Carijó - Capítulo 21

 Anteriormente em "Carijó":

Durante a festa da vila, Soraya e Romeu humilham Carijó publicamente ao pendurá-la no ar coberta de penas, mas Thiago intervém heroicamente, peita os vilões e leva a jovem desorientada para se recuperar em seu apartamento. Enquanto isso, na igreja, a tentativa de limpeza de Canja e Titica vira um caos divertido após uma intensa e debochada guerra de bolos iniciada pelas provocações da maquiavélica Rinha Leitão. Em casa, a família de Carijó se aflige com o seu sumiço durante a forte tempestade que atinge a cidade. Ao amanhecer, Thiago mostra o vídeo da humilhação que viralizou nas redes sociais, despertando na mocinha uma fúria avassaladora. Emocionada e jurando vingança, Carijó decreta o fim da sua ingenuidade e promete destruir Soraya e Romeu implacavelmente.

Fique agora com o capítulo de hoje.


Cena 01 - Fórum Criminal [DIA]

JUIZ - Façam entrar o réu. 

A porta lateral se abre. Lucas aparece com a barba e os cabelos grandes, visivelmente abatido e uma camisa social branca, meio amassada. O rapaz é conduzido pelos policiais de cabeça baixa, caminhando em silêncio sob o olhar de todos. O rapaz senta-se na mesa de defesa, ao lado de seu advogado. O juiz olha para os jurados. Lucas ergue a cabeça. A câmera foca em seu rosto.

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Tilápia está depondo.

TILÁPIA |Fingindo.| - Pra falar a verdade eu não sabia da ligação da minha filha com essa gente.

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Soraya depõe.

SORAYA - Eu vi quando o Lucas matou o papai. Ele é um monstro! |Chora.|

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Vanúbia, a enfermeira, está depondo.

VANÚBIA - Eu vi quando a Viviane saiu da sala de segurança naquele dia. Mantive segredo porque ela disse que estava tendo um caso com o Marcos, segurança do hospital. Ele é casado, né! Fiquei com medo de colocar mais lenha na fogueira me metendo onde não sou chamada. Se ela não estava com ele como me disse, poderia muito bem ter apagado as gravações daquele dia.

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Marcos, da equipe de segurança do hospital, depõe.

MARCOS - Eu estava no hospital naquele dia, sim. Mas não estava trabalhando. Eu estava com chikungunya, muito mal de febre. Não tinha como eu estar com a Viviane na sala das câmeras quando a Vanúbia passou. O meu atestado e o prontuário do hospital provam isso. Ela mentiu com o meu nome!

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O médico depõe.

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Uma enfermeira do hospital testemunha.

ENFERMEIRA - O Lucas realmente me perguntou onde ficava o banheiro, disso eu lembro! Agora se ele foi ou não foi para lá naquele momento, isso eu não sei...

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PROMOTOR - Lucas, como explica a existência de uma transferência bancária de sua conta para a de Viviane? E mais, o acidente conveniente que a deixou tetraplégica?

ADV. DE DEFESA - Protesto, excelência. O promotor está seguindo por um caminho pouco confiável, tendo em vista que a perícia confirmou que não houve sabotagem no acidente de carro de Viviane Almeida!

JUÍZ - Protesto aceito.

LUCAS - A Soraya usou uma tesoura que continha as minhas digitais. Essa transferência para a Viviane aconteceu minutos antes da morte do meu pai. A Soraya havia esquecido o celular em casa e pediu que eu emprestasse o meu para que ela pagasse uma dívida importante. Eu, ingênuo, caí feito bobo. Ela havia tramado tudo nos mínimos detalhes. 

PROMOTOR - Lucas, você tentou fugir do país após a morte de seu pai?

LUCAS - Sim, eu estava completamente desesperado. Havia visto, na delegacia, a tesoura com a qual a Soraya me incriminou. Fiquei fora de mim. 

PROMOTOR - Sem mais perguntas, excelência.

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JUIZ - Todos de pé para a leitura da sentença. |Todos se levantam.| Diante das respostas aos quesitos formulados, o Conselho de Setença reconhece a materialidade e autoria do crime. Portanto, o réu é considerado culpado. Passo à dosimetria da pena...

