Sombras do Passado - Capítulo 01 | Edição Especial

 



*SOMBRAS DO PASSADO - CAP. 1*


_“No passado repousam memórias, reflexos que o tempo não apaga. No futuro, esses traços se expandem e a jornada da vida se desvenda em saga.”_


[...]


*_1928 - Vila Esperança_*


*[⏳] ● CENA 01 ● CASA DE MONTECARLO (QUARTO) ● INTERNO ● NOITE ● [⏳]*


[Após um rápido passeio sobre as rústicas casas da pacata Vila Esperança, a câmera focaliza em uma pequena e bela igreja. Em seguida, o foco passa para um casebre localizado ao lado. É lá onde vive Padre Montecarlo, um senhor de aproximadamente 90 anos, em companhia de Daniela, sua fiel serviçal.]


[Adentrando-se, é mostrado o seu quarto, pouco iluminado. O padre, deitado em sua cama, está fraco e pálido, cercado por velas acesas e imagens sagradas.]


Montecarlo (sussurrando com voz fraca): Daniela... Venha cá. 


[Daniela, dedicada e leal, aproxima-se rapidamente da cama do padre, preocupada com sua condição.]


Daniela (com sotaque nordestino): Sim, sinhô Montecarlo, eu tô aqui do seu lado. O que deseja?


Montecarlo (com dificuldade): Preciso... Preciso que me faça um favor.


Daniela: É só o sinhô falar que eu faço. 


[Neste momento, Montecarlo segura em suas mãos e olha em seus olhos.]


Montecarlo: Eu preciso que você encontre ele...


Daniela (confusa): Ele... Quem? Num sei do que o sinhô tá falando. 


Montecarlo (com dificuldade para respirar): Serafín... Serafín Machado... Eu preciso vê-lo antes de partir. 


[Neste momento, a expressão de Daniela muda drasticamente e ela fica aparentemente perturbada com o que acabara de ouvir. A câmera se afasta lentamente, enquanto a tela escurece aos poucos.]


*[⏳] ● CENA 02 ● EXTERNO (RUAS) ● MANHÃ ● [⏳]*


*📍• Monte Velho (SP)*


[Do alto, são mostrados diversos takes de Monte Velho. Após uma aproximação, a rotina da cidade e de seus moradores é mostrada ao público. Os sons dos poucos automóveis característicos da época se misturam com o tilintar das charretes. Os estabelecimentos antigos exibem sua beleza, contrastando com os primeiros sinais de modernidade que começam a surgir na cidade. Neste momento, a cena corta para um homem elegante com terno impecável e um chapéu de aba larga que caminha satisfeito pelas estreitas ruas. É Madeleine. Conforme caminha, moradores se aproximam para cumprimentá-lo por sua ótima gestão como prefeito.]


Morador: Bom dia, Sr. Prefeito.


Madeleine (sorridente): Bom dia, cidadão. Um novo dia se inicia, e nossa jornada diária também recomeça. 


[A câmera focaliza no rosto de Madeleine. Ele continua caminhando e se dirige até a sua maior conquista: a Grande Fábrica de Chocolates Madelein's. Lá, um casal de senhores o aguardam na entrada. Se tratam de Israelita e Leopoldo (personagens de *Jardim do Éden*).]


Israelita (sorridente): Bom dia, caro Madeleine. 


Madeleine (surpreso): Meus caros amigos... O que os trazem aqui? 


Leopoldo: Oras... Não iríamos sair de Arcanjo para buscar algo além do melhor chocolate do país. Não é mesmo?


[Madeleine sorri. A música que penetra a cena se intensifica. Ambos adentram à fábrica, onde é mostrado o intenso trabalho de seus operários. Minutos mais tarde, todos estão reunidos. Madeleine está no centro do salão, rodeado pelos seus funcionários, que aguardam ansiosos às palavras do empresário.]


Madeleine: Queridos operários e operárias, os chamei aqui porque tenho uma ótima notícia para dar-lhes. 


[Todos esperam com ansiedade.]


