Após a morte trágica de sua mãe no interior de Mato Grosso, Carijó fugiu para São Paulo, onde acabou atropelada por Romeu e teve sua galinha Catarina levada na confusão. Depois de salvar Carijó de um esquema de tráfico de órgãos no hospital, Romeu acabou surrado por capoeiristas a mando do médico corrupto e foi levado para a casa de Canja. Lá, a vilã Soraya apareceu e agrediu Carijó, gerando uma grande briga que resultou na demissão de Canja e no confinamento de Romeu por Soraya. Enquanto Canja chorava a descoberta da morte de dona Galinha e relembrava o passado, o empresário Raul tomava uma decisão inacreditável para punir a filha Soraya: deixar toda a sua fortuna para a galinha Catarina. Como Soraya reagirá ao saber que perdeu sua herança para uma galinha?
Cena 1 - Mansão de Raul [NOITE]
RAUL - Para ela! |Aponta para Catarina.|
LEANDRO |INCRÉDULO.| - PARA A GALINHA?!
EMPREGADA |Balbuciando.| - Meu Deus...
Catarina cacareja.
LEANDRO - Espere, deixa eu ver se eu entendi bem... o senhor quer deixar toda a sua fortuna para esta galinha?
RAUL - Exatamente, Leandro. Quais são os procedimentos? Não quero deixar nada para os meus filhos! Chega de boa vida, eles terão que trabalhar!
LEANDRO - Mas que situação foi essa que você disse? Porque se for grave, você pode excluí-los 100% do testamento. Do contrário, eles ainda poderão ter posse de metade do seu patrimônio.
RAUL - Sequestro, meu amigo. A Soraya me sequestrou pra impulsionar a marca de cosméticos dela, veja que absurdo!
LEANDRO - A SORAYA? Aquela menininha linda foi capaz disso?
RAUL - Você é visita, nunca a viu com a perspectiva que tenho como pai. Ela sempre foi muito gananciosa, isso sempre me preocupou... mas agora, ela passou de TODOS os limites! Não há como fingir que nada aconteceu.
LEANDRO - Eu entendo perfeitamente, meu amigo. Farei o que for preciso. É tarde, mas brevemente darei início aos trâmites. Lhe contatarei, pode ter certeza.
RAUL - Certo, sempre bom ter um amigo advogado em quem eu possa confiar |Sorri.|
Cena 2 - Gravadora Rô Music [NOITE]
Uma pessoa adentro ao local. No escuro, lança seu molho de chaves em uma mesa e se joga sobre uma poltrona. Samula surge das sombras.
SAMULA - Chegou, amoreco?
PESSOA - Ai que susto, viado!
SAMULA - Você?
SORAYA - Euzinha, flor. Pensou que fosse quem?
SAMULA - Pensei que fosse o Romeu.
SORAYA - Aposto que já ia se arreganhar pro meu homem. Bibas como você costumam ter um fogo infinito.
SAMULA - Ai, que nojo, mulher! Nem acho o Romeu grandes coisas, quem se oferece pra ele é você. E eu tenho um bofe muito melhor. |Abre o celular e mostra uma foto do rapaz.| Gostou? O nome dele é *Thiago*, muito melhor que o seu Romeu!
SORAYA - Ele não me é estranho...
SAMULA - Conhece? |Estranhando.|
SORAYA - Devo ter visto na internet, com certeza. Para de se rebaixar pegando foto de homem no pinterest, mulher!
SAMULA - Se toca, amore!
SORAYA - E outra coisinha, flor: fique você sabendo que eu nunca precisei me oferecer pra homem nenhum. Tenho tudo o que quero na hora que quero.
SAMULA - Tem certeza? Certeza mesmo? Porque fontes seguras me contaram que seu pai quer de deserdar em favor de uma galinha!
SORAYA |Incrédula.| - O quê?
SAMULA - Lhe faltou palavras, fofa? Tentou me arrasar e saiu arrasada, nem amo.
SORAYA - Cala a boca, viado dos infernos. Eu preciso pensar... |Silêncio.| Como foi que você ficou sabendo disso, hein?
SAMULA - Minha irmã é empregada da casa dele, nêga. A Roseli que me contou tudo.
