Cena 01 - Casa de dona Tilápia [DIA]
VIVIANE - O que é que você está falando, mãe?
TILÁPIA - É isso mesmo |Aproxima-se da filha.| Faz uns 50 anos que tudo aconteceu...
FLASHBACK INÍCIO:
Tilápia é uma criança pequena em uma casa grande. Ela se aproxima de uma porta entreaberta, vozes são audíveis. Pantera Falcão entrega um bebê a Rinha.
PANTERA - Ai, a minha irmã é uma tola! Foi muito fácil tirar esse bebê dela. Na verdade, ela nem desconfia que ele nasceu... deixei apenas a outra gêmea no berço.
RINHA - Pelo menos pra alguma coisa aquele estrume da Canja serviu. É um menininho! |Brinca com o bebê.| Esse vai ser o nosso segredo. |Toma um envelope nas mãos e entrega.|
PANTERA - Mas isso é bem menos do que você me prometeu!
RINHA - Eu preciso de tempo para conseguir mais dinheiro. Mas o principal você me deu: esse bebê. Esse filho do Amado é o meu passaporte para o mundo de lá. Eu te garanto que nós duas vamos lucrar muito com esse pacto.
PANTERA - Rinha, Rinha... eu traí a minha irmã pra te trazer esse bebê. Espero mesmo que você não esteja tentando me passar para trás, vai se arrepender quando chegar as consequências, afinal, esse segredo agora é meu também.
RINHA - E você acha que vai sair impune disso tudo, meu amor? Você raptou esse bebê e o trouxe até mim.
PANTERA - Mas se for pra cometer suicídio, eu cometo atirando. Você tem muito mais a perder do que eu nessa história toda. Eu te dou uma semana para a segunda parte do dinheiro, ou o pacto vai pro ralo!
Pantera coloca Tilápia em seus braços.
PANTERA |Pegando a filha.| - Vem, meu amor!
Ela encara Rinha com um olhar intimidador. Rinha engole seco.
RINHA - Ignóbil!
*FLASHBACK FIM.*
VIVIANE - Mãe, então se isso tudo que você me disse for verdade...
TILÁPIA - É isso mesmo, minha filha... a mais pura verdade! Aquele cara que a Soraya sequestrou, o pai dela... é filho da... *DONA CANJA!*
VIVIANE - Que história absurda! Eu estou incrédula!
TILÁPIA - E pode acreditar, minha filha. Essa avó dela é mais perigosa do que você imagina. Eu tenho pena da dona Canja, mas fico com medo de ressuscitar essa história e trazer ainda mais sofrimento.
VIVIANE - Essa história está me deixando cada vez mais interessada! Eu vou me aproximar dessa tal de Soraya, já decidi.
TILÁPIA - Não, minha filha! Escuta a tua mãe. Fica na sua, tranquila. Você vai caçar pra cabeça com essa história toda! Escuta o que estou lhe dizendo.
Viviane continua pensativa.
Cena 02 - Gravadora [DIA]
Carijó pinga gotas de água no rosto da avó.
CARIJÓ - Oh, vó! Ocê acordou...
Canja levanta-se assustada. Rinha está em pé diante dela, as duas ficam frente a frente.
CANJA - Vo-vo... você.
RINHA - Que show, Canjica! Vejo que não perdeu a mania de espetacularizar as coisas. Aliás, não tem nada mais brasileiro que drama excessivo.
CANJA - Carijó, vamos embora desse lugar. Está irrespirável, fico enojada.
RINHA - Não é nada cortês deixar uma pergunta sem resposta, Canjinha. Mas eu entendo que é exigir muito de alguém que foi criada para limpar privadas.
CANJA - O que você sabe sobre moral? Você sabe que o Amado nunca te desejou como mulher, sempre fez tudo pra minar a nossa relação das maneiras mais baixas possíveis.
RINHA - Nunca, é? Era a mim que ele dedicava seus dias. Ele brincou com você... que tolinha! Você é patética em todos os aspectos.
Canja dá um tapa no rosto de Rinha, que tenta revidar. Romeu intervém.