Madeleine: Eu sei o quanto cada um de vocês se empenha diariamente para fazer da fábrica um sucesso. Estou muito orgulhoso de todos. E é por isso mesmo que eu tomei uma decisão. A partir de hoje, todos vocês terão um aumento de 15% em seus salários. 


[Após suas palavras, Madeleine é ovacionado por todos. Ele sorri, satisfeito com a reação dos funcionários.]


*[⏳] ● CENA 03 ● FÁBRICA DE CHOCOLATES ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*


_🎶 • Lua Branca • Maria Bethânia_


[Mais tarde, ainda na fábrica, é mostrada a rotina de uma operária. De semblante sofrido, Fátima trabalha arduamente. Após vários minutos de lida, ela para para descansar, exausta e com uma tosse seca e persistente a acompanhando.]


Fátima (ofegante): Ah... Hoje tá puxado, meu Deus!


[Neste momento, uma mulher se aproxima, por suas costas. É Gilda, com seu semblante debochado sempre estampado no rosto.]


Gilda (sarcástica): Está faltando serviço, Fátima? Pelo que eu pude perceber, além de ter chegado tarde, você está fazendo pausas a cada 10 minutos... |Se aproxima mais, em tom provocador.| Toma cuidado para a superintendente não te flagrar. 


[Fátima nada responde, apenas fecha os olhos, tentando se conter. Gilda a encara por alguns segundos e, em seguida, se afasta.]


Fátima (pensando consigo mesma): Aguenta firme, Fátima... Pela sua filha... Você precisa desse emprego. 


[Fátima, ainda tossindo, senta-se em um banco. Ela encosta sua cabeça na parede e começa a ter uma série de flashs.]


*[🕰] ● FLASHBACK (INÍCIO) ● ESTRADA ● MANHÃ ● [🕰]*


[Fátima, mais nova, caminha por uma estrada semi-deserta, com uma criança pequena nos braços. Ela está exausta. Ao longe, avista uma taberna e decide se aproximar.]


[Fátima chega à taberna e vê uma mulher na porta. É Carlota, uma mulher de aparência selvagem e nada simpática.]


Fátima (ofegante): Por favor, me ajude! Eu estou há horas caminhando com minha pequena nos braços. Já não aguento mais.


Carlota (dura, porém educada): O que aconteceu?


[Fátima entra na taberna e, em meio às lágrimas, conta sua história triste. Ela explica que não tem mais ninguém, apenas Coraline, sua filha. Carlota finge se interessar.]


Carlota: Sinto muito pelas suas perdas, Fátima, mas creio que não posso fazer nada. Agora, se você me der licença, preciso ir olhar minhas filhas. 


[Neste momento, Fátima olha para Carlota, com uma faísca de esperança no olhar.]


Fátima: Filhas... Você tem filhas?


Carlota: Sim, duas meninas lindas...


[Fátima se aproxima de Carlota, de repente, e segura em suas mãos.]


Fátima (séria): Fique com Coraline. Eu juro que lhe dou todo o dinheiro que trago comigo, se aceitar. Eu não posso cuidar dela, não agora. Estou indo para Monte Velho e não conseguirei emprego com uma criança nos braços. |Se aproxima mais ainda de Carlota.| Por favor... Crie a minha pequena. Eu lhe envio quantias de dinheiro mensalmente, ou sempre que ela precisar. Quando tiver condições, eu volto para buscá-la.


[A câmera focaliza no rosto de Carlota. A mulher está hesitante, porém a proposta é tentadora.]


[...]


*[🕰] ● FLASHBACK 2 (INÍCIO) ● PEQUENA CASA (SALA DE ESTAR) ● NOITE ● [🕰]*


[Fátima, pouco menos de 1 ano antes dos acontecimentos do flashback anterior, se encontra em uma calorosa discussão com um homem. Se trata de Fernão.]


Fátima (desesperada): COMO ASSIM VOCÊ NÃO VAI ASSUMIR ESSA CRIANÇA? VOCÊ É O PAI, NÃO PODE FAZER ISSO COMIGO!


