Cena 01 - Carro [DIA]
Viviane dirige o carro. Seus olhos estão mais fundos. A ambiência rodoviária compõe a trilha sonora da cena. Viviane tem leves cochilos. Tentando manter-se acordada, a moça endireita sua postura. Ela passa por uma subida de viaduto. A câmera retorna para ela, que está desmaia sobre o volante. Um instrumental tenso permeia a cena. A velocidade do carro aumenta, intensificada pela força da gravidade. O automóvel colide gravemente contra o guardrail, despencando do viaduto. Viviane é arremessada do carro, que explode. Transeuntes aproximam-se do carro. Viviane está caída, aparentemente inerte, nas gramas que cercam o viaduto.
Cena 03 - Casa de Tilápia [DIA]
Tilápia tricota um vestido. Daniel adentra, batendo a porta da sala.
TILÁPIA |Tricotando.| - Daniel, vá lavar as mãos para comer.
DANIEL - Está certo, mãe.
O telefone toca.
DANIEL - Deixa que eu atendo. |Ao telefone.| Alô...? Eu sou o irmão dela... |Gela.| Para onde ela está sendo levada?
TILÁPIA - O que foi que aconteceu, Daniel?
DANIEL - Tudo bem, obrigado por avisar. |Encerra a chamada.|
TILÁPIA |Preocupada.| - Diga, Daniel. Foi alguma coisa que aconteceu com a sua irmã?
DANIEL - Aconteceu, mãe. |Senta-se no sofá e dá dois tapas no estofado do móvel.| Sente-se. Eu preciso que você fique calma.
TILÁPIA - Daniel, você está me deixando mais nervosa. Diga de uma vez!
DANIEL - Eles encontraram um carro capotado e, no celular, o contato daqui de casa. Parece que a Viviane sofreu um acidente, mãe. O carro dela despencou do viaduto.
Close de impacto no rosto de Tilápia, que desaba.
TILÁPIA - Precisamos ir até o hospital o mais rápido possível, Daniel. |Desespera-se.|
DANIEL - Vamos, vamos. Eu tenho o endereço anotado.
Tilápia pega uma bolsa com documentos. Os dois se retiram imediatamente.
Cena 04 - Casa de Soraya [DIA]
Soraya está sentada ao sofá, vestida de preto e dando uma entrevista.
SORAYA - O papai era de uma força inigualável. Foi vendo a forma como ele levava a vida que eu me tornei o que sou hoje. |Funga.| Essa mulher dona de si, forte, linda, autêntica, guerreira, poderosa, grandiosa, magnífica, imensurável, mesopotâmica, faraônica, preciosa, majestosa, imparável, indomada, querida, atenciosa, amorosa, uma boa moça. Enfim, tudo de bom. Eu vou sentir muitas saudades, papai. Obrigado por tudo! |Olha diretamente para a câmera.| Eu estou fazendo da dor, um recomeço. |Se levanta, secando as lágrimas com um lenço.| Foi por isso que eu lancei o *Luto Diário*, meu novo kit de maquiagem e body splash perfeitos para usar naquele velório que você precisa ir. |Muda para tom informativo.| Ele te deixa perfumado por 100 horas, então se o velório durar três dias, você fica perfumado do início ao fim.
REPÓRTER - Que legal, Soraya. Eu estou usando aquele body splash de ameixa, muito bom. Costumo dizer que o body splash da Me Red é tem um pouco de arte. O que você pensa em produzir nesse momento de luto?
SORAYA - Muito obrigada pelo carinho, gente! É muito gratificante saber que os meus produtos têm alcançado o público masculino. Sobre o body splash, estamos produzindo uma nova linha. A gente sabe que o mercado não contempla as pessoas que já morreram, que há uma escassez de produtos para esse público, mas a Me Red pensa. A linha que está em produção é própria para embalsamar e cuidar da aparência do seu defunto no velório. As maquiagens dão efeito antirrugas na pele daquela sua vózinha que faleceu aos 96, |Olha para a câmera.| e o body splash é capaz de aniquilar bactérias decompositoras, entardecendo o processo de decomposição.
REPÓRTER - Que mara, gente! Então você aí que está para morrer. Garanta já seu body splash antidecompositor e sua make antirrugas para a sua vózinha. Se for pra morrer feia, é melhor nem morrer, não é, Soraya?
