Carijó - Capítulo 10

 Anteriormente em "Carijó":

Tilápia revela a Viviane que Raul, o pai de Soraya, é, na verdade, filho biológico de Canja, fruto de um rapto arquitetado no passado por Pantera, sua mãe, e Rinha, deixando a filha motivada a se aproximar da rival. Enquanto isso, no hospital, Raul recebe o carinho de Angélica antes de sua cirurgia de risco, gerando revolta na jovem ao descobrir que Soraya preferiu dar um jantar a acompanhar o pai. Na gravadora e na mansão, o clima esquenta com as humilhações de Rinha contra Canja e Carijó, que aceita o convite para o banquete na tentativa de selar a paz e se distrair do sumiço de sua galinha de estimação. Em paralelo, Viviane invade o closet de Soraya e a chantageia com segredos do passado, exigindo livre acesso ao condomínio e uma sociedade nos negócios para manter o silêncio. O capítulo termina em horror na sala de jantar quando Soraya, em uma cruel armadilha, revela a Carijó que o frango que ela está comendo com gosto é a sua amada Catarina.

Fique agora com o capítulo de hoje.


*CARIJÓ - CAPÍTULO 10 (14/08/2026)*

Cena 01 - Sala de Jantar [NOITE]

SORAYA - É isso mesmo, Carijó. Esse frango que você come com tanto gosto... é a sua amada Catarina! 

CARIJÓ - Ca... ca... tarina...? 

Carijó olha para a panela com o frango moído em pedacinhos e para o semblante festivo de Soraya, que tapa o sorriso com a mão. Seus olhos estão encharcados, seu rosto vibra com horror e incredulidade. Carijó sente ânsia de vômito.

CANJA - Fica calma, minha filha!

CARIJÓ - Eu vô matar ocê! |Diz, rangendo os dentes, instantes antes de atacar a megera.|

Carijó levanta Soraya pela gola do vestido, jogando-a no chão.

SORAYA - ME SOLTA, SUA LOUCA! 

Indignada, Carijó lança as panelas de arroz e feijão contra Soraya. Romeu tenta contê-la, Rinha olha incrédula, Canja sofre. Carijó cessa os ataques, recuperando o fôlego. Um segundo de total silêncio faz com que caia a ficha da morte de Catarina para Carijó. A mocinha olha para a panelada de frango com um olhar de tristeza, acariciando uma asa de frango de forma sentimental.

CARIJÓ - Oh, meu amor! O que foi que fizero com ocê? 

Canja se aproxima de Carijó, guiando-a com as mãos nos ombros. Canja fita um olhar de ódio em Soraya, indignada com a crueldade e a frieza da vilã. Soraya se recompõe, limpando os fragmentos de arroz sobre seu vestido. Carijó sai com o rosto encharcado de lágrimas e a panela de galinhada nas mãos. 

Um instrumental triste permeia a cena.

SORAYA - Você deveria me agradecer, Carijó. Galinhas não têm outra serventia senão para canjas e caldos. E é exótico uma caipira andando pelas ruas de São Paulo com uma ave nas mãos, parecendo uma mongoloide. 

Carijó, de olhos vermelhos pelo choro, olha para Soraya, mas desta vez não revida, sem forças. Soraya se mostra séria, observando a saída da algoz. A porta se fecha. 

RINHA - Netinha, que orgulho! Botou essa matuta atrevida em seu lugar. Aqui no nosso terreiro eu tenho certeza que essa galinha não cisca mais!

ROMEU - Orgulho? Por que você fez isso, Soraya?

SORAYA - Eu já te disse que sou capaz de tudo por você.

ROMEU |Indignado.| - Por que essa obsessão, meu Deus? Eu já terminei com você. 

SORAYA - Você achou mesmo que aquele bilhetinho que você deixou aqui ia me convencer de que você não é o homem da minha vida? Que coisa mais primária, Romeu. Você sabe que eu te amo e o quanto essa relação representa pra mim.

ROMEU - Eu não sei, não. Isso já tá ficando doentio.

SORAYA - Eu sou sua Vivíbora e você é meu Zé Felipe. Fora que a gente é assumido, esse término não atrairia marketing pra Me Red.

ROMEU - É claro que atrairia, Soraya. A Internet vai a loucura quando alguém com todo o seu alcance anuncia término.

