Carijó - Capítulo 04
Anteriormente em "Carijó":
Após a morte trágica de sua mãe no interior de Mato Grosso, Carijó fugiu para São Paulo, onde acabou atropelada por Romeu e perdeu sua galinha Catarina. Romeu salvou Carijó de um esquema de tráfico de órgãos no hospital e a levou para a casa de sua avó, Canja, mas acabou surrado por capoeiristas a mando do médico corrupto. Enquanto o empresário Raul prometia deserdar a vilã Soraya pelo falso sequestro, a própria Soraya foi buscar Romeu e deu um tapa em Carijó. Como Carijó reagirá ao ataque de Soraya?
Fique agora com o capítulo de hoje.
*CARIJÓ: Capítulo 04...*
Cena 1 - Casa de dona Canja [NOITE]
SORAYA - O que é isso? NUNCA MAIS ENCOSTE NO MEU HOMEM!
Soraya dá um tapa na cara de Carijó, que cai no chão. Romeu fica atônito. Canja não acredita no que vê. Soraya se mantém séria. Carijó, assustada.
CARIJÓ - O que é isso? Ocê tá louca, menina? Como é que entra na casa dos outro lascando tapa assim?
SORAYA ‐ É o que você merece por se oferecer pra homem casado, sua rata!
CARIJÓ - Rata é você. Primeirarmente que io só estava ajudando o seu noivo que levou uma surra, segundo que eu não estou interessadar nele!
SORAYA - Ainda bem que não está, porque sofreria. Olhe-se no espelho... olha o seu linguajar, olha como você fala. Agora olhe para o Romeu. Você acha mesmo que ele se interessaria por uma pessoa como você? Você é nada, é reles.
CARIJÓ - Se ele se interessou pur uma tábua que nem ocê. Ao menos eu tenho bunda e peitu. Ocê, além de não ter, ainda é flácida.
SORAYA |Indignada.| - O quê? Você me chamou de flácida? Ah, eu vou quebrar a tua cara, garota.
CARIJÓ - Entãr vem! Trabalhei na lida, lhe reduzo a pó com um sopro.
Soraya avança em Carijó, que lhe dá uma rasteira. Carijó está por cima de Soraya, desferindo-lhe socos. Dona Canja aparta a briga.
SORAYA - AH, EU MATO ESSA VADIINHA COM AS MINHAS PRÓPRIAS MÃOS!
CARIJÓ - Quer levar mais tapa? Se eu fosse ocê, saía daqui agora.
CANJA - Carijó, pare! Soraya, leve o seu noivo daqui.
Soraya, com a ajuda de seu motorista, carrega Romeu dali.
SORAYA - E não pense que isso vai ficar por isso mesmo, sua cadelinha! De hoje em diante a sua vida aqui nessa cidade vai ser um inferno.
CARIJÓ - Eu num tenho medo docê! E quer sabê mais? Io quero que vire mesmo um inferno. Vô mostrar que também posso sê um demonho, aí o jogo fica de iguar pra iguar! Agora vai. Antes que io decida ir aí lhe encher de sopapos mais uma vez.
Soraya olha para dona Canja.
SORAYA - E você não precisa mais voltar a trabalhar na minha casa. Não quero nada que lembre esta moça inconveniente na minha casa. |Olha para Carijó.|
Soraya coloca Romeu no carro, dando, em seguida, partida no veículo.
CANJA - Ai, Carijó... vamos entrar.
Parte interna da casa.
CANJA - Carijó, você não tem noção da enrascada que nos metemos. Eu trabalhava pra essa moça, a Soraya, como empregada. Agora eu estou desempregada...
CARIJÓ |Assustada.| - Avó, num acredito que fiz isso. Eu hei de arrumar um emprego pra tentar pagar as contas da casa.
CANJA - Eu sei que você não sabia, minha flor. Essa menina também é louca, invade a casa dos outros desferindo tapas gratuitos. Aquele Romeu é outro cafajeste, viu a briga acontecendo e nem falou nada.
Carijó fica amedrontada.
CARIJÓ - E agora, vó? Como é que a gente vai fazer pra pagar as contas de casa?
CANJA - Fica, tranquila, minha neta. Eu tenho algumas reservas que dão para quebrar os galhos nos próximos meses. Além da minha aposentadoria que saiu recentemente. Com a gente arrumando um trabalho, dá pra viver de forma estável.
CARIJÓ - Não, vó. Ocê num pode mais trabalhar. Precisa descansar agora.
CANJA - Minha neta, eu ainda consigo trabalhar, sim. Não se preocupa com dinheiro por agora, a gente vai dar um jeito depois.
