Silêncio Fatal | Capítulo 04

 

Silêncio Fatal | ☠️📖 | Capítulo 04/20 

[Vemos o interior de uma senhora de idade, negra. É um cantinho simples, mas enfeitado de flores, plantas, objetos antigos e passa a energia de certo aconchego. Num quartinho aparentemente especial e reservado para ritual, é possível ver a idosa, no auge de seus oitenta anos, praticando sua religião. Trajando um longo vestido verde-olivia, ela prepara um banho de ervas.]

FADE-OUT.

🕰️ ALGUMAS HORAS ANTES... 

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CENA 01 | RESTAURANTE - EXT./NOITE

FADE-IN.

Abril de 2025... ⌛

O SEGUNDO SOL - CÁSSIA ELLER 🎵.

[Vemos o movimento em torno de um chique restaurante, ao som da trilha sonora mencionada. Corta para: a parte interna. A música vai diminuindo, sendo substituída por um instrumental de jazz, que toca durante toda cena. Vemos o movimento do restaurante, bem como a organização e os garçons transitando. A câmera focaliza numa mesa específica, onde se encontram Daniel e Alice, jantando juntos, enquanto trocam sorrisos e se envolvem no clima romântico.]

Daniel: |Com a taça na mão.| É, Alice, não posso negar que você é interessante.

Alice: |Tímida.| Ah, que é que é isso? Você que tá demonstrando ser um belo cavalheiro.

Daniel: |Fascinado.| Devo dizer que você pode se tornar um dos maiores frutos que posso obter desde que entrei na empresa...

Alice: |Sorrindo.| Não exagere. |Tenta mudar o assunto; olha para algo.| Nossa, que mulher bonita, que acabou de chegar...

Daniel: |Curioso.| Espera aí, você é bissexual?

Alice: |Intrigada.| Pera aí... cê também é bi?

Daniel: |Sem graça.| Uau... que sorte a minha então! |Se engasga.| Digo! Olha, que coincidência bacana.

Alice: |Gaguejando.| É, verdade. Proponho um brinde! |Levanta a taça.| 

Daniel: |Recomposto.| Um brinde! |Também levanta a taça.|

[Os dois fazem o brinde, enquanto a câmera começa a se afastar dele aos poucos, enquanto um instrumental levemente tenso fecha a cena.]

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CENA 02 | CASA DE DONA VÂNIA - EXT./MANHà

[Vemos o amanhecer na vizinhança do bairro onde a família Silveira vive. SFX: cotidiano. Próximo à casa onde mora com sua bisavó, o pequeno Henrique põe-se a tomar um sorvete, que vai derretendo devido ao extremo calor paulistano.]

Henrique: |Saboreando.| Hum... que delícia! |Come a casquinha; finalizando.|

[Após finalizar o sorvete, o garoto é abordado por um grupo de crianças. Soundtrack: tensão.]

Menino 1: |Maldoso.| Alá, galerinha! É o neto da bruxa.

Menino 2: |Curioso.| Bruxa? Que bruxa?

Menina 1: Ah, uma bruxa velha que chegou aqui no pedaço!

Menina 2: Dizem que ela fez bruxarias em todos os bairros que morou...

Menino 3: |Afrontoso.| Então vamos infernizar o neto da bruxa até eles se mudarem!

Menina 3: |Ergue a voz.| É!

Todas as crianças: |Ao mesmo tempo; infernizando.| Olha o neto da bruxa, olha o neto da bruxa, olha o neto da bruxa...

[As crianças começam a rodear Henrique, repetindo sem parar: “Olha o neto da bruxa!”. Ele se encolhe no chão, demonstrando medo e tristeza. Um instrumental dramático entra em cena, enquanto o efeito de câmera lenta surge e as vozes dos meninos, agora distorcidas, vão sendo abafadas pelos recursos cinematográficos. A imagem escurece lentamente...]