SORAYA - Mas se eu ficar com você posso ganhar engajamento agora e mais ainda quando terminarmos. Faz assim... me engravida. E eu te deixo em paz.

ROMEU - Você é louca demais, cara. Não dá pra ter um papo sério contigo. Eu já disse e torno a repetir: quero distância de você. Não sei nem porque aceitei vir a esse jantar, já sabia que coisa boa não viria.

Romeu se retira.

RINHA - Não liga pra esse panaca, netinha! O que ele tem de gostoso, tem de imbecil. Homens assim são para se usar e jogar fora.

SORAYA - E é exatamente isso que eu quero do Romeu. Usufruir de tudo que a notoriedade dele pode me dar se nos unirmos. Criada. |Grita.| Limpa essa baderna. Já volto vovó, trocarei de vestido.

Soraya sobe as escadas. 

Cena 04 - Hospital [NOITE]

Lucas e Tainá continuam a conversa.

LUCAS - Um jantar? Você sabe que o meu pai está aqui por conta da Soraya, não sabe? Isso é tripudiar em cima do estado de saúde dele. Eu vou acabar com a farra dela! Cansei de tudo isso.

Possesso, Lucas se retira.

TAINÁ |Falando consigo mesma.| - Ai, Tainá, que bocão! Aprenda a se conter mulher. Mas que a Soraya merece, merece! |Sorri.|

Cena 05 - Ruas de São Paulo [NOITE]

A câmera sobrevoa a cidade ao som de 🎶 "Femininomenon - Chappell Roan" 🎶, aterriçando lentamente sobre um bairro periférico. É possível avistar a casa de Carijó. Carijó e Canja descem do carro, a primeira segura a panela com a galinha empanada. Daniel se aproxima.

DANIEL |Preocupado.| - Carijó? O que aconteceu? 

CARIJÓ - Ka... ka... tha... rina!

DANIEL - É a Catarina? Eu já lhe disse que vou investigar e vou descobrir o paradeiro dela.

CANJA - A Catarina foi morta, Daniel.

DANIEL - Morta? Mas quem foi que fez uma coisa dessas?

Carijó e Canja adentram, sem mais respostas.

Cena 06 - Casa de Tilápia [NOITE]

Daniel conta para Tilápia o que soube.

TILÁPIA - Mas que coisa estranha. A Carijó amava essa galinha, deu o maior escândalo aqui em casa por conta dela esses dias.

DANIEL - Pra você ver... mas que crueldade, né? Matar a galinha tão adirada da menina.

TILÁPIA |Tem uma ideia.| - Daniel... meu filho... eu sei quem pode ajudar a Carijó. 

DANIEL - Sabe, mamãe?

TILÁPIA - É claro que sei. Eu conheço muito mais do que você sabe sobre essas coisas.

DANIEL - Que coisas?

TILÁPIA - Magia negra... amanhã mesmo... eu irei falar com a Carijó.

Cena 07 - Mansão de Soraya [NOITE]

Alguém toca a campainha. O mordomo atende. Lucas adentra ao local furiosamente.

LUCAS |Enfurecido.| - Cadê ela?

O mordomo segura Lucas.

MORDOMO - A dona Soraya está em seus aposentos, não posso permitir que invada a privacidade dela dessa maneira.

LUCAS - ME SOLTA! EU VIM AQUI PRA FALAR COM A SORAYA E É ISSO QUE EU VOU FAZER!

Soraya surge no local.

SORAYA - Que show de histeria é esse na minha sala, Lucas?

Lucas sobe as escadas, ficando frente a frente com Soraya.

LUCAS - Eu soube que você deu um jantar hoje e eu tive que vir ver com os meus próprios olhos.

SORAYA - O que você quer, Lucas? 

LUCAS - Eu fui omisso durante todo esse tempo mas agora acabou.

SORAYA - Você é mesmo muito poderoso, irmãozinho!

LUCAS - Me poupe dos seus deboches. O meu papo é claro e direto: até quando você vai fingir que não está acontecendo nada com o papai, hein? E por SUA CAUSA! Foi você, Soraya, a culpada pelo estado de saúde dele. Você sabe que ele precisa de uma cirurgia de emergência, não sabe? 

SORAYA - Não, eu não estava sabendo. E não esqueci que ele está acamado, Lucas. Eu hoje mesmo marquei uma coletiva na Me Red pra falar sobre isso.

