Cena 01 - Mansão de Soraya [DIA]
SORAYA - Alô! Quem fala é Soraya Raposo Leitão. Eu preciso fazer uma denúncia contra o meu irmão, Lucas Raposo Leitão. |Faz silêncio, ouvindo o policial.| Ele invadiu a minha casa completamente transtornado e me desferiu tapas e murros. Ele está louco desde que fez o que fez com o meu pai. Eu disse pra vocês. Eu acho que ele pode fugir... |Pausa.| Ótimo. Eu me sinto mais protegida se a polícia vier.
RINHA |Preocupada.| - O que foi que aconteceu com o seu pai, Soraya?
SORAYA |Calma.| - Vó, eu preciso que você se sente.
RINHA - Diga de uma vez, Soraya! Sem rodeios!
SORAYA - Vovó, o papai faleceu hoje pela manhã.
Efeito de impacto no rosto de Rinha.
RINHA - O quê? |Chocada.| Como foi isso?
Rinha cede.
SORAYA |Serena.| - O Lucas, vovó. Ele tramou tudo.
RINHA - Não pode ser! Aquele paspalho não pode ter morrido.
SORAYA - Mas morreu, vó. Eu vou sentir tanta saudade do meu paizinho...
RINHA - Não fique assim, minha neta! Pense que ele não está mais vivo pra ver a ascensão dessa ditadura que está predominando no Brasil, dessa deturpação de valores... é homem com homem, mulher com mulher, mulher que quer ser homem, homem que quer ser mulher, um prostíbulo de ideologias baratas que vão contra os desígnios de Deus!
SORAYA - Você tem razão, vovó. O mundo tava ficando pesado demais pro meu pai. Ah, mas o Lucas vai pagar! Oh, se vai.
Alguém toca a campainha do casarão. A empregada atende. É o delegado Pestana.
PESTANA - Eu vim o mais rápido que pode. O que aconteceu com você, Soraya?
Soraya está com marcas pelo corpo e o vestido rasgado.
SORAYA - Foi o Lucas, seu Delegado. Ele está louco, invadiu a minha casa e me deixou assim, toda marcada. Eu quero denunciá-lo por agressão.
PESTANA - Que horror! Então ele é, de fato, o assassino.
SORAYA - É claro que é. Sempre foi. Ele está fora de si. Acredito que possa tentar fugir do país.
PESTANA - Ele não vai conseguir... já contatei os aeroportos paulistas. Congonhas, guarulhos...
SORAYA - Ótimo. Ele não pode sair ileso dessa história.
Cena 03 - Aeroporto de Guarulhos [DIA]
Após comprar uma passagem em uma das cabines, Lucas caminha arrastando uma mala e portando documentos nas mãos. Ele está apreensivo, olhando para trás para averiguar se não está sendo perseguido. Os avisos de embarque do aeroporto permeiam a cena:
— Passageiros do voo 922, com destino a Nova York, dirijam-se ao portão de embarque número 12.
Lucas se apressa ao ouvir o chamado. No portão de embarque, uma fila é iniciada. Lucas é o próximo a passar. O rapaz entrega seu passaporte. Um guarda percebe irregularidades.
GUARDA - Venha comigo, por favor!
Lucas gela, assustado. O rapaz acompanha o guarda.
Cena 04 - Mansão de Soraya [DIA]
O delegado recebe uma ligação telefônica.
DELEGADO - Aconteceu algo na delegacia. Eu preciso ir. Venha comigo, Soraya. Vamos registrar a ocorrência.
RINHA - Vai, minha neta!
Soraya acompanha o delegado. Eles se retiram. Rinha pega, em uma estante, uma foto do filho.
RINHA - Ah, Raul! |Melancólica.|
Cena 05 - Delegacia [DIA]
O delegado abre a porta de sua sala. Um policial já se faz presente.
POLICIAL - Delegado, que bom que chegou! Olha quem foi encontrado tentando fugir no aeroporto de Guarulhos.
DELEGADO |Acusador.| - Então é você o assassino, não é?
LUCAS |Chorando de nervoso.| - Não! Não, seu delegado! O senhor precisa acreditar em mim... foi a Soraya quem tramou tudo isso pra me colocar nessa situação. Eu sou INOCENTE!
DELEGADO - Isso é o que todo mundo diz. Levem-o para a cela.
LUCAS - Eu exijo ao menos um advogado. Todo mundo tem direito de defesa.
DELEGADO - Você terá o seu advogado.
Lucas sai, algemado. Soraya adentra a sala. Os irmãos se encaram friamente. Lucas contém seu ódio, Soraya está fria. O policial retira Lucas dali. Soraya senta-se, conversando com o delegado.
Cena 06 - Mansão de Soraya [DIA]
Rinha está sentada na sala, ainda olhando as fotos de Raul.
