Viver Sem Amanhã - Capítulo 04
*VIVER SEM AMANHÃ*
> Capítulo 04 (30/04/2026)
[HOSPITAL/CORREDOR/MANHÃ]
*Baal e Leocádia discutem. Ele a encara, sério.*
*Leocádia:* Eu não vou permitir. Aura não vai carregar esse... esse erro no ventre. Esse bastardinho morre antes de nascer.
*Baal:* Baixe o tom, Leocádia. O "bastardinho" chama-se xeque-mate. Com ele, Aura vai deixar aquele homem para trás de vez. Ele vai suprir o vazio dela e, acima de tudo, atende aos meus interesses.
*Leocádia:* Interesses? Você só enxerga cifras! Nunca soube ser pai, muito menos marido. Vive para seu jogo sujo! Mas esquece que eu também sei jogar.
*Baal:* Faça o que quiser da sua vida medíocre, mas não ouse desacatar uma ordem minha. Se tocar no bebê da Aura, eu acabo com você.
*Leocádia (Rindo, histérica):* Acha mesmo que eu tenho medo das suas ameaças? São quarenta anos, Baal! Eu arranco esse bastardo da Aura, por bem ou por mal!
*Baal (Aproximando-se):* Cuidado. Sim... são quarenta anos de farsa. Eu te tirei do angu, te dei sobrenome, dinheiro e joias. Se eu estalar os dedos, você volta para um alcoice pútrido. Foi de lá que eu te tirei. Tenho negócios a tratar. Considere-se avisada.
*Baal sai. Leocádia permanece trêmula. O celular toca. É Prudência novamente.*
*Leocádia:* O que você quer agora?
*Prudência:* Dinheiro, fofinha. A Irlanda não está rendendo quase nada. Quero mais.
*Leocádia:* Mais? Eu te deixei milionária há vinte anos! O que você fez? Comeu as notas? Sua pinguça cancerígena!
*Prudência:* Antes de tudo, exijo respeito! Quanto ao dinheiro, gastei vivendo como você. Agora, ou abre o cofre, ou o Baal descobre que a Irlanda é filha dele.
*Leocádia:* Cala a boca! Me encontra hoje. Anota o endereço e não se atrase.
[RUAS DE SÃO PAULO/TRÂNSITO/MANHÃ]
*Ulisses abaixa o vidro do carro. Irlanda sorri.*
`Trilha sonora: "Quem de Nós Dois" (Laura Pausini)`
*Ulisses:* Ora, se não é a minha vendedora favorita! Fugindo de mim hoje?
*Irlanda (Rindo):* Ah, é o senhor! Quase não reconheci nesse carrão. Vai um bombom para acalmar o estresse?
*Ulisses:* Na verdade, quero te convidar para sair. Minha irmã está entre a vida e a morte... preciso espairecer. Aceita jantar comigo hoje?
*Irlanda:* Sinto muito pela sua irmã, de verdade. Mas... olha pra mim. Eu nem tenho roupa para os lugares que o senhor frequenta.
*Ulisses:* Menina, sua beleza faz qualquer vestido de grife parecer pano de chão. Eu quero a Irlanda, não um desfile de moda. Passo na sua casa às oito?
*Irlanda:* Mas o senhor pertence a outro mundo. Eu sou do angu, da periferia...
*Ulisses:* Eu não aceito “não” como resposta. Me dá logo seu endereço antes que o sinal abra.
*Irlanda (Cedendo):* O senhor é abusado, viu? Tá certo... eu vou.
[BORDEL/MANHÃ]
`Trilha sonora: “Eurossummer” (Zara Larsson)`
*Saúl entra, envolto pelo som grave dos sintetizadores. Ele senta-se.*
*Saúl (Para si):* Inferno de vida... tô precisando relaxar.
*Uma meretriz se aproxima e se senta em seu colo, provocante.*
*Mulher:* Sausafado... tá pálido! Veio buscar o de sempre ou quer que eu invente um novo pecado? Sou toda sua, você sabe.
*Saúl (Com o rosto no pescoço dela):* Só me faz esquecer. Me tira desse mundo por uma hora. Eu pago o dobro.
*Ele enfia notas no decote dela. Os dois seguem para um quarto, movidos por desejo e autodestruição.*
[HOSPITAL/CORREDOR/MANHÃ]
*Cobalto e Dalva chegam apressados.*
*Leocádia:* Finalmente, Cobalto! Onde você se meteu?
*Cobalto:* Não preguei o olho, mãe. Como está a Aura? Ela ainda corre perigo?
*Leocádia:* Está estável. Por enquanto.
*Dalva:* Graças ao meu bom Jesus! O santinho ouviu minhas preces.