ROMEU - Já chega! Não imaginava que vocês se conheciam e tampouco que tinham tanta... intimidade. Acontece que aqui não é lugar pra algazarra e eu não entendi o que vocês estão fazendo aqui ainda. Terminei tudo com você, Soraya. |Olha para a mulher.|
SORAYA - Eu vim em missão de paz, mas depois desse tapa que a galinha mãe deu em vovó, duvido muito que essa conversa mantenha o nível.
CARIJÓ - Lave a sua boca pra falar de eu ou da minha avó, ou ocê vai se arrepender!
RINHA |Gargalhando.| - Mas a que espécie pertence essa garota e o que ela está fazendo aqui? Em uma gravadora requisitada como a Rô Music? Ela faz parte do cast de inspiração pra trilha sonora do remake de Pantanal?
SORAYA - Juma Marruá cometeria suicídio com uma associação dessas, vovó.
CARIJÓ - Cale a boca ocê também, sua galinha velha do rabo depenado! Antes que eu vire onça e use essa pele flácida e enrugada das suas fuças como banha de porco pra fazer sabão!
RINHA |Incrédula, com as mãos no peito.| - Que garota petulante!
CANJA - Não vale a pena sujar as mãos com isso, minha neta!
SORAYA - Se poupe e nos poupe, Carijó. Eu vim justamente falar com você mesmo. Cansei dessas nossas intrigas, quero paz! E é por isso que eu vou oferecer um jantar em sua homenagem hoje na minha casa.
CARIJÓ - O quê? Mas o que é isso agora?
ROMEU - Soraya, eu não sei o que você está pretendendo, mas... |É interrompido.|
SORAYA - Eu não estou pretendendo nada, gente! A minha única pretensão nessa história toda é acabar com essa rivalidade idiota que se formou entre a gente. Você também é meu convidado de honra, Romeu!
CANJA - Não aceita nada que venha dessa gente, minha filha.
CARIJÓ - A gente precisa mostrar que é maior que elas, vó. Eu irei!
SORAYA |Sorri.| - Ótimo, eu tenho certeza que esta noite será inesquecível!
Cena 03 - Hospital [DIA]
Lucas está no corredor. Uma enfermeira se aproxima.
ENFERMEIRA - Venha comigo, o paciente lhe espera.
Um instrumental emocionante permeia a cena. A câmera dá enfoque no rosto de Lucas, que caminha. Seus cabelos agitam-se conforme caminha. Choroso, ele para ao lado da cama.
LUCAS|Emocionado.| - Oh, paizinho! Meu coração dói te vendo assim.
Raul também se emociona. Uma lágrima escorre pelo seu rosto.
RAUL |Balbucia.| - O... o... bri... gado por estar aqui...
LUCAS - Eu sei que o senhor deve estar com raiva de mim, confesso que fui passiva em relação a Soraya. Mas saiba de uma coisa: o meu amor pelo senhor é infinito e toda essa situação serve como um choque para mim também.
RAUL |Sussurra.| - Eu não tenho raiva de você, meu filho. Estaremos sempre juntos. Fico feliz que um de meus filhos tenha dado certo, ao menos.
LUCAS - Eu não deveria estar falando com você sobre isso. A situação é bem tensa. O senhor precisa controlar sua pressão pra cirurgia poder ser realizada.
RAUL |Sussurra.| - Me dê um abraço.
Lucas se aproxima do pai, que está limitado. O moço deita-se delicadamente, acariciando os cabelos do senhor. O instrumental é substituído pelo ruído dos aparelhos de frequência cardíaca.
Cena 04 - Cozinha do Casarão de Soraya [TARDE]
A comida está pronta. Uma serviçal se aproxima de Tainá.
TAINÁ - Eu preciso que você fique e faça os últimos preparos para o jantar. Acabei de descobrir que meu pai adotivo está passando mal e foi ao hospital, preciso vê-lo.
SERVIÇAL - Claro, claro. Vá sem medo que o resto eu cuido.
TAINÁ - Muito obrigada.
Tainá toma sua galinha nos braços e se retira.
Cena 05 - Casa de Canja [TARDE]
Carijó observa seus vestidos.
CARIJÓ - Mexeram nas minhas coisas.
CANJA - Parece que entraram na casa mesmo, mas não levaram nada. Cadê a Catarina?
