Viver Sem Amanhã - Capítulo 22

 


*VIVER SEM AMANHÃ*
> Capítulo 22 (26/05/2026)

*Rás encara o comparsa com ódio.*

*Rás:* O que você fez, seu imbecil?

*Setembro:* Não importa agora. Vamos dar um fora antes que sobre pra gente.

*Uma viatura surge no horizonte e freia diante deles.*

*Setembro:* Anda, vamos fugir!

*Policial:* Parados aí! Os dois!

*Eles correm para lados diferentes. Um dos policiais desembarca para socorrer Bosco, enquanto o parceiro segue Rás e Setembro. Ignorando os ferimentos, Bosco corre para descer do viaduto e se arrasta até Moisés, já sem vida. O policial que ficou vai atrás dele.*

*Bosco (Chorando):* Não, Moisés... meu amor.

*Policial:* Vou chamar uma ambulância agora mesmo.

*O policial se afasta. Bosco grita, desesperado.*

*Bosco:* Não... isso não pode estar acontecendo.

*As mãos de Bosco estão sujas do sangue de Moisés.*

[RUAS DE SÃO PAULO/NOITE]

*Rás corre desesperadamente pelas ruas, perseguido pela viatura policial. Ele entra rapidamente num shopping. O policial soca o volante, furioso.*

*Policial:* Merda! Você não vai fugir!

*Ele para a viatura em frente ao shopping. Sem perder tempo, o policial desce rapidamente e entra, olhando ao redor com atenção enquanto procura por Rás. Rás corre pelos corredores do shopping. O policial está armado e o avista. Ele sobe a escada rolante empurrando os pedestres. No meio da subida, a tampa metálica da casa de máquinas, mal encaixada, se abre. Ele perde o equilíbrio e despenca pela abertura estreita. Seus pés atingem primeiro as engrenagens em movimento. Os ossos dos tornozelos se partem antes de serem esmagados pelo mecanismo. A corrente dentada prende suas pernas, puxando seu corpo para baixo. A pele das coxas é rasgada em tiras, enquanto músculos e gordura são arrancados em pedaços irregulares. Rás tenta se segurar nas bordas metálicas, mas continua sendo puxado. As engrenagens maiores prensam sua bacia contra as placas laterais, quebrando sua pelve. O quadril se desintegra, e lascas de osso se espalham, perfurando a carne. Sangue jorra sobre as peças aquecidas, evaporando parcialmente com o atrito do motor. Seu abdômen é prensado em seguida. A parede abdominal cede à pressão, e as vísceras explodem para fora, sendo imediatamente trituradas pela rotação. Os intestinos são cortados, enquanto fígado e baço são reduzidos a uma massa escura entre as engrenagens. Seu pescoço torce violentamente quando o mecanismo puxa o restante do tronco. O crânio bate na engrenagem principal, rachando antes de ser esmagado. A massa encefálica vaza misturada ao sangue. Com a pressão do impacto, os olhos são arrancados das órbitas, pendendo pelos nervos antes de serem sugados pela máquina. Seu corpo inteiro desaparece em menos de vinte segundos, reduzido a carne dilacerada, ossos moídos e roupas rasgadas que travam o mecanismo. A escada rolante dá um solavanco, emite um rangido estridente e para. Um fluxo denso de sangue escuro começa a escorrer entre os degraus, atingindo o piso do shopping. O policial se aproxima da borda, horrorizado.*

[RUAS DE SÃO PAULO/NOITE] 

*Setembro corre desesperadamente. Nenhuma viatura o segue até então. Ele se aproxima de um local isolado da cidade, mas não para. Sem perceber, cai numa cratera enorme e funda que, na verdade, está cheia de água parada. Ao cair, sua perna quebra; um osso perfura a coxa, rasga a calça e sai para fora. Ele grita, agonizante. Levanta-se completamente molhado de água suja e continua andando lentamente, chorando e mancando. As luzes dos postes da rua mal entram no ambiente.*

*Setembro:* SOCORRROOOO! ALGUÉM ME AJUDAAAAA!