*Leocádia:* Quem deu permissão para essa... criadinha suja sair da cozinha?
*Cobalto:* Não começa, mãe! Dalva ama a Aura tanto quanto nós.
*Dalva:* Deixe, seu Cobalto. O veneno dela num me alcança, não.
*Leocádia:* Insolente! Cobalto, assuma o posto. Tenho um assunto urgente e não posso me atrasar.
[DELEGACIA DE POLÍCIA/TARDE]
*Baal encara o delegado Rolando.*
*Baal:* Como o Nelson se acomodou em sua primeira noite na "suíte de luxo", delegado?
*Del. Rolando (Tragando um charuto):* Digamos que os outros detentos não foram tão receptivos. Ele apanhou muito.
*Baal:* Pouco. Mas quero mais. Transfira-o para o presídio estadual.
*Del. Rolando:* Você está louco? Preciso de juiz, trâmite legal... é impossível!
*Baal:* Impossível é você manter seu distintivo sem meu patrocínio. Você é tão sujo quanto o chão dessa delegacia, Rolando. Faça acontecer. Quero Nelson isolado.
*Del. Rolando:* Eu vou ver o que...
*Baal (Interrompendo):* Não... você vai fazer! São ordens do seu dono! Agora vou conferir o estado do meu querido genro. Com licença.
[RUA/ESQUINA/TARDE]
*Leocádia caminha até Prudência. Ao se encontrarem, ela entrega a bolsa de dinheiro.*
*Prudência:* Por que demorou tanto? Me fez esperar muito. Sabe que não gosto.
*Leocádia:* Pega esse dinheiro, e enfia no seu mais profundo orifício! Tínhamos um acordo! Por que voltou?
*Prudência (Conferindo o dinheiro):* Porque eu cansei de viver na pobreza. Quero a vida que você me tirou. Quero ser rainha. Eu poderia ter sido a esposa dele, mas me afastei pensando nos seus filhos. Você me deve muito.
*Leocádia:* Contente-se com a tal Irlanda e desapareça! Posso acabar com você num estalo de dedos. Você não tem ideia de com quem está lidando!
*Leocádia vira as costas. Prudência surta.*
*Prudência (Gritando):* Você é uma dondoca mal-amada! Baal nunca te amou! Era a mim que ele chamava na cama, sua fracassada!
*Leocádia (Entrando no carro, conversando com o motorista):* Por que todo pobre aprecia barraco? Patético. Esse cheiro de angu na periferia me embrulha o estômago.
*Prudência fica sozinha, aos gritos.*
[RUA DESERTA/TARDE]
*Um carro preto avança lentamente. Ao volante, um capanga de Baal. Ele reduz a velocidade ao avistar um jovem emigrante caminhando pela calçada. Para o veículo junto ao meio-fio. O rapaz se aproxima, hesitante.*
*Javier:* Disculpe, señor... ¿tiene cambio para ayudarme? Llegué a Brasil hace una semana y no tengo nada. Le debo dinero a un usurero y mi padre podría morir en cualquier momento. _(Com licença, senhor... teria algum trocado para me ajudar? Cheguei ao Brasil há uma semana e não tenho nada. Tô devendo a um agiota, e meu pai pode morrer a qualquer momento.)_
*Capanga:* Olvídate de las monedas sueltas, chico. Tengo algo mucho mejor. ¿Qué te parece si te damos un cambio de imagen? Vamos a gastar un poco de dinero en el centro comercial. ¿Te apuntas? _(Esquece os trocados, garoto. Eu tenho algo muito melhor. O que acha da gente dar uma repaginada no seu visual? Vamos gastar um pouco num shopping. Topa?)_
*Javier (Recuando):* Gracias, pero no lo conozco. Mi madre siempre me decía que no confiara en desconocidos. _(Agradeço, mas não o conheço. Minha mãe sempre disse para não confiar em estranhos.)_
*Capanga (Rindo):* Mírame bien... ¿parezco peligroso? No seas tonto. Entra. Conmigo, triunfarás en la vida. _(Olhe bem pra mim... pareço alguém perigoso? Não seja tolo. Entra aí. Comigo, você vai subir na vida.)_
*O jovem hesita, olha para os próprios pés e, vencido pela necessidade, entra no carro.*
*VIVER SEM AMANHÃ*
> Capítulo 04 (30/04/2026)
[DELEGACIA DE POLÍCIA/PARLATÓRIO/TARDE]
*Nelson é atirado na cadeira. Do outro lado do vidro, Baal sorri.*
*Nelson:* Desgraçado... Você planejou tudo.