Fernão (violento): EU JÁ FIZ, FÁTIMA! COLOQUE NA SUA CABEÇA QUE EU SOU UM HOMEM CASADO, SE PONHA NO SEU LUGAR! EU NÃO VOU ASSUMIR ESSA CRIANÇA, E SE VOCÊ INSISTIR, EU TE MATO!


[Fátima, aos prantos, parte para cima de Fernão, estapeando-o freneticamente.]


Fátima: DESGRAÇADO!


[Tomado de ódio, Fernão desfere um forte tapa no rosto de Fátima, fazendo-a cair.]


Fernão: AGORA SUMA DAQUI! A MINHA ESPOSA ESTÁ QUASE CHEGANDO! 


[A câmera foca no rosto de Fátima e é mostrado o seu sofrimento. Ela levanta-se com dificuldades e encara Fernão.]


Fernão (ameaçando): Espero nunca mais te encontrar, caso contrário... Eu acabo com você. 


[...]


*[🕰] ● FLASHBACK 3 (INÍCIO) ● CASA DO PAI DE FÁTIMA (INTERNO) ● NOITE ● [🕰]*


[Fátima se encontra em uma nova discussão, dessa vez com seu pai, que está furioso após descobrir sua gravidez.]


Fátima (chorando): Pelo amor de deus, pai... Eu não vou desistir dessa criança, NÃO VOU! Eu já a amo e vou cuidar dela com o seu apoio ou não.


[Andrei para, por um instante, refletindo.]


Andrei (quebrando o silêncio): Pois bem... Se é assim que você quer... |Se aproxima da filha.| Vá embora, Fátima. Você desonrou a minha família. VÁ EMBORA, FÁTIMA!


[Fátima se choca com as palavras do pai.]


Fátima (com a voz embargada): O senhor está me expulsando, pai? É isso? 


Andrei: É isso mesmo, Fátima. AGORA PEGUE AS SUAS TRALHAS E SAIA DA MINHA CASA AGORA! AQUI VOCÊ NÃO FICA MAIS!


*[🕰] ● FIM DOS FLASHBACKS ● [🕰]*


[Fátima, neste instante, abre os olhos e enxuga suas lágrimas.]


Fátima (decidida): Eu ainda vou te buscar, filha. Eu juro...





*[⏳] ● CENA 04 ● TABERNA DOS TAVARES ● EXTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*

[A câmera mostra a fachada de um rústico estabelecimento. É a Taberna dos Tavares, local onde Fátima deixou Coraline. O imóvel se encontra no meio de uma vasta floresta, aparentemente isolado. Ao aproximar-se, é possível ver uma duas crianças pequenas brincando: uma de aproximadamente 9 anos, e a segunda um pouco mais nova, ambas bem vestidas. As duas brincam com caras bonecas de porcelana. Se tratam de Eleonor e Adelaide, respectivamente. Um pouco distante, se encontra uma terceira criança. Diferente das outras, essa é negra, tem aparência sofrida, cabelos desgrenhados, veste trapos e brinca com pequenos pedaços de madeira. É Coraline, a filha de Fátima.]

[De repente, a imagem corta para uma mulher saindo da taberna, carregando um balde seco. É Carlota. Ela passa pelas filhas e dirige-se até Coraline.]

Carlota: Levanta daí, menina. Preciso que você vá até a fonte buscar água.

[Coraline, tímida e triste, deixa os brinquedos improvisados de lado e levanta-se, dirigindo-se à mulher.]

Coraline (envergonhada): É... Senhora, depois que eu chegar, posso brincar com Eleonor e Adelaide?

[Carlota a encara, por um momento, e solta uma estridente gargalhada.]

Carlota (rindo): Você brincando com as minhas filhas? Ah, Coraline... Não me faça rir.

[Coraline abaixa a cabeça. Uma lágrima desce pelo seu rosto.]

Carlota (furiosa): ANDA, IDIOTA! VAI BUSCAR ESSA ÁGUA, ANTES QUE EU PERCA A PACIÊNCIA!

