Carijó - Capítulo 13
Anteriormente em "Carijó":
Soraya assassina o próprio pai no hospital e culpa cinicamente o irmão, Lucas, gerando um enorme barraco enquanto Raul não resiste e morre. A cúmplice Viviane invade a sala de segurança, rouba as filmagens para chantagear Soraya, apaga os arquivos do sistema e inventa um falso caso com um segurança para despistar a enfermeira Vanúbia. Em paralelo, Carijó aceita o pedido de casamento de Romeu, fazendo a avó Canja desmaiar e profetizar um mau presságio antes de abençoar a união. Na recepção do hospital, a polícia descobre que as câmeras de segurança foram apagadas e o delegado Pestana decide levar Soraya e Lucas retidos para a delegacia sob forte suspeita.
Fique agora com o capítulo de hoje.
Cena 01 - Delegacia [DIA]
Lucas e Soraya estão na delegacia, passando por acareação. Soraya está sentada em uma cadeira, com postura pouco imponente, como quem está surpresa. A escrevente tecla em seu computador, registrando os principais pontos.
DELEGADO - A senhora alega que viu o seu irmão matar o doutor Raul, que motivos ele teria para isso?
SORAYA - O Lucas me disse que queria de alguma maneira que o sofrimento do nosso pai cessasse. Eu acho que ele agiu desesperadamente, pensando que não houvesse mais o que ser feito.
LUCAS - Isso é mentira, seu delegado! A Soraya tramou tudo meticulosamente. |Tom alterado.|
DELEGADO - Sr. Lucas, colabore com a justiça. Peço que, por favor, fale apenas quando solicitado.
SORAYA - Continuando, doutor. Essa é a única versão que faz sentido na minha cabeça. A menos que... ah, não... eu não posso nem cogitar isso. |Interrompe o raciocínio.|
DELEGADO - Conclua, dona Soraya.
SORAYA - O Lucas pode ter tramado tudo isso visando colocar as mãos na herança do nosso pai. O que é estranho... |Olha fixamente para a parede, raciocinando.| eu não vejo aquele menino que cuidava de mim com tanto zelo fazendo isso... por dinheiro. |Lágrimas rolam em seu rosto.| Que a criança por quem eu sempre tive admiração se revelasse o monstro que agora aparenta ser... |Chora.|
Lucas, nervoso, avança para cima de Soraya.
LUCAS |Em tom elevado.| - JÁ CHEGA, SORAYA! EU NÃO VOU DEIXAR QUE VOCÊ ME DIFAME DESTA MANEIRA!
Os policiais o contém.
DELEGADO |Elevando o tom, de forma igualitária.| - CHEGA! ORDEM! ORDEM! Lucas, você já não é mais um garoto.
LUCAS - Não, seu delegado. Eu não tenho sangue de barata, não vou ouvir essa mulherzinha cínica me caluniando de boca fechada! Eu vou falar tudo que sei. A Soraya é a mulher mais dissimulada do mundo. Foi ela quem matou o nosso pai. E sabe por quê, delegado Pestana? |Olha para Soraya, com tom intimidador.| Porque ela armou um sequestro ridículo do nosso pai pra promover o lançamento de um body splash da marca de cosméticos dela!
Efeito de impacto no rosto de Soraya, que reage rapidamente.
SORAYA - Mas isso é uma mentira! Eu não tenho nada a ver com o sequestro do papai e você sabe muito bem disso, Lucas.
LUCAS - Eu sei? Conta outra, Soraya! Você se borrou de medo quando ele disse que ia te deserdar e que golpe de mestre, não é? Matava o velho, me tirava do testamento e ficava com tudo só pra você. Assuma, Soraya! Assuma!
SORAYA |Chorando, dissimulada.| - Lucas, eu jamais imaginei que você pudesse descer tanto. Inventar uma história absurda dessas. Você sabe melhor do que ninguém que eu sempre fui bem sucedida profissionalmente. As publis caem no meu colo sem que eu faça esforço. Agora estou fechando publi com a famosa padaria Tortiletti. Eu não preciso desse engajamento sujo que você sugere e nunca faria isso. O meu pai é o homem que eu mais amei na minha vida. |Chora.|
DELEGADO - Obrigado por colaborarem com a justiça. Vocês não eram obrigados a estarem aqui, visto que não emitimos uma ordem para que depusessem. Peço que continuem colaborando e que não saiam de São Paulo. A polícia estará no encalço de vocês.