*Baal (Gargalha, sarcástico):* Mas que recepção calorosa, Nelson! Pelo visto, os seus novos "colegas" de quarto não foram tão gentis com seu rostinho. Me diga: foi um de cada vez ou fizeram fila? Foi também virou mocinha? (Ri.)
*Nelson:* Maldito! Se eu pudesse, te matava agora com as minhas próprias mãos.
*Baal:* Você não entendeu o recado, entendeu? Aqui dentro, você não é ninguém. Quem manda e desmanda na porra toda sou eu. Você é apenas um número que eu posso apagar quando quiser. Se eu fosse você, não pregava os olhos. No escuro da cela, você termina esfaqueado e ninguém dá a mínima.
*Nelson explode e avança contra o vidro, mas os guardas o imobilizam com brutalidade.*
*Baal (Debochando):* Calma, campeão! Beba um pouco de água, hidrate-se. Você vai precisar de fôlego para o que eu vou te contar.
*Nelson:* Bandido... criminoso... O mundo dá voltas, Baal. Um dia você vai pagar pelo seus crimes!
*Baal (Inclina-se para a frente, frio):* Não diga? A Aura... ah, a Aura já esqueceu que você existe. Convenci ela de que você fugiu com uma amante. E tem um bônus: ela está grávida...
*Nelson:* O quê? O meu filho... eu vou ser pai?
*Baal:* Talvez. A Leocádia já está mexendo os pauzinhos para garantir que essa criança não veja a luz do dia. Sabe como é... herdeiro de pobre só traz despesa. Você vai pagar caro pelo prejuízo que me causou, vivo e, em silêncio. Quero que você sofra. Se ousar abrir a boca, eu te apago... e também apago seu bastardo.
*Nelson:* Monstros! A Aura é filha de vocês! Como podem ser tão cruéis?
*Baal (Levanta-se, ajustando o paletó):* Você não viu nada. Por enquanto, apodreça aí. Se falar, ele morre. Carcereiro! Leve esse lixo daqui. O isolamento está deixando ele delirante!
*Nelson (Gritando enquanto é arrastado):* EU VOU TE DESTRUIR, BAAL MEDRANO! EU VOU ACABAR COM VOCÊ!
*Baal sai, ignorando os gritos. O celular vibra. Ele lê a mensagem: “Chefe, venha imediatamente.”*
[URBAN SPAY/QUARTO DE HERA/NOITE]
*Hera caminha pela sala, usando um vestido vermelho. Alguém bate à porta. Ela abre e encontra Cobalto com um buquê imenso de orquídeas exóticas.*
*Cobalto:* Eu ia mandar entregar anonimamente... mas eu precisava te ver. Você está linda.
*Hera:* Obrigada, Cobalto. Você não me incomoda. Entre...
*Cobalto (Entrando):* Eu não posso esperar nem mais um segundo.
*Cobalto a envolve pela cintura.*
*Cobalto:* Eu não tive um segundo de paz desde que te vi.
*Hera:* É mesmo? E posso saber o que passava nessa sua cabecinha?
*Cobalto (Sussurrando no ouvido dela):* Nós dois. Aqui. Agora. Pelados.
*Hera:* Mas tão rápido assim?
*Cobalto:* Sim… Hera, eu estou queimando por dentro de desejo. Só você pode me socorrer. Quer mesmo chegar às suas próprias conclusões?
*Hera:* Eu pensei muito sobre... e sim.
`Trilha sonora: "Vuélveme A Querer" (Thalia)`
*Eles se beijam. O buquê cai no chão. Hera o arrasta para o quarto. Ele tira os sapatos, a calça e a camisa, depois desliza o vestido dela pelo corpo. Beija seu ombro nu. Em seguida, cenas de sexo se alternam: corpos entrelaçados, beijos, mãos explorando a pele, respirações ofegantes e movimentos intensos sobre os lençóis.*
[RESTAURANTE DE ALTA GASTRONOMIA/NOITE]
*Irlanda encara o prato, sem saber por onde começar.*
*Irlanda:* Senhor Ulisses, eu nunca comi lagosta antes. Não sei por onde começar. Só vejo comidas assim pela internet.
*Ulisses:* Calma, eu te ensino.
*Ulisses sorri e, com calma, começa a explicar. Irlanda segue as instruções e, prova um pedaço.*
*Irlanda:* É realmente muito bom.
*Ulisses:* Que bom que gostou. Aceita uma taça de vinho para acompanhar?
*Irlanda balança a cabeça negativamente.*
*Irlanda:* Prefiro refrigerante. Por causa de traumas passados, não consumo bebidas alcoólicas.
*Ulisses:* Adaptação é apenas questão de tempo. Mas não se pressione. Ninguém nasce gostando de vinho.