[Assustada, Coraline pega o balde e corre rumo à fonte, que fica situada no meio da floresta, enquanto Carlota a observa.]

Carlota (bufando): Monstrinho insolente...

[Após falar isso, a tabeliã entra para dentro. Lá, encontra seu marido, Valentin, resmungando.]

Valentin: Carlota, Carlota... Onde você estava com a cabeça quando aceitou criar essa negrinha junto com as nossas filhas? Essa maldita só nos traz problemas. 

Carlota: Estava com a cabeça no dinheiro que a Fátima prometeu nos dar, meu marido. E eu acho bom você parar de resmungar, pois o dinheiro das mensalidades que ela envia nos ajuda muito. E a menina... Bom, com ela aqui, nós não precisamos de serviçais. 

Valentin: O dinheiro ajuda sim, mas eu não aguento mais olhar para essa menina, Carlota. Você pode ter certeza que, a qualquer descuido da Fátima, eu me livro desse estorvo definitivamente. 

Carlota (se aproximando): Calma, Valentin, calma... A Fátima acha que Coraline é tratada como uma princesa e não hesita quando pedimos aumento na mensalidade ou algumas quantias extras. Ela é a nossa galinha dos ovos de ouro, e eu só permitirei que você dê um fim nela caso as coisas mudem drasticamente. 

[Valentin nada diz, apenas a encara, com amargura no olhar. A câmera se afasta.]

*[⏳] ● CENA 05 ● FLORESTA (FONTE) ● EXTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*

[Coraline caminha rápido pela floresta, com medo, pois o local é afastado da taberna . Ela chega até a fonte e, apressadamente, enche o balde. Mesmo com dificuldades para carregar tanto peso, ela inicia o trajeto de volta, quando, neste momento, escuta um barulho vindo da mata. A menina fica pálida e coloca o balde no chão.]

Coraline (assustada): Quem está aí?

[Neste instante, ela escuta uma voz parecendo ser de uma criança, provavelmente brincando. Ela reconhece ser de Galileu, o filho mais novo do casal Tavares.]

Coraline: Galileu...

[Ela se dirige ao local de onde vem o barulho. Chegando lá, Coraline encontra Galileu brincando com uma velha boneca. O menino, um pouco mais novo que a filha de Fátima, se assusta ao vê-la.]

Galileu (alarmado): Coraline, por favor, não conte para os meus pais que me viu aqui. Eles vão me bater, caso descubram que eu voltei a brincar com bonecas. 

Coraline: Calma, eu não vou contar. Os seus pais são cruéis... Eles me batem e me castigam a troco de nada.

Galileu (se aproximando): Eu também não gosto deles, nem eles de mim...

Coraline: Acho melhor você ir embora, antes que sintam sua falta. Eu vou indo na frente, pois eles podem se zangar, caso nos vejam juntos.

[Galileu consente, e Coraline segue sua trajetória. A imagem escurece, ao som de um instrumental melancólico. A noite cai e logo já é dia.]

*[⏳] ● CENA 06 ● ESTAÇÃO DE TREM DE MONTE VELHO ● EXTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*

_🎶 • Tenha Pena De Mim • Elza Soares_

[A câmera mostra a movimentada estação de trem de Monte Velho. Pessoas correm de um lado para o outro, enquanto os trens chegam e partem, em sincronia com a música. De repente, o clima muda drasticamente. Um instrumental emblemático invade a cena e o foco vai para um homem misterioso descendo do trem. Ele está vestido com um terno escuro e segura uma maleta nas mãos. O homem se aproxima da câmera e revela-se como o inspetor de polícia Xavier. Ele olha diretamente para a câmera, com uma expressão séria.]

Xavier (firme): Finalmente... Estou mais próximo do que nunca de te encontrar, Serafín Machado!

[A câmera se afasta lentamente, revelando a estação de trem ao fundo, enquanto Xavier caminha com determinação em direção à saída. A música volta a se intensificar e é mostrada a movimentação da cidade.]

