Sombras do Passado - Capítulo 07 | Edição Especial
[Na penitenciária, em sua cela, Madeleine está deitado no chão, tentando dormir, depois de passar toda a noite em claro. De repente, é ouvido o barulho da porta da cela se abrindo. É Xavier. O prefeito levanta-se, assustado, enquanto o inspetor e observa friamente, sorrindo.]
Madeleine (levantando-se, duramente): O que você quer, Xavier? Já não conseguiu o que tanto queria? VÁ EMBORA!
Xavier (malicioso): Mantenha a compostura, Madeleine...
Madeleine: O senhor é um homem de alma podre. Eu entenderia se estivesse apenas em busca de justiça, mas não é isso que você faz. Você é frio e calculista... Minucioso e COVARDE!
Xavier (olhando em seus olhos): Covarde por ter feito o meu trabalho, Serafín? |Aproxima-se.| Você matou uma criança... Fugiu da cadeia e cometeu o crime de falsidade ideológica. Acha mesmo que está certo?
Madeleine: EU NÃO MATEI NINGUÉM!
Xavier (esboçando um sorriso provocativo): Prove isso ao juiz... Mas de nada adiantaria. Você iria pagar pelos outros crimes também. Você está perdido, Machado.
[Neste momento, Xavier se aproxima ainda mais, lentamente, e os dois ficam cara a cara.]
Xavier: Você irá passar o resto de sua miserável vida atrás das grades. O seu carma está se cumprindo. A JUSTIÇA ESTÁ SENDO FEITA!
[Com um impulso inexplicável, Madeleine desfere um forte soco no rosto de Xavier, que o faz cair. Um forte instrumental tenso invade a cena.]
Xavier (levantando-se rapidamente): MISERÁVEL!
[Em um forte movimento, ele agarra Madeleine pela gola da camisa e o coloca contra as grades, deixando-o imóvel.]
Xavier: ISSO, SERAFÍN, TRAGA A SUA VERDADEIRA NATUREZA DE VOLTA! PROVE QUE VOCÊ CONTINUA SENDO O MESMO SELVAGEM QUE MATOU O MEU FILHO, DEZOITO ANOS ATRÁS!
[Neste instante, o pico do instrumental é alcançado. A câmera foca no rosto atônito de Madeleine e em Xavier.]
Madeleine (gaguejando): Filho...? DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO?
Xavier (com os olhos marejados): SIM, MEU FILHO! O GERVAIS ERA MEU FILHO!
[Ele solta a gola de Madeleine, que tenta processar a informação.]
Xavier: HÁ VINTE E SEIS EU ME APAIXONEI PERDIDAMENTE POR UMA MULHER... |Cai ao chão, de joelhos, aos prantos.| Eu pensava que ela era o amor da minha vida... MAS ERA SÓ UMA PROSTITUTA! ELA ME ENGANOU DURANTE TODO O TEMPO EM QUE ESTIVEMOS JUNTOS!
[Madeleine observa o estado em que o inspetor se encontra, sem falar nada.]
Xavier (continuando, entre soluços): Eu afastei ela de mim, e esperava que fosse para sempre, mas ela retornou pouco tempo depois... Dizendo estar grávida. |Seu choro se intensifica.| Eu... EU NÃO QUERIA SER PAI DO FILHO DE UMA PROSTITUTA... EU EXIGI QUE ELA SUMISSE PARA SEMPRE COM AQUELA CRIANÇA... Mas... Ela... Ela morreu durante o parto.
[O instrumental de tensão cede seu lugar à um ritmo melancólico.]
Xavier: A criança foi salva... Era Gervais. Eu aproveitei que ninguém sabia que eu era o pai e deixei que ele fosse criado na rua, sem amparo... E EU ME ARREPENDO DISSO AMARGAMENTE! QUANDO EU VI O CADÁVER DO MEU FILHO AOS PÉS DAQUELA MALDITA ROCHA, FINALMENTE PERCEBI QUE EU O AMAVA... E JÁ ERA TARDE DEMAIS, PORQUE VOCÊ O MATOU, SEU DESGRAÇADO!
[Madeleine, incrédulo, começa a falar.]
