Carijó - Capítulo 14

 Anteriormente em "Carijó":

Na delegacia, Soraya e Lucas trocam acusações graves sobre a morte de Raul: enquanto a vilã chora dissimuladamente ao acusar o irmão por ambição, ele a expõe revelando o falso sequestro armado para alavancar a própria marca de cosméticos, mas acaba sendo enquadrado quando a polícia acha uma tesoura que o incrimina. Paralelamente, Viviane esconde um pen-drive misterioso, Romeu e Carijó marcam a data do casamento sob as desconfianças de Canja, e Tilápia pressente uma tragédia familiar ao saber da morte do ex-patrão de Canja. Mais tarde, na mansão, Lucas confronta a irmã após descobrir que ela subornou o advogado para não ser deserdada; tomado pela raiva ao ser humilhado, ele agride Soraya violentamente antes de ser expulso por Rinha. Por fim, aproveitando o ataque para jogar seu cartada final, Soraya liga imediatamente para o delegado para denunciar o próprio irmão e selar a ruína do rapaz.

Fique agora com o capítulo de hoje.


Cena 01 - Mansão de Soraya [DIA]

SORAYA - Alô! Quem fala é Soraya Raposo Leitão. Eu preciso fazer uma denúncia contra o meu irmão, Lucas Raposo Leitão. |Faz silêncio, ouvindo o policial.| Ele invadiu a minha casa completamente transtornado e me desferiu tapas e murros. Ele está louco desde que fez o que fez com o meu pai. Eu disse pra vocês. Eu acho que ele pode fugir... |Pausa.| Ótimo. Eu me sinto mais protegida se a polícia vier.

RINHA |Preocupada.| - O que foi que aconteceu com o seu pai, Soraya?

SORAYA |Calma.| - Vó, eu preciso que você se sente.

RINHA - Diga de uma vez, Soraya! Sem rodeios!

SORAYA - Vovó, o papai faleceu hoje pela manhã.

Efeito de impacto no rosto de Rinha.

RINHA - O quê? |Chocada.| Como foi isso? 

Rinha cede.

SORAYA |Serena.| - O Lucas, vovó. Ele tramou tudo. 

RINHA - Não pode ser! Aquele paspalho não pode ter morrido.

SORAYA - Mas morreu, vó. Eu vou sentir tanta saudade do meu paizinho...

RINHA - Não fique assim, minha neta! Pense que ele não está mais vivo pra ver a ascensão dessa ditadura que está predominando no Brasil, dessa deturpação de valores... é homem com homem, mulher com mulher, mulher que quer ser homem, homem que quer ser mulher, um prostíbulo de ideologias baratas que vão contra os desígnios de Deus!

SORAYA - Você tem razão, vovó. O mundo tava ficando pesado demais pro meu pai. Ah, mas o Lucas vai pagar! Oh, se vai.

Alguém toca a campainha do casarão. A empregada atende. É o delegado Pestana.

PESTANA - Eu vim o mais rápido que pode. O que aconteceu com você, Soraya?

Soraya está com marcas pelo corpo e o vestido rasgado.

SORAYA - Foi o Lucas, seu Delegado. Ele está louco, invadiu a minha casa e me deixou assim, toda marcada. Eu quero denunciá-lo por agressão.

PESTANA - Que horror! Então ele é, de fato, o assassino.

SORAYA - É claro que é. Sempre foi. Ele está fora de si. Acredito que possa tentar fugir do país.

PESTANA - Ele não vai conseguir... já contatei os aeroportos paulistas. Congonhas, guarulhos...

SORAYA - Ótimo. Ele não pode sair ileso dessa história.

Cena 03 - Aeroporto de Guarulhos [DIA]

Após comprar uma passagem em uma das cabines, Lucas caminha arrastando uma mala e portando documentos nas mãos. Ele está apreensivo, olhando para trás para averiguar se não está sendo perseguido. Os avisos de embarque do aeroporto permeiam a cena:

— Passageiros do voo 922, com destino a Nova York, dirijam-se ao portão de embarque número 12.

Lucas se apressa ao ouvir o chamado. No portão de embarque, uma fila é iniciada. Lucas é o próximo a passar. O rapaz entrega seu passaporte. Um guarda percebe irregularidades.

GUARDA - Venha comigo, por favor!

Lucas gela, assustado. O rapaz acompanha o guarda.

Cena 04 - Mansão de Soraya [DIA]

O delegado recebe uma ligação telefônica.

DELEGADO - Aconteceu algo na delegacia. Eu preciso ir. Venha comigo, Soraya. Vamos registrar a ocorrência.

RINHA - Vai, minha neta!

Soraya acompanha o delegado. Eles se retiram. Rinha pega, em uma estante, uma foto do filho.

RINHA - Ah, Raul! |Melancólica.|

Cena 05 - Delegacia [DIA]

O delegado abre a porta de sua sala. Um policial já se faz presente.

POLICIAL - Delegado, que bom que chegou! Olha quem foi encontrado tentando fugir no aeroporto de Guarulhos.

DELEGADO |Acusador.| - Então é você o assassino, não é?

LUCAS |Chorando de nervoso.| - Não! Não, seu delegado! O senhor precisa acreditar em mim... foi a Soraya quem tramou tudo isso pra me colocar nessa situação. Eu sou INOCENTE!

DELEGADO - Isso é o que todo mundo diz. Levem-o para a cela. 

