Viver Sem Amanhã - Capítulo 30 [Último Capítulo]

 


*VIVER SEM AMANHÃ*
> Capítulo 30 - Grande Final (05/06/2026)

[SAÍDA DO ARMAZÉM/ENTARDECER]

*Os policiais chegam ao local e afastam Aura do corpo de Nelson. Ela chora descontroladamente. Suas mãos e a camisa dele estão completamente encharcadas de sangue. Ele está morto, com os olhos abertos.*

*Aura:* Nelson, por favor. Volta pra mim, meu amor. Você não.

*Os policiais a contêm enquanto ela grita desesperadamente por ele. Pouco depois, uma ambulância chega ao local. O corpo é colocado numa maca e levado embora.*

[FÁBRICA/ENTARDECER]

*Hera está armada e persegue Leocádia, que corre, mesmo com o braço baleado.*

*Hera (Gritando):* Porquinha, porquinha, Eu sou a loba-mau, se não aparecer, vou procurar, procurar, até te encontrar, e assim vou te estraçalhar, sua vadia maldita.

*Entre máquinas na vertical, Hera avança cautelosa. Leocádia surge correndo pelo corredor horizontal. Hera dispara ao vê-la, e acerta um galão, que explode instantaneamente.*

*Hera:* sua desgraçada. Eu vou acabar com você.

*Hera corre no encalço dela. As duas sobem pro segundo andar da fábrica, um ambiente escuro recortado por passarelas metálicas. Abaixo, tanques industriais fervem com um líquido amarelo, viscoso e corrosivo: ácido. Leocádia consegue se esconder entre os motores suspensos.*

*Hera:* Você não sabe como vai terminar... já deixei tudo preparado. Sua velha desgraçada.

*Hera vasculha tudo ao redor com passos lentos, arma em punho. Escondida entre os motores, Leocádia a observa em silêncio. Uma luz fraca pisca no alto. Quando Hera fica de costas, Leocádia emerge das sombras e avança rapidamente contra ela. Hera percebe e tenta girar para atirar, mas é empurrada com violência. A arma escapa de sua mão e cai dentro de um tanque, sendo imediatamente consumida pelo ácido e virando fumaça. Hera quase cai, porém consegue se agarrar na barra de proteção, ficando pendurada bem acima do ácido fervente. Leocádia observa e ri.*

*Leocádia:* Acabou. Mesmo ferida, eu venci. E agora, você vai morrer.

*Hera (Em pânico):* Não. Por favor. Não me deixe cair.

*Leocádia (Rindo):* Acabou. Eu já falei, acabou.

*Hera:* Não. Leocádia, só eu posso detê-los.

*Leocádia (Confusa):* Deter quem? Resolveu enlouquecer?

*Hera:* Eu paguei cem homens para que estuprassem você. Só eu posso pará-los, por favor.

*Leocádia gargalha, incrédula. Hera chora, desesperada na iminência da queda.*

*Leocádia:* E você acha que me convence? Fofa, já deixei tudo pronto caso desse errado. Eu tenho passaporte e passagem. Vou ir embora do país, nada vai me acontecer. 

*Hera:* Não, por favooooor. Eu imploro. Me salveee.

*Leocádia se agacha e força os dedos de Hera, desprendendo-os um a um da estrutura, até segurar sua mão pela última vez.*

*Leocádia:* Não se esqueça de mim. Eu sou Leocádia De Andradas Medrano. Te encontro no inferno, bonequinha. Sayonara!

*Leocádia sorri e solta Hera. Ela cai gritando e afunda no tanque. Ao voltar à superfície, está coberta por ácido, que espirra pra todos os lados, e, em questão de segundos, sua pele começa a se desfazer. Ela se debate em pânico, tentando em vão escalar as paredes lisas de metal. Pedaços da pele do rosto e do pescoço se desprendem como gosma, transformando-se em líquido. Os seios e os ombros são consumidos com rapidez brutal, expondo carne por baixo. Quando ergue os braços em meio à fumaça química, seus dedos já perderam toda a pele, revelando ossos e tendões. Desesperada, ela grita enquanto luta inutilmente para escapar.*

*Hera:* Socorroooooooooo. Eu não quero morrer. Não.