*Ele tira a calça, rasga um pedaço do tecido e, ao ver a própria perna, se assusta. Amarra o improvisado com força no ferimento e solta um grito de dor. Olha desesperado pros lados, sem encontrar saída. Não escuta barulho algum.*

[MANSÃO MEDRANO/SALA DE ESTAR/NOITE]

*Baal entra. Ele está exausto.*

*Baal (Sentando-se no sofa):* Droga… tudo está desmoronando. Estou falido, perdi meus homens de confiança e fui expulso da quadrilha. Minha família se destruiu diante dos meus olhos, e eu já não consigo entender o que está acontecendo.

*Ele leva as mãos ao rosto. Por trás, Ulisses surge com os olhos vermelhos, suando frio, e encosta um punhal no pescoço de Baal, ameaçando.*

*Ulisses (Gritando):* EU VOU TE MATAR! SEU FILHO DA PUTAAAA!

*Baal:* Então vai em frente. Me mata.

*Falas de Hera martelam na mente de Ulisses, ordenando o crime.*

*Baal:* Me mata logo, seu inútil. Vira homem.

*Ulisses (Descontrolado):* Cala a boca! CALA A BOCA!

*Do topo da escada, Hera assiste, rindo.*

*Hera (Sussurrando):* Mata ele... mata logo, seu frouxo.

*Baal age rápido. Pega uma escultura de vidro ao lado e atinge Ulisses na cabeça, que cai e se arrasta aos pés dele. Hera sai dali imediatamente.*

*Baal:* Tenho nojo de ser seu pai. Você é um lixo.

*Baal desfere chutes seguidos em Ulisses.*

*Baal:* Seu viciado de merda. Desde quando tá metido com drogas?

*Baal para, ofegante. Ulisses o encara.*

*Ulisses:* Eu quero que você vá pro inferno! Desgraçado!

*Baal:* (Ri.) Você é um traste. Não serve nem para me matar.

*Baal vira de costas. Ulisses se levanta e o chuta por trás. Os dois se atracam e trocam socos brutais. Eles se enforcam, se empurram e brigam como rivais tomados pela fúria. Logo, estão com o nariz e a boca sangrando, completamente surtados. Baal empurra Ulisses com força. Ele cai, bate a cabeça no chão e começa a chorar. Ao tocar o ferimento, vê a mão coberta de sangue.*

*Ulisses:* Desgraçado... olha o que fez comigo. Minha cabeça... ai!

*Baal:* Você está cada vez mais doente. Cheirador de bosta.

*Baal sai, deixando Ulisses ferido no chão.*

[CEMITÉRIO/AMANHECER]

*Dia seguinte. Aura consola Bosco em meio aos túmulos. Ela está atrás dele, abraçando-o. Ele chora, e ela se comove, lacrimejando.*

*Bosco:* Acabou. Ele era meu mundo.

*Aura:* Ei, não fale assim. Você nunca estará sozinho. 

*Bosco:* Foi tudo rápido demais. Como vou viver sem ele aqui?

*Aura:* Eu sei que é difícil. Perdi meu filho, a Dalva e o Cobalto. Estou tentando me manter de pé. Mas precisamos ser fortes. Você vai superar, assim como eu estou tentando.

*De repente, o professor Deméter aparece diante deles.*

*Bosco:* Professor? O senhor aqui?

*Prof. Deméter:* Atrapalho-vos? Sinto muito pela sua perda, Bosco. Mas preciso conversar com você, a sós.

*Aura:* Claro. Eu já estava de saída.

*Aura toca o rosto de Bosco com as mãos, olhando fundo em seus olhos.*

*Aura:* Se precisar, me liga. Estou com você sempre. Com licença.

*Antes de sair, ela troca um leve sorriso com o professor Deméter, que se aproxima de Bosco. Bosco desaba nos braços dele, e os dois se abraçam. Deméter passa a mão pelos cabelos dele por trás.*

*Prof. Deméter:* Sinto muito por você. E agora? Tem para onde ir?

*Bosco:* Não sei. A Aura me chamou para morar com ela... ai, não tenho cabeça pra pensar nisso agora.