Canja percebe um semblante diferente na mocinha, após encontrar Romeu.
CANJA - Que olhar é esse? Por favor não me diga que a Soraya estava certa, que você demonstrou interesse por ele?
CARIJÓ - É claro qui não, vó. Mas ele foi parceiro e estava todo muído na porrada, não tinha como separar a briga.
Elas se sentam no sofá, ainda conversando.
CANJA - É... tem razão. Aliás, aconteceu tanta coisa, a gente nem conversou direito ainda. O que te trouxe para São Paulo tão de repente? Você apenas me ligou dizendo que vinha. Sua mãe está bem? Como vai o desgraçado do Titica?
Carijó engole seco, uma lágrima inunda seus olhos.
CARIJÓ - Vó, tem muita coisa que a senhora ainda num sabe.
CANJA - Que eu não sei? O quê, filha?
Carijó se levanta do sofá, caminhando lentamente. Delicada, ela fica na posição de cócoras perante a sua mala. O zíper do objeto murmura com o contato das mãos de Carijó. Nenhum instrumental compõe a cena. Carijó toma o lenço dado por sua mãe nas mãos, enrolando-o.
CARIJÓ - Eu ainda possu sentir o seu cheiro.
CANJA - O que foi, minha neta? |Olha para o lenço.| Ah, este lenço... a sua mãe não desgrudava dele antes de se mudar daqui. Ele emanava a pureza que tinha dentro dela, era moça de cidade grande, mas tinha a inocência de uma moça de fazenda, era simples, até desengonçada, mas encantava a todos por onde passava. O seu pai foi muito sortudo, filha. Azar foi o meu te ter perdido a minha filha pra ele.
CARIJÓ - É, vó. A mãe sempre foi uma pessoa especial. Eu devo tudo o que sou a ela. Ocê, vó, ama muito ela, não é?
CANJA - Sim, Carijó. |Os olhos de Canja começam a lacrimejar.| Mas eu não estou gostando dos rumos que essa conversa está tomando.
CARIJÓ - É que... é que... não tem como te dizer isso sem lhi fazê sofrer.
CANJA - O que aconteceu com a sua mãe, Carijó? Me diga de uma vez! Eu preciso saber! |Chora, preocupada.|
CARIJÓ - Ela partiu, virô uma estrelinha, está junto de Deus...
Canja fixa os olhos em Carijó, mudando sua expressão radicalmente. É como se o mundo desabasse para ela naquele momento, Canja se senta, incrédula. A menina que gerou, que amamentou, que viu andar com as próprias pernas e crescer já não está mais entre nós.
CANJA |Entristecida.| - Porquê não me avisaram? Eu queria ter me despedido da minha filha.
CARIJÓ - Vózinha, o meu pai que pediu pra eu não falar com ocê. Ele num queria lhe deixar nesse estado sem ter ninguém aqui perto de ocê pra lhe acudir caso acontecesse arguma coisa. Eu num podia lhi falar isso por telefone, vó. Doeu demais perder a mãe, e doeria mais se ocê fosse junto.
CANJA - |Compreensiva.| E... eu entendo. E como foi, Carijó? |Chora e soluça.| Como foi que ela partiu? Tão jovem, meu Deus... mal havia chegado aos cinquenta.
CARIJÓ - Ela morreu dispois cair dum cavalo, que saiu em disparada após uma chicotada que a mulher do prefeito de Galinhópolis deu.
CANJA - O quê? Assassinaram a minha filha? A gente precisa fazer justiça, Carijó. A morte da Galinha não pode sair impune.
CARIJÓ - A justiça está sendo feita, a mulher foi presa. Eu... eu istou péssima em tê que te dar essa notícia, di verdade!
CANJA - Ah, eu precisava saber. Saber que nunca mais tornarei a colocar os olhos no meu amor, aquela que mudou a minha vida, que me fez sorrir de novo, ter esperança no meio de tantas adversidades. A gente sempre vê o filho enterrando os pais. |Reflexiva.| Mas nunca se imagina enterrando um filho. Está doendo assim sem ver de perto o que aconteceu, eu não aguentaria se estivesse por perto.
Canja chora. Carijó acaricia seus cabelos.
CANJA - O nascimento da sua mãe foi como um bálsamo pra mim...
FLASHBACK INÍCIO:
1972...
É uma igreja. Canja está vestida de noiva. Seus olhos escuros refletem sua felicidade. A cerimônia está prestes dar início. Uma moça, irmã gêmea identica de Canja, ajeita rapidamente alguns amassos no vestido. Seu nome é Pantera.