*Seu rosto derrete completamente, expondo parte do crânio e da arcada dentária. Um dos globos oculares estoura e escorre, misturado ao sangue, enquanto o outro permanece intacto. Ela afunda cada vez mais e para de gritar quando ácido começa a entrar pelo nariz, pelos ouvidos e pela boca. Bolhas avermelhadas cobrem a superfície do tanque. As pernas sofrem espasmos finais enquanto o corpo afunda, reduzido a ossos e vísceras destruídas. O líquido se torna escuro, as luzes continuam piscando. Hera é completamente dissolvida. Seus restos se misturam ao ácido, formando uma forte coloração avermelhada.*

[CALÇADA/ENTARDECER]

*Leocádia sai da fábrica rindo, vitoriosa. Ela olha para dentro pela última vez.*

*Leocádia (Gritando):* Eu venci. Acabou, seus miseráveis. Desgraçados. Morram. (Ri.)

*Uma van preta freia bruscamente diante dela. Cinco homens encapuzados desembarcam e avançam em sua direção. Ela recua, sobressaltada.*

*Leocádia:* O que vocês querem comigo?

*Os homens a agarram pelos braços e a jogam à força dentro do veículo.*

*Leocádia:* Me soltaaaaaaaaaaaaaaa.

*Um deles arranca em alta velocidade.*

[RUAS DE SÃO PAULO/NOITE]

*Clémence caminha em surto psicológico e alucinações severas, acreditando ver Nelson guiando seus passos pelas vias públicas.*

*Adv. Clémence:* Meu amor, eu já estou chegando para ficar com você.

*Pedestres observam seu comportamento errático enquanto ela conversa com ele em meio às alucinações. Na visão distorcida, ele a conduz pelas ruas até os arredores de uma usina.*

*Adv. Clémence:* Calma, meu amor, eu não vou te deixar na mão. Vamos ficar juntos para sempre.

*Ao chegar na usina, ela ignora sinalizações e placas de alerta e escala a cerca elétrica de isolamento, que se encontrava desativada, saltando pro lado interno. Ela ainda consegue vê-lo e então decide segui-lo, entrando no local.*

*Adv. Clémence:* Espera, meu amor, vou ficar com você.

*Ela invade uma área de acesso restrito. Um segurança percebe sua entrada e tenta interceptá-la.*

*Segurança:* Ei senhora, não pode entrar aí.

*Clémence ignora o segurança e avança. Ele tenta contê-la, mas ela consegue entrar numa ala isolada e trancar a porta por dentro. No painel externo, um alerta de perigo biológico. O vigilante recua rapidamente em busca de reforço. No interior da sala, Clémence caminha até Nelson, que sorri antes de desaparecer completamente. Ela retoma a lucidez no exato instante em que um gás verde altamente tóxico começa a vazar pelas válvulas. Ela então se desespera, gritando.*

*Adv. Clémence:* Socorroooooooooooooo.

*O gás torna impossível enxergar qualquer coisa, impedindo-a de encontrar a saída. Dominada pelo pânico, ela perde o controle, grita desesperadamente e puxa os próprios cabelos. Grandes tufos se desprendem entre seus dedos. Ao olhar pras mãos cobertas de fios, ela desaba em lágrimas, tomada pelo desespero ao perceber que não há escapatória.*

*Adv. Clémence:* Não... não... por favor, alguém me ajuda.

*O gás é extremamente tóxico e seus efeitos surgem quase instantaneamente. Úlceras dolorosas começam a se espalhar pela pele, enquanto sangue escorre pelos olhos, nariz, boca e ouvidos. Seu corpo entra em convulsão e, durante os espasmos violentos, os últimos fios de cabelo se desprendem, espalhando-se pelo chão.*

*Adv. Clémence:* Eu não quero morrer, socorrroooooo.

