Carijó - Capítulo 01 (ESTREIA)
CARIJÓ - CAPÍTULO 01: 03/08/2026...
Galinhópolis, Gleba da Marcelândia — Mato Grosso.
Cena 1 - Casarão | Fazenda [MADRUGADA]
🎶 _"Dueto - Chico Buarque e Clara Buarque"_ 🎶
Sobre uma cômoda de roupas, um álbum de fotografias se abre, mostrando a infância de Carijó por meio de imagens. Carijó é uma bebê e estaticamente é possível vê-la acariciando a pequena Catarina que ainda é um pintinho. Em outra, Carijó está andando de bicicleta, Catarina no quadro, com um sorriso banguela. Em seguida, são visíveis imagens de Carijó caída no chiqueiro enquanto Catarina sorri diabolicamente. Mais adiante, vemos Carijó adolescente passeando com Catarina em meio a um matagal. Depois, vemos Catarina sendo banhada pelas mãos delicadas de Carijó que aparenta ter seus quinze. Em outro take, vemos Catarina correndo atrás de Carijó, enfurecida. A visão das imagens deixa de ser estática, aproximando-se gradativamente de uma janela. A imagem é escura. É possível ouvir passos. Uma mulher passeia pela residência, aproximando-se do quarto de Carijó. A mulher acende a luz do quarto, sentando-se na cama. Carijó está suada e se debatendo, em um pesadelo. A mulher faz leves carícias no cabelo da jovem. Em seguida, a mulher se levanta, buscando fôlego. A mulher abre a sua boca, como se fosse falar algo. Ao invés de falar, ela dá um cacarejo idêntico ao de uma galinha. Carijó acorda assustada.
CARIJÓ - Mãnhe!? Já lhe disse pra num me acordar assim, quer me matar do coração?
D. GALINHA - É o meu jeitinho, filha. Acorde e vá ordenhar a Chicken.
CARIJÓ |Irritada.| Arrrraaa!
🎶 _"Fazendinha – Mundo Bita"_. 🎶
*Corta para:* CURRAL — MANHÃ.
Carijó ordenha Chicken, uma vaca marrom com detalhes brancos.
CARIJÓ - Chicken, ocê passou como a noite minha amiga? Espero que bem.
Carijó observa a cerca.
CARIJÓ - É ruim dimais da conta viver presa, né? Sabi, Chicken... um dia quiero conhecer o mundo intêro!
Carijó para o serviço abruptamente. Ela observa visitantes na fazenda de seus pais. A moça corre de dentro do curral para fora, chamando pelos pais.
CARIJÓ |Aos berros.| - Pain! Pai!
Sr. Titica, pai de Carijó, surge na cena.
TITICA - Issu são horas pra estar berrando, minina? Arrrrra!!
CARIJÓ - Tem visita pro sinhô!
TITICA - Prefeituh?
PREFEITO - Eu mesmo. O prefeito mais chicke (n) que o Brasil já viu!
TITICA - Primêra damah!?
PRIMEIRA DAMA - Como vai, sr. Escrementos Galinhais? A primeira dama do galinheiro se encontra?
Dona Galinha surge.
DONA GALINHA - Logo vi! Senti o cheiro de enxofre de longe!
PRIMEIRA DAMA - O que vem de baixo não me atinge, dona Gala.
DONA GALINHA - O meu nome não é Gala!
TITICA - Vieram fazê o guê aqui?
PREFEITO - Mandaram este cavalo e esta carta da capital para vocês.
CARIJÓ - Deve di ser o resurtado do Miss Cacarejo 2023.
PRIMEIRA DAMA - Hahay! Piada! Todos sabemos que a campeã do Miss Cacarejo sou eu, a primeira dama.
TITICA - Abreh logu, Galinha.
DONA GALINHA - Minha apresentação foi eleita a melhor imitação de cacarejo e este é meu alazão! |Acaricia, feliz.|
PRIMEIRA DAMA - NÃO! NÃO PODE SER! NÃO ACEITO PERDER PRA UMA GALINHA!!
DONA GALINHA - Mas perdeu! E este cavalo é meu prêmio!