CARIJÓ - Verdade, eu num vi ela desde que chegamos!
Carijó olha em todos os cômodos.
CARIJÓ - Catarina! Ai, meu Deus! O que será que foi feito da minha menina?
Daniel bate na porta com veemência.
CANJA - Daniel, aconteceu alguma coisa com a sua mãe?
DANIEL - Não, tia. Tá tudo bem com ela. Eu é que tenho que contar algo a vocês. Eu vi um cara suspeito hoje aqui na casa de vocês logo assim que saíram.
Efeito de impacto nos rosto de Canja e Carijó, que entreolham-se.
Cena 06 - Mansão de Soraya [TARDE]
Soraya abre a porta, adentrando com a avó.
SORAYA - Bom, a senhora já está acostumada e conhece tudo aqui. Não preciso fazer cerimônia.
RINHA - Ah, netinha. Você tem tanto bom gosto... cadê a petulante da sua irmã?
SORAYA - O Lucas? Há semanas que não o vejo. Ele é meio que figurante na minha vida.
RINHA |Gargalha.| - Com toda a certeza! Menino sonso e sem sal. Você é de longe a minha neta que mais parece comigo... sabe o que quer e eu admiro pessoas decididas.
SORAYA - E eu te tenho como inspiração, amore!
Soraya beija a avó e direciona-se a um mordomo.
SORAYA - Supervise a cozinha, quero tudo perfeito essa noite!
MORDOMO - Certo, dona Soraya. |Retira-se.|
SORAYA - Vou subir pra tomar uma ducha, vózinha! Estou colando de tanta sujeira.
RINHA - Vá, meu amor.
Soraya sobe as escadas. Rinha se mostra pensativa, observando os móveis da sala.
Cena 07 - Quarto de Soraya [TARDE]
Perfumada com seus cosméticos, a perua abre o imenso closet. Entre roupas e sapatos, observa cabelos castanhos levemente descoloridos.
SORAYA |Grita.| - AH!
Uma mão feminina e de unhas pintadas tapa sua boca. É Viviane.
VIVIANE - Se eu fosse você, ficava bem quietinha. Não imagina o esforço que eu fiz pra burlar a segurança desse condomínio e entrar aqui.
Cena 08 - Casa de Canja [TARDE]
CARIJÓ - Mas que pessoa teria motivo pra issu?
CANJA - Carijó, fica calma. Eu acho que esse cara levou a Catarina. Ela foi a única coisa que sumiu aqui.
DANIEL - É verdade, Carijó. Eu vi ele subindo na moto e só levava a galinha mesmo.
CARIJÓ - Ai, sinhô! |Olha para os céus.| Protege minha Catarina, papai! Dê sabedoria pra ela sair dessa situação e pra mim encontrar ela.
CANJA - A gente vai encontrar a Catarina, pode ficar tranquila que nada de ruim vai acontecer a ela, minha filha.
DANIEL - Eu posso ajudar também, estou terminando um curso de detetive. Essa seria a minha primeira investigação, uma coisa a la Fuga das Galinhas, vou amar!
CARIJÓ - Se ocê puder me ajudar, eu agradeço muito, Daniel! Vejo que ocê não é insuportável igual a Viviane, sua irmã.
DANIEL - Eu é que agradeço, essa é a oportunidade que eu precisava pra mostrar a que vim. Vou começar agora a investigação!
Daniel se retira. Carijó continua chorando sobre o sofá. Canja a consola.
CANJA - Minha filha, tem certeza que vai querer ir ao jantar? Com tudo isso que está acontecendo?
CARIJÓ - Vontade eu num tenho não, vó. Mas se disse que ia, eu vou. Vou estar triste, pensando na minha Catarina perdida nessas ruas movimentadas, mas até ela ia querer que eu ia.
CANJA - Mas não precisa ir se não quiser...
CARIJÓ - Talvez eu esqueça um pouco, o Romeu vai estar lá e eu gosto dele.
CANJA - Está certo. |Beija a testa da neta.|
Cena 09 - Closet de Soraya [TARDE]
Viviane continua tapando a boca de Soraya.
VIVIANE - Eu vou te soltar, mas quero que você continue quietinha assim. Eu posso te entregar pra polícia, sei coisas demais sobre você. Conhece o Abílio Eduardo? Ou melhor, Bidu?