*Prof. Deméter:* Venha morar comigo. Eu cuidarei de você.

*Bosco:* Mas professor Deméter...

*Prof. Deméter (Interrompendo):* Eu sei o que você está sentindo. Só eu te compreendo. Também perdi um namorado vítima da homofobia. Na minha casa, você terá apoio incondicional. Sem contar que eu nunca escondi o que sinto por você. Eu te amo, Bosco. Você sempre foi o meu aluno favorito.

*Deméter o abraça ainda mais forte.*

[PRESÍDIO/PARLATÓRIO/TARDE]

*Aura e Nelson estão sentados frente a frente.*

*Nelson:* Sinto muito pelo seu irmão. Agora, ele precisa de você mais do que nunca.

*Aura:* Sim, sim. Eu não vou desampara-lo. Mas, mudando de assunto... sua advogada tentou me atropelar, Nelson. Aquela mulher não vai parar facilmente.

*Nelson:* O que? Não consigo acreditar. Mas você está bem?

*Aura:* Sim. Nelson, ela é capaz de tudo para me afastar de você.

*Nelson:* Proteja-se, meu amor. 

*Aura:* Eu vou. Mas você também corre perigo. Ela pode tentar te atingir aí dentro. Se cuida, por favor.

*Nelson:* Eu sei do que ela e seu pai são capazes. Mas nada vai me fazer renunciar ao que sentimos.

`Música: "Fecha De Caducidad" (Melendi)`

*Nelson e Aura se levantam e se beijam. Logo após o beijo, eles se abraçam.*

[HABEEC/ESCRITÓRIO DE BAAL/ENTARDECER]

*Clémence entra sem bater. Em silêncio, ela aproxima-se de Baal e apoia as mãos na mesa dele.*

*Adv. Clémence:* Baal... ainda tinha seu cartão de acesso.

*Baal:* Devia ter agendado. Mas já que está aqui, desembuche. O que você quer?

*Adv. Clémence:* Quero que afaste sua filha do Nelson. Não estou brincando. Se ela continuar me afrontando, vai conhecer uma mulher demoníaca. Você não imagina do que sou capaz.

*Baal:* E o que eu ganho? Você é uma perdedora, Clémence Louise. Você foi imprestável por não ter dado conta de segurar seu macho.

*Adv. Clémence:* Tudo é questão de dias, meu caro. Ele ainda vai ser meu. Quanto ao nosso acordo, eu lhe darei tudo. Só tire aquela vagabunda sedentária do caminho do meu homem.

*Baal:* (Ri.) Duas mulheres lindas brigando por um bandido sujo... que piada.

*Adv. Clémence:* Não tem graça, Baal. Ou você faz o que eu mando, ou sua filha arcará da pior maneira.

*Baal se levanta e caminha até ela. Ele segura seu maxilar com uma das mãos.*

*Baal:* Posso pensar no seu caso...

*Adv. Clémence:* Então vai fazer? Eu topo tudo, Baal. E você até que é interessante.

*Clémence desliza as mãos pelo corpo de Baal.*

*Baal:* É? Estou precisando relaxar. Problemas do dia a dia acabam comigo.

*Adv. Clémence:* É? Sou toda sua. Use-me como quiser.

*Eles se beijam intensamente. Baal enfia a cabeça entre os seios dela, enquanto ela pressiona a cabeça dele com as duas mãos. Logo, ele a vira de costas, beijando seu pescoço.*

[APARTAMENTO DE HERA/ENTARDECER]

*Hera se maquia diante do espelho. Ulisses está na cama, seminu. É visível que eles acabaram de transar.*

*Ulisses:* O Baal acabou com seu rosto. Senti nojo de te beijar agora há pouco.

*Hera:* Não enche. Vi que vocês brigaram ontem, aconteceu algo grave?

*Ulisses:* Não sei. Ultimamente andei surtando repentinamente. Eu enlouqueci, suas palavras não saíam da minha cabeça. Mas por que ele te bateu? O que você aprontou?