SORAYA - Estou a disposição para qualquer coisa. |Diz, segura. Olha para Lucas de canto, como quem tem razão.|
Lucas também se retira da sala, ao mesmo tempo que um policial adentra ao local e o cumprimenta. Lucas olha para trás, fechando a porta, e percebe que o homem mostra, envolta por um plástico, uma tesoura ao delegado.
POLICIAL - Encontramos essa tesoura próximo do leito. Provavelmente foi usada para cortar os tubos de oxigênio do Sr. Raul.
Lucas olha para a faca e percebe tudo: Soraya tramou para que suas digitais estivessem ali.
Cena 02 - Apartamento de Viviane [Dia]
Atordoada, a mulher joga as chaves de seu carro em uma mesa. Ela guarda o pen-drive em uma caixa com cadeado e a tranca em sua gaveta. Solineuza, a diarista que limpa a casa de Viviane se aproxima.
SOLINEUZA - Dona Viviane...
Viviane se assusta, estressando-se.
VIVIANE |Com tom de irritação.| - O que foi?
SOLINEUZA - Que caixa é essa?
VIVIANE - Nada que seja da sua conta. |Guarda rapidamente dentro da gaveta de seu gabinete e a tranca com uma chave.| Era pra você estar aqui hoje?
SOLINEUZA - Sim, dona Viviane. Esqueceu da diária? Acabou o desinfetante e o sabão em pó, eu preciso comprar pra lavar as roupas e limpar a casa.
Viviane abre a carteira e entrega algumas cédulas de dinheiro.
VIVIANE |Irritada.| - Está aqui. É o dinheiro da sua diária, da passagem de ônibus e o dos produtos de limpeza, não pretendo voltar hoje.
SOLINEUZA - Tá certo, dona Viviane.
Cena 03 - Casa de Canja [DIA]
Carijó e Romeu se beijam.
CARIJÓ - Romeu, ocê sabe que eu tô me guardando. Só dispois do casamento!
ROMEU - Eu sei, Carijó. Mas o nosso casamento não vai demorar. O que acha de nos casarmos na metade do próximo mês?
CANJA - Não acham muito cedo?
CARIJÓ - Não, vovó.
ROMEU |Sorrindo.| - Carijó, eu gostaria que fosse comigo em um lugar...
CARIJÓ - Que lugar?
ROMEU - Você vai saber...
DONA CANJA - Juízo, viu.
CARIJÓ - Ocê pode confiar em mim, vó. |Dá um beijo na testa da senhora.| Vamos? |Olha para Romeu.|
Canja liga a TV e descobre o falecimento de Raul. Seus olhos marejam.
CANJA - Ai, meu Deus! Não é possível... um homem tão bom.
CARIJÓ - Quem é esse, vó?
ROMEU - É o meu ex-sogro, pai da Soraya.
CARIJÓ - Qui horror, meu Deus! Você vai no velório dele, vó?
CANJA - Vou não, minha neta! A surucucu da mãe dele deve estar lá e eu não quero contato.
ROMEU - Eu também não vou.
CARIJÓ - Ocês que sabem.
ROMEU - Carijó, vamos sair logo?
CARIJÓ |Sorri.| - Então bora.
CANJA - Juízo vocês dois!
Eles se retiram. Canja senta-se, desolada. A mulher se posiciona e acende uma vela para Raul diante de uma santa.
CANJA - Que o você descanse em paz, meu filho! |Desaba.|
Cena 04 - Casa de Tilápia [DIA]
Tilápia olha para a janela, preocupada. Daniel, o filho, se aproxima.
DANIEL - O que foi, mãe? A senhora está preocupada com algo?
TILÁPIA - Sim, Daniel. A sua irmã não veio aqui em casa hoje e eu tô sentindo aquela angústia que você bem conhece. Coração de mãe nunca se engana! A gente sente quando os nossos filhos estão em perigo. Deus nos proteja, mas eu estou sentindo que alguma coisa de muito ruim vai acontecer!
DANIEL - Já está acontecendo.
TILÁPIA - O quê? Do que você está falando, meu filho?
DANIEL - Liga a TV, parece que o tal do Raul Leitão faleceu. Eu estava na casa do Gustavo, passou na TV. A tia Canja trabalhava pra família deles, não é?
TILÁPIA - Sim, meu Deus, que tragédia! |Diz a mulher ligando a TV.| Daniel, que família louca! Parece que esses dias a tal da Soraya sequestrou o cara pra promover a marca, a Viviane me contou. Eu, tonta, até perdi dinheiro me compadecendo, comprei um body splash dela.
DANIEL - Família de doentes! Nenhum se salva ali naquele antro.