Madeleine: Não... Eu não matei o seu filho... |Aponta o dedo indicador para Xavier.| Você fez isso. Você o abandonou. Se não fosse por você, nada disso teria acontecido.
Xavier: EU ME MARTIRIZAREI ATÉ O FIM DE MINHA VIDA POR TÊ-LO ABANDONADO, MAS FOI VOCÊ QUEM O MATOU! FOI VOCÊ QUEM ME TIROU O DIREITO DE ME REDIMIR!
Madeleine: EU JÁ DISSE QUE NÃO MATEI NINGUÉM, XAVIER! EU NÃO SOU UM MONSTRO, AO CONTRÁRIO DE VOCÊ, QUE TEVE CORAGEM DE ABANDONAR O PRÓPRIO FILHO, E SÓ SE DEU CONTA DA GRAVIDADE DO QUE FEZ AO PERDÊ-LO!
Xavier: EU O PERDI POR SUA CAUSA! EU PROMETI PARA MIM MESMO, HÁ DEZOITO ANOS, QUE VINGARIA A MORTE DO MEU GERVAIS! EU VIVI PARA ISSO DURANTE TODOS ESSES ANOS, E O TÃO ESPERADO MOMENTO FINALMENTE CHEGOU!
Madeleine: VOCÊ É TÃO CRUEL QUANTO O QUE SUPOSTAMENTE SOU! VOCÊ NÃO BUSCA JUSTIÇA, VOCÊ BUSCA VINGANÇA POR ALGO QUE ACONTECEU POR SUA CAUSA!
[Em um momento inesperado, Xavier, tomado de ódio, desfere um chute no estômago de Madeleine, fazendo-o cair, gemendo de dor.]
Xavier (descontrolado): DESGRAÇADO! MALDITO! VOCÊ VAI PAGAR PELO QUE FEZ COM O MEU FILHO PELO RESTO DOS SEUS DIAS!
[Ele desfere mais dois chutes em Madeleine, que está indefeso. Com dificuldade, ele levanta lentamente e chuta o inspetor, que cai contra uma grade.]
Madeleine: A ÚNICA PESSOA QUE TEM QUE PAGAR POR ALGO É VOCÊ, XAVIER!
[Madeleine parte para cima de Xavier e começa a lhe socar muito, tirando sangue de seu nariz. De repente, três guardas entram rapidamente na cela e separam os dois. Enquanto um ampara Xavier, os outros dois derrubam Madeleine e começam a chutá-lo incessantemente. Xavier, completamente fora de si, se retira. No lado externo, ele encosta-se em uma parede e começa a chorar novamente.]
Xavier (soluçando): A JUSTIÇA ESTÁ SENDO FEITA, MEU FILHO!
[A cena fica silenciosa, enquanto o foco se afasta de Xavier e a imagem escurece. Alguns dias se passam.]
*[⏳] ● CENA 02 ● SALA DE TRIBUNAL ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[A câmera focaliza em uma sala de tribunal. Finalmente chegou o dia do julgamento de Madeleine. O réu está no seu apropriado lugar, desolado. Na platéia, com uma expressão vitoriosa, Xavier observa a tudo.]
Juiz: Senhoras e senhores, estamos reunidos para julgar Serafín Machado Nascimento pelos crimes que cometeu. |Dirige-se ao, agora, ex-prefeito.| Serafín, você está aqui por tirar a vida de uma inocente criança e de evadir-se da justiça. Como se declara?
Madeleine (trêmulo): Eu sou inocente, Excelência...
[O tempo passa rapidamente. O julgamento se encaminha para os seus momentos finais. Um murmúrio na sala aumenta à medida que a tensão se intensifica.]
Juiz (sério): Há evidências contundentes e inquestionáveis que sugerem a culpa deste homem. Revisamos o seu passado, e ele também confessou. No ano de 1910, foi condenado pelo assassinato de uma criança indigente. Fugiu da prisão e assumiu uma nova identidade, como Madeleine Pompeu Fonseca.
[Madeleine está tenso, com medo de sua sentença.]