LUCAS - Me Red... dinheiro. Sua vida se resume a isso, Soraya. Eu não vou deixar você ganhar mais um tostão as custas do nosso pai. Ainda mais com essa história de sequestro. Eu deveria ter denunciado você, mas eu fui passivo, idiota, um jumento! Ou você vira gente e honra com o seu papel de filha, ou eu invado a coletiva de imprensa e exponho toda a verdade. Todo o Brasil vai ficar sabendo quem você é de verdade, Soraya. 

SORAYA - Você é muito petulante mesmo, garoto. Se você acha que vai entrar no meu caminho, acorda. Eu não vou deixar de fazer nada por sua causa e nem tenho medo de você. 

LUCAS - E eu não quero que você tenha medo de mim, mas que tenha respeito. Eu estou cansado, Soraya. Cansado de tudo isso. |Se aproxima da irmã.| Eu te amo, Soraya. Te amo muito, minha irmã. Mas eu preciso abrir os seus olhos porque a realidade é que você está cega. Focada em mil coisas, mil projetos que vão lhe trazer dinheiro, mas lhe farão perder a sua essência e o amor de quem ainda te admira. O papai está muito decepcionado com você também, por conta da história do sequestro. Ir até o hospital é um bom começo.

Soraya abaixa a guarda.

SORAYA - Você está certo, Lucas...

Soraya se senta.

SORAYA - Meu irmão, me desculpa... eu tenho sido negligente mesmo, confesso. Eu fui uma idiota. |Os olhos de Soraya se molham. Ela olha para o irmão, como quem abre o coração.| Você está coberto de razão, mais uma vez. As pessoas têm se afastado de mim, eu... eu me sinto sozinha. |Soraya se desespera.| Às vezes eu sinto que deveria morrer.

LUCAS - Não fala isso, Soraya. Você pode contar comigo... eu serei o seu apoio se precisar.

SORAYA - Ah, irmão. Você sempre esteve comigo pra tudo. Lembra daquela vez que eu humilhei um vendedor de algodão-doce e ele me deu um chute? Você estava lá estancando o sangue do meu machucado. 

LUCAS - Você era tão irritante, Soraya. Nenhuma garota do colégio te suportava. Sempre teve muita presença.

SORAYA - Sim. E quando eu coloquei fogo no rabo do cachorro da Kátia? Eu me queimei toda, foi você quem jogou água e apagou o fogo das minhas mãos.

LUCAS - Eu sempre estive e sempre vou estar com você, minha irmã. Eu preciso te dar um abraço. A felicidade não está no dinheiro que você pode conquistar, mas nas pequenas coisas, nos pequenos gestos de afeto. Isso faz falta.

SORAYA - Oh, se faz! Agora tudo vai ser diferente, Lucas. Eu vou seguir o conselho, visitarei o papai. 

LUCAS - Eu só quero que você seja feliz, meu amor.

Lucas abraça Soraya.

SORAYA |Com os olhos fixados para a câmera em um tom assustador.| - Eu vou ter tudo o que eu preciso para ser feliz, Lucas. Tudo.

Rinha surge.

RINHA - Que barulheira toda é essa? Não se pode ter uma noite de sono nessa baderna de país que deu errado porque Deus esqueceu?

LUCAS - Vó? Quando foi que você chegou?

RINHA - Ah, é o purgantezinho!

SORAYA - Vovó, não fale assim com o meu irmãozinho. Ela veio falar comigo, coisas que eu precisava ouvir de coração.

RINHA - Que papo sentimental. Desde quando você tem coração, Soraya? Coração, amor, tristeza... tudo isso é criação industrial pra fazer dinheiro as custas de gente pobre e carente.

LUCAS - Eu não acho...

RINHA - Você não deveria achar nada, muito pelo contrário.

LUCAS - A senhora continua a mesma, vovó. Já vi que não dá pra te provar o contrário. Foi bom te ver, mas acho que vou me embora.

RINHA - E eu subirei, estava dormindo. Não façam mais tanto barulho, cansa meu sono de beleza.

Rinha sobe as escadas.

SORAYA - Lucas, fique. Sabe que esse clima de nostalgia, me acendeu uma lembrança?

LUCAS - Que lembrança, minha irmã?