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CENA 03 | GRUPO FONTANA - INT./MANHà

[Rápido close no prédio da empresa. Corta para dentro. Sala de Patrícia. O celular dela toca. Ela atende. Patrícia faz uma expressão de horror ao ouvir a voz que lhe fala. SFX: tensão.]

Patrícia: |Muda para expressão de ódio.| O que você quer!?

Homem: |Do outro lado da linha.| Eu quero meu dinheirinho do mês!

Patrícia: |Fúria.| Olha aqui, Décio- |Se auto-interrompe; olha para o calendário logo ali na parede.| Ah... nem vi que tinha chegado o dia do pagamento...

[A câmera mostra Décio, numa rua deserta, com o celular no ouvido. Homem moreno, com um chapéu preto, traja camisa branca, usa calça jeans e complementa com sobretudo preto. Olhar amedrontador. Sorriso ameaçador.]

Décio: |Em tom de ameaça.| É melhor você agilizar... Aproveite que estou bonzinho hoje... Ou você sabe o que pode acontecer se esse dinheiro não cair na minha conta o mais rápido possível, né?

Patrícia: |Nervosa.| Tá, tá, já entendi. Eu... vou providenciar. Tchau! |Desliga abruptamente; enche a boca.| MAS QUE INFER-R-RNO!

[Raivosa, Patrícia arremessa o celular na parede, que cai no chão. A câmera focaliza na sua expressão de ódio. O pico do instrumental é alcançado.]



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CENA 04 | CASA DE DONA VÂNIA - INT./TARDE

CANTO DAS TRÊS RAÇAS - CLARA NUNES 🎵.

[Vemos o interior da casa de dona Vânia. É um cantinho simples, mas enfeitado de flores, plantas, objetos antigos e passa a energia de certo aconchego. Num quartinho aparentemente especial e reservado para ritual, é possível ver a idosa, no auge de seus oitenta anos, praticando sua religião. Trajando um longo vestido verde-olivia, ela prepara um banho de ervas, enquanto canta. A música cessa. SFX: leveza.]

Vânia: |Cantando em ritmo lento, enquanto coloca as ervas delicadamente sobre as águas da banheira.| Saravá meu pai, que vem lá do terreiro... Trazendo paz, consolo e conselho verdadeiro... Ô benzê, benzê... Na força da luz... Para ninguém se perder... 

[O instrumental de leveza aumenta a intensidade. Vânia, agora, canta de boca fechada, emitindo apenas sons abafados. Ela termina de colocar as ervas, enquanto observa a banheira. Dona Vânia também fecha os olhos e cruza as mãos, como se estivesse fazendo um tipo de agradecimento. A imagem escurece lentamente, enquanto o soundtrack cessa aos poucos...]

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CENA 05 | MANSÃO FONTANA - INT./NOITE

[Um rápido take da parte exterior da mansão Fontana preenche a cena. Na sequência, corta para o lado interno. Os familiares da casa estão jantando, todos juntos.]

Kássia: |Reflexiva.| Sabem, estive pensando... Ultimamente eu tenho estado muito à toa aqui em casa, desde que me afastei da empresa. Quero me empenhar em cuidar dessa mansão. E... |Sorri genuinamente.| acho que quero contratar uma assistente particular!

Patrícia: |Se anima.| Ah, é uma ótima ideia, mamãe! Assim você não se sente sozinha enquanto e meu pai estamos na empresa.

Kássia: |Abre um sorriso.| Obrigada, filha.

Romualdo: |Apático.| É, eu também concordo. |Sorri de escanteio.| Lugar de mulher é em casa mesmo e sinto que essa vida de madame da Kássia deve ter um bom proveito sim!

Patrícia: |Reprovando.| Nossa, pai, como você é grosso e machista às vezes!

[Romualdo ri da resposta da filha, enquanto Kássia revira os olhos.]

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CENA 06 | CASA DOS SILVEIRA - INT./MEIO-DIA 

NOSSA CONVERSA - KELL SMITH 🎵.  

