Carijó - Capítulo 22

 Anteriormente em "Carijó":

No tribunal, Lucas é condenado a 25 anos pelo assassinato do pai após um julgamento cheio de depoimentos truncados e armações, partindo para a prisão sob o deboche de Soraya. Esta, por sua vez, descobre que perdeu o controle de suas ações para uma empresa estrangeira e é surpreendida por Tilápia, que invade sua mansão revelando que Soraya é neta biológica da doméstica Canja e não de Rinha. O confronto culmina com Rinha agredindo Tilápia com um vaso para calá-la, momento em que Daniel chega acompanhado da polícia e a vilã é denunciada pelo roubo de um bebê no passado. Paralelamente, Canja passa mal em casa, enquanto uma figura misteriosa em Paris monitora o escândalo à distância. Tempos depois, a narrativa salta para a França, onde Carijó (agora atendendo pelo nome de Ádama) reaparece milionária e triunfante, deixando o ex-sogro Moisés de mãos abanadas ao revelar que herdou toda a fortuna de Thiago transferida ainda em vida.

Fique agora com o capítulo de hoje.


Cena 01 - Casa de Ádama [TARDE]

ADVOGADO - O sr. Thiago não deixou nada para partilhar. |Caminha.| O rapaz, sabendo de sua morte ao ser diagnosticado com a doença terminal, dirigiu-se a uma embaixada brasileira e doou, em vida, todos os seus bens para a sua esposa, a senhora Ádama Gurgel Contagallo.

MOISÉS - O quê?

Ádama sorri debochadamente, como quem se diverte com a situação. Moisés continua incrédulo.

ÁDAMA - É isso mesmo, Moisés. O Thiago me doou todos os seus bens em vida.

MOISÉS - Isso é mentira! O meu filho jamais faria uma loucura dessas.

ÁDAMA - Bom, não há mais o que ser discutido aqui. Obrigado a todos que vieram para a abertura do testamento do meu marido.

MOISÉS - Você deve estar achando que saiu vitoriosa dessa jogada, não é? Vigarista ordinária! Eu farei tudo o que for necessário para te ver na lama.

ÁDAMA - Seguranças!

MOISÉS - Não preciso que ninguém me tire daqui. O cheiro de mau-caratismo dentro dessa casa está me sufocando.

ÁDAMA - A mim também, Moisés. Por isso, retire-se.

O homem sai, cuspindo fogo. Ádama sobe as escadas.

Cena 02 - Mansão de Soraya [DIA]

Tilápia se levanta, enfurecida.

TILÁPIA - Foi tudo isso que aconteceu, sr. policial. E tem muito mais.

RINHA - Isso tudo é um disparate! Essa mulherzinha petulante invadiu a minha casa e começou a despejar esse monte de mentiras a meu respeito. Será que vocês não vão fazer nada, policiais? Não vão tirar essa mulher daqui?

POLICIAL - Você tem razão, dona Rinha.

TILÁPIA - O quê? Vocês não fazer nada depois de tudo o que eu falei sobre essa mulher? Pelo visto não existe mesmo justiça nesse país. Vocês são todos uns incompetentes!

POLICIAL - Venha conosco, senhora. Você já deu escândalo o suficiente. Se for pra denunciar formalmente, que vá à delegacia.

Os policiais agarram Tilápia e Daniel pelo braço.

TILÁPIA - Me soltem e soltem o meu filho! Não somos criminosos para sermos jogados pra fora desse jeito.

Os policiais soltam os dois, mas os escoltam.

TILÁPIA |Olhando para Rinha.| - Nossa conversa ainda não terminou! Você vai pagar por ter causado o acidente da minha filha.

Rinha a olha seriamente. Tilápia e Daniel se retiram com os policiais.

RINHA |Pensando.| - Eu preciso dar um jeito de tirar essa mulher do meu caminho! Quem pode estar por trás dessa carta, meu Deus?

PARIS, FRANÇA...