Advogado de acusação: Este homem se diz ser inocente, mas não se deixem enganar, senhoras e senhores do júri. Serafín Machado é um criminoso, um manipulador que usurpou a confiança de todos em Monte Velho.
[Os jurados trocam olhares preocupados enquanto o juiz considera a sentença. Um intenso instrumental de tensão penetra a cena.]
Juiz (solenemente): Serafín Machado Nascimento, este tribunal reconhece os seus crimes. Pela execução do código penal vigente, condeno-o a trinta anos de reclusão. Que isto sirva de exemplo para aqueles que pensam em burlar a justiça.
[O juiz bate o martelo. O pico do instrumental é alcançado. Madeleine encara a sentença com olhos vazios, enquanto o murmúrio na sala transforma-se em um zumbido consternado. Xavier observa a tudo, comemorando por dentro. Em um próximo take, é mostrado o ex-prefeito sendo levado por guardas, aos prantos, acompanhado por uma música melancólica.]
*[⏳] ● CENA 03 ● TRILHOS DE TREM ● EXTERNO ● TARDE ● [⏳]*
[Dias depois, a câmera foca em uma paisagem de campos e matas. O silêncio prevalece. Trilhos de trem são mostrados. De repente, um apito estridente do trem corta o ar. Em um vagão, Madeleine está acorrentado a outros detentos, todos sentados. Eles são transportados para o presídio da capital. O céu carregado de nuvens escuras anuncia uma tempestade iminente.]
Madeleine (suspirando): Esse não pode ser o fim...
[O trem avança, sacolejando sobre os trilhos.]
Guarda (ríspido): SILÊNCIO! Ninguém fala, a não ser que seja ordenado!
[De repente, um estrondo ensurdecedor ecoa, fazendo o trem trepidar descontroladamente. O pânico se espalha rapidamente entre os detentos.]
Detento (gritando): O QUE ESTÁ ACONTECENDO?
[A tempestade tem início. Relâmpagos iluminam o caos que se desenrola. O trem começa a inclinar perigosamente, e um rugido de águas agitadas se aproxima.]
Madeleine (desesperado): MEU DEUS, O QUE É ISSO?
[O trem, agora à beira de um precipício, no pico de um instrumental de thriller, perde o controle e avança e mergulha em um rio rugente. O impacto é avassalador. Água invade os vagões e gritos ecoam. Madeleine, junto com os outros detentos, luta contra as correntes, enquanto a água enche o vagão rapidamente. Logo, todo o trem está submerso, e ninguém consegue sair dele. A imagem escurece, neste momento.]
*[⏳] ● CENA 04 ● PENSÃO ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[Na pensão, Xavier está sentado em uma cadeira, ouvindo o rádio, enquanto toma café. Um clima de tensão paira no ar.]
Radialista (voz grave e solene): E uma última notícia... O trem que transportava detentos de Monte Velho para a capital sofreu um terrível acidente. As primeiras informações indicam que nenhum dos passageiros conseguiu sobreviver. Uma tragédia inimaginável atingiu aqueles a bordo.
[Neste momento, os olhos de Xavier esbugalham, enquanto suas mãos tremem ao segurar a xícara. Um instrumental tenso e fúnebre invade a cena.]
Radialista (continuando): Entre os detentos, estava o criminoso Serafín Machado Nascimento, condenado a trinta anos de reclusão. As chances de sobrevivência são mínimas, considerando a gravidade do acidente e as águas turbulentas do rio.
Xavier (sussurrando): Sua sentença se cumpriu, maldito...
[A câmera foca no rosto de Xavier, que esboça um discreto sorriso. Em seguida, a imagem escurece e mais alguns dias se passam.]
*[⏳] ● CENA 05 ● TABERNA DOS TAVARES ● INTERNO ● TARDE ● [⏳]*
[Na fachada da taberna, Eleonor brinca sozinha. Na parte interna, Adelaide, aparentemente doente, conversa com Carlota.]
Adelaide (tossindo): Mamãe... Por que o Galileu foi embora? Para onde ele foi?
Carlota (ríspida): Foi para o raio que o parta, minha filha! |Acaricia os cabelos da filha.| E foi melhor assim. Aquele moleque só me trazia desgosto. Espero que nunca mais apareça.