Lucas o observa atento. Soraya também. Aquele segundo parece infinito. O juiz retoma a fala.

JUIZ - Considerando as circunstâncias judiciais, as qualificadoras e os demais crimes pelos quais foi condenado, fixo a pena em vinte e cinco anos, quatro meses e treze dias de reclusão, em regime inicial fechado. Declaro encerrada a sessão. |O juiz estala o malhete sobre a mesa.|

Lucas desaba. Soraya solta um sorriso de canto. Os policiais algemam e direcionam Lucas à penitenciária. A imagem foca em Lucas saindo dali de cabeça baixa, totalmente destruído. Em pequenos cortes são mostradas cenas de Lucas que tira fotos segurando uma placa. O rapaz já está com o uniforme do presídio. Sua feição é abatida. Horas depois, ele é jogado em uma cela. Lucas chora silenciosamente.

Cena 02 - Me Red [DIA]

Soraya chega, de branco, tirando seus óculos. Um rapaz bem trajado, aparentemente advogado, se aproxima da vilã.

SORAYA - O que é isso? Está acontecendo alguma coisa? |Estranha.|

ADVOGADO - Sim, onde você estava? Esqueceu que hoje era o dia do leilão?

SORAYA - Não esqueci, estava bastante preocupada com isso, na verdade. E então? Como tudo procedeu?

ADVOGADO - Acho que você não vai gostar da notícia. Todas as ações foram compradas por uma empresa francesa. 

SORAYA - O que? 

ADVOGADO - Exatamente, Soraya. Se você estava pensando em se separar do Romeu, esqueça. Você precisa dos dez porcento dele!

SORAYA - INFERNO! DESGRAÇADOS! Eu sinto cheiro de urucubaca de longe, estão tramando algo contra mim.

ADVOGADO - Que mal pode lhe causar uma empresa francesa? Capaz de eles nem participarem tanto. Geralmente essas empresas têm muitos investimentos. 

SORAYA - Não importa. Isso não deveria ter acontecido. Quero uma pasta que detalhe tudo o que sabemos sobre essa gente. 

ADVOGADO - Já providenciei.

SORAYA - Ótimo, ótimo! Traga.

Cena 03 - Casa de Canja [DIA]

A senhora bate a massa de um bolo de chocolate. Ela o colocou no forno e se deita em seu sofá, ligando a TV. Canja sente dores fortes na cabeça, na região ocular.

CANJA |Com dor.| - Ai.

A imagem escurece.

🎶 _"Together - The xx"_ 🎶

Cena 04 - Hotel de Luxo [DIA]

A câmera sobrevoa por Paris, aproximando-se da Torre Eiffel e se aproximando da cobertura de um hotel. A música se intensifica. É possível ver a silhueta de um corpo feminino sobre o box do banheiro. A mulher toca em brincos e joias muito lindas. Sua voz é ouvida rapidamente.

— Que bom que deu tudo certo! Brevemente retornarei.

Sem que seu rosto se mostre, a câmera se afasta. Ela veste um vestido preto. Um vestido de luto. A câmera se aproxima de uma cabeceira, que contém fotos de Carijó. A mulher se aproxima sem que seu rosto seja visível e abaixa o quadro, virando a imagem para baixo.

Cena 05 - Ruas de São Paulo [DIA]

A câmera sobrevoa a cidade. Aproximando-se da casa de Tilápia. Um menino maltrapilho toca a campainha. Daniel atende. O menino entrega uma carta para Daniel e sai correndo. 

Cena 06 - Casa de Tilápia [INT/DIA]

Tilápia estende roupas no varal. Daniel se aproxima da mãe.

DANIEL - Um garotinho de rua deixou isso aqui. 

TILÁPIA - Ué! Quem pode ter sido?

Tilápia abre um envelope rapidamente. Os olhos de Tilápia carregam-se de lágrimas e horror.

TILÁPIA |Nervosa.| - Tome, Daniel! Leia isso...

DANIEL - Meu Deus. Mas isso é impossível... que ligação a Viviane tinha com essa família, mãe? Eu já te perguntei isso antes, mas você fugiu do assunto.

TILÁPIA - Eu não posso te contar, meu filho! Eu quero te poupar de se meter com essa gente. Mas eu não vou deixar isso passar batido! Eu vou tomar um banho. Chame um carro de aplicativo pra mim, por favor!