Cena 03 - Cemitério [TARDE]

Ádama se ajoelha perante o túmulo de Thiago. Ela coloca uma rosa e conversa com um dos trabalhadores do local.

ÁDAMA - Monsieur, veillez à ce que la tombe de mon mari, Thiago, soit particulièrement soignée et belle. Je quitte cette terre, mais le service financier de mon entreprise continuera de régler vos prestations à l'avenir. Je tiens à ce que sa sépulture soit toujours magnifique, entourée de fleurs très vivantes et colorées. |TRADUÇÃO:| "Senhor, deixe bem bonito o túmulo do meu marido, Thiago. Eu estou indo embora dessa terra, mas o setor financeiro da minha empresa continuará custeando os seus serviços daqui. Eu quero que o túmulo dele esteja sempre lindo, cheio de flores muito vivas e coloridas."

TRABALHADOR - C'est bon, madame ! J'ai déjà acheté un très beau bouquet de fleurs bien coloré. S'il vous plaît, excusez-moi, je dois m'occuper des autres sépultures. |TRADUÇÃO:| "Tudo certo, senhora! Já comprei um arranjo de flores muito lindo e cheio de cores. Por favor, me dê licença. Preciso cuidar dos outros jazigos."

O trabalhador se retira.

ÁDAMA |Chorando.| - Thiago, que falta você está me fazendo, meu amigo. Eu sinto que chegou o momento. Chegou o momento de retornar ao Brasil e fazer o que tem que ser feito. Voltar por cima. Ninguém nunca mais vai me humilhar!

Ela beija a lápide e despeja a rosa sobre o jazigo.

Cena 04 - Casa de Canja [DIA]

A senhora está dormindo. Uma fumaça preta toma conta da casa.

CANJA |Tossindo.| - Meu Deus! Eu esqueci o bolo no forno!

Canja se dirige ao fogão. A senhora desliga o forno.

CANJA - Ai, meu Deus! O que está acontecendo?

Um instrumental de tensão toca. A imagem é mostrada do ponto de vista de Canja, em primeira pessoa. A visão é muito turva, intensificada pela fumaça. Canja tosse. Alguém bate na porta.

CANJA |Tossindo.| - Po... po... de entrar...

Tilápia abre a porta.

TILÁPIA - Meu Deus, tia! Daniel, pegue imediatamente a mangueira.

O rapaz atende ao pedido da mãe

TILÁPIA - Dona Canja, se sente melhor?

CANJA - Me sinto. Você precisa falar comigo?

TILÁPIA - É um assunto delicado, talvez a senhora precisasse se recompor um pouco mais.

CANJA - Não, pode confiar... eu estou bem!

TILÁPIA - Olha, eu não sei nem como te contar tudo isso. Eu quero começar te pedindo desculpas por não ter te contado tudo isso. É que eu descobri que foi a dona Rinha quem arquitetou o acidente que deixou a minha filhinha naquele estado. |Chora.| Eu sou mãe, você sabe que a gente não se controla quando tocam nos nossos filhos, não sabe? Agora também já surtei, falei poucas e boas pra aquela mulher, já estou ameaçada, não há mais pra que esconder tudo isso.

CANJA - Nossa, eu sabia que a Rinha era baixa, mas não a ponto de assassinar! Sim, porque isso aí foi uma clara tentativa de assassinato contra a Viviane.

TILÁPIA - Sim e não para por aí. Tem uma história que envolve você, Canja.

CANJA - O que é? Eu não tenho mais nenhuma ligação com aquela família desde que fui demitida, há dois anos atrás.

TILÁPIA - Se lembra da gravidez? Você acreditou, durante muito tempo, que estivesse grávida de gêmeos, não lembra?

CANJA - Sim, mas isso é comum. A barriga ficar muito grande mesmo não sendo gêmeos.

TILÁPIA - Não no seu caso. Você realmente estava grávida de gêmeos.