SORAYA - Você sempre foi mais frágil e delicado que os outros garotos, mesmo pagando de durão pra me defender. Lembra de quando você cortava mechas do meu cabelo e usávamos na cabeça das minhas bonecas? Bem que podíamos relembrar.

LUCAS - Que horror, Soraya. Éramos estranhos demais. 

SORAYA - Vamos fazer de novo? Eu quero que você corte uma mecha do meu cabelo.

LUCAS - Ah, o que você não me pede chorando que eu não faço sorrindo... onde está a tesoura?

Soraya aponta para uma gaveta. Lucas corta uma mecha dos cabelos de Soraya.

LUCAS - Aqui... o que você vai fazer com isso?

SORAYA - Vou colar depois em alguma boneca, como fazíamos. 

LUCAS - Você ainda tem alguma boneca?

SORAYA - Não, meu amor. Mas eu queria lembrar da minha essência, que a felicidade está nas pequenas coisas. Coisas que só uma criança sabe valorizar.

SORAYA - Lucas... será que o papai vai sair bem dessa?

LUCAS - Eu espero que sim. Se eu pudesse, cessava todo esse sofrimento que ele está passando de alguma maneira, mas parece que não há nada a ser feito. |Desaba, chorando.|

SORAYA - Eu vou fazer de tudo para que o sofrimento do nosso pai se encerre, Lucas. Tudo.

LUCAS |Secando a lágrima dos olhos e se levantando.| - Pense no que conversamos, Soraya. |Olha para o relógio de pulso.| Eu preciso ir embora agora, é muito tarde. Voltarei ao hospital. Quer ir comigo?

SORAYA - Ainda não, meu bem. Mas amanhã, eu garanto.

LUCAS - Fique bem, Soraya.

Eles se despedem. Lucas se retira. Soraya caminha pela sala, ela para diante de uma mesinha no centro.

SORAYA - Eu irei sim ao hospital amanhã, Lucas. |Toma um pano nas mãos e segura a grande tesoura.| Idiota. |Sorri.|

Cena 08 - Casa de Dona Canja [NOITE]

Carijó está sentada ao sofá.

CANJA - Está tudo bem, minha neta?

CARIJÓ - Sim, minha vó. Dentro do pussíver.  

Alguém bate à porta. Canja atende.

CANJA - Oi, dona Tilápia. 

TILÁPIA - Oi, Canja. Eu soube do que aconteceu pelo Daniel e vim para ver como está a Carijó.

CARIJÓ - Oh, meu Deus! Tô muito mal. Mas obrigada por se preocupar.

TILÁPIA - O que é isso? |Olha para a panela.|

CARIJÓ - É o que restou da minha Catarina. Tão amada, tão pitica.

TILÁPIA - Ainda sobrou muito, meu Deus. Carijó, ainda dá pra fazer algo pela sua galinha. 

CARIJÓ |Arregalando os olhos, com esperanças.| - Dá?

TILÁPIA - Dá, sim. |Senta-se ao lado de Carijó, olhando no fundo de seus olhos.| Carijó, você já ouviu falar em voodoo?

A câmera foca no rosto de Carijó, que olha para Canja.

Cena 09 - Cidade [NOITE]

🎶  _"Mentes Tão Bem - Zezé Di Camargo & Luciano_ 🎶

A câmera sobrevoa a cidade, mostrando o pôr da lua e o amanhecer, com o nascer do sol. Ônibus transitam, pessoas caminham pelas ruas paulistas direcionando-se aos seus empregos. A imagem aproxima-se da casa de Canja, que toma um café com a neta.

CANJA - Você acredita mesmo que isso vai dar certo, Carijó? 

CARIJÓ - Tem qui dar, vó. Ocê não ouviu a Tilápia dizendo que era a única maneira de trazer os ossos da Catarina de volta a vida? Tive até que congelar na geladeira pras moscas num sentar em cima aqui na cozinha.

CANJA - Eu não sei, viu. Isso parece coisa pra não se mexer.

CARIJÓ - Eu num sei de nada, só sei que pela minha Catarina, eu vou até o fim do mundo. Eu vou ver se o Daniel já acordou. A Tilápia disse que ia falar pra ele vir comigo e chamar os tals dos uber.

CANJA - Boa sorte, minha neta.