SORAYA - Então... então é verdade...
SAMULA - Nem deveria ter lhe contado nada. Queria que ele chegasse já te humilhando e dando a posse de tudo pra tal galinha, mas não consigo segurar fofoca.
SORAYA - Você vai vir comigo. AGORA!
SAMULA - Eu? Você nem disse a que veio, primeiramente.
SORAYA - Vim resolver coisas para o Romeu, ele está indisposto. Agora venha... e sem pestanejar! Aqui você é criado e eu sou patroa, não lhe devo satisfações.
SAMULA - Ai, que imunda! Vamos logo antes que eu me arrependa. Eu tenho que fazer o quê? |Retirando-se com Soraya.|
SORAYA - Só dirige. Tô nervosa demais pra encostar nesse volante.
Cena 3 - Casa de dona Canja - Quarto de Carijó [NOITE]
Carijó está deitada em sua cama, a mesma em que Romeu esteve deitado. A moça está de pernas abertas e um vestido, ainda que coberta pelo lençol. Suas mãos estão debaixo do lençol, ela urra. Embaçando, Carijó transpira intensamente, ao som de seus ruídos orais. Movimentando-se intensamente, a câmera se aproxima do rosto de Carijó, que está boquiaberta e de olhos fechados, para o teto.
Fugindo do cenário, Carijó está em uma sala. Romeu aparece por trás, agarrando-a. O homem está caracterizado de maneira peculiar, apresenta trajes regionais de países estrangeiros e um bigode fino.
ROMEU - What is a damsel doing alone? Isn't she afraid of predators?
CARIJÓ - Ãn?
ROMEU - I noticed the young lady isn't from around here. Would you like to play with me? I guarantee you'll be very happy...
CARIJÓ - Ocê tá falando o quê? É gringo? Só pode sê! Eu me sinto muito atraída por estrangeiros.
ROMEU - Save the words and grab me.
Romeu beija Carijó a força. Carijó se entrega.
CARIJÓ - Ai, ai! Me destrói!
ROMEU - Wow, that's cool!
A imaginação fértil de Carijó se cessa. Os fluídos corporais deixam Carijó em estado de transe. O choque encerra-se gradativamente com um grunhido estilhaçante da mocinha. A câmera aproxima-se de seu cobertor, que está úmido. Carijó se levanta, troncha, trêmula, delirando de prazer.
CARIJÓ |Ofegante.| - Ãin!
Cena 4 - Casa de Raul [NOITE]
Soraya chuta a porta, invadindo a casa do pai.
SORAYA - CADÊ O IDIOTA DO MEU PAI?
EMPREGADA - Seu pai acabou de ir deitar, Soraya.
Raul surge com a galinha em seus braços.
RAUL - Que gritaria é essa na minha casa?
SORAYA - Resolveu aparecer não é, velho?
RAUL - Soraya, o que foi desta vez? |Olha para Samula.| Este é o novo capanga que contratou para me sequestrar?
SAMULA - Eu, hein! Tenho nada a ver com isso e estou gag com a revelação... Soraya, você sequestrou o próprio pai?
SORAYA - Cala a boca, viado, que a conversa ainda não chegou no banheirão! Te manca, atrevido.
Samula reconhece a própria insignificância, calando-se.
SORAYA - EU VIM FALAR MESMO COM O SENHOR! COM VOCÊ, NA VERDADE! NÃO TEM COMO HAVER RESPEITO AQUI!
RAUL - É com o senhor. Sou o seu pai e não o teu filho pra você falar comigo da maneira que lhe é conveniente.
SORAYA - Eu tô foda-se, seu velhote! Eu quero meu dinheiro!
RAUL - As conversas voam por aqui, não é? |Olha para a empregada futriqueira.| Do que você sabe?
SORAYA - Já sei que você está querendo passar tudo pra essa galinha maldita. Mas saiba de uma coisa... se o senhor... |É interrompida.|
RAUL - CHEGA, SORAYA! VOCÊ NÃO VAI FALAR NADA! EU ESTOU NA MINHA CASA E VOCÊ NÃO FOI CONVIDADA, PORTANTO RETIRE-SE!
