Viver Sem Amanhã - Capítulo 03

 


*VIVER SEM AMANHÃ*
> Capítulo 03 (29/04/2026)

[DELEGACIA/CELA/NOITE]

*Nelson é empurrado para dentro da cela. O carcereiro ri. Os detentos observam.*

*Nelson:* Eu sou inocente! Não sou bandido!

*Carcereiro:* Aproveita sua lua de mel, “noivinho”!

*À sua frente, três detentos o cercam.*

*Detento líder:* Olha só... que desperdício de linho. Veio direto do altar pro inferno, foi?

*Nelson:* Eu não pertenço a este lugar. Não sou como vocês. Sou um homem de bem!

*Detento líder (Deslizando os dedos sujos pelo rosto de Nelson):* Pele macia, cheiro de perfume caro. Fazia tempo que não aparecia alguém tão fino aqui.

*Nelson (Repele a mão, com nojo):* Não me toque! Eu não sou do seu nível! Não sou um criminoso do seu feitio!

*Detento líder:* Aqui dentro, teu sangue não vale mais que o de ninguém, riquinho. Somos todos feitos do mesmo barro.

*Nelson:* Malditos sejam! Vocês não têm moral!

*O detento líder desfere um soco no estômago de Nelson. Nelson dobra-se, sem ar. Começa um espancamento rítmico. Chutes atingem as costelas e o rosto dele. O líder o agarra pelos cabelos e o arrasta pelo chão imundo até a latrina.*

*Detento líder:* Cadê a pose agora, "príncipe"? Reage! Mostra tua casta!

*​O detento líder afoga Nelson na privada imunda repetidamente até ele desmaiar. Depois, solta-o como um trapo velho.*

*Detento líder (Aos outros):* O brinquedo é de vocês. Aproveitem. Carne fresca.

*Os detentos avançam, desabotoando as calças. A câmera se afasta lentamente enquanto os homens estupram Nelson. Fade out.*

[IGREJA/INÍCIO DA CERIMÔNIA/NOITE]

*Na igreja, a câmera foca nos rostos ansiosos de Saúl, Bosco, Leocádia e Ulisses. Arranjos de rosas brancas se destacam no ambiente. Os convidados já demonstram impaciência pela demora. O padre percebe o atraso do noivo, sem imaginar que ele foi preso. Leocádia se levanta, altiva, e sai sob os olhares dos curiosos. Lá fora, começa a chover.*

[RUA - CARRO/NOITE]

*Chuva intensa em São Paulo. Baal dirige com uma mão; na outra, segura seu celular.*

*Leocádia:* Baal, onde você se meteu? Os convidados já estão na igreja! Apareça e finja que somos uma “família perfeita”.

*Baal:* Não vai ter casamento, nem altar, nem “felizes para sempre”. O Nelson foi preso. Aquele desgraçado achou que podia me roubar e sair impune.

*Leocádia:* Preso? Então aquele alpinista social finalmente caiu? Sensacional... Aura vai ficar em prantos, mas admito: você foi brilhante.

*Baal:* Escuta bem: volte na mansão e conte a ela que ele sumiu com uma qualquer. A Aura precisa odiar o Nelson. Se souber da prisão, vai querer bancar a heroína e pagar advogado. Mate esse amor nela antes que vire prejuízo pra nós. E nada de escândalos envolvendo nosso nome, ficou claro?

*Leocádia:* Considere feito. Mentir é minha especialidade, você sabe. Vou transformar o “grande amor” no maior desgosto da vida dela.

[HOTEL URBAN SPAY/CORREDOR/NOITE]

*Hera caminha com dificuldade, apoiada em Cobalto. Ela finge fragilidade.*

`Trilha sonora: "Vuélveme A Querer" (Thalia)`

*Cobalto:* Tem certeza que não quer que eu entre? Você ainda está muito abalada.

*Hera:* Você já foi meu anjo da guarda por hoje, Cobalto. Não quero abusar da sua nobreza. Obrigada por tudo. Homens como você... são raros hoje em dia.

*Cobalto (Entrega um cartão):* Ligue. A qualquer hora. Vou estar à mercê de você sempre que precisar.