*Ao notar que as pessoas ao redor observam seu jeito desajeitado, Irlanda fica visivelmente tensa.*
*Irlanda:* Estão todos olhando. Não me sinto à vontade aqui.
*Ulisses dá de ombros, mantendo um sorriso cínico.*
*Ulisses:* Ignore os insignificantes. O que eles pensam é irrelevante. Você tem brilho próprio, meu amor.
*Irlanda:* Amor? Calma lá.
*Ulisses:* Perdão, querida. Foi sem querer. (Ri.)
*Irlanda:* Parece sonho. Nunca imaginei que frequentaria um lugar como este. Nunca tive um namorado que me trouxesse a lugares assim. Aliás, nunca namorei; os homens que conheci só querem se aproveitar. Minha mãe sempre tem razão em me manter longe deles.
*Ulisses inclina-se sobre a mesa, encarando-a.*
*Ulisses:* Por que não me dá uma chance? Posso mudar sua visão sobre os homens.
*Irlanda:* Senhor Ulisses, por favor. Valorizo muito nossa amizade e prefiro que continue assim.
*Ulisses:* Tudo bem, sem problemas.
*Irlanda:* O senhor é um homem muito bondoso.
*Ulisses sorri para ela debochando.*
*Ulisses (Em pensamento):* "Garota burra... favelada. Não adianta vestir seda em porco. Nasceu para comer angu e vai morrer comendo angu. Por outro lado, me será útil contra a vaca da Leocádia."
[GALPÃO ABANDONADO/NOITE]
*Baal entra no local escuro. O emigrante (Javier), suado e inquieto, o aguarda.*
*Baal:* He oído que la red se está estrechando, jovencito. Prestamistas usureros a la puerta, padre enfermo... Pero soy un hombre de negocios con alma de filántropo. _(Soube que o cerco fechou, rapaz. Agiotas na porta, pai doente... Mas eu sou um homem de negócios com alma de filantropo.)_
*Javier:* No tengo adónde huir, señor. Haré cualquier cosa por dinero. _(Eu não tenho mais para onde correr, senhor. Faço tudo pelo dinheiro.)_
*Baal:* Estupendo. El trato es el siguiente: compro órganos. Pero no solo quiero un riñón. Quiero el paquete completo: riñones, córneas, parte del hígado... Todo rápido y limpio. Cien mil dolares en tus manos. _(Ótimo. É o seguinte: eu compro órgãos. Mas não quero só um rim. Quero o pacote completo: rins, córneas, parte do fígado... Tudo rápido e limpo. Cem mil dólares na mão.)_
*Emigrante (Chocado):* ¿Cien mil? Ese es el dinero que salvó la vida de mi padre... Trato hecho. ¿Cuándo lo hacemos? _(Cem mil? É o dinheiro que salva a vida do meu pai... Fechado. Quando fazemos?)_
*Baal:* Mañana a las seis. Una furgoneta negra te recogerá. Si haces el más mínimo ruido, morirás antes de llegar a la mesa de operaciones. _(Amanhã, às seis. Uma van preta te pega. Se der um pio, você morre antes mesmo de chegar à mesa de cirurgia.)_
*Emigrante:* Iré... Acepto. Solo quiero el dinero ahora. _(Eu vou... eu aceito. Só quero o dinheiro logo.)_
*Baal (Sorrindo como o diabo):* Relájate. Vas a "viajar" al paraíso. _(Relaxa. Você vai "viajar" para o paraíso.)_
[MANSÃO MEDRANO/CORREDOR DOS QUARTOS/NOITE]
*Leocádia cruza o corredor e encontra Saúl, que cambaleia levemente.*
*Leocádia:* Cheiro de zona, Saúl? Perfume de quinta categoria? Não vai me dizer que esteve outra vez num prostíbulo qualquer na beira da estrada.
*Saúl (Puxando-a pelo braço):* E o que você esperava? Você não me procura, me trata como um estranho. Fui buscar o que você me nega. Tenho necessidades. Sou homem.
*Leocádia:* O Baal não tira os olhos de mim! Você quer que ele descubra e mate nós dois?
*Saúl:* Aquele desgraçado está ocupado demais brincando de Deus. Agora estamos sozinhos, Leocádia.
*Saúl beija o pescoço dela com ferocidade. Leocádia resiste por um segundo, mas logo cede, entregando-se ao desejo proibido ali mesmo no corredor. Dalva sobe os degraus lentamente. Ela para ao ouvir os gemidos. Então, espreita pela fresta. Leva a mão à boca ao descobrir que Leocádia e Saúl são amantes.*
> FIM DO QUARTO CAPÍTULO