*Misteriosamente, suas roupas começam a queimar e carbonizar devido à reação química. Por dentro, os órgãos derretem e entram em colapso, provocando deformações nas mãos e na coluna, que se contorce de maneira grotesca. Clémence vomita pedaços dos órgãos no chão. Sangue que escorre ao seu redor adquire uma tonalidade quase negra. Suas unhas escurecem, enquanto uma desidratação extrema consome seu corpo, reduzindo drasticamente sua massa corporal e aprofundando cada traço de seu rosto. Aterrorizada, ela cai diante da parede e se arrasta para trás. A figura que resta já mal lembra um ser humano. Sem cabelos, com os olhos opacos, pele coberta por feridas abertas de coloração esbranquiçada e as roupas rasgadas e queimadas aderidas ao corpo, Clémence exibe os efeitos terminais do gás enquanto emite respirações curtas e falhas. Nesse instante, dois seguranças abrem a porta. Ao vê-la, congelam de horror. Diante deles está uma criatura irreconhecível. Clémence havia se transformado em algo monstruoso.*

*Segurança 1:* Meu Deus. Essa mulher enlouqueceu.

*Segurança 2:* Ela não podia entrar aqui. É uma sala restrita.

*Os funcionários fecham as válvulas de segurança e interrompem o fluxo do gás. Clémence se contorce lentamente enquanto olha para eles, tentando sorrir. Ela tenta se mover, mas não consegue.*

[CATIVEIRO/NOITE]

*Leocádia recupera os sentidos num cativeiro escuro, pelada e cercada por cem homens. Correntes grossas de ferro prendem seus pulsos e tornozelos, esticados para cima e pros lados, deixando-a completamente exposta, de pé, pernas abertas e seios empinados. Ela apresenta sangramento nasal e ferimento no braço exposto. Os homens a encaram com malícia. Eles estão nus e seminus.*

*Homem 1:* Olha essa coroa gostosa... Pele macia, tetas firmes, buceta rosadinha. Hoje é nossa puta.

*Homem 2:* É nossa, caralho! Cem paus pra arrombar essa vadia até ela desmaiar de novo.

*Leocádia:* Por favor, não. Eu imploro. Não façam nada comigo.

*Leocádia puxa as correntes tentando se soltar. Lágrimas misturam-se ao sangue no rosto. Os homens avançam contra ela, tocando seus seios e sua vagina. Ela se desespera.*

*Leocádia (Chorando):* Por favor... Não! Eu imploro! Eu tenho dinheiro, muito dinheiro! Me soltem, eu pago! Não façam nada comigo!

*Ignorando os apelos, alguns riem alto, enfiando dedos em sua vagina, boca e ânus. Outros apenas se masturbam enquanto observam. De repente, um deles desfere um tapa brutal no rosto dela, e segura seu queixo.*

*Homem 3:* Gostosa. Vou gozar muito na sua boquinha.

*Homem 5:* Abre essa boquinha de puta, vadia

*Homem 6:* Safada. Vou te deixar de pernas bambas.

*Eles soltam Leocádia, segurando pelo pescoço por trás. Um deles enfia três dedos na boca dela. Leocádia engasga, vomitando saliva misturada com sangue. Olhos lacrimejando. De repente, um outro homem obriga ela a se agachar. Um deles se posiciona atrás, cospe na mão e enfia seu pênis no ânus dela. Ela berra abafado, corpo convulsionando de dor. A câmera se afasta desfocada enquanto eles revezam sem parar: vagina, ânus e boca sendo arrombados simultaneamente. Então foca nela novamente. Sangue escorre pelas coxas dela, um homem a segura pela cabeça, fazendo ela pagar um boquete, até ela quase sufocar. Sangue do nariz e do braço mistura com suor, saliva e sêmen. Seus seios estão vermelhos de tapas e chupadas violentas. Um homem morde forte o mamilo esquerdo, tirando sangue e cuspindo.*

*Homem 7:* Goza na cara dela! Quero ver essa puta coberta!