SORAYA - EU NEM COMECEI A FALAR O QUE TENHO PRA FALAR! SEI QUE NA SUA IDADE A ANSIEDADE TOMA CONTA, FALTA POUCO TEMPO PARA A MORTE, MAS AGUENTA O CORAÇÃO, SEU FALHADO! NÃO SOU GERIATRA PRA DEITAR PRA IDOSO BIRRENTO!
RAUL - CHEGA!
Raul dá um tapa, desmontando Soraya. O homem continua. A sequência de sopapos se intensifica. Lentamente, o homem fica ofegante.
SORAYA - ME SOLTA, SEU COVARDE! ME SOLTA PRA VOCÊ VER SE EU NÃO TE MANDO DESSA PRA MELHOR!
RAUL - VAI BATER NO SEU PAI, SUA FILHA INGRATA? EU TENHO VERGONHA DE TER UMA FILHA COMO VOCÊ!
SORAYA - VOCÊ É UM VERME, SE TEM ALGUÉM AQUI QUE TEM VERGONHA ESSE ALGUÉM SOU EU!
Raul está por cima de Soraya, desferindo-lhe tapas de coerção.
RAUL - AAAAAAAAHHAHAHAHAGAA! OLHA QUEM TÁ POR CIMA AGORA! É O VERME QUE COLOCOU NO MUNDO ESSA CRIATURA ASSUSTADORA QUE VOCÊ É.
SORAYA - SE VOCÊ PENSA QUE ISSO VAI FICAR ASSIM, ESTÁ ENGANADO! EU MATO O SENHOR E AINDA PEGO ESSA GALINHA DOS INFERNOS NO VELÓRIO!
Raul começa a passar mal. Soraya empurra o homem de cima de seu corpo, aproveitando-se do momento de fragilidade. Um instrumental de tensão toma conta da cena. Soraya se levanta, o pai coloca as mãos no peitoral, mostrando que sente dor.
SORAYA |Olhando para o chão, onde está seu pai.| - Quem está por cima agora? DIGA! O SENHOR É NADA! EU ESPERO QUE ISSO SEJA DE VERDADE, QUE NÃO ESTEJA FINGINDO, QUE VOCÊ MORRA!
SAMULA - NÃO VÃO FAZER NADA? |Direciona-se às empregadas.| LIGUEM PARA O HOSPITAL, ESTE HOMEM ESTÁ PASSANDO MAL, ELE PODE MORRER!
SORAYA - *NÃO*! NINGUÉM TOCA NESTE TELEFONE! |Corre para o dispositivo, impedindo que alguém o disque.| A MORTE DO MEU PAI É NECESSÁRIA! Vamos ter gastos com o velório, com a lápide, com as coroas de flores, mas é isso ou eu perco tudo. Eu não vou deixar nenhum de vocês destruírem o meu futuro! Aqui ninguém vai chamar o pronto socorro!
EMPREGADA - E QUEM VOCÊ PENSA QUE É, SUA OXIGENADA? EU VOU LIGAR SIM, EU SOU GLADYS DO CABUÇU E COMIGO NINGUÉM SE CRIA! SAI DA MINHA FRENTE OU EU TIRO ESSE SEU APLIQUE TORTO!
SORAYA - SUA ENCARDIDA, TORTO É O SEU NARIZ!
EMPREGADA - RACISMO NÃO, BRASIL!
A empregada agarra Soraya pelos cabelos. Enquanto isso, Samula disca com o telefone para o hospital.
SAMULA - ALÔ? É URGENTE! EU PRECISO DE AJUDA. O HOMEM ESTÁ INFARTANDO AQUI.
A empregada lança Soraya contra um quarto e tranca a porta por fora.
EMPREGADA - SE MANCA, VEY! AQUI É NEGONA, PORRA! ABAIXO A BRANQUITUDE!
SORAYA - POR ISSO QUE EU DIGO QUE ESSE PAÍS NÃO VAI PRA FRENTE! ENQUANTO TIVER NEGRO AQUI, A AGENDA WOKE VAI SE PERPETUAR! CHEGA DE LACRES! CHEGA DE MILITÂNCIA! MUDA, BRASIL!