Tilápia abraça o garoto.
TILÁPIA - E é por isso que eu quero manter distância deles...
DANIEL - Mas você os conhece? Por que estaríamos próximos se nem os conhecemos? Qual ligação podemos ter com os Raposo Leitão?
TILÁPIA - Nenhuma, meu filho... nenhuma. |Diz, apreensiva.|
Cena 05 - Mansão de Soraya [DIA]
Lucas adentra ao casarão. Soraya está no grande salão, descendo as escadas.
LUCAS |Frio.| - Foi bom te ver.
SORAYA - Lucas, o que você está fazendo aqui?
LUCAS - Eu já descobri tudo, sua vagabunda! Aquela história de mecha de cabelo era tudo tramoia tua pra me incriminar.
SORAYA - Sacou? Agora você vai mofar naquela cadeia suja, irmãozinho. E eu vou usufruir de tudo que o papai nos deixar.
LUCAS - Como? Se ele te deserdou... você vai sair dessa história sem nada.
SORAYA - Não, Lucas! Eu paguei o Leandro, advogado do papai, para que fizesse tudo a passos lentos. O processo nem chegou a ser lavrado.
LUCAS - Como é que é?
SORAYA - Todo mundo tem um preço, Lucas. O Leandro se vendeu pra mim e fez o que eu quis.
LUCAS - Você não vai se safar assim... eu acredito na justiça. Se não for na dos homens, será na de Deus.
SORAYA |Gargalhando.| - Deus? Hahah! Se agarre a ele. Quem sabe ele não te tira do buraco no qual você vai passar o resto da sua vidinha medíocre?
LUCAS - Por que tudo isso, Soraya? Por quê? Essa ambição desenfreada, essa teia de mentiras que você criou. Você é um monstro. Uma pessoa sem caráter, sem princípios, sem escrúpulos...
SORAYA - Porque eu posso. Porque eu quero. Porque eu quero ter! O papai foi injusto demais comigo com essa história de deserdar, eu não podia ficar de braços cruzados. O mundo é dividido entre vencedores e perdedores. Felizmente, eu não faço parte do segundo clã, já você...
LUCAS - A que preço? Você nunca mais vai conseguir colocar a sua cabeça no travesseiro e dormir em paz.
SORAYA - Eu? É claro que vou. E será apenas em travesseiros com penas de gansos ciberianos! Sai da minha casa, Lucas. Você está contaminando o ambiente de fracasso. Porque é isso que emana de você, irmãozinho.
LUCAS - Não, eu não vou sair. Sem antes fazer o que eu vim pra fazer.
Lucas dá um tapa em Soraya, que cai no chão. Soraya se assusta. A câmera foca no desespero de Lucas e, em seguida, em Soraya.
SORAYA - O que é isso, seu imbecil? Me larga!
Lucas desfere outro tapa violento contra Soraya, rasgando seu vestido.
LUCAS - É isso que você merece, sua ordinária, vadia, micheteira barata, ratazana de esgoto!
SORAYA - SAI DE CIMA DE MIM, LUCAS. VOCÊ ESTÁ ME MACHUCANDO!
LUCAS - É pra doer mesmo. Antes em você do que em mim.
Rinha desce as escadas rapidamente.
RINHA - O que é que está acontecendo aqui? SOLTA A SORAYA, SEU MULEQUE! |Empurra Lucas de cima da neta.| Covarde, idiota! Onde já se viu bater em mulher? Você só pode estar louco.
LUCAS - Você sempre defendeu tudo que é essa aí fez. Por isso que agora não tem mais jeito. Ela está totalmente corrompida pelo dinheiro, pela ganância.
RINHA - São virtudes que um fracassadinho de merda como você não compreenderia! Agora sai daqui.
O rapaz olha para a irmã com uma frieza espantosa, como quem chegou no fundo do poço.
LUCAS - Até um dia, minha irmã.
Lucas se retira, fora de si.
RINHA - Está tudo bem, minha neta?
SORAYA |Chorando.| - Ai, vó. Me abraça. |É acolhida pela avó.| Se esse idiota tá pensando que vai sair por cima, está muito enganado!
Soraya tira seu celular de um de seus bolsos e disca para um número curto.
SORAYA - Alô, delegado Pestana?! Quem fala é Soraya Raposo Leitão. Eu preciso fazer uma denúncia contra o meu irmão, Lucas Raposo Leitão.
A câmera se aproxima do rosto de Soraya.
A imagem congela em Soraya com um efeito amarelo brilhante.