Dona Galinha monta no cavalo.
PRIMEIRA DAMA - Então o aproveite!
A primeira dama saca seu cinto e dá uma fivelada no cavalo, que dispara com Dona Galinha.
DONA GALINHA |Com medo.| - AAAAHHHHHH!
CARIJÓ - Mamãin!
Carijó tenta correr atrás do cavalo, o mesmo corre ainda mais rápido. Ao longe, é possível ver dona Galinha caindo do cavalo e se estabacando no chão. O cavalo passa por cima do corpo da dona ave, pisoteando. Carijó alcança o corpo da mãe, que já está sem vida.
CARIJÓ |Chorando.| - Ela murreu, por culpa da primêra damah!
A imagem escurece lentamente.
*DOIS DIAS DEPOIS...*
Cena 2 - Prefeitura [DIA]
O secretário do prefeito se aproxima.
SECRETÁRIO - O senhor não vai pagar a fiança da sua mulher, seu prefeito?
PREFEITO - É ano de eleição, vai prejudicar a minha campanha política. Vou arrumar outra mulher!
SECRETÁRIO - Perdão por me intrometer, hoje é o sepultamento da dona Galinha e você sabe que ela morreu manchando a sua reputação, não sabe?
PREFEITO - Sim, sei, assim como também já sei o que fazer para reverter.
SECRETÁRIO - Sabe? O que pretende fazer?
PREFEITO - Pão e circo, querido. Ainda é uma surpresa, mas posso te adiantar: há de ser o maior cacarejo que já se ouviu em Galinhópolis.
Cena 3 - Cortejo de dona Galinha [DIA]
Vários moradores de sítios vizinhos se fazem presentes na homenagem.
CARIJÓ |Enlutada.| - Ain, mamãi! |Funga.|
TITICA - Sua mamãin está em um bom lugar, eu garanto! |Consola a filha.|
Um movimento estranho é visto. Um helicóptero para sobre o cortejo.
CARIJÓ - O que é aguilo?
De repente, cacarejos são ouvidos. Galinhas são arremessadas do helicóptero em direção ao caixão de dona Galinha. O povo é titicoteado pelos escrementos aviários.
CARIJÓ |Banhada em bosta.| - Ain, medeus! Qui bosta é essan!?
Um dos que acompanham o cortejo se manifesta: Helicópter!? Só podi ser coisa do prefeito! Depois qui acabar o enterro nóis vamo destruir a prefeitura!
Os outros sitiantes tagarelam indignados, mostrando que concordam com o que o último falou.
CARIJÓ - Ain, meDeus! É hoje que essan cidade vai abaixo!
Cena 4 - Prefeitura [EXT/TARDE]
Uma hora depois. Gritos são ouvidos na rua. O secretário se pendura na janela para ver o que está acontecendo.
SECRETÁRIO - Ai, meu Deus! O povo está todo aí, seu prefeito! E parecem estar indignados.
O prefeito glutineja. Eles descem rapidamente para ver o que é. O prefeito fica ao topo de alguns pequenos degraus que há na entrada da prefeitura.
PREFEITO - O que aconteceu?
SITIANTE 1 |HOMEM.| - O sinhô que fez isso com a gente, né? Nos banhou em titica de galinha.
PREFEITO - O que eu fiz exatamente? Não estou entendendo...
TITICA - O senhô jogou um monte di galinha daquele helicópter!
PREFEITO - Ah, então é isso? Foi uma homenagem para a sua esposa, seu Titica!
SITIANTE 2 |MULHER.| - Então o sinhô confessa qui jogou aquilo na gente?
PREFEITO - Foi, mas-.
SITIANTE 1 |HOMEM.| - Então já que o sinhô gosta tantur di titica de galinha... tome!
O sitiante dispara um balde de titica contra o prefeito. Os outros correm, quebrando paus e outros objetos que encontram na rua no lombo do homem.
SITIANTE 2 |MULHER.| - Issu, deem nele mesmo! Precisamos livrar essi país das garras do cumunismo! Mênos um!
SITIANTE 3 |HOMEM.| - Issu é tudo culpa do Lule e da Cagonna!
