Viver Sem Amanhã - Capítulo 01
*VIVER SEM AMANHÃ*
> Capítulo 01 (27/04/2026) - Estreia
[SÃO PAULO, 2007/PERIFERIA/NOITE]
*Está chovendo lá fora. Num casebre na periferia, diante de um espelho rachado, Selva Moraes encara seu reflexo: batom vermelho, saltos altos e um vestido branco colado ao corpo.*
*Selva:* Irresistível… (ri) Ainda vão me implorar por migalhas.
*Na sala, a televisão chia. Isaías anda de um lado para o outro, enquanto Cipriana o observa.*
*Isaías:* Cipriana, eu tô preocupado… faz dias que não durmo. Desde que a Selva se envolveu com aquele homem, ela sai, desaparece… e não diz uma palavra. Nem o rosto desse desgraçado ela mostra.
*Cipriana:* Temos que protegê-la, Isaías. As pessoas estão cada vez mais degradadas. Selva conheceu esse homem pela internet e já se deixou levar… não vê o perigo. Pode terminar muito mal.
*De súbito, Selva irrompe na sala.*
*Selva:* Interrompo a conspiração contra o progresso?
*Isaías repara no modo como ela se veste.*
*Isaías:* Aonde pensa que vai desse jeito? Quer virar atração de ponto? Tá parecendo uma puta!
*Selva:* Não me ofenda! Eu vou em busca do topo, pai. Vicenzo Parras vai me tirar desse buraco.
*Isaías:* Vicenzo Parras? Filha… esse homem não é o que aparenta. Ele está te iludindo. Por favor, abre os olhos!
*Selva:* Basta. Não admitirei que interfiram no meu destino. Estou cansada dessa rotina degradante: servir bêbados, contar trocados, comer angu, ver vocês se contentando com um salário mínimo… sobreviver dia após dia em condições que anulam qualquer perspectiva de ascensão. Eu vou alcançar o topo. E, quando acontecer, vocês vão se arrepender amargamente de terem me virado as costas.
*Cipriana:* Angu e salário mínimo não ferem caráter, Selva. Nojo eu sinto de quem renega a própria essência. O destino cobra… e cobra com juros. Você vai pagar caro por não ouvir quem te criou.
*Selva:* ENTÃO QUE EU PAGUE, DROGA! CALA A BOCA, CIPRIANA!
*Isaías:* Não fale assim com sua mãe.
*Cipriana:* Filha, pare e me escute. Volte… nós vamos encontrar meios. Você ainda vai concluir seus estudos.
*Selva:* Chega, Cipriana. Estou exausta. Exausta do cheiro de miséria impregnado em tudo. Exausta do pouco. Não quero mais comer angu. Vicenzo Parras vai me conduzir a um nível superior. Então, não me impeçam.
*Selva avança em direção à porta. Isaías segura seu braço.*
*Selva:* Me solta! Vicenzo não pode esperar nem mais um segundo. O motorista já está lá fora.
*Isaías:* Você não vai a lugar algum. Não vou permitir que destrua a própria vida.
*Selva (Gritando):* ME SOLTAAAAAAAAAA!
*Num acesso de fúria, ela se solta, empurra Isaías contra a parede, e Cipriana grita, assustada.*
*Isaías (Erguendo-se):* VOLTA AQUI!
(CORTA PARA: CALÇADA DA PERIFERIA)
*Selva entra no carro. Isaías e Cipriana tentam impedi-la.*
*Selva:* Vai logo, por favor!
*Tomado pelo desespero, Isaías se abaixa, pega uma pedra e lança contra o para-brisa, que se estilhaça.*
*Isaías:* Desça desse carro agora, Selva!
*Isaías encara o homem ao volante.*
*Isaías:* Desgraçado… eu vou te matar!
*O motorista arranca e acelera sem hesitar.*
*Selva:* Pisa fundo! VAAAAAAI!
*Isaías corre, desesperado, tentando alcançá-los. Cipriana volta para casa e encontra Delta acordada.*
*Cipriana:* Calma, meu amor… volta pra cama. Não foi nada.
*Delta obedece em silêncio. Cipriana acende uma vela e começa a orar.*
*Cipriana:* Pai nosso que estais nos céus…
[MATAGAL/GALPÃO ABANDONADO/NOITE]
*O motorista para o veículo em meio a um matagal. Selva se assusta, hesita por um instante e o interpela, sem saber com quem está lidando.*
*Selva:* Vicenzo tá aqui? Quero voltar imediatamente.
*Alheia, Selva nada percebe. Em absoluto silêncio, o homem calça luvas, recolhe cordas e desce do carro.*
*Selva:* O que está acontecendo? Você me ouviu? Eu quero voltar!