[No mesmo momento, Valentin, ofegante, entra rapidamente na taberna e vai até Carlota.]
Valentin: Carlota, Carlota!
Carlota (curiosa): Que diabos aconteceu, homem?
Valentin: A Fátima... Morreu!
[Ao ouvir isso, a expressão de Carlota congela. Atônita, ela se aproxima do marido.]
Carlota (incrédula): Não pode ser...
Valentin: Mas é! Um cliente de Monte Velho acaba de informar. Fátima morreu de uma grave doença respiratória.
Carlota: Meu Deus... O que será de nós sem o dinheiro que aquela maldita nos enviava, Valentin? AQUELE DINHEIRO JÁ SALVOU AS NOSSAS VIDAS VÁRIAS VEZES!
Valentin (decidido): De nós, eu não sei... Mas a negrinha dos infernos já tem o seu destino traçado. |Olha nos olhos da mulher.| Essa menina é um embuste, e eu não vou deixá-la convivendo com nossa família à custo de nada.
Carlota: E o que você pretende fazer? Matar a Coraline?
Valentin (sussurrando): Talvez...
*[⏳] ● CENA 06 ● FLORESTA ● EXTERNO ● TARDE ● [⏳]*
[Coraline anda apressadamente pela mata, carregando um balde para encher na fonte. Apreensiva, ela o enche e dirige-se de volta para a taberna. Após alguns passos, a menina para, sem ar. Depois de alguns minutos, retoma o trajeto. De repente, acompanhado de um abrupto instrumental tenso, um homem se aproxima, pelas sombras, sem que a filha de Fátima perceba. Coraline para mais uma vez. Suor desce pelo seu rosto. Ao pegar o balde novamente, a enorme mão de um homem segura a alça. A garota, assustada, esbugalha os olhos e olha para o homem, que ainda não revelara o seu rosto.]
Homem (olhando para Coraline): Eu levo!
[Neste instante, a câmera sobe aos poucos e revela que o homem é, na verdade, Madeleine, que está pálido e com alguns ferimentos no rosto. Ainda segurando a alça do balde, ele encara Coraline. O pico do instrumental é alcançado.]
Madeleine (solene): Não tenha medo. Eu não irei lhe fazer mal, estou em busca de um lugar para dormir.
[Coraline está paralisada, apenas encarando o homem.]
Madeleine: Para onde está indo?
Coraline: Eu... Estou indo para a casa dos Tavares. Eles que cuidam de mim... |Puxa o balde.| Me deixe levar, senhor... Eles podem me punir.
[Madeleine cede. Coraline começa a caminhar, com pressa, enquanto o homem a observa, desacreditado.]
Madeleine (sussurrando): É ela... A filha de Fátima!
[Um instrumental emblemático tem início. Madeleine observa Coraline se afastando.]
Madeleine (ansioso): ESPERE!
[A menina para, ofegante.]
Madeleine (aproximando-se): Eu vou com você!
[A câmera foca no olhar decidido de Madeleine para Coraline, e, em seguida, na filha de Fátima, que está visivelmente com medo.]
*[⏳] ● CENA 07 ● CASA DOS TAVARES ● EXTERNO ● TARDE ● [⏳]*
[A noite se aproxima. Valentin está na porta de casa, esperando a água que Coraline fora buscar, pensando em alguma forma de se livrar da garota. De repente, ele avista a menina vindo ao longe, seguida por Madeleine.]
Valentin (curioso): Mas o que é isto?
[Carlota também sai para fora, ao ver o desconhecido se aproximando. Coraline chega, deixa o balde na frente dos dois, e corre para dentro, com medo de ser castigada, enquanto Madeleine é encarado pelo casal.]
Madeleine (discreto): Boa tarde, senhores!
Valentin (ríspido): O que deseja?
Madeleine: Estou em busca de um lugar para passar a noite. Encontrei a menina na mata e pedi que me trouxesse até aqui. Se me deixarem dormir aqui e me derem um prato de comida, serão muito bem recompensados.
