Cidade do Bem - Capítulo 25
CENA 01 - CONTINUAÇÃO: Prefeitura de Cidade do Bem | Manhã
[Berenice e Leonardo trocam intensos olhares de ódio um pelo outro].
Leonardo: MEU POVO, NÃO ACREDITEM EM NADA QUE ESSA MULHER DISSER, ELA É UMA EX-FUNCIONÁRIA DA PREFEITURA E QUE SE INCONFORMA DE TER SIDO DISPENSADA. AONDE VOCÊ QUER CHEGAR COM ESSE ESCÂNDALO, BERENICE? SEGURANÇAS, TIREM ELA DAQUI!
Berenice: EU QUERO ESCÂNDALO, LEONARDO, EU QUERO QUE TODOS SAIBAM O VERME QUE VOCÊ É, E EU NÃO SAIO DAQUI ENQUANTO ESSAS PESSOAS NÃO ACORDAREM E ACREDITAREM NISSO. ESSE HOMEM MATOU OS MEUS PAIS, LÚCIA E PAULO LOPES E TENTOU ME MATAR COM UMA CRUELDADE SEM LIMITES, ELE QUERIA ME ESQUARTEJAR COM UMA MOTOSSERRA.
[A população da Cidade do Bem e os políticos influentes presentes no local ficam abismados com as revelações].
Berenice (continuando): O LEONARDO JAMAIS CUIDOU DESSA CIDADE, SEMPRE A MAQUIOU PARA RECEPCIONAR AS PESSOAS INFLUENTES, OS ASFALTOS TÊM BURACOS, GASTOU UMA FORTUNA DE DINHEIRO PÚBLICO NA PLACA QUE NÃO TEM QUALQUER UTILIDADE E O PROJETO DAS CASAS POPULARES FOI BARATEADO AO EXTREMO PARA ELE E O SECRETÁRIO DELE, HELENO VALADARES, TOMAREM O DINHEIRO E COMPRAR QUEM SABIA DEMAIS, E FORAM ESSAS CASAS MAL FEITAS QUE FIZERAM O TETO DESABAR SOBRE MEUS PAIS E MATÁ-LOS. VOCÊS ESTÃO DIANTE DE UM VERDADEIRO CIDADÃO DO BEM, QUE NA FRENTE ASSUME UMA PERSONALIDADE E POR TRÁS ESPERA PARA LHE ATACAR. E TENHO TUDO AQUI NAS MINHAS MÃOS, VEJAM ISSO.
[Berenice mostra de longe, completamente atordoada, as provas contra Leonardo e Heleno].
Leonardo: CHEGA, BERENICE, VOCÊ JÁ PASSOU DE TODOS OS LIMITES, SEGUREM ESSA MULHER, LEVEM ESSA DESEQUILIBRADA E TIREM ELA DA MINHA FRENTE.
[Leonardo aponta para alguns de seus seguranças e eles obedecem o comando para capturar Berenice, mas vários policiais também adentram o local e apontam seus revólveres para os funcionários de Leonardo e o próprio. O caos toma conta da Cidade do Bem].
Delegado: ABAIXEM AS ARMAS TODOS VOCÊS! LEONARDO DE QUEIROZ, VOCÊ JÁ ME CONHECE, DELEGADO AMORIM. E O SENHOR ESTÁ PRESO PELOS CRIMES DE CORRUPÇÃO, HOMÍCIDIO DOLOSO QUALIFICADO DE LÚCIA E PAULO LOPES E A TENTATIVA DE HOMICÍDIO CONTRA BERENICE LOPES. PODEM PRENDÊ-LO.
[O instrumental de tensão toca. Leonardo levanta as mãos e dá passos lentos para trás, enquanto alguns policiais percorrem até ele para algemá-lo].
[Em um ato de impulso, Leonardo corre e entra no meio da população, que o puxa pelos cabelos e o derruba no chão. Eles o agridem com vários socos, tapas e chutes por todo o seu corpo e principalmente na região de sua cabeça].
Leonardo (gritando): PAREM, PAREM, SOCORRO, SOCORRO!!!
[A frequência dos gritos de Leonardo diminuem a cada segundo, e policiais atiram para cima, na tentativa de contê-los].
Delegado Amorim: SAIAM, SAIAM DO MEIO!
[Ele e os outros policiais se desvencilham e chegam ao centro, onde encontram Leonardo desacordado, com diversos hematomas e ferimentos por todo o seu corpo e sangue saindo de seu nariz e sua boca e pequenos cortes na altura de seus supercílios esquerdo e direito. Amorim põe os dedos sobre o pescoço dele].