*Hera:* Não te interessa. Entenda: Temos um inimigo em comum. Se ele descobrir a gente, estamos mortos. Mas juntos, podemos matá-lo.

*Ulisses:* Como? Tentamos antes e ele sempre sobrevive.

*Hera:* Você saberá em breve. Nada vai te chocar mais do que o que está por vir. Agora, suma daqui antes que o imbecil do Graco apareça. Ele me vigia a mando do Baal. Aquele pau-mandado do caralho.

*Hera pega as roupas de Ulisses e joga na cara dele. Ele ri e salta da cama.*

[CALÇADA/ENTARDECER]

*Leocádia sai de um banco central segurando uma mala e se depara com Irlanda.*

*Irlanda:* Senhora... quanto tempo.

*Leocádia:* Infelizmente. Virou "influenciadora" de rua novamente? Quando pegou HIV? Espero que morra logo, sua mendiga aidética.

*Irlanda:* A senhora continua a mesma. Trata todos como lixo.

*Leocádia:* Somente pessoas como você. Você é burra. O Ulisses só te usou para me atingir. Nunca houve prazer, nunca houve amor.

*Irlanda:* Sinto desprezo por vocês dois.

*Leocádia:* Pois tome cuidado. Você e a Hera destruíram minha vida e minha família. Não pense que eu me esqueci.

*Irlanda:* Eu não destruí nada. Você mesma acabou com sua família. E eu não tenho mais medo de você. Vou mudar pelo meu filho.

*Leocádia (Em choque):* Então você está...

*Irlanda:* Sim. E você jamais porá as mãos nessa criança. 

*Irlanda se afasta. Leocádia fica em transe.*

*Leocádia (Em pensamento):* "Que horror... o Ulisses é pai e tio desse bastardo. Bom, fiz minha parte tentando impedi-los."

*Leocádia observa Irlanda por um instante. Em seguida, ela entra num Uber.*

[CASA DE DEMÉTER/SALA DE ESTAR/NOITE]

*Deméter e Bosco estão sentados no sofá.*

*Prof. Deméter:* Suponho que você ainda não saiba, mas o Rás morreu. E o Setembro continua desaparecido.

*Bosco:* Não quero falar nem saber deles.

*Prof. Deméter:* Tudo bem. Respeito sua decisão.

*Bosco (Chorando):* Obrigado por me deixar ficar. Mas tô pensando em desistir da vida.

*Prof. Deméter:* Calma. Eu vou te proteger de tudo e todos.

*Bosco:* Não entendo por que é tão bom para mim, mas obrigado.

*Prof. Deméter:* Você ainda não percebeu que eu quero ser mais que um amigo?

*Ele tenta beijar Bosco. Bosco recua imediatamente.*

*Bosco:* Não, Professor. Por favor. Somos professor e aluno, nada mais.

*Prof. Deméter:* Eu sempre te amei. Me dê uma chance.

*Bosco:* Não insista. Só vim para cá porque não queria incomodar minha irmã. O senhor é quarenta anos mais velho. Tem idade para ser meu pai.

*Prof. Deméter:* Você está sendo etarista. Mas vou respeitar seu tempo.

*Bosco se levanta e sai. Deméter o observa, aflito.*

[APARTAMENTO DE HERA/SALA/NOITE]

*Clémence visita Hera. Elas brindam.*

*Adv. Clémence*: Que estrago no seu rosto... você não sabe se maquiar direito? (Ri.)

*Hera:* Pera... conheço esse cheiro. Onde você estava?

*Adv. Clémence:* Na Habeec. Eu e o Baal, juro... o Baal é incrível... ele me fez sentir mulher de verdade.

*Hera (Enojada):* Você transou com ele? Que decadência. Está se tornando uma rampeira de baixo calão.

*Adv. Clémence:* Não importa. O Baal é um homem de verdade. Com ele eu senti fogo, paixão e desejo.

*Hera:* Poupe-me dos detalhes sórdidos. Mas e o Nelson? Esqueceu ele tão de repente? 

*Adv. Clémence:* Ele está nas minhas mãos e eu farei tudo para tê-lo só para mim.