*[⏳] ● CENA 07 ● CASA DE MADELEINE (BIBLIOTECA) ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*

[A câmera foca na fachada da casa de Madeleine. Ao aproximar-se, é possível ver que se trata de um domicílio espaçoso e luxuoso. Adentrando-se, são mostrados diversos cômodos da residência. O protagonista se encontra sentado na biblioteca, pensativo. Ela encara dois magníficos castiçais de ouro.]

Madeleine (suspirando): Ah, velho Montecarlo...

*[🕰] ● FLASHBACK (INÍCIO) ● CASA DE MONTECARLO ● INTERNO ● NOITE ● [🕰]*

[É mostrado Madeleine {Serafín Machado - antes de sua última identidade}, 10 anos antes, ajoelhado aos pés de Montecarlo, que o encara com uma expressão solene.]

Madeleine (chorando): Eu não sei como lhe agradecer por tudo que fizeste por mim, padre. 

Montecarlo (sorrindo): Levante-se, meu filho. Você não precisa me agradecer. Eu fui apenas um homem justo quando o acolhi e acreditei em sua palavra.

[Madeleine levanta e lhe beija as mãos.]

Madeleine: Chegou a minha hora, Padre Montecarlo. Eu vou partir para Monte Velho antes que o dia nasça. 

Montecarlo: Vá, filho... Vá... Mas antes, lembre-se do que sempre lhe disse: Você não pertence ao mal, mas sim ao bem. Eu furtei a sua alma dos maus pensamentos e do espírito da perdição para entregá-la a Deus. 

Madeleine: Eu nunca irei me esquecer de nada que aprendi com o senhor. 

[Madeleine se aproxima de Montecarlo e lhe abraça, emocionado. Após alguns segundos de emoção, o abraço se desfaz. Montecarlo aponta para os dois castiçais, presentes em uma prateleira.]

Montecarlo: Leve os castiçais. Eu não preciso deles, mas você sim. Serão úteis no seu recomeço. O dinheiro irá ajudá-lo muito. |Coloca a mão sobre o ombro de Madeleine.| O mundo está em guerra há quase um ano. Eles logo te esquecerão e você já não precisará viver nas sombras. Dará tudo certo, Serafín Machado. 

[Montecarlo o encara. A câmera foca nos dois objetos.]

[...]

*[🕰] ● FLASHBACK (INÍCIO) ● CASA DE MONTECARLO ● EXTERNO ● NOITE ● [🕰]*

[Dias antes, é mostrado Madeleine correndo desesperado, debaixo de um forte temporal. Ofegante, ele avista uma igreja ao longe e corre até ela. Percebendo que a porta está trancada, ele dirige-se até o casebre de Montecarlo e bate freneticamente em sua porta, até que o velho a abre, permitindo sua entrada.]

*[🕰] ● FIM DOS FLASHBACKS ● [🕰]*

[Madeleine, visivelmente abalado, levanta-se e vai até a janela. Encarando o lado de fora, ele volta a pensar.]

*[🕰] ● FLASHBACK (INÍCIO) ● VILA ESPERANÇA (ESTRADA) ● MANHÃ ● [🕰]*

_1910 - Vila Esperança_

[A câmera passeia por Vila Esperança, 18 anos antes da fase atual. É mostrado um garoto de rua, Gervais, agarrado à um monte de pedras afiadas, lutando para tirar sua pipa de uma árvore. Neste instante, é visto Madeleine caminhando pela estrada. Ao aproximar-se, seus olhos captam a vulnerabilidade de Gervais. Movido por uma compaixão inesperada, Serafín se aproxima.]

Gervais (gritando): POR FAVOR, ME AJUDE!

[Madeleine sobe até lá e tenta a todo custo desprender a pipa, mas sem sucesso. Graças à isso, a gratidão de Gervais transforma-se rapidamente em insolência, e ele começa a importunar o homem.

Gervais: Você é só um fracassado! Nem mesmo para desenroscar uma pipa você serve... INÚTIL!

[Neste momento, Madeleine/Serafín é tomado por uma fúria repentina.]