Tilápia se retira. Daniel mantém-se pensativo.

Cena 07 - Mansão de Soraya [DIA]

Rinha está com um microfone nas mãos. Ela canta e dança a música "Princesa - Amado Batista". Soraya chega, desligando o som.

SORAYA - Que isso, vovó? Que tipo de música é essa? Só faltou a chacinha e a mesa de sinuca!

RINHA - Ai, Sô! Essa é a música que o seu vôzito fez para mim. Vai ser essa que eu vou cantar na festa do seu novo lançamento.

SORAYA - Nem a pau.

RINHA - Vai, netinha! É o meu debut. Voltarei a brilhar nos palcos muito em breve.

SORAYA - Ai, vózinha! Vamos para a caminha, né?

Soraya se retira.

RINHA - Pode debochar, boba! Eu vou voltar ao estrelato em grande estilo, ofuscando essa linha de maquiagens boba sua!

A campainha toca. 

RINHA - Empregadaa!

Toca novamente.

RINHA - Que droga! Será que não tem nenhum criado pra atender a porta? |Direciona-se a porta.|

Rinha se depara com Tilápia.

TILÁPIA |Fria.| - Oi... |Entra sem pedir licença.|

RINHA - Mas o que é isso? Saiu de que conto infantil? Esse pano na cabeça é burca ou véuzinho da congregação cristã?

TILÁPIA - A senhora sempre bem direta.

RINHA - E você muito indireta. Chega entrando na casa dos outros sem pedir licença, sem se apresentar. Eu nunca te vi na minha vida, minha filha!

TILÁPIA - Tem certeza que não? Eu era muito pequena, mas me lembro bem. Fazem 53 anos. 

RINHA - 53 anos do quê, maluca?

TILÁPIA - 53 anos que você comprou a minha falecida mãe, Pantera Falcão e exigiu que ela lhe entregasse o Raul, ainda bebê.

RINHA - Que história é essa? |Se faz.|

TILÁPIA - Que história é essa? Não vem pagar de sonsa pra cima de mim não que uma história dessas hoje em dia se prova com exame de DNA. 

RINHA - Deixa de ser maluca...

TILÁPIA - Você mexeu com a pessoa errada. Acha que eu não sei que foi você quem tramou o acidente da minha filha? A Viviane? Eu recebi essa carta. 

RINHA - E você acreditou nisso? 

TILÁPIA - Para com esse joguinho! Tire a sua máscara. Aqui só tem você e eu e eu não acredito nesse teu personagem!

RINHA - Você está histérica. 

TILÁPIA - O que você vai fazer? Vai tentar me matar também é? Acontece que agora não vai funcionar.

Soraya desce as escadas rapidamente.

SORAYA |Irritada.| - Que gritaria é essa?

TILÁPIA - Ah, chegou...

SORAYA - Quem é você?

TILÁPIA - Eu também sei bastante sobre você.

SORAYA - Essa é a louca que depôs no julgamento do Lucas ou eu estou maluca? Como vai a Viviane? Falando muito?

TILÁPIA - Você sabe que ela não está falando porque vocês calaram ela. Estranho vocês serem tão parecidas. |Engole a saliva.| Não pode ser pela genética. |Engasga. Deboche.| Afinal, vocês não têm o mesmo sangue correndo nas veias. |Sorri.|

SORAYA |Gargalhando.| - Vovó, onde é que você achou essa louca?

TILÁPIA - Conta pra ela, dona Rinha. Conta que você comprou o Raul, ainda recém-nascido dos braços da minha mãe. Conta! Você, Soraya, não é neta da dona Rinha coisa nenhuma! Você é neta da dona Canja, aquela que foi sua empregada, a MINHA TIA!

SORAYA |Confusa.| - Isso é verdade, vovó?

Rinha fica calada.

SORAYA - ISSO É VERDADE, VOVÓ? |Impõe-se.|

Rinha nada diz.

SORAYA - Eu não acredito...

TILÁPIA - Não acredita? Não acredita por quê? Porque você nunca imaginou que corresse em suas veias o sangue de alguém que você considera inferior a vocês! Vocês são todos uns abutres. Chora! Chora mesmo! A Canja, uma dessas suas empregadas que você tanto deve humilhar, é a sua avó, Soraya! NETA DA FAXINEIRA! DA FAXINEIRA!