*Leocádia chora histericamente, voz rouca de tanto gritar.*

*Leocádia:* Por favor... Eu não aguento... Me matem logo... Não... Aaaahhh!

*Mas eles não param. Alguns apenas se masturbam. Um pega uma garrafa quebrada e passa perto do rosto dela só para vê-la se desesperar. Eles a violentam por horas. Troca constante. Duplo anal, duplo vaginal. No chão, poças de sêmen, sangue, urina e suor se formam. O corpo dela treme incontrolavelmente, pernas bambas, olhos vidrados de dor e choque, mas os homens continuam rindo.*

*Homem 1:* Essa vadia ainda tem muito buraco pra gente usar.

*Leocádia, destruída e quase insuportável, só consegue soluçar enquanto os homens continuam.*

[GALPÃO ABANDONADO / NOITE]

*Policiais, com apoio de cães farejadores e de um helicóptero, fazem uma varredura na mata fechada e localizam os corpos de Baal e Graco num setor isolado. O cadáver de Baal encontra-se em decomposição avançada. A pele restante tem coloração esverdeada escura e se desprende em pedaços, deixando grande parte do rosto e do crânio expostos. Ossos faciais e cranianos aparecem claramente, cercados por tecido em decomposição. Os olhos e a boca estão tomados por larvas brancas que se movem em massa, enquanto milhares de moscas voam ao redor. O abdômen está completamente rompido, com uma grande abertura que expõe os órgãos internos. Os intestinos grosso e delgado projetam-se para fora em alças inchadas e esverdeadas, parcialmente consumidas por vermes. O fígado e o estômago apresentam coloração escura e aspecto amolecido. Entre as costelas expostas, os pulmões podem ser vistos colapsados e escurecidos. No chão, há uma grande poça de necrochorume escuro e viscoso, misturado a fluidos corporais e fragmentos de tecido provenientes do tronco aberto. O forte odor de decomposição faz vários policiais vomitarem imediatamente.*

*Policial 1:* Que nojo. Eu estou horrorizado.

*Policial 2:* Vou acionar a perícia.

*O policial 2 se retira do local para formalizar o chamado.*

[DELEGACIA DE POLÍCIA/NOITE]

*Um investigador e um policial entram na sala do delegado.*

*Investigador:* Confirmamos tudo. Leocádia de Andradas assassinou Kimberly Salvatierra e a pequena Nuria Salvatierra.

*Delegado:* Então não há mais dúvidas. Vou protocolar um pedido de busca imediatamente.

*Policial:* Mas não para por aí. Acabei de receber um chamado: encontraram Baal. Ele está morto, em estágio avançado de decomposição. Havia outro homem ao lado dele, mas ainda não conseguimos identificá-lo.

*O delegado passa a mão pelo rosto, abalado.*

*Delegado:* E a perícia conseguiu identificar de quem era aquela ossada encontrada enterrada no terreno daquele galpão?

*Policial:* Sim. Infelizmente, tratava-se dos restos de... Saúl Medrano.

*Os três se entreolham, em choque absoluto.*

[HOSPITAL/CORREDOR/NOITE]

*No corredor da UTI, Irlanda aguarda em prantos. O médico responsável se aproxima.*

*Irlanda:* Doutor… ele vai ficar bem?

*Médico:* Ele foi baleado em áreas muito delicadas da coluna e teve danos severos.

*Irlanda:* O que quer dizer?

*Médico:* Mesmo sobrevivendo, as chances são altíssimas de que ele fique tetraplégico.

*Irlanda:* Não… não pode estar acontecendo… de novo não...

*Médico:* Eu sinto muito. Estamos fazendo tudo que podemos.