SAMULA - DÁ PRA CALAR A BOCA, INFERNO? ESTOU TENTANDO OUVIR A ATENDENTE DO SAMU.
EMPREGADA - ME CALEI SÓ PORQUE VOCÊ É MEU IRMÃO DE COR! SE FOSSE UM BRANCO ME MANDANDO CALAR A BOCA, JÁ TINHA TE JOGADO DAQUI PRA FORA!
SAMULA - E PARA DE GRITAR!
EMPREGADA - PASSOU DOS LIMITES. NÃO VOU DEIXAR NENHUM HOMEM DIZER COMO DEVO OU NÃO ME PORTAR!
A empregada agarra Samula pelos cabelos e o joga em um quarto vizinho ao de Soraya.
Sem esperanças, Raul continua agonizando no chão.
RAUL - Ca-ca-ca-catharina.
Cena 5 - Hospital [NOITE]
Viviane conversa com seus colegas de trabalho.
VIVIANE - O meu namorado é um tesão. Que homem, meu Deus! Que homem!
RECEPCIONISTA - Certeza que é mais um daqueles drogadinhos que você arruma na rua e pega pra cuidar.
VIVIANE - E se for? Ele paga muito bem pelo prato que come e come muito!
RECEPCIONISTA - Que nojo! Essa gente nem toma banho, tem ares de pessoas sujas.
VIVIANE - Isso tem nome: preconceito.
FUNCIONÁRIO - E quem é esse cara?
VIVIANE - Segredo de estado, meu amor! Homem que assim é difícil de achar, então tem que ficar em segredo. Depois que eu provei do bacalhau que ele carrega consigo, nem caviar sacia a minha vontade de mais!
Repentinamente, um ser surge entre as sombras, ficando cara a cara com as recepcionistas do hospital. É Catarina. Catarina carrega um bilhete no bico.
CATARINA - Popó?
RECEPCIONISTA - Viviane, olha aquilo!
VIVIANE - Que susto. O que essa galinha está fazendo aqui?
RECEPCIONISTA - Não sei. Veja que ela traz um bilhete no bico. Será um recado?
VIVIANE - Recado não é, certamente... quem traz recado é pombo-correio, galinha com bilhete na boca só pode ser macumba. Não toque nisso, minha mãe é umbandista.
Um funcionário do hospital se manifesta.
FUNCIONÁRIO - Marias mijonas! Eu pego o bilhete.
VIVIANE - Pegue, sabichão... mas tenha a consciência de que terás sete anos de azar.
FUNCIONÁRIO - Não tenho medo de macumba, não. Quem me protege não dorme!
VIVIANE e RECEPCIONISTA |Em coro.| - Hiberna!
O homem tira o bilhete de Catarina.
FUNCIONÁRIO - Um homem está passando mal próximo daqui e precisa de uma ambulância. Aqui consta o endereço.
VIVIANE - Não tinha meio de comunicação melhor, não?
FUNCIONÁRIO - Não tinha, estão lhe omitindo socorro. Estamos aqui pra salvar vidas ou não? Preparem uma ambulância para a ocorrência... AGORA!
Cena 6 - Praça [NOITE]
Numa praça, próximo ao hospital. Carijó caminha, mostrando que perdeu o sono. Ela permite que o vento acaricie sua face e disperse seus ondulados cabelos. O clima de paz se cessa quando a moça ouve um barulho estranho.
CARIJÓ - QUEM TÁ AÍ? |GRITA.|
Atônita, Carijó se vira lentamente. Uma leve tensão paira no ambiente. A mocinha continua virando, em câmera lenta. Ela bate os olhos sobre uma figura que, em um primeiro instante, lhe é assustadora. A mulher se choca com o que vê, mas se emociona também. Carijó está feliz. Ela é feliz.
CARIJÓ |Recuperando-se do susto./Emocionada.| - Ca-ca-catarina?
A galinha cisca. Carijó sorri, com os olhos lacrimejando.
Ao som de _"Vem Morena ‐ Dominguinhos"_, a imagem congela em Carijó ficando em câmera lenta acompanhada de um efeito amarelo brilhante.