Cena 01 - Casebre [DIA]
CARIJÓ |Chorando.| - Daniel, minha calcinha está molhada.
DANIEL |Constrangido.| - Carijó, contenha o seu fogo! Eu pensei que você fosse moça de família.
CARIJÓ |Embargando a voz, enquanto segura a panela.| - Num é disso que eu tô falando, Daniel. Eu... eu me caguei! |Diz ela, borrada de medo.|
Daniel se choca. Uma senhora muito velha surge.
SENHORA - Quem são vocês? O que querem aqui?
CARIJÓ - Oi... dona. Sabe o que que é... é que mataro a minha galinha e fizeram um ensopado dela. Eu soube que ocê faz umas magias que pode fazer ela voltar a vida. É verdade?
SENHORA - Ainda não entendi o que querem de mim. Se for o que estou pensando é absurdo e me recuso a acreditar.
CARIJÓ - Ocê ainda num entendeu? Eu quero que ocê ressuscite a galinha Catarina e pago bem!
SENHORA - Recolha o seu dinheiro. Eu não realizo o procedimento com animais, ainda mais com uma galinha.
DANIEL - Dona Sacerdotisa. É esse o seu nome, não é?
SACERDOTISA - Me chame como quiser. Vocês tratam o que vem da terra com leviandade, seria uma heresia com todos os princípios de minha crença aceitar fazer isso e, além do mais, se a galinha está morta, não se deve reescrever o que já está escrito no livro da vida.
ZUG - Oh, minha tia! Veja como sofre esta moça. |Aproxima-se de Carijó, que se treme.| Tenta. Nos dias em que vivemos é difícil de se ver um amor tão puro e as galinhas também sentem, oras. São animais e merecem toda a compreensão do mundo.
CARIJÓ - Ubrigada pelas palavras de defesa, seu Zug. As galinhas são mais gente que muita gente, lhe asseguro. Ainda mais a Catarina. Ela num é só uma galinha, é a minha filha.
SACERDOTISA - Não é desta forma que as coisas funcionam. Os mortos não recuperam o fôlego de vida magicamente. E tampouco voltam à vida em seu estado puro, olhem para mim.
DANIEL - Dona Sacerdotisa, a senhora está um pouco enrugada, mas ainda dá um caldo bom. Se puder capturar e trazer de volta a alma da galinha Catarina, como a da senhora foi trazida após a morte, creio que a galinha estará bem conservada.
SACERDOTISA - Muito bem. Eu realizarei o processo e atestarei a vocês que não acontece da forma que imaginam. A galinha está morta e continuará assim.
Sacerdotisa se vira e começa a manusear frascos de antídotos próximos da panela. Carijó tenta olhar, mas Sacerdotisa impede ao dar de costas e tapar a visão da mocinha com os ombros. Carijó está amedrontada, segurando sua região pélvica com medo de que seus grandes coliformes fecais permeiem suas vestimentas íntimas. Sacerdotisa manuseia o frango. Incrédula, ela percebe que a galinha passa a se desempanar magicamente. Pouco a pouco, a resina que mantém os ossos aviários conectados surge, conectando o corpinho inerte da galinha. Sacerdotisa passa as mãos pelo cadáver animalesco, fazendo surgirem penas e tecidos perdidos pelo cozimento da ave. A bruxa sopra um ar vívido nas narinas da galinha, que retorna a vida como num passe de mágica.
GALINHA - Gluglu.
DANIEL - Por que ela está agindo como um peru de Natal antes de ser assado?
Sacerdotisa estrala os dedos nos ouvidos da galinha, que passa a agir como um animal de sua espécie.
GALINHA - Popó?
CARIJÓ - Popó!
DANIEL - É um milagre!
CARIJÓ - A CATARINA TÁ VIVA! A MINHA FILHA TÁ VIVA!
Sacerdotisa está atordoada.
SACERDOTISA - Isso não deveria ter acontecido... |Com os olhos lacrimejando.| se este animal falecer novamente, não será possível ressuscitá-lo novamente. Cuidem bem dela. Eu... eu preciso ir...
Sacerdotisa sai do local rapidamente, indo para um cômodo mais interno da casa.
ZUG - Tia, o que está acontecendo? Por que você está tão impressionada.
SACERDOTISA - Eu não deveria ter feito aquilo. O que vem da terra, volta para a terra no momento necessário. Eu lidei com forças que não estavam sob o meu controle e só agora me dei conta de que terei lidar com as consequências dos meus atos.
ZUG - Calma, titia. Você apenas se compadeceu pelo sofrimento da garota.
Zug abraça a tia. Na parte da sala, Carijó e Daniel se fazem presentes.
CARIJÓ |Segurando a galinha nos braços.| - Daniel, precisamos ir embora daqui rápido. Antes que eles vortem!
Daniel e Carijó se retiram. De volta ao cômodo da casa onde estão Sacerdotisa e Zug:
SACERDOTISA - Ela não deveria ter voltado, mas ainda há tempo de corrigir isso.
Sacerdotisa e Zug se direcionam novamente ao cômodo onde deixaram Carijó e Daniel.
SACERDOTISA |Mostrando desespero.| - Aonde foram?
Ela se mantém de pé na porta do casebre, mas não enxerga Carijó e Daniel. Sacerdotisa respira fundo e fecha as portas do casebre.