PANTERA - Arrasa, irmã. Esse seu noivo rico vai tirar nossos pés desse lodaçal.
CANJA - Não estou me casando com ele por dinheiro, você bem sabe disso. Eu o amo de verdade.
PANTERA - Que bom, isso é ótimo! Unimos o útil ao agradável. A boa vida e o amor.
CANJA - Dinheiro não traz felicidade, Pantera.
PANTERA - Pobreza também não.
CANJA - Ai, a cerimônia vai começar, me ajude. Não vai ser agora que eu vou discutir moral com você.
Pantera ajuda Canja.
PANTERA |Aponta para uma moça.| - Ei, ajude-a. Preciso ver como está minha Tilápia.
Eles dão sequência. Dá-se início a cerimônia. dona Canja está deslumbrante. Seu belo noivo sorri. Em tom baixo, a câmera mostra a sequência da cerimônia. Ao final, o padre questiona:
PADRE - Canja Pintadinha e Amado Batista recebem a bênção de Deus para que essa união seja consumada. O que está ligado na terra, é ligado no céu. Por isso, se há alguém aqui, na terra, que seja contra esta união, que manifeste-se agora ou se cale para sempre!
Uma mulher invade a cerimônia furiosa. É Rinha.
RINHA - EU TENHO!
Todos os convidados olham para os lados, cochichando.
CANJA - O que essa mulher está fazendo aqui? Não bastou tentar destruir a festa de noivado com aquela infestação de galinhas angolanas?
RINHA - Eu vim porque agora o buraco é mais embaixo. Amado, você não pode se casar com esta mulher porque você é meu... SÓ MEU... e do NOSSO FILHO! EU ESTOU GRÁVIDA!
Todos os convidados se mostram surpresos, o tititi se intensifica.
CANJA |Chocada.| - O quê? Amado, diga para mim: há a possibilidade disso que essa desvairada está falando ser verdade?
AMADO |Amedrontrado.| - Sim, há.
CANJA - Você me traiu, seu verme! Seu desgraçado!
AMADO - Eu não consegui me controlar, Canja. Eu sou homem, tenho minhas necessidades.
CANJA - NECESSIDADES? SAIA DAQUI, SEU DESGRAÇADO! NÃO HÁ LUGAR PARA TRAIDORES COMO VOCÊ NA CASA DE DEUS!
AMADO - Isso é verdade, Rinha?
RINHA - Amado, você sabe mais do que ninguém que nós ultrapassamos os limites. Essa gravidez é consequência deste ato.
CANJA - CALEM A BOCA! VOCÊS ME EMBRULHAM O ESTÔMAGO! SAIAM DA CASA DE DEUS! HEREGES! DESGRAÇADOS! EU OS ODEIO! E QUANTO A VOCÊ, AMADO! TOME ESSA ALIANÇA, DÊ PARA ESSAZINHA AÍ QUE SE DEITA COM HOMENS COMPROMISSADOS!
RINHA - ESSAZINHA NÃO, QUERIDA! EU TENHO O MEU VALOR.
CANJA - E QUANTO VALE? EU PELO MENOS NÃO SAIO ME DEITANDO COM O PRIMEIRO HOMEM QUE VEJO NA RUA.
RINHA - CALA A BOCA, VOCÊ NÃO TEM MORAL PRA FALAR DE NINGUÉM AQUI.
CANJA - CALE VOCÊ A SUA BOCA, A ÚNICA IMORAL AQUI É VOCÊ. E SE RETIRE DA MINHA FRENTE ANTES QUE EU SAIA DE MIM E DÊ UM FIM NESSE SEU FETO.
Canja se retira, enfurecida. Em casa, Canja vomita.
CANJA - Ai...
Pantera chega.
PANTERA - Canja, eu vim o mais rápido que pude. Está bem?
CANJA - Bem mal.
PANTERA - Isso só pode ser um sinal, Canja.
CANJA - Sinal.
PANTERA - É, você tomou uma rasteira do destino, você também está grávida!
Canja se assusta com a possibilidade.
*FLASHBACK FIM.*
CANJA - É uma história que me dói até hoje. Eu perdi o amor da minha vida para aquela perversa serpente do mal! Meses em depressão, foi uma gravidez de alto risco, tive eclâmpsia, até perdi uma das crianças que eu estava esperando... eram um casal de gêmeos. Nasceu a Galinha, eu fiquei tão feliz... naquele instante eu percebi que eu não precisava de homem nenhum na minha vida, eu me senti completa por aquela que saiu de mim. Eu me via nela, sabe? Sempre fui empregada, queria que ela conquistasse tudo o que eu não conquistei. Mas a Galinha não tinha ambição, era uma moça pura... se casou com o Titica quando ele bateu aqui na porta atrás dela. Talvez fosse o destino dela. Depois que a Galinha foi embora, o Amado voltou pra minha vida. Ele era como um câncer que eu não conseguia me libertar, eu estava perdidamente apaixonada. Mesmo sabendo que era errado, ele era casado e tinha me abandonado grávida de dois filhos dele. Filhos esses que nunca sentiram o cheiro do nome dele no RG ou certidão de nascimento.