*O médico se afasta e Irlanda chora desesperadamente.*

[APARTAMENTO DE AURA/MADRUGADA]

*Aura está em seu quarto, sentada na cama, vestida de preto e abalada pela perda.*

`Música: "Como Mirarte" (Sebastian Yatra)`

*Aura:* Eu sempre vou te amar. Ainda que não esteja aqui. Meu grande amor.

*Bosco, também vestindo trajes de luto, entra no aposento e se aproxima com seriedade.*

*Bosco:* Pronto. Eu preciso que você seja forte.

*Aura:* Eu tento, mas não sei se consigo. Ele se foi para sempre... diga que é mentira, por favor

*Bosco:* Eu sei que dói. Mas você pode contar comigo. Reaja. 

*Aura:* Eu não aguento mais...

*Os dois se abraçam e choram juntos.*

[CATIVEIRO ABANDONADO/MADRUGADA]

*No cativeiro, parte dos homens consome bebidas e cigarros enquanto monitora Leocádia, que está desmaiada no chão. Eles estão vestidos, ela está nua. Dois dos homens conversam afastados.*

*Homem 1:* Já ligou pra Hera? Ela tem que passar a outra metade do nosso dinheiro.

*Homem 2:* Já. Mas ela não atende.

*Homem 1:* Saco. Essa vadia vai ter que pagar.

*Leocádia desperta. Apresentando sangramentos e ferimentos graves decorrentes dos abusos anteriores, ela tenta se arrastar pelo chão na tentativa de fuga. Então escorrega em fezes, cuspe, sangue e urina. Os homens observam com deboche.*

*Homem 3:* A rainha acordou. Vamos terminar.

*Homem 4:* É... parceiro. Ela vai ter que aguentar.

*Leocádia chora enquanto os homens a cercam novamente, ela toca na vagina e ao olhar pras mãos, vê muito sangue. Eles então seguram os cabelos dela, obrigando-a a encará-los. Ela nada diz, completamente traumatizada e cheia de sangue. Eles tiram as roupas novamente, reiniciando a sequência de agressões físicas e abusos sexuais múltiplos de alta intensidade e violência.*

[HOSPITAL/QUARTO DE ULISSES/MANHÃ]

*Ulisses continua internado. Irlanda se aproxima dele e passa a mão em seus cabelos.*

*Irlanda:* Por que a vida foi tão injusta com nós dois? Eu não aceito que sejamos irmãos.

*Ela começa a chorar, olhando pro teto.*

*Irlanda:* E, mesmo assim, não consigo deixar de te amar.

*De repente, tomada pelo desespero, Irlanda beija Ulisses na boca. Em seguida, afasta-se rapidamente.*

*Irlanda:* Não... isso não podia ter acontecido.

*Irlanda sai do quarto correndo, profundamente abalada.*



*VIVER SEM AMANHÃ*
> Capítulo 30 (05/06/2026) - Grande Final)

[SÃO PAULO, 2036/DEZ ANOS DEPOIS/CASA DE AURA/SALA DE ESTAR/TARDE]

*Charles, filho de Aura e Facundo, corre pela casa com um carrinho de brinquedo. Aura entra no corredor e o interrompe.*

*Aura:* Já mandei não correr dentro de casa, Charles.

*O menino para. Facundo aparece logo atrás de Aura, apoiando as mãos nos ombros da esposa.*

*Charles:* Droga, mãe. Eu odeio viajar.

*Aura:* Mas precisamos ir com seu pai. Agora vá terminar de arrumar sua mala. Não vou repetir.

*Charles:* Tudo bem. Crianças não têm direito de fazer nada mesmo.

*Charles sai. Aura olha para Facundo e ri.*

*Facundo:* Nosso menino cresceu.

*Aura:* Sim... Até parece que foi ontem.

*Facundo:* Eu daria tudo para recomeçar com você. Quanto mais o tempo passa, mais eu te amo.

*Aura:* É recíproco. Você não sabe como é importante para mim.