Delegado Amorim: ELE ESTÁ MORTO! O LEONARDO MORREU! O QUE VOCÊS TODOS FIZERAM?
[Amadeu e Marília também correm entre as pessoas e vêem Leonardo desfalecido].
Amadeu (desesperado): PAI!!
[Amadeu se ajoelha sobre o corpo de Leonardo e põe a sua cabeça dele nas suas pernas, arrasado].
Amadeu (chorando): PAI, PAI, FALA COMIGO, POR FAVOR.
[Marília tenta consolar Amadeu colocando as mãos em seu ombro].
Amadeu (chorando): Por que teve que ser assim, pai? Por que você escolheu esse caminho? Olha como você terminou...
[A câmera sobe lentamente e se afasta cada vez mais, até ser possível avistar a Cidade do Bem de forma panorâmica].
A tela escurece.
HORAS DEPOIS.
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CENA 02: Cemitério de Cidade do Bem | Começo da Noite
[A noite paira sobre o cemitério municipal e caem gotas de chuva sobre o cortejo fúnebre de Leonardo, que é acompanhado apenas por Maria Luísa e Amadeu].
[No outro take, o caixão dele é enterrado e os coveiros se retiram. Maria Luísa observa aos arredores e não vê nenhuma outra pessoa].
Maria Luísa: Se seu pai não tivesse enganado a todos, garanto que este cemitério estaria lotado. Ele procurou isso tudo.
[Ela põe uma rosa artificial preta sobre o túmulo e o encara pela última vez].
Maria Luísa (fria): Da cor preta, para representar o vazio e a escuridão que percorriam pelo seu sangue, Leonardo. Espero que um dia eu seja capaz de lhe perdoar por todo o sofrimento que você me causou.
[Amadeu também põe uma rosa preta sobre o caixão do pai].
Amadeu: Eu também espero conseguir te perdoar um dia. Apesar de tudo, vá em paz, pai.
[Maria Luísa e Amadeu saem do cemitério abraçados. Segundos depois, uma mão desliza sobre a sepultura de Leonardo e lágrimas caem sobre ela. É Madalena].
Madalena (fria): Vou me controlar para não chorar, porque se eu estivesse no seu lugar, você não iria. Vai para o inferno, meu amor, nos encontramos lá em breve. Mas antes disso, saiba vou cumprir o nosso plano. Pode ficar tranquilo, porque os quatro vão pagar por aquele ato patético.
[Madalena beija o seu dedo e põe sobre a foto de Leonardo, e sai do cemitério. O instrumental de tensão toca].
CENA 03: Casa de Amadeu | Noite
[A câmera se aproxima de uma pilha de cópias de documentos, anotações e gravações registrados e Marília as analisa cautelosamente, e sua reação muda a cada análise. O instrumental de tensão toca].
Marília (chocada) MEU DEUS!!! FOI ELA!! FOI ELA!!! NÃO ACREDITO, MINHAS SUSPEITAS ESTAVAM CERTAS, SÓ PODIA TER SIDO.
[Um estrondo é ouvido na parte inferior da casa. Marília se assusta e vira o seu rosto. Ela desce de sua cama discretamente, e ao abrir a porta, tem a boca tapada por Madalena e um revólver apontado para sua cabeça. Ela olha para o lado e vê Amadeu e Maria Luísa amarrados e amordaçados e com os seguranças de Leonardo apontando armas para eles também].
Madalena (fria): Achou que iria se livrar de mim porque o Leonardo morreu, meu amor? Não, senhorita, seu inferno está só começando de novo e será MUITO mais intenso, SUA DESGRAÇADA.
[O instrumental de tensão toca].
CENA 04 - CONTINUAÇÃO: Casa de Amadeu | Noite
[Madalena e seus capangas descem Amadeu, Marília e Maria Luísa e eles tentam parar na frente da porta].
Madalena: ANDA, MARCHEM! VÃO, SEUS OTÁRIOS, OU EU MATO OS TRÊS AGORA MESMO, EU NÃO TENHO MAIS NADA A PERDER, FUI MUITO PACIENTE COM VOCÊS JÁ.
[Madalena pega Marília pelos cabelos e ela tenta gritar, mas não consegue e é jogada dentro de uma van. Maria Luísa e Amadeu também são empurrados para dentro e os três se chocam ao verem Berenice na mesma situação].
[A luz de trás se desliga e a van acelera com tudo. O instrumental de tensão toca].