CARIJÓ - Eu... eu num sei o que lhe dizer. Mas pode ter certeza que a minha mãe foi muito feliz em Galinhópolis.
CANJA - É, e é isso que me conforta. Mas se eu pudesse voltar há 25 anos atrás. Eu faria tudo diferente...
*FLASHBACK INÍCIO:*
🎶 _"No dia que eu saí de casa - Zezé di Camargo e Luciano"_ 🎶
Um rádio velho toca a música citada anteriormente, Canja estende roupas no varal. Galinha se aproxima.
GALINHA - Mãe, está tudo pronto. Logo mais o Titica passa aqui para me buscar.
CANJA - Você tem certeza que é isso que quer, meu amor?
GALINHA - É, mamãe. Eu estou apaixonada por ele.
Canja abraça filha.
CANJA - Sempre sonhei com você cursando uma faculdade, se formando...
GALINHA - O meu sonho sempre foi encontrar o meu príncipe encantado. Eu sei que o Titica tá mais pra sapo, mas se até nas histórias de amor, os sapos viram príncipe, porque não tentar aqui, agora, na vida real?
Canja sorri.
CANJA - Ai, minha filha.
Galinha chora, Canja seca as suas lágrimas.
GALINHA - Eu estou brincando pra disfarçar a dor que eu estou sentindo em ter que me separar da senhora.
CANJA - Não se esqueça nunca de mim, minha filha.
A música toca profundo. Titica buzina na rua. Elas se abraçam.
GALINHA |Balbuciando.| - No dia que eu saí de casa minha mãe me disse: filho, vem cá.
As duas cantam juntas, abraçadas. Elas não se soltam antes que a canção termine.
CANJA - Eu te amo, filha. Se cuida, meu amor.
GALINHA - Eu não queria sair do seu abraço, mãe.
Galinha chora, mas seca as lágrimas da mãe.
*FLASHBACK FIM.*
CANJA - Naquele dia eu senti um pedaço de mim indo embora. Mas a dor não era tão forte quanto agora. Eu pude vê-la outras vezes depois daquilo, agora não poderei. É difícil aceitar que ela não está aqui... comigo.
Carijó levanta a avó e lhe dá um abraço longo e apertado, como aquele que foi dado por Galinha antes de ir embora com Titica. Um instrumental emocionante toca. As duas choram de soluçar pela alma de dona Galinha. Canja, com suas últimas forças, agarra a neta com os braços. O instrumental atinge seu ápice. Canja acaba deixando o lenço de Galinha cair de suas mãos durante o ato, como se perdesse os sentidos. Carijó solta a avó, que está desorientada com a informação.
CANJA - Ela... ela não vai mais voltar! |Soluça.|
Carijó olha para a avó, secando suas lágrimas.
CARIJÓ - Ela está feliz, vó... onde for que ela isteja. Pode ter certeza disso, meu amor.
Carijó puxa a avó para seus ombros, repousando a cabeça da senhora sobre o local. A câmera se afasta.
Cena 2 - Casa de Soraya [NOITE]
Soraya acompanha o motorista.
SORAYA - Deixe-o no quarto dos empregados. É aqui embaixo, melhor que subir escadas.
O motorista consente balançando a cabeça. Soraya o acompanha. O motorista deixa Romeu no quarto e se retira.
ROMEU - Ah, que dor.
SORAYA - Que dor nada, Romeu. Agora o assunto é nosso. Quem era aquela caipira vadia que tava se esfregando em você?
ROMEU - A Carijó?
SORAYA |Ri.| - Carijó... é esse o nome da bruaca? Nome de galinha.
ROMEU - Ela só estava cuidando de mim, foi ela quem me salvou da surra.
SORAYA - E por que você levou essa surra? Romeu, Romeu... você, além de dono da gravadora, é futuro marido da dona da Me Red. Se você envolver o nome da minha marca em alguma polêmica, eu te mato e mato também aquela galinha de macumba!