Madeleine (gritando): CALE A BOCA, MOLEQUE INSOLENTE!

[O grito ecoa, assustando Gervais, que, desequilibrado, perde o controle e despenca sobre as pedras abaixo. O som dos ossos quebrando perfura o ar. Do alto, é possível ver o menino caído, completamente ensanguentado, enquanto o desespero toma conta de Madeleine. Um silêncio atordoante invade a cena. Neste momento, um grito rompe a calmaria.]

Mulher: ASSASSINO! 

Madeleine (perturbado): Não... Não! NÃÃÃÃÃÃOOOOOOOO!

[Outros cidadãos que presenciaram a cena se unem ao coro acusatório. A poeira da tragédia se mistura à turbulência dos murmúrios acusadores, enquanto Madeleine se desespera e cai aos prantos. A imagem escurece lentamente.]

[...]

*[🕰] ● FLASHBACK (INÍCIO) ● SALA DE TRIBUNAL ● TARDE ● [🕰]*

[É mostrada uma sala de julgamento lotada. Madeleine está no banco de réus. O juiz lê sua sentença.

Juiz (duro): Serafín Machado Nascimento, pelo assassinato do menor indigente, Gervais, condeno-o a vinte anos de reclusão em regime totalmente fechado.

[Madeleine olha atônito para o juiz, com seus olhos transbordando em lágrimas.]

[...]

*[🕰] ● FLASHBACK (INÍCIO) ● CORREDOR DA PRISÃO ● INTERNO ● TARDE ● [🕰]*

[Madeleine é empurrado violentamente pelos guardas enquanto caminha pelo corredor lotado de presos. Ele é trancafiado numa cela e encolhe-se em um canto, desesperançoso.]

[...]

*[🕰] ● FLASHBACK (INÍCIO) ● PRESÍDIO ● INTERNO ● NOITE ● [🕰]*

[A cela de Madeleine está cheia de tensão. Os detentos ao redor estão agitados, sussurrando entre si sobre uma possível rebelião. O protagonista observa tudo atentamente.]

Madeleine (sussurrando): É agora ou nunca...

[A rebelião começa. Detentos revoltados se levantam contra os guardas, lançando objetos e criando um caos generalizado. Enquanto a confusão toma conta do corredor, Madeleine aproveita a oportunidade para se mover silenciosamente pelos cantos mais escuros. Ele chega ao pátio, onde a batalha entre os detentos e os guardas está em pleno andamento. Ele se esgueira entre os grupos de pessoas em confronto, evitando ser visto.]

[Enquanto os guardas estão ocupados controlando a rebelião, Madeleine encontra um ponto fraco no muro. Com determinação, ele escala habilmente até o topo e salta para o lado de fora. Ele olha para trás e vê os guardas tentando conter a rebelião, enquanto os outros detentos são capturados um a um.]

*[🕰] ● FIM DOS FLASHBACKS ● [🕰]*

[Após isso, Madeleine recorda a sua chegada em Monte Velho. No início, não fora fácil, mas, após coincidentemente salvar o prefeito de um incêndio, este ficara eternamente grato e lhe dera um cargo na prefeitura. Com o passar do tempo, Madeleine foi ascendendo socialmente até tornar-se o que é hoje.]

[Após tanto relembrar o seu passado, Madeleine sai de casa e parte para a prefeitura, enquanto a câmera mostra a movimentação em Monte Velho.]

*[⏳] ● CENA 08 ● MONTE VELHO ● EXTERNO (RUAS) ● MANHÃ ● [⏳]*

[Madeleine caminha com confiança pelas ruas movimentadas em direção à prefeitura. Ele está absorto em seus pensamentos, sem perceber que um homem misterioso o observa de longe. O homem se aproxima lentamente da câmera. É Xavier. Um instrumental de suspense permeia a cena.]

Xavier: Finalmente te encontrei, Madeleine... Ou será que devo chamá-lo de Serafín Machado?

*[A câmera foca no olhar de Xavier, enquanto Madeleine se afasta e o instrumental se intensifica].*