago. Nos vemos mais tarde, vovó!
A neta de Canja a beija e sai. Canja a observa com complacência.
CANJA |Pensamento| - Ah, minha neta. Espero que você tenha saído dessa vida e nunca mais cruze com ninguém daquele pandemônio dos Raposo Leitão. Na hora certa, te contarei da sua ligação carnal, mas não agora para não te acender novamente os traumas do passado.
Cena 07 - Casa de Tilápia [NOITE]
Tilápia serve papa na boca de Viviane, que mastiga devagar.
TILÁPIA - Ah, minha filha, eu acho que seria capaz de entregar a minha vida para quem fosse apenas para te ver levantar dessa cadeira de rodas.
Viviane mastiga mais um pouco e lacrimeja. Ela boceja e suspira.
TILÁPIA - Quer mais água?
VIVIANE |Balbuciando| - Ca-ca-ca-i-xa-xa-xa.
TILÁPIA |Assustada| - O que?! Você está querendo falar? Repita! Eu entendi bem. Caixa? Que caixa? Do seu apartamento?
Viviane mexe o dedão duas vezes em sinal de confirmação. Tilápia se mantém incrédula.
Cena 08 - Me Red [NOITE]
Romeu estaciona seu carro ao mesmo tempo que uma moça: é Ádama.
ROMEU |Pensamento| - Carne nova no pedaço, tomara que não seja de frango.
ROMEU - Ajuda, senhorita?
Ele abre a porta do veículo e segura na mão da mulher.
ÁDAMA - Obrigada!
Carijó/Ádama reconhece a feição do homem. De repente, é como se um gatilho tivesse sido disparado em sua direção antingindo seu estômago, tamanha a emoção sentida pela mocinha.
ROMEU - Está perdida? Posso lhe acompanhar!
ÁDAMA - Não necessita, obrigada.
ROMEU - É turista? Nunca lhe vi por essas bandas.
ÁDAMA - Sou, na verdade, não mais. Sabe onde fica o setor de reuniões da Me Red?
ROMEU - É à esquerda. Estou indo para o mesmo local.
ÁDAMA - Que ótimo! Sendo assim, aceito sua companhia.
ROMEU - Uma bela moça assim não deveria andar sozinha.
ÁDAMA - Verdade, infelizmente estou solteira.
ROMEU - Que pecado! Digo, que má sorte!
ÁDAMA - Na verdade, não ligo. Corações sozinhos se fortalecem como uma jóia preciosa. Se petrifica. É melhor do que ser banhado em doce e mel, para depois ser encoberto por um veneno letal.
Romeu fica intrigado.
ÁDAMA |Se oferecendo| - Se puder me acompanhar até meu hotel, na volta. Seria um prazer! Estou perdidinha na cidade grande, São Paulo é enorme!
ROMEU - Gozado! Você me lembra uma moça que conheci anos atrás, que vinha do interior. Nos conhecemos em um acidente quando ela estava chegando aqui, toda pura e inocente sem saber para onde ia.
Ádama sente na pele o que foi proferido, mas não esboça reação. Ambos adentram na sala de reuniões. Romeu ajeita a cadeira de Ádama. Minutos depois, Soraya chega.
SORAYA - Boa noite, my lovers! Já sentiram a fragrância do novo lançamento de hidratante com aroma de gambá?
Romeu tosse para avisar Soraya do momento atípico. Soraya se toca e percebe uma invasora na sala.
SORAYA - Oh, ela chegou? A tal compradora francesa? Revele logo sua silhueta, Dona coisinha...
Ádama a fita nos olhos. Soraya sente um arrepio com o que vê, como o seu sexto sentido tentasse lhe avisar do que se sucede.
ÁDAMA - Muito prazer, Dona Soraya! Gostaria de esclarecer que meu nome não é coisinha como talvez você pense. Eu me chamo Ádama e espero que me respeite, afinal eu sou a nova proprietária parcial da Me Red. Portanto, considere-se praticamente minha funcionária ou eu serei obrigada a depená-la como uma galinha a demitindo por justa causa.
SORAYA - Eu não acredito! Não pode ser! É você?!
Ádama não se abala, se mostrando imponente.
A imagem congela em Ádama/Carijó com um efeito amarelo brilhante.