SORAYA - É sim. Antes de comprar o caixão, compre seu Me Red.
REPÓRTER - Obrigado pela entrevista, Sô! Boa sorte no seu novo lançamento.
SORAYA - Obrigada, queridinho. Dá licença. Irei ao enterro de papai.
REPÓRTER - Meus pêsames, miga!
SORAYA - Obrigada. Hahahah!
A câmera se afasta.
Cena 05 - Zoológico [DIA]
Carijó e Romeu se beijam em um viveiro. Uma moça acompanha a visita do casal e de várias outras pessoas que estão de passagem.
CARIJÓ - É uma sucuri. Lá no Mato Grosso tem umas grandes, hein? Já vi em Marcelândia. |Sorri.|
De repente, um acidente acontece. Um homem que passava pelo local é picado por uma das cobras.
HOMEM |Amedrontado.| - SOCORRO!
CARIJÓ |Assustada.| - Meu Deus, moço! Ocê foi picado por uma jararaca!
Romeu reconhece o rapaz que foi picado.
ROMEU - Thiago
THIAGO - Romeu?
CARIJÓ |Intrigada.| - Ocês se conhecem?
ROMEU - Calma, Thiago... sente-se.
THIAGO - Que calma o quê? Será que eu vou morrer?
ROMEU - Dizem que nesses casos a gente tem que chupar a ferida pra estancar o sangue e impedir que o veneno se espalhe pelas vias sanguíneas.
CARIJÓ - Num faz isso, não. Lá em Marcelândia um moço fez isso e morreu. Nessas horas ocê tem que ficar parado, deitar e deixar o lugar da picada sem se mexer pro veneno não se espalhar.
Carijó deita Thiago em um banco.
CARIJÓ - Romeu, o moço precisa de ajuda...
A moça que acompanhava os visitantes se aproxima.
MOÇA - Eu chamei o socorro, eles já estão a caminho.
THIAGO - Moça, eu vou ficar bem?
MOÇA - Vai. Fique imóvel.
Romeu respira fundo, desapontado. A câmera afasta-se.
Cena 06 - Delegacia [DIA]
Um policial abre a cela. O tilintar das chaves compõe a trilha sonora da cena.
POLICIAL - Ei, bonitinho! Venha comigo.
LUCAS |Desorientado.| - Para onde?
POLICIAL - Para a audiência de custódia.
LUCAS |Defensivo.| - Eu não saio daqui sem o meu advogado!
POLICIAL - A sua irmã não quis lhe pagar um advogado... achou que fosse justo que você fosse convidado. Nós, da delegacia, tivemos que recorrer à defensoria pública.
Passos são ouvidos. Um rapaz se aproxima.
RAPAZ - Prazer, Lucas. |Olha nos olhos do rapaz e estende a mão direita.| Eu me chamo Felipe, sou o seu advogado.
A câmera foca no rosto de Lucas.
Cena 07 - Hospital [DIA]
Uma recepcionista atende Tilápia e Daniel.
TILÁPIA - E pensar que era para a minha filha estar aqui atendendo.
Uma outra recepcionista se aproxima.
RECEPCIONISTA 2 - O que está acontecendo, gente?
RECEPCIONISTA 1 - Essa aqui é a mãe da Viviane. Parece que ela sofreu um acidente de carro e foi trazida para cá.
RECEPCIONISTA 2 - Ai, meu Deus! Que horror!
TILÁPIA - Vocês têm notícias dela?
RECEPCIONISTA 1 - Eu chequei aqui no sistema e já sei para onde a levaram. Venham comigo.
Elas andam pelos corredores hospitalares ao som de um tenso instrumental. A câmera, trêmula, as acompanha. *Em outro ponto do hospital*, Viviane está deitada, desacordada. Tilápia e Daniel a observam através de um vidro. Um médico se aproxima.
TILÁPIA |Preocupada.| - Como é que ela tá, doutor?
DANIEL - É, doutor! Vamos voltar a ver a minha irmã vivendo normalmente algum dia?
O doutor está sério. Um instrumental de tensão permeia a cena.
A imagem congela em Tilápia, com um efeito amarelo brilhante.