SORAYA - CALA A BOCA, SAI DA MINHA CASA!

TILÁPIA - Durante muito tempo eu fiquei calada! Eu vou destruir o que vocês chamam de vida. Vou contar pra polícia que foi você, Soraya, quem pagou para a minha filha apagar os registros da segurança do hospital. Que você, Rinha, sequestrou um bebê e que você, Soraya, forjou o sequestro do seu próprio pai há dois anos atrás

Rinha quebra um vaso de metal na cabeça de Tilápia, que desmaia. 

RINHA |Séria.| - Me ajuda!

SORAYA - Ajudar? Por que, meu Deus? Por quê?

RINHA - Você deveria me agradecer. Já imaginou nascer uma vez na vida e nascer neta daquela criatura aporrinhante e ridícula que é a Canja?

SORAYA - Eu não precisava saber disso! Eu tenho nojo de saber disso! |Sai batendo o pé.|

RINHA - Se eu não tivesse feito isso, você nem tinha nascido! |Após Soraya se retirar, Rinha continua pensativa.| Quem pode ter enviado essa carta pra essa mulher? |Olha para Tilápia desacordada.|

Daniel abre a porta acompanhado de policiais. Ele olha para a mãe caída e se desespera.

DANIEL - O que foi que você tentou fazer com a minha mãe?

RINHA - O que é isso? O que faz essa guarda policial na minha casa.

DANIEL - Pegar você, sua vigarista! A minha mãe ia falar tudo, deve ser por isso que você fez isso com ela.

Daniel se aproxima da mãe. Tilápia acorda, confusa.

TILÁPIA - Daniel...

DANIEL - Eu trouxe os policiais como você me pediu, mãe.

TILÁPIA - Essa mulher |Aponta para Rinha.| roubou o Sr. Raul quando ele era bebê! Eu vi tudo! 

Close de impacto no rosto de Rinha.

🎶 _"maggots for brains - Olivia Rodrigo"_ 🎶

*2026. PARIS, FRANÇA.*

Cena 08 - Casarão [DIA]

Homens esperam ansiosamente. Moisés, pai de Thiago, está impaciente.

MOISÉS - Já era pra aquela indigente ter descido.

Um advogado intervém a favor da moça a quem Moisés se refere.

ADVOGADO - Fique calmo, Moisés! Ela já deve estar vindo. É um atraso pontual.

Uma moça desce as escadas. É Carijó, que agora é chamada de Ádama. Ela está deslumbrante, muito bem vestida e com um novo visual.

CARIJÓ/ÁDAMA - Mil perdões pelo atraso. Tive imprevistos. Podemos começar agora?

MOISÉS - Já não era sem tempo, mocinha! Nunca lhe falaram que é desrespeitoso fazer seus convidados esperarem por tanto tempo?

CARIJÓ/ÁDAMA - Sei que não se trata de nenhuma visita de cortesia. Todos que estão aqui têm muito interesse nos bens do meu finado marido.

ADVOGADO - Por favor, mantenham a compostura. Estamos aqui para cumprir a última manifestação de vontade do falecido sr. Thiago Contagallo.

MOISÉS - Inicie, doutor!

ADVOGADO |Lendo.| - Eu, abaixo assinado, em pleno uso de minhas faculdades mentais, declaro que este é o meu testamento...

MOISÉS |Interrompendo.| - Perdão, doutor! Poupe-nos das peripécias jurídicas. Vá ao que realmente importa. 

ADVOGADO |Sério.| - Não há o que ler neste papel, sr. Moisés. 

MOISÉS |Intrigado.| - Como não?

ADVOGADO - O sr. Thiago não deixou nada para partilhar. |Caminha.| O rapaz, sabendo de sua morte ao ser diagnosticado com a doença terminal, dirigiu-se a uma embaixada brasileira e doou, em vida, todos os seus bens para a sua esposa, a senhora Ádama Gurgel Contagallo.

MOISÉS - O quê? 

Ádama sorri debochadamente, como quem se diverte com a situação. Moisés continua incrédulo.

A imagem congela em Ádama/Carijó, com um efeito amarelo brilhante.