CANJA - Como isso pode ser possível, Tilápia? Eu me lembro mais que você. Você era uma criança.

TILÁPIA - Minha mãe, dona Pantera, aproveitou-se que a sua pessoa desmaiou após o parto e pegou uma das crianças. Na verdade, você teve um casal. Um menininho e uma menininha.

CANJA - Que história é essa? Isso é impossível! A minha irmã jamais faria uma coisa dessas.

TILÁPIA - É aí que entra a dona Rinha na história. Ela fez todo aquele auê no seu casamento com o tal do Amado, mas ela não estava grávida coisa nenhuma! Ela deu o golpe mais antigo do mundo nele, o golpe da barriga. Eu não sei, mas acredito que de alguma maneira ela ia tentar engravidar pra fazer essa história virar real. Essa mulher é capaz de tudo! Cada dia percebo mais isso.

CANJA - Então onde está esse meu filho? ONDE? |Chora.|

TILÁPIA - Morto. Mas lhe deixou dois netos: a Soraya e o Lucas.

CANJA |Assustada.| - O quê? Então quer dizer que o Raul...?

TILÁPIA - É exatamente isso, tia. Foi tudo uma plano. A minha mãe vendeu o Raul pra Rinha criar. Eu era pequena, mas me lembro bem de tudo.

Close de impacto no rosto de Canja.

CANJA - Ai, me ajuda! Me ajuda, Tilápia. |Sente-se mal.|

Canja esmurece.

TILÁPIA - O que foi, minha tia? Daniel, a tia está passando mal. Chame o vizinho, ele é médico. |Volta a atenção para Canja.| Calma, tia. Por favor.

CANJA - Eu não consigo acreditar. Eu não consigo...

PARIS, FRANÇA...

Cena 04 - Aeroporto [DIA]

Ádama anda pelo lugar. A voz anuncia um voo para o Brasil. Ádama se dirige ao local de embarque.

ÁDAMA |Pensamento| - É um belo dia para se fazer um ensopado de galinha.

Uma moça ao lado a observa intrigada. Ádama adentra em uma aeronave, que decola. A câmera se afasta.

Cena 05 - Presídio [DIA]

Uma trilha de tensão paira no ar. Tiros são ouvidos por todos os lados. Os presos são libertos da cela. Esfaqueamentos são visíveis. Lucas está no olho do furacão.

LUCAS - Que parada é essa?

PRESIDIÁRIO 1 - Rebelião entre as facções! Mete o pé, neguin!

O sujeito desparece. Lucas foge para a zona de banho solar com outros detentos. Um grupo pula o muro, Lucas acompanha. Lucas está do lado de fora. Ele corre. Um bala passa de raspão à sua lateral. Em seguida, um detrito o atinge na orelha causando sangramento.

LUCAS - Ahh! Eu não vou conseguir.

PRESIDIÁRIO 2 - Não seja por isso...

O meliante empurra Lucas para liberar a passagem. Vários carcereiros correm atrás dos presos, muitos conseguem fugir. Lucas se arrasta até a esquina externa da cadeia e encontra uma bicicleta, na qual ele se dispõe a pedalar, fugindo do regime.

Cena 06 - Casa de Canja [DIA]

O médico chega. Tilápia está apreensiva. Canja, aparentemente desesperada.

CANJA - Me ajuda, doutor! Me ajuda! Eu não consigo enxergar nada! Estou... estou cega!

Todos se chocam.

TILÁPIA - Cega?!

CANJA - Cega.

DANIEL - Cega?!

CANJA - Cega.

MÉDICO - Cega?!

CANJA - Cega. Mas, o que eu estou sentindo internamente é muito maior e poderoso do que qualquer coisa enxergável. |Se levanta.| Assim como o diabo, que muitas vezes não o exergamos, eu sinto que tenho um demônio presente ao meu redor que necessita ser exorcizado.

TILÁPIA - O que vai fazer, tia Canja?