LUCAS - Eu exijo ao menos um advogado. Todo mundo tem direito de defesa. 

DELEGADO - Você terá o seu advogado.

Lucas sai, algemado. Soraya adentra a sala. Os irmãos se encaram friamente. Lucas contém seu ódio, Soraya está fria. O policial retira Lucas dali. Soraya senta-se, conversando com o delegado.

Cena 06 - Mansão de Soraya [DIA]

Rinha está sentada na sala, ainda olhando as fotos de Raul.

RINHA - Você sempre foi um idiota, igual a sua mãe. É estranho me sentir assim... melancólica com tudo isso. Pelo menos você me deu o meu bem mais precioso. A Soraya, minha netinha.

Ela abraça a foto de Raul. Alguém toca a campainha. Uma empregada atende.

VIVIANE - Olá, a Soraya está?

EMPREGADA - Não, ela saiu. 

RINHA - Quem é?

VIVIANE - Prazer, Viviane. Uma amiga íntima da Soraya. |Estende a mão para cumprimentá-la.|

Rinha arregala os olhos, percebendo quem é a moça. 

RINHA - A Soraya me falou bastante de você... entre. 

VIVIANE - Falou, é? Espero que bem.

RINHA - Não poderia ser diferente. Você veio de carro, moça?

VIVIANE - Sim, por quê? 

RINHA - Eles cobram uma taxa de estacionamento absurda, ia sugerir que colocasse seu carro aqui na garagem.

VIVIANE - Pode ficar tranquila que eu pago.

RINHA - Ótimo. A Soraya acabou de sair e acredito que não volte tão cedo.

VIVIANE - Que pena!

RINHA - Mas se quiser tomar um whiskyzinho comigo...

VIVIANE - Se não for muito incômodo, aceito. Mas pouco, estou dirigindo. |Sorri.|

Cena 07 - Prisão [DIA]

Lucas é jogado em uma cela por um policial. Os outros homens o encaram.

LUCAS |Aos berros.| - ME TIREM DAQUI! VOCÊS ESTÃO COMETENDO UMA INJUSTIÇA! EU SOU INOCENTE! 

HOMEM 1 - Ih, gente! Morador novo...

Lucas os olha com certo desprezo para os rapazes.

HOMEM 2 - Todo mundo diz que é inocente, rapaz.

LUCAS - Mas eu sou de verdade. Foi tudo uma armação da minha irmã pra pegar a herança do nosso pai.

HOMEM 1 - Você é filho de bacana? Coitado, gente. Caiu no pior lugar pra aprender como a vida funciona.

Os olhos de Lucas se encharcam. 

LUCAS - A minha vida acabou!

Cena 08 - Mansão de Soraya [DIA]

Viviane e Rinha terminam a bebida.

VIVIANE - Escuta, você que é a mãe do Raul?

RINHA - Sou, sim.

VIVIANE - Meus pêsames. Agora não sei se os desejo pra você ou pra dona Canja, não é?

RINHA |Arregalando os olhos e engolindo seco.| - O que você quer dizer com isso?

VIVIANE - Não sei...

RINHA |Disfarçando.| - Você é muito simpática, garota!

VIVIANE - Você que é, fofa. Avisa pra Soraya me procurar. Eu tenho em mãos um pen-drive. Ela vai ter que cumprir o que combinou comigo.

RINHA - Certo. Até mais, querida.

Viviane se retira. Rinha retira um frasco de seu sutiã. É um sonífero. A câmera se afasta lentamente ao som de um instrumental de tensão.

RINHA - Desgraçada! Como ela sabe da história do Raul? 

Cena 09 - Zoológico [DIA]

Romeu e Carijó descem do carro.

ROMEU - Eu tava louco pra te trazer aqui. 

CARIJÓ - Um zoo-zoo-zoo?

ROMEU - Zoológico, Carijó. Meu pai me trouxe aqui quando eu era criança e eu disse pra ele que queria ser veterinário. 

CARIJÓ - E por que ocê num virou? Desistiu?

ROMEU - Eu preferi tocar a gravadora da minha família, era algo mais cômodo pra mim. Depois que meu pais faleceram, eu só quis estabilidade e conforto.

CARIJÓ - Ocê nunca falou do seus pais, como que era a relação docês, meu amor?

ROMEU - Eu não gosto muito de falar disso, Carijó. Eles morreram num acidente de carro quando eu tinha dezoito anos.

CARIJÓ - Que triste. Ocê deve saber de cobras, não é?

Romeu sorri maliciosamente.

ROMEU |Sorrindo.| - Depende de qual tipo de cobra você está falando...

CARIJÓ |Confusa.| - Ué?

Os dois continuam conversando e andando. A câmera se afasta gradativamente. Um instrumental de tensão permeia a cena, transicionando para a próxima cena.

Cena 10 - Carro [DIA]

Viviane dirige o carro. Seus olhos estão mais fundos. A ambiência rodoviária compõe a trilha sonora da cena. Viviane tem leves cochilos. Tentando manter-se acordada, a moça endireita sua postura. Ela passa por uma subida de viaduto. A câmera retorna para ela, que está desmaiada sobre o volante. Um instrumental tenso permeia a cena. A velocidade do carro aumenta, intensificada pela força da gravidade. O automóvel colide gravemente contra o guardrail, despencando do viaduto. Viviane é arremessada do carro, que explode. 
 
A imagem congela no carro em chamas, com um efeito amarelo brilhante.