[Neste momento, ele ergue uma sacola de couro com dinheiro e à mostra ao casal. Carlota e Valentin se entreolham, cobiçando a recompensa, porém com receio.]
*[⏳] ● CENA 08 ● CASA DOS TAVARES ● INTERNO ● NOITE ● [⏳]*
[Como a cobiça falara mais alto, os Tavares aceitaram recepcionar Madeleine, mesmo tomados de desconfianças. É mostrado que a família e o forasteiro estão na mesa, jantando.]
Valentin (curioso): De onde o senhor vem?
Carlota (emendando): E para onde o senhor vai?
[Antes que Madeleine possa responder, Coraline entra pela porta, com seu velho prato de comida em mãos.]
Carlota (furiosa): Mas o que é isto? VÁ PARA FORA IMEDIATAMENTE, CORALINE!
[Coraline abaixa a cabeça. Quando ela está prestes a sair pela porta, Madeleine levanta-se.]
Madeleine: Por que a menina não senta conosco na mesa?
Carlota (tentando se explicar): Bom... A menina não faz parte da família.
Madeleine (interrompendo): Venha, Coraline, sente-se ao meu lado. Se for necessário, pago por você também.
[Os olhos de Coraline brilham. Ela vai até lá e senta-se ao lado do protagonista, enquanto Valentin e Carlota se incomodam, mas apenas se entreolham, e um silêncio toma conta do ambiente, acompanhado por um clima tenso.]
*[⏳] ● CENA 09 ● CASA DOS TAVARES ● INTERNO ● NOITE ● [⏳]*
[A casa está silenciosa e pouco iluminada. Quase todos dormem, com exceção de Coraline, que está deitada no chão da cozinha, rolando de um lado para o outro. Neste momento, Madeleine se aproxima. A menina o vê, mas não se assusta. Ele vai até ela e senta-se ao seu lado, cautelosamente.]
Madeleine (acolhedor): Por que você é tão maltratada, criança?
Coraline (triste): Eu não sei... É assim desde que a minha mãe me abandonou.
Madeleine (segurando em suas mãos): Ouça... Eu conheci a sua mãe.
Coraline (surpresa): Verdade? E como ela era? Por que ela me abandonou?
Madeleine: Ela não lhe abandonou, Coraline. Sua mãe lutou durante todos os dias de sua vida pelo seu bem. Ela te amava!
Coraline (com lágrimas nos olhos): E por que ela não veio me buscar, senhor? Por que ela nunca me respondeu quando chamei? Por que nunca evitou que eu fosse maltratada pelos Tavares?
Madeleine: Tenha calma... Eu vou te levar daqui e cuidar de você. Esses monstros nunca mais lhe farão mal... Eu prometo!
Coraline (agora chorando): E minha mãe, senhor? Onde ela está? Por que ela não veio com você?
Madeleine (triste): Sua mãe... Ela... Infelizmente, Coraline, a sua mãe faleceu.
[Neste instante, um instrumental tenso invade a cena e Coraline cai, aos prantos.]
Coraline (soluçando): Não...
[Tocado, Madeleine a abraça, tentando consolar a pobre órfã. A imagem escurece lentamente, e logo já é manhã.]
*[⏳] ● CENA 10 ● CASA DOS TAVARES ● EXTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[Na fachada da casa, Valentin está tomando uma xícara de café, tenso, enquanto Madeleine se aproxima com passos lentos.]
Madeleine (cauteloso): Senhor Valentin, podemos conversar?
Valentin (duro): O que quer? Não era para o senhor já ter ido embora?
Madeleine: Sim, mas...
[Se aproxima ainda mais do tabelião.]
Madeleine (encarando Valentin): Eu tenho uma proposta para o senhor.
Valentin (curioso): E que proposta seria essa?
Madeleine (direto): Eu quero levar a menina!
[Um instrumental tenso invade a cena, neste momento, e a câmera foca no olhar surpreso de Valentin.]
Valentin (atônito): Levar Coraline? Mas... A troco de quê?
Madeleine: Fátima morreu, como o senhor bem sabe, mas, antes de partir, pediu que eu resgatasse a filha, que, por sinal, é tratada como um animal pelos senhores. E aqui estou eu! Irei tirar Coraline de suas garras, o senhor querendo ou não.