Instintivamente, Canja pega as chaves de cima do móvel onde ela sabia que estava. Ela passa num desatino pela porta, trancando-a por fora. Tilápia e Daniel tentam arrombar o obstáculo.

TILÁPIA - Canja! Você enlouqueceu?! Por onde vai aí sem ver a um palmo de distância e com todo esse baque atingido? A sua glicose pode ter subido, seus exames de sangue apontavam uma piora, pode ser diabetes...

DANIEL - Minha tia, não se vá! É perigoso!

MÉDICO - Eu sou médico, leve-me junto! Essa casa fede.

Daniel e Tilápia o encaram enfurecidamente. Do lado de fora, Canja pisca as pálpebras. A câmera em primeira pessoa mostra a sua visão debilitada, praticamente inexistente. Um táxi passa justamente naquele momento.

CANJA - Por favor, aqui!

A senhora adentra com esforço.

MOTORISTA - Tudo bem, Dona?

CANJA - Toca pro galinheiro dos Raposo Leitão! Agora!

Cena 07 - Mansão de Soraya [DIA]

Rinha bebe um dry martini enquanto escuta uma vitrola tocando o disco com a música "É Bom para o Moral - Rita Cadillac". A campainha toca ao mesmo tempo que Soraya surge descendo as escadas.

SORAYA - Sabe, vovó? Eu já decidi sobre tudo o que vou fazer. Meu próximo passo é um xeque-mate.

RINHA |Irritada pela interrupção| - O que foi, netinha?

SORAYA - Vou vender esta mansão, já estou em contato com a compradora. O processo é 99% de lucro. Não vou perder essa. Enjoei desse lugar.

RINHA - Ai, sua boba! Vai vender esse palecete? Quantos iguais a esse tem nesta espelunca chamada São Paulo? Se preserve, respeite a história da nossa família...

A empregada Tainá vai atender a campainha insistente.

SORAYA - Já está decidido, vovó. Vai ser bom ver o Romeu vendo a minha volta por cima. Eu não dependo da parte dele nas ações da Me Red. Eu posso, eu quero, eu faturo.

RINHA - Pois já que é assim, venda e compre outro galinheiro como qu... |É interrompida|

Neste exato momento, Canja invade pelo portão assim que Tainá abre a porta, derrubando-a.

CANJA |Gritando| - Cadê você, sua ordinária?! Onde está a rameira que provocou o inferno na minha vida?!

TAINÁ |Gemendo| - Alguém segura, não consegui impedir.

SORAYA - Mas que ousadia é esta?

Rinha nada esboça, se tornando passiva na cena. Mesmo com baixa visibilidade, Canja reconhece a feição de Rinha e parte para cima da mesma. Um instrumental de tensão toma conta da cena. Canja agarra a vó de Soraya pelo pescoço, como quem esfola um frango.

SORAYA - Vovó, reaja! Não deixe essa mulambenta te atacar dessa maneira! Tainá, faz algo de útil e liga pra polícia.

CANJA - Liga! É hoje que eu quero ser presa! Do dia de hoje não passa, eu posso morrer agora mesmo, mas não antes de acabar com essa ratazana de esgoto, barata de bueiro, bicho escroto da sociedade com minhas próprias mãos. Isso porque nem de cachorra você merece ser chamada, muito menos de galinha!

O rosto de Rinha começa a ficar roxo com o enforcamento.

SORAYA |Desesperada| - Socorro! Seguranças! A minha avó vai morrer na minha frente. |Corre| A ordem natural é galinha morrer e não matar.

CANJA |Com ódio| - Por que? Por que você fez tudo aquilo? Por que tirou de mim o meu menino Raúl, sua nojenta? Sua invejosa! Eu vou te mandar pra bem perto do capeta agora mesmo, que é o seu lugar!

Rinha empalidece, ainda sufocada pelas mãos grossas de Canja agarrando seu frágil pescoço.

A imagem congela em Rinha com um efeito amarelo brilhante.