*Facundo:* Você vai ter que provar eternamente.

*Os dois riem e se beijam. Aura se afasta delicadamente.*

*Aura:* Melhor ir ajudar o Charles. Ele está demorando muito.

*Facundo:* Eu detesto me afastar de você.

`Música: "La Aurora" (Eros Ramazzotti, Alicia Keys)`

*Eles se beijam novamente e ele sai. Aura o observa sumir pelo corredor, depois caminha até na área externa para levar as malas. Enquanto se concentra na tarefa, nota alguém no jardim. Ao olhar, vê o espírito de Nelson, que acena e sorri. Aura sorri de volta, com os olhos marejados. Facundo retorna de repente.*

*Facundo:* Meu amor, as malas...

*Ele nota a expressão apreensiva de Aura, que se vira rapidamente.*

*Aura:* Pronto. Já terminei.

*Facundo:* Eu ia perguntar se...

*Facundo coloca seu braço na cintura de Aura, e os dois entram na casa conversando.*

[ISTAMBUL/PRAIA/ENTARDECER]

*Bosco e Deméter estão sentados na areia e trocam olhares descontraídos.*

*Prof. Deméter:* Vou comprar uma água de coco. Quer?

*Bosco:* Não... Agora não. Pode ir lá.

*Prof. Deméter*: Tudo bem. Já volto.

*Os dois se beijam e Deméter se afasta. Bosco levanta e caminha em direção ao mar.*

*Bosco:* Ondas do mar... Vocês realmente levam tudo?

*Ele se emociona enquanto o vento forte balança seus cabelos sob o pôr do sol, com as águas do mar molhando seus pés.*

*Bosco:* Moisés... Pai, mãe, tio, irmão... Eu perdi tudo. E depois de tanto tempo, não pude esquecer.

*Bosco entra lentamente no mar, chorando.*

*Bosco:* Não queria que fosse assim. Eu só queria ser feliz, como todos os garotos da minha idade. Os garotos da minha idade são tão fodas. Por que eu não pude ser?

`Música: "Spies" (Robbie Williams)`

*Ele avança pela água, que logo atinge a altura de seus ombros.*

*Bosco:* Adeus! Obrigado por tudo, Deus!

*Bosco submerge completamente e desaparece nas águas, cometendo um suicídio.*

[PARIS/CAMPO DE MARTE/ENTARDECER]

*Irlanda caminha ao lado de Ulisses, que está numa cadeira de rodas. Ela empurra o filho deles, que nasceu com hidrocefalia e também está numa cadeira de rodas. Eles param diante da Torre Eiffel.*

*Ulisses:* Estive conversando com o fisioterapeuta, e é provável que eu volte a andar muito em breve.

*Irlanda:* Espero que sim. Você é muito jovem para ficar preso aí.

*Ulisses:* Você tem razão. Irlanda, eu estava sem jeito... Mas agora preciso conversar com você.

*Irlanda:* Ulisses... Olha... Eu pensei...

*Ulisses (Interrompendo):* Foram dez anos. Até hoje você não conseguiu recomeçar sua vida.

*Ulisses retira um anel cravejado do bolso do colete e estende na direção dela.*

*Ulisses:* Por favor, me aceite como seu marido.

*Irlanda:* Ulisses, nós já conversamos. Somos irmãos e não podemos ficar juntos. Por favor, respeite meu momento.

*Ulisses:* Eu entendo sua dor. Mas o fato de sermos meio-irmãos não interfere em nada nas nossas vidas. Somos apenas meio-irmãos e crescemos distantes. O incesto não é um problema real quando se trata de duas pessoas que foram criadas separadas e que se amam. Você não me vê como irmão, e eu não te vejo como irmã. Eu sei que você me ama. Você tentou seguir em frente e nunca conseguiu. Não pode ocultar o que realmente sente por mim. Temos até um filho juntos.