*Hera:* Eca. Que mau gosto. Primeiro o velho nojento do Baal, agora um bandido sujo. Você realmente se supera.

*Adv. Clémence:* Prazeres da vida. Você jamais vai entender.

*Hera:* Se bem que eu não quero. 

*Clémence apenas ri e acende um cigarro.*



*VIVER SEM AMANHÃ*
> Capítulo 22 (26/05/2026)

[CLÍNICA CLANDESTINA/CORREDOR/NOITE]

*Efraim e Baal discutem aos gritos.*

*Dr. Efraim:* Senhor Baal... eu não sei se quero continuar fazendo parte...

*Baal (Interrompendo):* Vai me deixar agora? Eu preciso de você. Entende? Você não pode me abandonar justo agora.

*Dr. Efraim:* Eu sou humano. Eu me sinto mal toda vez que mato uma criança para extrair seus órgãos. Crianças inocentes que não têm culpa das nossas maldades.

*Baal:* Então você tá com pena desses pirralhos? Vai me abandonar por causa deles? Seu desgraçado. Traidor miserável.

*Dr. Efraim:* Eu não estou abandonando. Só não quero seguir sendo seu cúmplice. Matando crianças inocentes. Faça comigo o que quiser, mas não me obrigue a continuar sendo seu sócio. Por favor.

*Baal:* Você vai mesmo me deixar na mão num momento tão difícil? Depois de tudo que fiz por você?

*Dr. Efraim:* Perdão, senhor. Eu...

*Efraim se afasta, desesperado. Baal fica sozinho.*

[CASA DE DEMÉTER/SALA DE JANTAR/NOITE]

*Deméter e Bosco estão à mesa.*

*Prof. Deméter:* Não vai comer?

*Bosco:* Eu não consigo. É impossível esquecer.

*Prof. Deméter:* Você precisa reagir. Ele se foi, mas você continua vivo.

*Deméter tenta contato físico, mas Bosco se retrai imediatamente.*

*Bosco:* Já falei que não podemos.

*Prof. Deméter:* É... você tem razão. Estou me precipitando. 

*Bosco levanta-se e sai, visivelmente tenso.*

[MANSÃO MEDRANO/QUARTO DE HERA/SUÍTE/NOITE]

*No banho, Hera chora ao recordar momentos com Cobalto. Num surto de dor, ela esmurra as paredes com força.*

`Trilha sonora: "Vuélveme A Querer" (Thalia)`

*Hera:* Meu amor... por que fugiu de mim? Eu não aguento mais viver longe de você. Pelo amor que sinto, eu juro: Baal Medrano está com os dias contados. Vou destruí-lo do mesmo modo cruel com que destruiu nosso amor. Aquele miserável ainda não faz ideia do que está por vir. Os vídeos que tenho vão acabar com sua reputação. Em poucas semanas, tudo que ele construiu vai ruir. Seu reinado chegou ao fim.

*Ela observa seus punhos sangrando.*

[PERIFERIA/CASA DE IRLANDA/NOITE[

*Ulisses estaciona na periferia onde Irlanda mora. Embriagado, ele desce do carro com dificuldade, rindo sozinho, enquanto os moradores de rua o observam. Ele sobe as escadas. Irlanda grava conteúdo para a internet. Batidas na porta a interrompem. Ela vai abrir.*

*Irlanda:* Ulisses, o que veio fazer aqui? Você está bêbado novamente? 

*Ulisses:* Amorzinho, me deixa entrar. Eu preciso de você.

*Irlanda:* Ulisses, some daqui agora ou eu vou te denunciar por importunação.

*Ulisses:* Não é pra tanto também. Eu estou morrendo de saudade de você, me deixa entrar.

*Irlanda (Gritando):* VAI EMBORAAAAA. Desaparece.

*Ela bate a porta na cara dele. Ele insiste, chutando do lado de fora.*

*Ulisses:* Abre, meu amor. Vamos conversar.

*Dois homens da vizinhança se aproximam para intervir.*

*Homem 1:* Você vai deixar a menina em paz ou quer bater de frente com um homem de verdade?