[Closes em torno do bairro onde a família Silveira mora são mostrados ao público. Conforme a câmera se aproxima da casa onde eles moram, a música vai cessando. Teresa entra em casa de forma discreta com um envelope em mãos. Wagner se aproxima dela. SFX: tensão leve.]

Wagner: |Curioso.| Teresa...? O que é isso aí nesse envelope?

[Um clima de suspense penetra no ambiente.]

Teresa: |Pega de surpresa; segura firme o envelope; gagueja.| É... É o pagamento da diária que tô fazendo na mansão Ortego. Dona Thina resolveu pagar em espécie!

Wagner: |Sorri, desconfiado.| Ah, sim. Beleza então!

[Vendo a porta aberta, o amigo e vizinho deles, Mário, sujeito simples, entra em cena e faz presença na casa. A aparição do homem deixa o clima da cena um pouco mais leve. SFX: cotidiano.]

Mário: |Meio sem graça.| Opa... tudo bem? Vi a porta aberta e já fui entrando.

Wagner: |Gentil.| E aí, Mário, fique à vontade.

Teresa: |Meia apática.| Bom dia, Mário...

Mário: |Ingênuo e ignorante.| Gente, cês viram que, esses dias, chegou uma bruxa aqui no bairro? Pessoal tá até com medo.

[O clima, agora, fica denso. SFX: tensão.]

Teresa: |Sem paciência.| Ah, pelo amor de Deus, né, Mário? Não seja burro! Ela é uma senhora umbandista e merece respeito. Sem contar que dona Vânia foi muito gentil comigo no pouco contato que tivemos.

Mário: |Acuado.| Nossa, Teresa, calma! Eu só falei o que tavam comentando, não precisa me agredir verbalmente...

Wagner: |Tentando apaziguar.| É, Mário, a Tetê tem razão. E você, amorzinho, tenha um pouco mais de paciência...

Teresa: |Põe a mão na testa.| Ai, gente, me perdoem... Eu... |Aparentemente mentindo.| Só tô um pouco estressada, tá legal? O trabalho foi puxado; Wagner é o único desempregado daqui de casa, dentre outras coisas. E... |Franca.| Também não tenho paciência para intolerância religiosa! 

Mário: |Arrependido.| Desculpa, pessoal, de verdade. Eu sou mesmo meio bronco, burro, ignorante. Mas sou humano. Eu... Eu estou aprendendo!

[SFX: leveza. O clima volta a ficar leve, e Teresa dispara um sorriso para Mário, aparentemente consentindo. Wagner faz uma expressão de alívio. Mário dá um sorriso sem graça. O pico do instrumental é alcançado.]

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CENA 07 | CASA DE DONA VÂNIA - INT./TARDE 

[Dona Vânia termina de organizar seus vasos de plantas. Ao ir para a sala, depara-se com seu bisnetinho, Henrique, chorando no cantinho, encolhido.]

Vânia: |Aproxima-se.| Oh, meu netinho... O que você tem?

Henrique: |Abraça a bisavó.| Os meninos, vovó... |Cai em lágrimas.| Os meninos tavam me infernizando, vovó!

Vânia: |Envolvida no abraço.| Meu amorzinho... O que falaram de você?

Henrique: |Olha nos olhos dela.| Eles falaram... |Soluçando.| Eles falaram que sou neto da bruxa! |Começa a berrar.| 

[SFX: drama.]

Vânia: |Pega nas mãos dele.| Meu querido... Criança é assim mesmo. Não tem entendimento total das coisas. Nem você tem. Ninguém é cem por cento sábio. E eles com certeza não tiveram lá uma das melhores criações... |Carinhosa.| Mas ó, saiba que não sou maligna, nem nada do tipo, tá? Eu só exerço minha religião, como qualquer ser humano cultiva sua própria fé. E você terá total direito de acreditar no que quiser, tá bom?

Henrique: |Mais calmo.| Tá bom... Eu te amo, vovó! |Abraça novamente.| Eu te amo, vovó!