*A câmera foca no menino, que está dormindo.*

*Irlanda:* Não insista. Já falei. Porque, mesmo te amando, eu não posso ficar com você. Somos irmãos, entenda isso de uma vez por todas.

*Irlanda se vira de costas. Ulisses deixa o anel cair e começa a chorar. Ela se volta para ele novamente e, em silêncio, o beija.*

*Irlanda:* Eu não posso mais lutar contra. Eu te amo, meu amor. Eu te amo.

*Ulisses:* Nunca mais vamos nos separar. Eu prometo.

*Ela se senta no colo dele. Os dois se beijam intensamente enquanto fogos de artifício explodem no céu acima da Torre Eiffel. De repente, Laura Pausini surge atrás deles, cantando "Quem de Nós Dois".*

*Laura Pausini:* Sinto dizer... que amo mesmo, tá ruim pra disfarçar. Entre nós dois; não cabe mais nenhum segredo, além do que já combinamos. No vão das coisas que a gente disse. Não cabe mais sermos somente amigos. E quando eu falo que eu já nem quero. A frase fica pelo avesso, meio na contramão. E quando finjo que esqueço, eu não esqueci nada.

*Irlanda, Ulisses e Laura Pausini se emocionam. Então, Ana Carolina também aparece, segurando seu microfone e cumprimentando os três com abraços. Ela e Laura Pausini cantam em dueto.*

*Ana Carolina:* E cada vez que eu fujo, eu me aproximo mais, é.

*Laura Pausini:* E te perder de vista assim é ruim demais.

*Ana Carolina:* E é por isso que atravesso o teu futuro.

*Laura Pausini:* E faço das lembranças um lugar seguro.

*Ana Carolina:* Não é que eu queira reviver nenhum passado.

*Laura Pausini:* Nem revirar um sentimento revirado.

*Ana Carolina:* Mas toda vez que eu procuro uma saída.

*Laura Pausini:* Acabo entrando sem querer na tua vida.

*Ulisses e Irlanda batem palmas. Laura Pausini e Ana Carolina se abraçam e trocam beijos protocolares.*

(CORTA PARA: QUARTO DE HOTEL)

*Ulisses e Irlanda transam intensamente. Ela cavalga sobre ele, gemendo. As cenas se alternam: ele beijando e mordiscando o pescoço e os seios dela; ela deslizando as mãos pelas costas dele; depois, os dois deitados de lado. Quando terminam, ela está nos braços dele.*

*Irlanda:* Seria mesmo pecado uma relação entre irmãos?

*Ulisses:* Você leva a Bíblia em conta? Olha, foi o ateísmo que me formou.

*Irlanda:* Independentemente da fé ou não, nossa relação resultou no nascimento do nosso filho com hidrocefalia.

*Ulisses:* Mas isso é uma questão genética. As pessoas deveriam romantizar mais questões como o incesto, entende? A Bíblia apenas alterou o pensamento do ser humano. Que mal há em familiares manterem uma relação de amor?

*Irlanda:* É... realmente. Os cristãos confundiram nossa cabeça. Mas agora deixe-os de lado e foque em nós dois.

*Irlanda beija Ulisses e monta sobre ele novamente.*

[AVIÃO/NOITE]

*Aura, Facundo e Charles estão acomodados em suas poltronas.*

*Aura:* Quero ver meus irmãos. Não paro de pensar nos três. Estou com um mau pressentimento.

*Facundo:* Imagino. Vocês ficaram longe por muito tempo.

*Charles se levanta e começa a correr, chamando a atenção dos passageiros.*

*Charles:* Mamãe, eu quero voltar.

*Aura:* Charles, sente-se aqui, anda.

*Charles:* Não. Eu quero voltar para casa.

*Facundo:* Charles, já mandamos sentar.

*O menino ignora. Quando Facundo se levanta para buscá-lo, o avião sofre uma forte turbulência e as luzes piscam. Charles corre de volta gritando e abraça o pai. Todos se sentam rapidamente.*

*Aura:* O que está acontecendo?