Cena 02 - Mansão de Soraya [DIA]
SORAYA - E foi isso o que aconteceu...
RINHA - Mas o seu pai é um idiota também, não é? Custava entrar na história? Odeio gente assim.
SORAYA - Pois é, vovó. Justamente isso que pensei. Custava nada ele entrar no meu jogo, poxa! Ia trazer bons frutos pra todo mundo esse teatro. Agora tem gente demais no meu pé, estou correndo risco.
RINHA - Você sabe o que eu penso a respeito disso, não é? De chantagista a gente se livra de uma vez. Não acho uma boa postura entrar no jogo dessa tal de Viviane.
SORAYA - E o que a senhora recomenda que eu faça? Eu sinto que estou de mãos e pés atados. Ela disse que se acontecer alguma coisa com ela, faz aquele lance chegar nas mãos da polícia através de outra pessoa.
RINHA - Corta os freios do carro dela, boba. Até a polícia descobrir que foi um acidente, você passa a mão na tal carta que está em posse de alguém.
SORAYA - Será?
RINHA - Eu só preciso do seu aval. Eu mesma posso mover os pauzinhos pra tirar essa menina do seu caminho.
SORAYA - Faça o que for preciso, vovó. Já sujei as minhas mãos demais. Preciso ir até o hospital, prometi que visitaria o papai hoje.
RINHA - Pode ir tranquila, filha. Eu vou cuidar do assunto.
Soraya se retira.
Cena 03 - Casa de dona Canja [EXT/DIA]
Carijó e Daniel descem do carro. Romeu, que a esperava, grita.
ROMEU - CARIJÓ! |Sorri.|
Carijó se despede do primo e se aproxima de Romeu.
CARIJÓ - Romeu, tudo bem?
ROMEU - Sim, amor!
CARIJÓ - O que ocê faz aqui tão cedo?
ROMEU - Eu precisava muito te dizer algo. Também fiquei preocupado com a história da galinha. Vejo que está melhor e arranjou outra.
CARIJÓ - Num arranjei não, Romeu. É a Catarina que tá aqui comigo!
ROMEU - Que história é essa?!
CARIJÓ - Uma longa história, depois nos falamos sobre isso. Entra, vou deixar Catarina lá dentro e a gente senta pra cunversar melhor!
Eles entram.
Cena 04 - Hospital - Recepção [DIA]
Soraya adentra ao hospital. Viviane está na recepção.
VIVIANE - Soraya?
SORAYA - Que boa ironia você trabalhar no hospital em que o meu pai está internado. Eu quase caí pra trás quando descobri.
VIVIANE - O que quer de mim?
SORAYA - Você disse que seria minha amiga, não disse?
VIVIANE - Eu serei, Soraya. Estou a postos para fazer o que precisar.
SORAYA - Então agora eu vou precisar da sua ajuda.
A câmera foca no rosto de Viviane.
VIVIANE - Mas eu também disse que uma relação é feita de trocas.
SORAYA - Me passa a sua chave pix. Eu faço tudo o que você quiser.
VIVIANE - Até mesmo me transferir ações da Me Red?
SORAYA - O quê?
A câmera foca em Soraya, incrédula.
Cena 05 - Casa de Canja [SALA/DIA]
Romeu está sentado no sofá da sala.
CARIJÓ - O cafézinho está passado. Quase pronto, Romeu!
ROMEU - Que cheiro maravilhoso, Carijó. Só não é melhor que o seu perfume...
CARIJÓ - Oh, Romeu! Assim eu fico sem graça...
ROMEU - Não fique, meu amor!
Carijó serve o café para Romeu em uma xícara.
CARIJÓ - O que que ocê tinha para falar comigo?
ROMEU - Eu não sei nem por onde começar...
CARIJÓ - Comece do começo, ué...
ROMEU - Carijó |Se levanta.|, desde que lhe conheci a minha vida ganhou um novo sentido. Jamais imaginei que isso pudesse acontecer comigo. E foi tão por acaso, não é? Um acidente corriqueiro em São Paulo nos uniu.
CARIJÓ - É, Romeu. Se ocê quer saber, eu também lhe tenho muito apreço.
ROMEU - Só apreço, Carijó? Quando eu chego perto de você, meu coração dispara, sinto a pupila dos meus olhos dilatar, meu corpo estremece de vontade de ter em meus braços, minha boca saliva, revelando meu lado mais instintivo. Você mexe comigo profundamente, Carijó. Eu simpatizei contigo desde o princípio e a convivência tem aflorado esse sentimento. Foi pensando nisso que eu decidi que já não posso viver sem você. Aquele beijo roubado que eu te dei, não saiu da minha boca. Eu ainda sinto o mel dos seus lábios na minha boca e é isso que me dá vontade de seguir.
CARIJÓ |Recuperando o fôlego.| - Nossa, Romeu! Eu não sabia que ocê sentia tudo isso por mim e fico muito feliz. Eu num sei falar bonito, mas eu me sinto atraída por ocê.
ROMEU - Então isso é um sim?
CARIJÓ - Um sim?
ROMEU - Sim, Carijó. Um sim. |Ajoelha-se, abrindo uma caixa com uma aliança diante da mocinha.| É isso o que eu quero de você. Aceita se casar comigo?
Close de impacto no rosto de Carijó.
A imagem congela em Carijó, que está chocada, com um efeito amarelo brilhante.