Viviane solta Soraya, que toma certa distância. Soraya está pálida.
SORAYA - O que você quer de mim?
VIVIANE - Calma, eu só quero ser sua amiga. A primeira coisa que eu desejo é que você realize o meu cadastro na portaria do seu condomínio. Como amiga de uma das moradoras daqui, fica estranho eu ter que entrar pela porta dos fundos sempre, não acha?
SORAYA - Você diz que conhece o Bidu... o que você sabe exatamente?
VIVIANE - Não precisa se preocupar com o Bidu. Ele está morto, não é mesmo?
SORAYA - Morto. Isso, ele está morto.
VIVIANE - Ah, que gafe! Esqueci de me apresentar. O meu nome é Viviane... |Estende a mão.|
SORAYA - Você vai me entregar pra polícia?
VIVIANE - Eu sou uma boa amiga... jamais faria isso. Mas toda relação exige troca, sabe? Você vai ter que pagar de alguma maneira pelo meu silêncio... você fatura muito com a Me Red, não é? Quero ser mais que sua amiga, sua sócia.
SORAYA |Gargalha.| - Sócia? Você bateu a cabeça, só pode.
VIVIANE - Não bati, Soraya. E nem posso, se não esqueceria tudo o que sei sobre você. Esqueci de te dar um aviso: não tente nada contra mim. Você pode ter dado um sumiço no Bidu, ter sequestrado o próprio pai e com certeza tem mais sujeira embaixo desse tapete, mas, se eu sumir, uma cartinha que escrevi vai parar nas mãos da polícia e aí você vai se complicar muito mais.
Soraya engole seco.
SORAYA - Eu não posso falar com você agora. Estou me preparando para um jantar.
VIVIANE - Bom apetite. Fui mal educada mesmo de chegar sem avisar, mas agora você já sabe que posso chegar aqui a qualquer momento. Desça comigo, eu estava falando sério quando disse que queria que você me cadastrasse na portaria do condomínio.
Viviane se posiciona na porta do closet, esperando que Soraya saia. Soraya sai lentamente, como uma cobra rasteira.
Cena 10 - Portaria do Condomínio [TARDE]
Viviane realiza o reconhecimento facial, sendo liberada.
SORAYA - Satisfeita, querida?
VIVIANE - Ainda não, mas depois conversamos sobre a minha insatisfação. Curta o seu jantar, amoreco! Sou foxlover também, não quero o seu mal. Até mais ver!
Viviane vira as costas, entrando em um táxi.
SORAYA |Fria.| - Era só o que me faltava mesmo...
Cena 11 - Ruas de São Paulo [NOITE]
O dia aproxima-se do seu fim, escurecendo. Romeu estaciona o carro diante do casarão de Soraya. Em seguida, abre a porta traseira, de onde saem Canja e Carijó.
CARIJÓ - Ave maria, nunca tinha visto uma casa grande assim. Oh, vó. Eu só num entendi porque ocê trabalhava aqui mesmo odiando a tal da Rinha.
CANJA - É uma longa história, comecei a trabalhar aqui pra ficar mais próxima do Amado depois que ele se casou com a Rinha.
CARIJÓ - Ocê virou amante dele?
CANJA - É, Carijó. Me arrependo, deveria ter me valorizado mais. O amor nos deixa cegos.
CARIJÓ - Que história ruim! Imagine ficar com os restos de um amô que era pra ser o da sua vida...
ROMEU - Quase nunca te vi aqui na casa e aquele dia que bati na sua porta pra avisar que a Carijó estava no hospital, a senhora nem me reconheceu.
CANJA - Eu acho que você não vinha muito até aqui e, querendo ou não, eu era empregada. Essa casa é toda segregada, os empregados não ficam juntos dos patrões.
CARIJÓ - Agora que ocê falou tudo isso, vó. Num sei se quero ir.
CANJA - Carijó, eu só vim por sua causa.
ROMEU - A Canja tem razão, Carijó. Agora que nós já estamos aqui, não há tempo para recuar. Eu também vim mais porque você disse que viria.
CARIJÓ - Ocês têm razão. Eu vou na frente, já que fui teimosa.