Cena 10 - Estrada Esburacada [DIA]

CARIJÓ - Ave, que tanto de chacoalho é esse.

MOTORISTA - Estrada esburacada, filha. Deve fazer tempo que não passam uma patrola aqui. 

DANIEL - Carijó, o endereço é aqui.

CARIJÓ - Ocê tem troco pra cem moço?

MOTORISTA - Ajuda a nossa vida, minha filha. Eu vou aceitar esses teus cem só porque eu vi que você não é daqui de São Paulo, mas não é qualquer um que vai aceitar dinheiro assim e principalmente cédula grande.

CARIJÓ - Ave maria, mas ocês num dirige num é pra receber dinheiro, não?

DANIEL - É porque dificulta o troco, Carijó. Desculpa, seu moço. A gente vai se precaver na próxima.

Carijó e Daniel descem do carro.

DANIEL - E então? 

CARIJÓ - O quê? 

DANIEL - Quem vai primeiro?

CARIJÓ - Vai ocê que é homem.

DANIEL - Eu sou criança.

CARIJÓ - Ocê já tem até pelo nas caras. Tem nada de moleque mais.

DANIEL - Então eu vou.

CARIJÓ - Então bora juntos.

Carijó e Daniel caminham lentamente, esgueirando-se. Carijó segura a panelada feita com Catarina nas mãos. Os arbustos se movem, alguém surge pelas costas dos dois. É um homem de terno.

HOMEM - Vosmecês procuram alguém?

CARIJÓ e DANIEL - AAAAAAHHHH!!!!!!!!! |Assustados.|

Cena 11 - Casa de Soraya [DIA]

Soraya levanta-se da cama. A megera escova os dentes e penteia seus louros cabelos. Em seguida, veste-se e desce as escadas para o piso inferior. Na cozinha, senta-se a mesa.

SORAYA - Ah, vó. Que bom que lhe encontrei aqui ainda.

RINHA - Você sabe que eu não saio daqui direito. Hoje mesmo eu ia bater perna no shopping.

SORAYA - Mas não vai... eu preciso falar com a senhora. Sobre o papai.

RINHA - O que aconteceu com o Raul?

Soraya olha no fundo dos olhos de sua avó.

Cena 12 - Casa de Zug [DIA]

O homem caminha com Carijó e Daniel.

HOMEM - Oh, não se assustem! 

CARIJÓ - A gente veio falar dos tar dos voodoo.

HOMEM - Ah, isso é especialidade de minha tia-avó. Sigam-me, trarei-a para que falem com ela.

Carijó e Daniel se encaram, amedrontados.

CARIJÓ - Qual o vosso nome?

HOMEM - Perdão, fui indelicado. Me chamo Zurácio Almeida, mas pode me chamar de Zug. 

DANIEL - Zurácio? Que nome... peculiar.

ZUG - É o nome do meu pentavô.

CARIJÓ - E ele está vivo?

ZUG - Como é seu nome, moça?

CARIJÓ - É Carijó.

ZUG - Você não conhece da vida o mínimo. Deveria saber ao menos que ela não acaba.

DANIEL - Você está sempre com essa roupa? Nesse calor? Fico agoniado só de olhar.

ZUG - E como haveria de estar com outros trajes se fui sepultado com estes?

CARIJÓ |Fazendo um sinal de cruz, bezendo-se.| - Crendiospai!

Daniel arregala os olhos, assustado. Zug abre a porta de um casebre. Na parte interna, Carijó e Daniel estão em pé.

ZUG - Sentem-se. O sofá está empoeirado, mas ainda aguenta vocês. 

Os dois se sentam.

ZUG - Eu hei de buscar minha tia.

Zug sobe dois degraus que dão em outro cômodo. Em seguida, olha para trás. Um vento forte e veemente toma conta da casa. As portas e as janelas começam a se chocar, incessantemente.

CARIJÓ |Chorando.| - Daniel, minha calcinha está molhada.

DANIEL |Constrangido.| - Carijó, contenha o seu fogo! Eu pensei que você fosse moça de família.

CARIJÓ |Embargando a voz, enquanto segura a panela.| - Num é disso que eu tô falando, Daniel. Eu... eu me caguei! |Diz ela, borrada de medo.|

Daniel se choca.

A imagem congela em Carijó ao som de "Vem Morena - Dominguinhos", com um efeito amarelo brilhante.