*O homem abre a porta traseira do veículo e retira Selva à força. Ele amarra seus pulsos. Ela reage, debatendo-se e gritando, enquanto chuta, em vão. Arrastada pelos cabelos, é levada ao interior do galpão e lançada aos pés de Baal Medrano, que os aguardava.*
*Baal:* E então? Garantiu que não restassem vestígios?
*Capanga:* Por um triz. O pai dela, aquele velho sujo, quebrou o para-brisa do carro e viu meu rosto. Mas não houve tempo para registros, senhor.
*Baal:* Como? Imprestável. Escória. Verme. Sempre estraga tudo. Eu deveria te apagar agora, seu miserável.
*Capanga:* Não se repetirá, senhor… perdoe-me.
*Baal:* Silêncio. Deixe-me avaliar a mercadoria.
*Baal encara Selva e a puxa pelos cabelos, obrigando-a a lhe encarar. Ela não se contém e começa a chorar.*
*Baal:* Fim de jogo! (Ri) Bom, seu coração até pode valer uma fortuna no mercado negro… mas sua existência nojenta? Nem trezentos reais num lupanar infecto. Celebre, sua desgraçada. Você acaba de ser promovida. Vai financiar meu império. Diga adeus ao angu, Selva Moraes! (Ri)
*Selva (Chorando):* Me solta… eu imploro… faço tudo!
*Baal:* Não perca seu tempo implorando. Aqui, “implorar” é o epitáfio de quem entra. Reze para Satanás. Deus não frequenta este endereço.
*Selva (Gritando):* SOCORROOOOOOOO! ME AJUDEEEEEM!
*Baal desfere um soco brutal no rosto dela. Ela desmaia instantaneamente.*
*Capanga:* E agora? Qual o próximo passo, senhor?
*Baal:* Vou retificar seu erro. Se falhar de novo, te pico em postas. Acione o Vicenzo. Mande liquidar o progenitor da infeliz. Quero Isaías morto. Ninguém deve me associar a isso. Entendido?
*Capanga:* Certo, senhor!
*Baal se retira. O capanga então liga para Vicenzo.*
[RUA ESCURA/MINUTOS DEPOIS]
*Após falhar na tentativa de impedir Selva, Isaías continua andando, visivelmente abalado, e molhado.*
*Isaías:* Selva… Deus, estenda sua mão sobre ela…
*Um carro freia repentinamente diante de Isaías. Na sequência, quatro homens mascarados saem do veículo.*
*Isaías:* Quem são vocês? O que querem?
*Vicenzo avança até Isaías e o esfaqueia: estômago, peito e garganta. Ele cai de joelhos, com os dedos cravados no asfalto. O sangue se dilui na enxurrada.*
*Vicenzo:* Porta-malas. O chefe quer que o corpo seja deixado num terreno baldio. Em seguida, certifiquem-se de que tudo ocorreu conforme o esperado. Não pode haver erros.
[MANAUS, 2010/TRÊS ANOS DEPOIS/CASA DE CIPRIANA/SALA/MANHÃ]
*Após a tragédia, Cipriana e Delta mudaram-se para Manaus, buscando se afastar de Baal e romper com o passado. Cipriana, porém, afundou no alcoolismo e passou a se descuidar com Delta. Na cena seguinte, ela leva uma garrafa de cachaça à boca e bebe. Delta se aproxima e tenta abraçar a mãe, mas é rejeitada.*
*Delta:* Mãe… vamos sair daqui…
*Cipriana:* Vaza, pirralha. Não enche o saco.
*Delta:* Eu estou com fome, mãe. Não tem nada na despensa.
*Cipriana:* Dane-se? Vai mendigar no farol. Sai!
*Delta (Chorando):* Dois dias sem comida… a senhora prometeu que ia ser diferente aqui.
*Cipriana se levanta e tira o chinelo do pé, mirando Delta, que grita e corre. A menina se tranca no quarto e, encolhida, soluça.*
> Camila Queiroz (Delta, já adulta), em narração: Não imaginei que a felicidade duraria tão pouco. Levaram meu pai. Levaram a Selva. Destruíram tudo. Passei a odiar Cipriana. Fui violentada. Ninguém deveria passar pelo que vivi. Ainda assim, os responsáveis pagarão caro. Malditos Medranos. Vou tirar tudo de vocês. Agora é olho por olho, dente por dente. Não me importo se há inocentes. Vocês vão se arrepender.