Valentin (agressivo): NÃO! O senhor não vai levar a garota! EU NÃO PERMITO!
Madeleine (sem medo): Eu tenho dinheiro, e estou disposto a pagar o que for preciso.
Valentin: Eu não quero o seu dinheiro. VÁ EMBORA!
Madeleine (desafiando): Só vou com Coraline!
[De repente, em um impulso de raiva, Valentin tira um grande canivete da cintura. O instrumental se intensifica. Madeleine levanta as mãos.]
Valentin: Você não vai levar a pirralha, E, SE INSISTIR, DOU CABO DE VOCÊ E DOU O SEU CORPO PARA OS URUBUS!
[Em um tom ameaçador, ele se aproxima do ex-presidiário, ainda com o canivete em mãos.]
Valentin (explosivo): SUMA DAQUI! VÁ EMBORA!
Madeleine (acuado): Mantenha a calma... Por favor!
Valentin (fora de si): EU ESTOU MANDANDO IR EMBORA! VÁ!
[Com medo, Madeleine se afasta lentamente, e segue pela estrada, enquanto é observado por Valentin. Um instrumental pesado acompanha a cena.]
*[⏳] ● CENA 11 ● CASA DOS TAVARES ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[Mais tarde, Valentin e Carlota estão na cozinha, conversando. O primeiro parece preocupado, enquanto a segunda está visivelmente irritada.]
Carlota: Como não aceitou, Valentin? NÓS PRECISAMOS DO DINHEIRO! COMO VOCÊ PODE SER TÃO BURRO?
Valentin: TENHA CALMA, CARLOTA! Eu não podia permitir que aquele homem levasse a negrinha de mão beijada!
[Enquanto os dois conversam, a câmera corta para a cozinha. Lá, Coraline está varrendo o chão, parecendo preocupada e com medo. De repente, Madeleine pula uma janela, e fica frente a frente com a menina, que, por pouco, não grita de medo.]
Madeleine (sussurrando): Faça silêncio... Você vem comigo!
[Madeleine lhe pega nos braços e a coloca do outro lado da janela. Quando está subindo, acaba deixando uma panela cair, acidentalmente. Ele salta, pega a menina e corre para a mata. O instrumental se intensifica. O barulho chama a atenção do casal. Valentin corre para o cômodo e se desespera ao ver que o forasteiro levou a garota.]
Valentin (desesperado): AQUELE MALDITO LEVOU A GAROTA!
[Rapidamente, ele corre até o seu quarto e pega um revólver. A câmera foca na floresta, ao longe, enquanto o instrumental alcança o seu pico.]
*[⏳] ● CENA 12 ● FLORESTA ● EXTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[A câmera, do alto, mostra Madeleine correndo desesperadamente pela floresta, com Coraline em seus braços. Logo atrás, Valentin se aproxima rapidamente, com o revólver engatilhado.]
Valentin (ofegante): DESGRAÇADOS! EU IREI MATÁ-LOS!
[Neste momento, um disparo de tiro ecoa pelo ar. Madeleine é atingido de raspão no braço, que começa a jorrar sangue. Ele cai no chão, por cima de Coraline, que também fica bastante ensanguentada. A menina chora, enquanto Valentin se aproxima, empunhando a arma, completamente fora de si.]
Valentin (ameaçando): Solte a menina, OU EU MATO OS DOIS!
Coraline (chorando): NÃO!
[Com dificuldade, Madeleine levanta-se, com suas mãos para o alto.]
Madeleine (olhando nos olhos de Coraline): É melhor você ir...
[Lágrimas descem pelo rosto de Coraline. Ela vai até Valentin, que segura violentamente em suas mãos. O homem, neste momento, mira o revólver na cabeça de Madeleine, que se prepara para o pior. Antes que ele possa atirar, Coraline lhe dá uma forte mordida. Ele grita de dor e soca a menina, que cai.]
Valentin (berrando): NEGRINHA MALDITA!