*Hera se aproxima, abraça-o e apoia o rosto no pescoço dele.*

*Hera:* Eu vou guardar com muito carinho. Você me fez sentir segura de novo.

*Ele sai. Ela entra no quarto. Ao fechar a porta, sua expressão muda instantaneamente. Endireita a postura, joga o cartão no lixo e limpa o ombro onde ele encostou.*

*Hera (Para si mesma):* Pobre coitado... mal sabe ele que acabou de enfiar uma corda no próprio pescoço. Bonito gesto, mas tão previsível. Vai servir apenas como degrau mais fácil da minha vingança.

*Lá embaixo, Cobalto soca o volante, rindo.*

*Cobalto:* Essa mulher ainda vai ser minha! Maravilhosa!

[MANSÃO MEDRANO/QUARTO DE AURA/NOITE]

*Aura, de noiva, olha-se no espelho. Leocádia entra.*

*Aura:* Mãe! O véu está reto? Estou tremendo, acho que o Nelson vai chorar quando me vir...

*Leocádia (Para a costureira):* Saia daqui! Agora!

*Aura:* Mãe! O papai já chegou? O que houve?

*Leocádia:* Tire esse vestido, Aura. Agora. Não vai ter casamento.

*Aura (Rindo, nervosa):* Que brincadeira de mau gosto... O Nelson me ama! Ele deve estar me esperando na igreja agora mesmo!

*Leocádia:* Seu "grande amor" deu um golpe e fugiu, sua tonta! Ele te usou para chegar ao cofre e, quando o cerco fechou, sumiu com uma qualquer. Limpou as contas e te deixou aqui, vestida de ridícula. Quem nasceu pra comer angu, morre comendo angu. Você não entendeu ainda, Aura?!

*Aura:* Mentira! O Nelson me ama! Ele seria incapaz! Você está tentando nos separar!

*Leocádia:* Acorda pra realidade! Ele nunca quis você, Aura. Sua otária. Ele queria o sobrenome, o dinheiro, o conforto! Enquanto você desenhava coraçõezinhos, ele planejava o golpe. Nelson é um lixo, um alpinista social que se cansou de você! E só uma burra como você, pra não ter desconfiado!

*Aura (Fora de si, chorando):* EU NÃO ACREDITO! Eu vou atrás dele! Ele deve estar me esperando na igreja!

*Aura tenta passar, mas Leocádia a segura pelo braço.*

*Leocádia:* Aceita a humilhação! Você foi trocada! Traída!

*Num surto de desespero, Aura morde o braço da mãe e sai do quarto.*

*Leocádia (Gritando):*
SUA LOUCA! DESGRAÇADA!

*Aura corre pelo corredor, o véu se prendendo nos móveis.*

*Aura (Gritando):* NELSON! EU ESTOU INDO, MEU AMOR! NINGUÉM VAI NOS SEPARAR!

*Ela chega ao topo da escadaria. Leocádia a alcança e, cega de fúria, avança e empurra Aura. Ela grita enquanto rola os degraus. O corpo para, inerte, na base da escada. Leocádia desce devagar, ajeitando o colar, sem sentir remorso. Dalva aparece após ouvir os gritos.*

*Dalva (Surge, horrorizada):* Vixe Maria! Minha Nossa Senhora! O que foi isso?! Menina Aura!

*Leocádia:* Menos drama, por favor.

*Dalva corre até Aura, em prantos.*

*Dalva:* Tu é um monstro, Leocádia! Eu vi o que tu fez! Tu empurrou a bichinha!

*Leocádia:* Meça suas palavras, criadinha! Ela se desequilibrou. Foi um acidente. Agora pare de latir e chame uma ambulância antes que eu perca minha paciência com você também!

*Dalva sai em prantos. Cobalto entra pela porta principal e para ao ver Aura desacordada.*

*Cobalto:* Aura! Mãe, o que aconteceu?!

*Leocádia:* Nelson foi preso por fraude. Tava roubando seu pai. Essa otária não suportou a verdade, tentou fugir desesperada e acabou caindo.

*Cobalto se ajoelha, chocado.*

*Cobalto:* Como você consegue falar assim?

*Leocádia (Revira os olhos):* Ela está viva, Cobalto. Só é incompetente até pra descer uma escada.