[SÃO PAULO, 2026/DEZESSEIS ANOS DEPOIS/APARTAMENTO DE NELSON E AURA/COZINHA/ENTARDECER]
*Nelson e Aura preparam um bolo, entre gestos sincronizados e sorrisos. Na bancada, muita farinha espalhada; na panela, chocolate derretido.*
*Nelson (Com o dedo na boca):* Aprovação técnica. Se eu não provar, como vou saber se meu grande amor vai gostar?
*Aura (Rindo, com o rosto sujo de farinha):* Amor? Nelson, você é um vândalo! Me cobriu de farinha. Olha como eu estou!
*Nelson:* Você invadiu meu território. Agora arque com as consequências.
*Aura:* Pois aceite o contra-ataque!
*Ela assopra uma palma de farinha em seu rosto. Ele tosse, rindo.*
*Nelson:* Rendição incondicional! Mas vou te levar comigo pro abismo...
*Ele a envolve pela cintura, pressionando-a contra a bancada. Eles param de rir imediatamente e se encaram. Por um instante, permanecem em silêncio. Então, sem resistir, se beijam.*
`Música: "La Aurora" (Eros Ramazzotti, Alicia Keys)`
*De repente, Dalva entra, surpresa.*
*Dalva (Escandalizada):* Vige Maria! Que sem-vergonhice da moléstia! Ainda nem se ajoelharam no altar e já tão nesse rala-e-rola? Tenham tento! Se avexem!
*Aura (Sorrindo, envergonhada):* Nana! Nós só estávamos preparando um bolo...
*Dalva (Aponta o dedo para Nelson):* Escute bem, cabra safado... Se tu fizer minha menina derramar uma lágrima, eu juro que te despacho de volta pra onde veio.
*Nelson:* Entendido, Dona Dalva.
*Eles riem num momento de ternura.*
[MANSÃO MEDRANO/QUARTO DE ULISSES/ENTARDECER]
*Leocádia percorre silenciosamente o corredor dos quartos da mansão. Ao entrar no quarto de Ulisses, abre as janelas. Ele desperta lentamente.*
*Leocádia:* Seis horas e você continua nesse estado deplorável. Até quando pretende ser o parasita da família, Ulisses?
*Ulisses (Despertando):* Vai pro inferno, Leocádia! Morre, sua vaca!
*Leocádia anda e agarra o maxilar dele, forçando-o a encará-la.*
*Leocádia:* Escute bem: você nasceu para o topo, não para o lodo. Quantas noites mais vai desperdiçar com álcool e drogas? Reaja! Eu e Baal já estamos fartos do seu espetáculo deprimente.
*Ulisses:* Eu odeio o Baal. E odeio você. Queria vê-los mortos.
*Leocádia (Ri, soltando-o):* Rebelião de quarto não derruba reis. Quem almeja o trono estuda fraquezas e esmaga no momento certo. Soberano não acorda às seis da tarde choramingando. Cresça ou apodreça de vez.
*Ela sai do quarto, batendo a porta. Ulisses surta, esmurrando os lençóis e o colchão. No corredor, Leocádia esbarra em Saúl. Ele a segura pela cintura, audacioso.*
*Leocádia:* Saúl... que susto. Tenha mais cuidado.
*Saúl:* Clima pesado na monarquia, cunhada?
*Leocádia:* Ficou louco? Se alguém nos vir...
*Saúl:* Não tem ninguém. Os criados saíram, e aquela tagarela metida da Dalva foi bajular a protegida no apartamento do Nelson.
*Leocádia (Rindo):* Você é um inconsequente. Se o Baal sonha... ele nos mata.
*Saúl:* É exatamente o risco que deixa tudo mais interessante.
*Ele a beija e a arrasta para uma sala lateral.*
[UNIVERSIDADE/CORREDOR/ENTARDECER]
*Bosco caminha apressado. Setembro, Moisés e Rás surgem, esbarrando nele. Os objetos dele caem.*
*Setembro:* Olha por onde anda, imbecil! Tá cego ou o quê?
*Bosco (Ajoelhando-se para recolher os objetos caídos):* Desculpe... eu não vi vocês.
*Setembro:* Claro que é o sonso do Bosco. Quatro olhos e esquisito.
*Rás:* Deixa o CDF, Setembro. Precisamos desse lixo pra passar na prova de amanhã.
*Moisés:* A enciclopédia ambulante aí é nosso passe livre. Faz prova, trabalho… praticamente estuda pela gente, né não, gênio?
*Bosco evita encarar. As mãos tremem.*
*Setembro:* Ei, Bosco, não gostei do seu jeito. Te prepara, porque teu inferno acadêmico tá só começando.