Carijó bate na porta do casarão, que se abre. Um mordomo os recebe.
Cena 12 - Sala de Estar [NOITE]
Soraya recebe Canja, Romeu e Carijó.
SORAYA |Sorrindo.| - Até que enfim, pensei que não viriam mais.
CARIJÓ - Que casão ocê tem Soraya, estou chocada.
SORAYA - Aqui é tudo de muito bom gosto, não me espanta em nada que você jamais tenha visto algo igual anteriormente.
Rinha desce as escadas.
RINHA - Romeu... |Olha para Romeu.| Coisinha... |Dirige-se a Carijó.| Canjiquinha... |Olha para Canja.| amei sua roupa, Canja. |Encosta no tecido.| Tecido grosso, certamente absorve muita água. Anota pras compras do próximo mês, Soraya. As serviçais vão amar usar como pano de chão.
Soraya gargalha internamente.
SORAYA |Repreendendo.| - Não tem graça, vovó. Essa coisinha |Olha para Carijó.| e essa encardida mumificada também são gente, apesar de não parecerem, e merecem respeito.
O mordomo surge no local.
MORDOMO - Senhora, o jantar está servido.
RINHA - Há mais algum convidado faltando, netinha?
SORAYA - Não, vovó. Estão todos aqui. Me acompanhem...
Cena 13 - Hospital - Recepção [NOITE]
Tainá conversa com uma das recepcionistas. Lucas a comprimenta de longe, mas Tainá não a vê. Ela se aproxima.
LUCAS - Tainá, aconteceu algo?
TAINÁ - Seu Lucas, o senhor por aqui?
LUCAS - Não soube o que aconteceu com o meu pai?
TAINÁ - Ele está doente, não é? Coisa horrorosa.
LUCAS - É, muito mal. Vai ter que passar por uma cirurgia muito arriscada! Eu estou com tanto medo!
TAINÁ - Ai, desejo tudo de bom pra ele. Eu vim acompanhar o meu pai, parece que os ânimos esquentaram lá em casa, ele discutiu com o filho e... teve infarto, aparentemente.
LUCAS - Que coisa horrorosa! Tenho fé de que vai dar tudo certo pra ele e pro meu pai.
TAINÁ - Mas olha como são as coisas, não é? Você aqui preocupadíssimo com o seu pai e a sua irmã, Soraya, dando jantar na mansão dela.
Lucas muda rapidamente de expressão, ficando surpreso com o que ouve.
LUCAS - Como é que é? Pera... pera... deixa eu ver se eu entendi direito... o meu pai está aqui correndo risco de vida e a Soraya está dando uma festa na casa dela?
Lucas está sério, com o cenho franzido e um olhar de esguelha.
Cena 14 - Sala de Jantar [NOITE]
O mordomo destampa as comidas. Carijó salta os olhos.
CARIJÓ - Perna de frango? Eu simplesmente amu.
Sem modos, Carijó ataca uma coxa de frango, comendo com veemência. Todos a olham chocados. Romeu fica incrédulo, Rinha boquiaberta, Canja sorri, bem como Soraya que a observa com um sorriso interno.
SORAYA - Vai com calma, Carijó.
RINHA - No caso dela é quase canibalismo...
ROMEU |Incrédulo.| - Eu estou sem acreditar...
Carijó continua comendo, devorando o frango. Soraya interrompe o ato.
SORAYA - Carijó, vejo que gosta realmente da galinha Catarina, é esse o nome...? De todas as formas... até mesmo empanada.
Carijó solta o osso de frango que roía. Canja fecha o semblante risonho, ficando chocada. Um instrumental tenso permeia a cena. Carijó dá um grito estridente, sua feição de satisfação pela comida saborosa transforma-se rapidamente em um feição de horror.
SORAYA - É isso mesmo, Carijó. Esse frango que você come com tanto gosto... é a sua amada Catarina!
CARIJÓ - Ca... ca... tarina...?
Carijó olha para a panela com o frango moído em pedacinhos e para o semblante festivo de Soraya, que tapa o sorriso com a mão. Seus olhos estão encharcados, seu rosto vibra com horror e incredulidade.
A imagem congela em Carijó com um efeito amarelo brilhante.