ROMEU - Não tem nada disso. Eu atropelei a Carijó, depois a levei para um hospital público, chegando lá o médico, que era um maluco, disse que a Carijó precisava de um transplante de rim e eu ouvi uma conversa dele confessando que, na verdade, queria mesmo era tirar o rim da Carijó e vender pra outra pessoa. Eu salvei a Carijó, tirando-a do hospital e ameacei o médico, ele veio atrás de mim com uns capangas que me derrubaram com golpes de capoeira.
SORAYA - Que imbróglio! Mas você poderia ter evitado, né?
ROMEU - Sim, eu deveria estar mais atento ao trânsito.
SORAYA - Não, você deveria era ter largado a galinha caipira lá. Ela tem dois rins, com certeza sobreviveria com a tal cirurgia e se morresse, francamente... seria muito melhor. Esse tipo de gente se reproduz que nem bactéria. Quanto mais desse tipinho no mundo, mais pobreza e fãs do Carlinhos Maia.
ROMEU - Ai, Soraya... chega! Eu já aguentei demais. Você não tem senso do ridículo? Aliás, me fez passar vergonha. Não falei na hora porque estava constrangido, mas que absurdo você cometeu... invadir a casa da dona Canja e bater na neta dela.
SORAYA - Aquela mocreia da neta dela merece muito mais que um reles tapa. E eu já conheço aquela velha de outros carnavais. Esqueceu que ela trabalhava aqui em casa?
ROMEU - Ela trabalhava aqui?
SORAYA - Está vendo, você nem reparou. Teve todo esse ataque de pelancas pra defender a caipira mas a verdade é uma só: eu e você vivemos em um mundo diferente do dela e do da avó dela, você não repara em quem lhe serve porque, de fato, não importa.
ROMEU - Que besteira, Soraya.
SORAYA - Eu não estou dizendo besteira nenhuma, é o óbvio. Estamos hierarquicamente acima dessas duas. Você NUNCA vai ficar com ela. Você é rico, ela é pobre, certamente não tem estudo pelo modo que fala.
ROMEU - Quem garante? Eu não tenho esses preconceitos que você tem. A Carijó é uma moça muito linda.
SORAYA |Incrédula.| - Você então confessa que sentiu alguma coisa por ela?
ROMEU - Eu não disse nada, apenas quis reforçar o meu argumento de que esse tipo de barreira que você diz que existe é besteira. Somos todos iguais.
SORAYA - Sabe o que está acontecendo? Essa lacrolândia que se tornou os tempos modernos está lhe abduzindo. Volte para o planeta Terra. E sobre a tal Carijó: tome muito cuidado, ouviu? Se eu ver aquela galinha ciscando no meu terreiro de novo, eu mostro pra essa vadiinha como se faz caldo de frango.
ROMEU - Já acabou? Acabou com a minha noite já. A vontade que eu tenho é de ir embora daqui. |Tenta se levantar da cama.|
Soraya impede que Romeu saia, colocando a mão sobre uma de suas feridas e pressionando. Romeu ruge de dor.
SORAYA - Daqui você não sai, depois mando trazerem comida.
Soraya se retira dali, trancando a porta por fora.
ROMEU - SORAYA! SORAYA! ME TIRA DAQUI! |Ele percebe que ninguém ouvirá.| Droga!
Fora do quarto, Soraya recebe uma ligação.
SORAYA - Ãn? Jornalista, é? Amanhã dou entrevista quentinha sobre o sequestro do meu papi. Quero todos acampando na porta da Me Red, avise para os seus colegas de profissão, viu? |Sorri maliciosamente.|
Cena 3 - Mansão de Raul [NOITE]
Leandro, advogado de Raul, se faz presente.
RAUL - Leandro, te liguei mais cedo, mas sua agenda estava lotada.
LEANDRO - Sabe como é, né? Burocracia. Tive casos muito chatos pra resolver hoje.
RAUL - E aí? Deu certo?
LEANDRO - É, deu. Mas o que o senhor tem para tratar comigo? É algum conselho jurídico?
RAUL - De certa forma. Eu pensei muito antes de tomar essa decisão e então...
LEANDRO - E então?
RAUL - Eu queria saber se eu posso deixar em testamento toda a minha fortuna para alguém...
LEANDRO - Alguém?
Catarina surge ao cair do segundo andar batendo asas. Uma empregada fofoqueira está escondida, escutando a conversa.
RAUL - Para ela! |Aponta para Catarina.|
LEANDRO |INCRÉDULO.| - PARA A GALINHA?!
EMPREGADA |Balbuciando.| - Meu Deus...
Catarina cacareja.
Ao som de _"Vem Morena ‐ Dominguinhos"_, a imagem congela na galinha Catarina ficando em câmera lenta acompanhada de um efeito amarelo brilhante.