*Setembro pisa na mão de Bosco enquanto ele se esforça para alcançar um caderno. Eles se afastam rindo. Bosco lacrimeja.*
[PERIFERIA/CASA DE IRLANDA/COZINHA/NOITE]
*Irlanda entra exausta, com a cesta de bombons cheia.*
*Irlanda:* Mãe? Cheguei.
*Prudência (Saindo do quarto com um cigarro nos dedos):* E aí? Cadê o dinheiro, Irlanda?
*Irlanda:* Não deu, mãe. Não vendi nada. Sobrou tudo.
*Prudência (Avança, furiosa):* Eu quero a grana! Passa pra cá agora!
*Irlanda:* Eu preciso repor os alimentos, na despensa não tem nada! Só temos angu pra hoje!
*Num gesto teatral e insano, Prudência pega uma faca de cozinha e encosta no próprio pulso.*
*Prudência:* Dá o dinheiro ou eu me rasgo aqui agora! Vou dizer pro delegado que foi você. Quer ser presa por esfaquear a própria mãe?
*Irlanda (Chorando, entrega trinta e cinco reais):* Toma... é tudo o que eu tenho.
*Prudência:* Tá me tirando?
*Prudência dá um tapa no rosto de Irlanda.*
*Prudência:* Trinta e cinco reais não dá pra nada! Se eu soubesse que ia parir um estorvo desses, teria abortado e te jogado no ralo antes de nascer!
[APARTAMENTO DE NELSON E AURA/ESCRITÓRIO/NOITE]
*Nelson está tenso diante do notebook. Os gráficos da empresa (Habec) brilham na tela.*
*Nelson:* Não fecha... nada aqui faz sentido. Esses lucros são irreais.
*Ele se levanta, inquieto, as mãos na cabeça.*
*Nelson (Sussurrando para si):* Baal... o que você está escondendo? Amanhã já começam os preparativos do casamento... mas não vou poder me ocupar, preciso conversar com você. É inadiável.
[MANSÃO MEDRANO/QUARTO DE AURA/NOITE]
*Aura mostra o vestido de noiva para Dalva.*
*Aura:* E então, nana? Eu vou estar bonita pra ele?
*Dalva (Com os olhos brilhando):* Tu vai parecer um anjo caído do céu, visse?
*Aura (Perdendo o sorriso subitamente):* Nana... tô com um mau pressentimento. Acho que esse casamento não vai acontecer.
*Dalva:* Deixe de agouro, menina! O que tá escrito por Deus, homem nenhum apaga. Tenha fé.
`Música: "Feels Like Heaven" (Loreen)`
*Cenas se alternam em câmera lenta: Leocádia e Saúl se beijam. Bosco chora, recluso em seu quarto. Dalva e Aura riem. Irlanda se dedica ao preparo de novos bombons. Prudência se embriaga num bar. Ulisses faz apostas num cassino clandestino. Nelson permanece diante do notebook. Baal, na empresa, serve-se de uísque com gelo.*
[MANAUS, 2026/CASA DE CIPRIANA/QUARTO DE CIPRIANA/NOITE]
*Delta entra no quarto da mãe, decidida. Cipriana dorme.*
*Delta:* Acorda, Cipriana. Precisamos conversar.
*Cipriana desperta lentamente e encara a filha.*
*Delta:* Há dezenove anos, Baal destruiu nossas vidas para sempre. Refleti, reconsiderei e decidi: voltarei a São Paulo para destruir os malditos Medranos, um a um, de modo cruel e impiedoso.
*Cipriana (Tossindo, debilitada):* Não! Eu não vou permitir! Baal vai te estraçalhar, Delta!
*Delta:* Eles já me estraçalharam! Me fizeram comer o pão que o diabo amassou! Mas agora a conta chegou. Vou cobrar cada centavo em sangue. Hoje eu sou o pesadelo que eles não esperam.
*Cipriana pega o celular e começa a digitar um número.*
*Delta:* O que vai fazer, sua velha maluca?!
*Cipriana:* Eu vou te salvar!
*Delta:* Como? Você quer me impedir? Não vai ligar.
*Delta toma o celular das mãos de Cipriana e joga na parede. Cipriana tenta se levantar, mas Delta a contém, empurrando-a de volta à cama.*
*Cipriana (Horrorizada):* Você enlouqueceu? Eu sou tua mãe! Me deve respeito!
*Delta:* Eu não te devo nada!
*Delta pega um travesseiro. Os olhos transbordam ódio e desespero.*
*Cipriana:* Mons... tro...
*Delta pressiona o travesseiro contra o rosto da própria mãe, até que ela para de se mexer. Delta encara o corpo, ofegante.*
*Delta:* Ninguém... vai me deter!
> FIM DO PRIMEIRO CAPÍTULO