*Dalva volta, soluçando, e abraça Cobalto.*

*Dalva:* Cobalto, meu fi... acuda sua irmã. Por Deus.

*Cobalto:* Calma, Dalva... eu tô aqui. Ela vai sair dessa.

*Leocádia os observa com tédio.*



*VIVER SEM AMANHÃ*
> Capítulo 03 (29/04/2026)

[IGREJA/FIM DA CERIMÔNIA/NOITE]

*Os convidados e o padre se retiram em silêncio da igreja. Restam apenas, Baal, Ulisses, Saúl e Bosco. Baal permanece imóvel no altar.*

*Saúl:* Que quadro magnífico, Baal. O patriarca cercado por ruínas. Prepare-se para  escândalos envolvendo nosso nome

*Baal (Sem se virar):* O que me espanta é sua disposição, Saúl. Para um vira-lata que vive das minhas sobras, você late com uma audácia admirável.

*Ulisses:* Ele tem razão! A Aura virou chacota nacional por causa de um zé-ninguém. E você assistiu de camarote!

*Bosco (Interrompendo, nervoso):* Chega! Estamos numa igreja, tenham um pingo de respeito e dignidade!

*Ulisses:* Dignidade? A Aura se entregou para um esfarrapado e foi chutada no altar! O que se colhe de gente assim é lodo e vexame!

*Saúl:* Culpa sua, Baal. Negligente. Estava ocupado demais caçando rabo de saia para perceber que sua filha dormia com o inimigo. (Ri) Haja disposição, hein? 

*Baal (Vira-se):* Saúl e Ulisses... vocês dois são insignificantes! Se eu fechar a mão, ambos morrem de inanição! E quanto a você, Saúl, não preciso torrar dinheiro com esse tipo de companhia como você faz.

*Ulisses:* Não se sinta tão importante! Eu preferia passar fome a ter que carregar seu DNA! Esse sobrenome me dá náuseas!

*Baal explode. Ele esbofeteia Ulisses, que desaba sobre os bancos de madeira.*

*Bosco:* Meu Deus! Parem! Vocês não respeitam sequer um ambiente sagrado.

*Baal:* Aprenda a me respeitar, seu moleque! Você deveria agradecer por eu ainda não ter te jogado na lama, que é seu habitat natural!

*Ulisses (Limpando o sangue da boca):* Vão embora, Bosco e Saúl. Eu e ele temos contas a acertar.

*Bosco e Saúl saem lado a lado. Nenhum dos dois fala.*

*Ulisses (levantando-se):* Nunca mais encosta em mim. O tempo da criança que você dobrava no soco acabou. Hoje você encara um homem que te odeia.

*Baal (Gargalha):* Homem? Você é um rascunho malfeito! Se tem mágoas, chore no colo de uma quenga qualquer. Sem meu dinheiro, você morre de fome debaixo da ponte.

*Ulisses:* Pode rir enquanto há tempo. O laço de sangue que nos unia eu acabei de romper. Hoje você perde um filho e ganha um inimigo.

*Baal avança, derrubando Ulisses e o prensando pelo pescoço no chão.*

*Baal:* Medíocre! Mil vezes medíocre! Quem desafia Baal Medrano acaba enterrado!

*Ulisses (Engasgado):* Me... solta...

*Baal (Larga-o com nojo e ajeita o terno):* Eu te dei a vida, e eu posso te devolver pro nada. Agora levante-se e aja como um homem de verdade.

*Baal deixa a igreja sem olhar para trás. No chão, Ulisses desaba em lágrimas.*

[MANSÃO MEDRANO/HALL/MINUTOS DEPOIS]

*Saúl e Bosco entram na mansão. Dalva e Cobalto estão sentados no último degrau da escada, preocupados.*

*Bosco (Corre até eles, visivelmente aflito):* Dalva! Cobalto! Ainda bem que vocês estão aqui...

*Cobalto levanta-se e abraça Bosco.*

*Cobalto:* Como vai, Saúl?

*Saúl:* Comigo, tudo bem.

*Dalva:* Vixe, meu fi... Eu tô com o coração quase saindo pela boca, de tanta preocupação.

*Saúl:* Onde está a Leocádia, Dalva?