SITIANTE 4 |HOMEM.| - É issu mesmo! Cada soco nessa imundície de prefeito é um real doado pras enchentes do Rio Grande Sul, já que o governo num cancelô esse show mardito!
O prefeito é espancado, a câmera se afasta.
Cena 5 - Fazenda — Cozinha [TARDE]
Carijó cumprimenta a cozinheira.
COZINHEIRA - Num foi à cidade prestigiar o show de horrôres que vai ter!?
CARIJÓ - Não, preciso tomar um banhu e pensar um pouco na vidan.
Carijó corre para o banheiro.
Cena 6 - Quarto de Carijó [DIA]
Carijó carrega Catarina, sua galinha de estimação, em seus braços.
CARIJÓ - Ai, mamãin, tantas lembrança...
*FLASHBACK INÍCIO:*
Dona Galinha chega à fazenda, ela dá um presente para Carijó. A mocinha é criança ainda.
DONA GALINHA - Tome esse lenço, minha filha!
CARIJÓ - É linduh, mamãin!
DONA GALINHA - É igualzinho ao que uso em meu pescoço, estou te dando para que nunca se esqueça de mim, meu amor!
Carijó abraça a mãe.
*FLASHBACK FIM.*
CARIJÓ - Só você pode mi ajudar, Catarina!
CATARINA - Popopó!
Carijó tira uma pena da galinha e a abraça com toda a sua força. Poucos segundos depois, é possível ver a magia acontecendo: Catarina se materializa em uma humana, de carne e osso.
CATARINA - Carijó! Como está se sentindo?
CARIJÓ - Mal, num sei o qui fazer!
CATARINA - Mas eu, sua conselheira, sei! Carijó, você deve sair desta casa, só vai te machucar com lembranças de sua finada mãe e, além do mais, você precisa ajudar o seu pai! O cavalo que matou a dona Galinha destruiu toda a plantação naquela fatídica situação que você presenciou. Vá para a casa da mãe de sua mãe, sua avó, dona Canja, em São Paulo e consiga um emprego!
CARIJÓ - Vovó!? Ocê istá certa por demais, Catarina! Sun Pálo, é pra lá que eu vou. Obrigada!
Carijó solta a pena que fez Catarina se materializar em humana, a pena desaparece e Catarina volta a ser uma galinha.
CATARINA - Popopó!
CARIJÓ - Sun Pálo... |Sorri.|
A mocinha começa a ajeitar suas roupas. Em seguida, a menina pega um telefone com fio e liga para Canja, sua avó.
CARIJÓ - Oi, vó!
O volume da cena se abaixa enquanto elas conversam.
Cena 7 - Fazenda | Parte externa [TARDE]
Após alguns minutos, Carijó está do lado de fora com uma trouxa de roupas de um lado e Catarina de outro. Titica chega.
TITICA - Onde pensa qui vai?
CARIJÓ - Vô prá Sun Pálo! Num quero ficar aqui remoendo lembrança di mamãe. Vou lá prá trabalhar e mandar dinheiro pro sinhô replantar as semente.
TITICA - Oh, minha fia...
CARIJÓ - Eu já liguei pra vó, vou ficar na casa dela.
TITICA - E num há nada que eu possa fazer pra ocê ficar, minha fia?
CARIJÓ - Não, estou decidida. Confie em mim, pai! Eu vou ficar bem!
TITICA - Eu confio, fia... te abençoo.
CARIJÓ - Obrigadá! Te amo muito, é por isso que estou indo.
TITICA - Juízo, fia. São Paulo é grande demais. Tome este dinheiro, compre um telefone e me liga, viu?
CARIJÓ - Será mais que útil! Sun Palo, aí vamo nós!
Carijó entrelaça o lenço de sua finada mãe no pescoço da galinha Catarina, que cacareja. A mocinha faz o mesmo em seu próprio pescoço com o lenço que lhe foi dado quando criança pela mãe. Ao som de _"Vem Morena ‐ Dominguinhos"_, a imagem congela em Catarina e Carijó ficando em câmera lenta acompanhada de um efeito amarelo brilhante.