Vânia: |Abraça ele também.| Também te amo, meu Henrique. |Olha reflexiva para o horizonte, aparentemente magoada com a intolerância alheia.| Também te amo...

[A câmera vai se afastando deles, enquanto o instrumental se torna emocionante. É mostrado o ambiente da casa e, em seguida, o soundtrack diminui aos poucos, até ficar mudo. Fade-out...]

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CENA 08 | GRUPO FONTANA - INT./FIM DE TARDE 

EVERYBODY WANTS TO RULE THE WORLD - TEARS FOR FEARS 🎵.

[Fade-in. A câmera se aproxima lentamente da empresa enquanto a música mencionada acima toca. Corta para: parte interna. Conforme a câmera passeia pelos corredores, a música vai diminuindo até parar de tocar. Em sua mesinha, Daniel exerce seu trabalho enquanto se encontra pensativo.]

Daniel: |Ao mesmo tempo em que escreve.| Hum... Alice e Patrícia... Duas mulheres aparentemente incríveis que acabei de conhecer!

• FLASHBACK •

[Por um instante, eles permanecem ali, de pé, em silêncio. Os dois se encaram sem parar. A câmera alterna entre os rostos — o encanto de Daniel e o olhar curioso e levemente surpreso de Alice. Ele sorri, genuíno. Ela retribui, contida, mas envolvida.]

• FIM DO FLASHBACK •

[Daniel sorri genuinamente após lembrar de Alice.]

• FLASHBACK •

Daniel: |Alegre; mais recuperado do luto.| Meu Deus, você!?

Patrícia: |Abre um sorriso.| Eu sabia que você retornaria! E pelo que estou vendo, já tá trabalhando aqui, certo?

[Leve pausa entre eles.]

• FIM DO FLASHBACK •

[SFX: suspense.]

Daniel: |Refletindo.| Alice é bonita... inteligente... |Sorri.| Encantadora! |Sorri maliciosamente.| Mas Patrícia tem também um pouco de tudo. E é lindíssima! Além de rica... |Ri.| É, já sei em quem investir. |Olha para a câmera.| É o melhor para mim. 

[O instrumental chega no ápice. A imagem escurece abruptamente.]

CORTA PARA:

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CENA 09 | RESTAURANTE - INT./NOITE

[A imagem ilumina abruptamente. Daniel e Patrícia estão de frente um para o outro, terminando de jantar.]

Patrícia: |Satisfeita.| Estava maravilhoso! Muito obrigada pelo convite.

Daniel: |Sorrindo.| Eu que agradeço pelo convite. |Tira algo do bolso.| Aceita uma pastilha?

Patrícia: |Sorridente.| Claro. 

[Daniel entrega a pastilha para Patrícia. Os dois colocam na boca.]

Daniel: |Estende a mão.| Vamos?

Patrícia: |Entrega sua mão.| Vamos.

[Corta para: os dois em frente ao restaurante. A noite está iluminada. Patrícia e Daniel caminham em passos lentos, agarradinhos.]

Patrícia: |Abobalhada.| Você tem sido uma companhia incrível, sabia? Sua presença ajuda aliviar algumas tensões internas minhas...

Daniel: |Curioso; olhando nos olhos dela.| Que tensões?

Patrícia: |Mentindo.| Nada mais... |Encara o homem.| É... |Não sabe o que dizer.| 

Daniel: |Envolvido no olhar.| O quê...? 

[Patrícia respira ofegante. Daniel também. Uma tensão romântica cresce, enquanto um instrumental de romance com efeitos que remetem a um clima sexual toca no fundo da cena. Daniel e Patrícia aproximam seus olhos, os lábios, e se beijam pela primeira vez. A câmera faz um efeito giratório neles, ao mesmo tempo em que o soundtrack chega no auge.]

•A IMAGEM CONGELA EM DANIEL E PATRÍCIA ONDE A TELA FICA COMPLETAMENTE VERMELHA•