*Dalva:* Tá no hospital. A menina Aura despencou dessa escada logo depois que soube. Foi um desmantelo só.

*Saúl:* A Aura deve ter sofrido muito...

*Bosco:* Tudo virou cinzas tão de repente.

*Dalva:* A luz da minha menina se apagou foi de vez. Se a gente não for o amparo dela agora, ela é capaz de fazer uma besteira arretada, visse? O tombo foi feio, mas o que vem depois pode ser ainda pior.

*Saúl, Bosco e Cobalto trocam olhares.*

*Cobalto:* Vai descansar, Bosco. Você deve estar exausto. Eu fico aqui aguardando.

*Bosco assente em silêncio e sobe as escadas.*

*Saúl:* Eu vou sair um pouco para espairecer. Se precisarem, não hesitem em me ligar.

*Saúl retira-se. Apenas Dalva e Cobalto permanecem sentados na escada.*

(CORTA PARA: QUARTO DE BOSCO)

*Bosco entra no quarto, tranca a porta e tira a camisa. Vai até a mesa de cabeceira, abre a gaveta e pega uma pequena caixa. Dentro, há lâminas e navalhas. Ele escolhe uma. Olha para o próprio antebraço por alguns segundos e corta. Fecha os olhos por um instante, reagindo à dor. Um filete de sangue escorre lentamente pelo braço até o pulso.*

[HOTEL URBAN SPAY/QUARTO DE HERA/AMANHECER]

`Trilha sonora: "Feels Like Heaven" (Loreen)`

*Um novo dia. Hera está no hotel, diante da janela, contemplando o horizonte.*

*Hera (Sussurrando):* Cobalto... você ainda vai rastejar. Não te quero por uma noite... quero me infiltrar na sua família.

*Hera acende um cigarro, traga com calma e permanece ali, imóvel, observando o nada.*

[UNIVERSIDADE/CORREDOR/MANHÃ]

*Bosco tenta passar despercebido. Setembro, Rás e Moisés cercam-no.*

*Setembro:* Olha lá... o menino vergonhoso! Onde vai com tanta pressa, "homoguei"?

*Eles riem. Bosco olha, cabisbaixo.*

*Bosco:* Me deixem em paz, Setembro. Só quero ir pra aula.

*Moisés:* Souberam? O clã Medrano virou piada nacional! A irmã dele foi descartada no altar, feito lixo!

*Rás:* Não adianta lutar contra, Bosco… vocês nasceram pra espalhar desgraça.

*Moisés (Arranca os óculos de Bosco):* Oh, vejam! O ratinho vai chorar? Vamos ajudar ele a enxergar?

*Bosco (Tateando, trêmulo):* Devolve... por favor... eu não vejo nada...

*Setembro (Joga os óculos no chão):* Quer seus olhos? Estão aí, gazela.

*Eles saem rindo. Bosco se ajoelha, chorando, recolhendo os óculos.*

[HOSPITAL/CORREDOR/MANHÃ]

*O médico caminha em direção a Baal e Leocádia.*

*Leocádia:* Diga logo, doutor! Como ela está?

*Médico:* Acalmem-se. Aura está estável. Ela resistiu à queda, mas há algo mais...

*Baal:* Fale de uma vez. Sem delongas.

*Médico:* Aura está grávida. Vocês serão avós. Meus parabéns.

*Leocádia petrifica. Baal encara o médico.*

*Baal:* Um neto? Daquele... daquele verme que nos humilhou na frente de todos?

*Leocádia:* Não pode ser… no que ela estava pensando quando se entregou àquele esfarrapado?

*O médico se retira, descontente com o que ouviu.*

*Leocádia:* Não... a Aura não pode estar grávida desse pobretão sujo... não... Nem esperaram a lua de mel para se relacionarem...

*Baal:* Uma semente bastarda crescendo no ventre da nossa filha... Parece gozação. Que ironia do destino.

*Leocádia (Olha para Baal com determinação):* Essa semente não vai brotar, Baal. Eu não vou deixar esse erro ganhar vida. Aura não vai ter esse bebê. Eu mesma vou dar um fim nisso. Nem que eu a mate.

> FIM DO TERCEIRO CAPÍTULO