[Aproveitando o momento de distração, Madeleine se lança sobre ele e joga o revólver para longe. Com vantagem, ele imobiliza Valentin e começa e socá-lo incessantemente, fazendo sangue jorrar por sua boca e seu nariz. Após muitas pancadas, o homem desmaia. Madeleine pega Coraline novamente e corre, sem olhar para trás. Os dois chegam em uma estrada e logo se deparam com um imenso muro. Sem pensar duas vezes, o ex-prefeito o escala e salta para o outro lado, junto com a filha de Fátima.]
[Lá dentro, Madeleine se dá conta de que está em um convento. Seu braço ainda sangra, e Coraline sente medo. De repente, um homem se aproxima. Ele tem um sino em sua perna, que faz barulho sempre que o mesmo caminha, no intuito de avisar às freiras que se aproxima.]
Velho (assustado): Por favor... Vá embora! Não nos faça mal... Isto aqui é um lugar sagrado!
[Neste momento, Madeleine o reconhece.]
Madeleine (sussurrando): Senhor Salomão...
Salomão (surpreso): Prefeito Madeleine?
[Madeleine corre até o velho, que permanece assustado.]
Madeleine (ofegante): Por favor, senhor... Nos ajude! Eu salvei sua vida no passado, quando o senhor quase foi atropelado. Lembra? Agora chegou a sua vez de retribuir!
[A câmera foca no olhar confuso de Salomão, e, em seguida, nos rostos desesperados de Madeleine e Coraline.]
*[⏳] ● CENA 13 ● CONVENTO ● EXTERNO ● TARDE ● [⏳]*
[Na tarde daquele mesmo dia, Madeleine e Coraline, depois de saírem do convento após um plano que o ex-prefeito armara com Salomão, entram novamente e são recepcionados pela madre. Madeleine está com um curativo no braço e carrega uma pequena trouxa de roupas. Salomão vai até lá.]
Madre: Esse é o parente que veio ajudá-lo nos serviços do convento, Salomão?
Salomão: Sim, senhora madre. Ele e Coraline, sua filha.
Madre: Hum...
[Madeleine fica tenso.]
Madre: Certo, ele fica, mas terá que usar um sino também. E a menina... Estudará aqui, no internato, como aluna bolsista. |Encara Coraline, e esboça um sorriso.| Terei um enorme prazer em abrigá-la.
[Coraline abre um sorriso radiante. Madeleine olha para Salomão, agradecido.]
_🎶 • Vou Te Encontrar • Paulo Miklos_
[Do alto, a câmera mostra diversos takes aleatórios da rotina no convento. Madeleine trabalha no jardim com Salomão, enquanto Coraline finalmente encontra alegria em viver. Dias nascem e se transformam em noites. Primaveras vêm e vão. Madeleine envelhece aos poucos. Coraline cresce, deixando o passado doloroso para trás. Algum tempo depois, Salomão falece. Logo dez anos se passam. A filha de Fátima agora chama o ex-presidiário de pai. Xavier e os Tavares não pensam mais neles. Na fase atual, os dois moram em São Paulo, após saírem do convento. Morando em uma casa discreta, Madeleine esconde a sua história de todos, incluindo a filha, e evita ao máximo se expor, temendo ser capturado novamente.]
*[⏳] ● CENA 14 ● RUAS DE SÃO PAULO ● EXTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
*MAIO DE 1938*
_🎶 • Ta-Hi (Pra Você Gostar De Mim) • Fernanda Takai_
[A câmera foca nas ruas movimentadas de São Paulo, que exibem carros clássicos e vitrines adornadas com vestidos elegantes. O som do jazz flutua pelo ar. Nas manchetes dos jornais, a Copa do Mundo daquele ano é o principal assunto noticiado. Em uma rua afastada do centro, com poucas moradias e escasso movimento, há uma pequena casa. Adentrando-se, é mostrado um homem em uma pequena sala de leitura, ouvindo uma música emitida de uma vitrola. É Madeleine, agora mais velho, com aparência de cansado. De repente, uma linda moça entra pela porta. É Coraline, agora com dezoito anos. Ela sorri para o homem, que lhe puxa para uma valsa. *Radiantes, pai e filha dançam, como se todo o passado doloroso nunca tivesse existido.]*