RINHA - Você sempre foi um idiota, igual a sua mãe. É estranho me sentir assim... melancólica com tudo isso. Pelo menos você me deu o meu bem mais precioso. A Soraya, minha netinha.
Ela abraça a foto de Raul. Alguém toca a campainha. Uma empregada atende.
VIVIANE - Olá, a Soraya está?
EMPREGADA - Não, ela saiu.
RINHA - Quem é?
VIVIANE - Prazer, Viviane. Uma amiga íntima da Soraya. |Estende a mão para cumprimentá-la.|
Rinha arregala os olhos, percebendo quem é a moça.
RINHA - A Soraya me falou bastante de você... entre.
VIVIANE - Falou, é? Espero que bem.
RINHA - Não poderia ser diferente. Você veio de carro, moça?
VIVIANE - Sim, por quê?
RINHA - Eles cobram uma taxa de estacionamento absurda, ia sugerir que colocasse seu carro aqui na garagem.
VIVIANE - Pode ficar tranquila que eu pago.
RINHA - Ótimo. A Soraya acabou de sair e acredito que não volte tão cedo.
VIVIANE - Que pena!
RINHA - Mas se quiser tomar um whiskyzinho comigo...
VIVIANE - Se não for muito incômodo, aceito. Mas pouco, estou dirigindo. |Sorri.|
Cena 07 - Prisão [DIA]
Lucas é jogado em uma cela por um policial. Os outros homens o encaram.
LUCAS |Aos berros.| - ME TIREM DAQUI! VOCÊS ESTÃO COMETENDO UMA INJUSTIÇA! EU SOU INOCENTE!
HOMEM 1 - Ih, gente! Morador novo...
Lucas os olha com certo desprezo para os rapazes.
HOMEM 2 - Todo mundo diz que é inocente, rapaz.
LUCAS - Mas eu sou de verdade. Foi tudo uma armação da minha irmã pra pegar a herança do nosso pai.
HOMEM 1 - Você é filho de bacana? Coitado, gente. Caiu no pior lugar pra aprender como a vida funciona.
Os olhos de Lucas se encharcam.
LUCAS - A minha vida acabou!
Cena 08 - Mansão de Soraya [DIA]
Viviane e Rinha terminam a bebida.
VIVIANE - Escuta, você que é a mãe do Raul?
RINHA - Sou, sim.
VIVIANE - Meus pêsames. Agora não sei se os desejo pra você ou pra dona Canja, não é?
RINHA |Arregalando os olhos e engolindo seco.| - O que você quer dizer com isso?
VIVIANE - Não sei...
RINHA |Disfarçando.| - Você é muito simpática, garota!
VIVIANE - Você que é, fofa. Avisa pra Soraya me procurar. Eu tenho em mãos um pen-drive. Ela vai ter que cumprir o que combinou comigo.
RINHA - Certo. Até mais, querida.
Viviane se retira. Rinha retira um frasco de seu sutiã. É um sonífero. A câmera se afasta lentamente ao som de um instrumental de tensão.
RINHA - Desgraçada! Como ela sabe da história do Raul?
Cena 09 - Zoológico [DIA]
Romeu e Carijó descem do carro.
ROMEU - Eu tava louco pra te trazer aqui.
CARIJÓ - Um zoo-zoo-zoo?
ROMEU - Zoológico, Carijó. Meu pai me trouxe aqui quando eu era criança e eu disse pra ele que queria ser veterinário.
CARIJÓ - E por que ocê num virou? Desistiu?
ROMEU - Eu preferi tocar a gravadora da minha família, era algo mais cômodo pra mim. Depois que meu pais faleceram, eu só quis estabilidade e conforto.
CARIJÓ - Ocê nunca falou do seus pais, como que era a relação docês, meu amor?
ROMEU - Eu não gosto muito de falar disso, Carijó. Eles morreram num acidente de carro quando eu tinha dezoito anos.
CARIJÓ - Que triste. Ocê deve saber de cobras, não é?
Romeu sorri maliciosamente.
ROMEU |Sorrindo.| - Depende de qual tipo de cobra você está falando...
CARIJÓ |Confusa.| - Ué?
Os dois continuam conversando e andando. A câmera se afasta gradativamente. Um instrumental de tensão permeia a cena, transicionando para a próxima cena.
Cena 10 - Carro [DIA]
Viviane dirige o carro. Seus olhos estão mais fundos. A ambiência rodoviária compõe a trilha sonora da cena. Viviane tem leves cochilos. Tentando manter-se acordada, a moça endireita sua postura. Ela passa por uma subida de viaduto. A câmera retorna para ela, que está desmaiada sobre o volante. Um instrumental tenso permeia a cena. A velocidade do carro aumenta, intensificada pela força da gravidade. O automóvel colide gravemente contra o guardrail, despencando do viaduto. Viviane é arremessada do carro, que explode.
A imagem congela no carro em chamas, com um efeito amarelo brilhante.