*Facundo:* Calma. Deve estar tudo sob controle.

*Um dos pilotos sai da cabine, visivelmente tenso, e fala ao sistema de som.*

*Piloto 1:* Senhoras e senhores, aqui é o copiloto falando. Estamos enfrentando uma falha grave nos sistemas da aeronave. Estamos tentando estabilizar o avião, mas há uma possibilidade real de queda. Peço que todos permaneçam sentados, afivelem os cintos imediatamente e sigam as instruções dos comissários.

*O piloto 1 retorna pra cabine. Aura olha para Facundo, em choque.*

*Aura:* Ele falou... Nós vamos cair?

*Facundo:* Não sei... Não sei. Deus queira que não.

*Na cabine de comando, os pilotos conversam tensos.*

*Piloto 1:* Comandante… está tão sério assim?

*Comandante:* Infelizmente, sim. Perdemos parte do controle hidráulico e a altitude está oscilando. Ainda estamos tentando um pouso de emergência, mas preciso ser honesto: há risco de não conseguirmos manter a aeronave no ar por muito tempo.

*Piloto 1:* Meu Deus…

*O copiloto volta ao corredor para orientar os passageiros.*

*Piloto 1:* Respirem fundo e mantenham a calma. Estamos fazendo tudo que é possível para levar todos em segurança ao solo.

*Facundo e Aura se olham, apavorados.*

*Aura:* Vai tudo terminar bem.

*Com os olhos cheios de lágrimas, os dois dão as mãos. Charles chora, desesperado. A cena foca no avião cortando as nuvens na escuridão da noite. Fade out.*

`INSTANTES DEPOIS...`

*Num plano amplo e aéreo, a câmera desce lentamente através de um vórtice de fumaça negra e cinzas, revelando um vale remoto do Inferno. Rios caudalosos de lava borbulham violentamente, cuspindo bolas de fogo e liberando nuvens tóxicas que se elevam aos céus. Chamas gigantescas se alastram pelo chão e outros lugares. No centro desse cenário de destruição absoluta, nove figuras grotescas estão curvadas em posição de súplica perante o imponente Baal: Hera, Leocádia, Saúl, Solano, Graco, Clémence, Rolando, Rás e Setembro. Completamente nus, seus corpos são um amontoado de horrores: pele derretida e coberta de bolhas, feridas abertas que expõem músculos e ossos, tumores pulsantes e deformidades que distorcem seus membros. Seus olhos foram arrancados, restando apenas cavidades escuras e sangrentas. Seus pés são cascos fendidos de bode, enegrecidos e retorcidos. Eles ainda possuem longas caudas semelhantes às de cavalos. Rostos irreconhecíveis, com mandíbulas deslocadas e dentes expostos, contorcem-se em dor eterna. De súbito, uma legião de demônios menores irrompe das sombras: criaturas ágeis, de pele vermelha rachada, chifres tortos e garras afiadas pretas. Eles circundam os nove condenados e começam a chicoteá-los com correntes flamejantes e chicotes de espinhos. Cada golpe arranca pedaços de carne carbonizada. Os condenados permanecem imóveis, sem gritar, emitindo apenas uma linguagem demoníaca incompreensível. A câmera aproxima-se lentamente do trono infernal. Baal, colossal e majestoso, está sentado em seu trono. Seus olhos brilham com pura malícia. Ele inclina a cabeça para trás e solta uma gargalhada profunda, cruel e trovejante, fazendo o chão tremer e o som ecoar por todo o vale, claramente extasiado com o sofrimento de seus antigos servos. De repente, grossas correntes de ferro incandescente brotam do solo, envolvendo os nove com força brutal. As chamas sobem vorazmente, consumindo o que resta de sua carne. Seus corpos se contorcem levemente dentro das correntes, mas eles continuam entoando aquela língua profana. Baal ri ainda mais alto, num riso sádico e insaciável, saboreando cada segundo dessa condenação eterna.*

`FIM...`