*Ulisses:* O que não é de se espantar. Quem autorizou vocês falarem comigo? Vocês estão falando com um dos filhos do homem mais rico do país. Vocês querem dinheiro, né? Então toma.

*Ulisses joga notas de dinheiro amassadas nos homens e cai na gargalhada. Eles avançam e o seguram pelos braços, por trás.*

*Homem 2:* Você vai sair daqui por bem ou por mal.

*Ulisses:* Calma, pra que tanta agressividade. Me soltaaa, filhos da puta.

*Os homens arrastam Ulisses escada abaixo e o jogam na calçada. Ele se levanta com dificuldade e olha pros mendigos na rua.*

*Ulisses:* O que vocês estão olhando? Mortos de fome. Inúteis. Mendigos vagabundos. Vão trabalhar. 

*Cambaleando, ele volta pro carro e parte.*

[CALÇADA/CASA DE KIMBERLY E SOLANO/MADRUGADA]

*Num local isolado, Leocádia desce de um carro de aplicativo com uma bolsa nas mãos. Ela caminha até uma casa e bate na porta. Kimberly a recebe.*

*Kimberly:* Pensava que não viria mais.

*Leocádia (Entrando):* Trouxe seu dinheiro, mas quero ter garantia que vai sumir e me deixar em paz.

*Elas seguem pra cozinha, e Leocádia joga a bolsa com dinheiro na mesa.*

*Kimberly:* Você matou meu marido, não matou? Ele me contou que vocês tiveram desavenças pouco antes de desaparecer.

*Leocádia:* Eu não matei ninguém.

*Kimberly:* (Ri.) Você confirmou cedendo à minha chantagem. Mas eu não pretendo me contentar com bufunfa, tá ligada?

*Leocádia:* Tínhamos um acordo. Já me sacrifiquei por ter vindo nesse pardieiro imundo. De sujar minhas mãos. Aí está todo seu dinheiro.

*Kimberly:* Não é suficiente. Quero mais. Muito mais. Você tem que pagar pelo que fez.

*Leocádia:* O seu marido não te amava, ele te enganava com uma outra mulher, uma prostituta. Você não foi suficientemente mulher para prender um homem ao seu lado. Faltou marra e garras. Fraca de cama.

*Kimberly:* O que você entende de paixão? Solano me contava sobre sua relação conturbada com seu marido. Amargurada, mulher ranzinza.

*Leocádia:* Cala a boca e não se meta na minha vida.

*Kimberly:* Se bem que de uma vadia velha feito você não se pode esperar muito. Vaca.

*Leocádia (Gritando):* Já mandei ficar caladaaaaa.

*Leocádia desfere um tapa em Kimberly, que revida com violência. No confronto, Kimberly a enforca, pressionando-a contra a mesa.*

*Kimberly:* Sua assassina maldita… Você destruiu minha família e deixou minha filha sem pai. Mas vou fazer você pagar por cada lágrima, por cada pedaço da minha vida que arrancou de mim. Do mesmo jeito que acabou comigo, eu vou acabar com você.

*Leocádia tateia a superfície, encontra um cutelo afiado e e o crava profundamente no pescoço de Kimberly. A mulher se engasga no próprio sangue, com seu pescoço quase descolando, ela cai no chão, agonizando. Uma poça de sangue se espalha rapidamente ao seu redor. Leocádia está em choque. De repente, uma menina pequena aparece e observa. É a filha de Kimberly e Solano.*

*Leocádia:* Psiu! Silêncio. Não aconteceu nada.

*A menina chora, desestabilizada, e deixa sua boneca cair no chão.*

*Nuria:* Você matou a minha mãe.

*Leocádia:* Cala boca, pestinha. CALA BOCAAAAAAA, seu demônio.

*Ela avança e agarra Nuria pelos braços, levanta a menina e a enfia à força dentro de um freezer ligado. Bate a porta com força e gira a trava. Do lado de dentro, Nuria grita e soca desesperadamente.*

*Leocádia:* Que morra de hiportemia. 

> FIM DO VIGÉSIMO SEGUNDO CAPÍTULO