CENA 05: Delegacia de Cidade do Bem | Noite
[Heleno tilinta os seus dedos sobre as grades da cadeia, impaciente e deita no colchão para dormir, e quando fecha os olhos, um policial se aproxima].
Policial: Heleno Valadares, não é?
Heleno (bufando): Sim, sou eu. O que é agora?
Policial: Você será conduzido para o presídio, levante e me acompanhe, por favor.
[Heleno se levanta e é algemado. No outro take, ele entra na parte de trás da viatura e suspeita].
Heleno (suspeitando): O delegado não deveria estar conosco ou mais alguns policiais? Só tem nós três.
Policial: Não. A essas horas eles estão dormindo. Esse aqui é o passaporte para a sua liberdade. Acelera com tudo, homem.
[O carro engata a marcha e Heleno compreende o que aconteceu e abre um pequeno sorriso].
ITABERAÍ - GO.
CENA 06: Hangar do Aeródromo de Itaberaí | Noite
[A câmera se aproxima do movimento acelerado da van, e alterna entre as reações de Maria Luísa, Berenice, Amadeu e Marília, assustados com a situação].
[No outro take, a van entra dentro do aeródromo de Itaberaí e estaciona. Madalena desce com duas armas em suas mãos e pede para um dos seguranças abrirem. A porta é aberta e os quatro são arrastados para fora].
[Madalena remove as amordaças de cada um e por fim, ao tirar o de Maria Luísa, dá um tapa na cara dela. Ela se vira e encara Madalena com desprezo, com seu rosto vermelho].
Madalena (fria): Esse é um dos tapas que eu estava te devendo, sua vagabunda. Aquela petulância de vir atrás de mim para me bater, você achou mesmo que não iria ter troco?
[Madalena dá outros dois tapas na cara dela].
Madalena: Minha mão coçou por isso por mais de vinte e cinco anos, Maria Luísa, mas acho que já foi o suficiente. Vocês vão ficar quietos? Tirei as amordaças para que vocês digam alguma coisa.
[Marília fica com a cabeça abaixada e a levanta, com um olhar robótico].
Marília: Eu já sei de tudo, Madalena. TUDO.
Madalena: Tudo o que? Você já falou demais, amordacem ela de novo.
[O segurança amordaça Marília novamente].
Berenice: SUA DEMÔNIA, VOCÊ É UM LIXO DE SER HUMANO, MADALENA, EU TE ODEIO, COMO QUE PODE EXISTIR UMA PESSOA ASSIM.
Madalena: VOCÊ CALA A TUA BOCA, SUA CADELA MAL AMADA. EU TAMBÉM TE ODEIO E DOS QUATRO AQUI É QUEM NUTRO MAIS ÓDIO NO MOMENTO. O LEONARDO, O AMOR DA MINHA VIDA ESTÁ MORTO POR SUA CULPA, POR CAUSA DAQUELE SEU SHOW PATÉTICO. ENTÃO VOCÊ FICA QUIETA OU VAI SER A PRIMEIRA QUE EU MATO.
Maria Luísa: VOCÊ É UM MONSTRO, MADALENA, EU TAMBÉM ODEIO VOCÊ COM TODAS AS MINHAS FORÇAS. MATA A GENTE LOGO, ACABA COMIGO E COM MEUS FILHOS, NÃO É ISSO QUE VOCÊ TANTO QUER? PORQUE NÃO ATIROU AINDA?
Amadeu: É, CONCLUI SEU SERVIÇO LOGO E NOS LIVRA DE VOCÊ PARA SEMPRE.
Madalena: Calma, Maria Luísa e meu filho amado. Eu vou matar vocês, mas falta uma pessoa chegar. Não é que já está chegando?
[Madalena olha para o lado e vê um veículo se aproximando e adentrando ao hangar. Uma pessoa desce e se aproxima dela, mas é visto apenas pelos seus calçados].
[A câmera sobe aos poucos e revela ser Heleno. Ele e Madalena se abraçam e caminham até a frente de Maria Luísa, Berenice, Amadeu e Marília].
Heleno (frio): Olá, pessoal. Como vão todos? Bem mal, eu espero.
Madalena: Chegou a última pessoa que faltava, agora podemos começar a nossa acareação. Desamordacem a Marília também.
[Um dos seguranças obedece Madalena].
Marília (aos gritos): FOI VOCÊ, MADALENA, FOI VOCÊ. VOCÊ E O HELENO, VOCÊS QUE MATARAM O GILDO!!!
[O pico do instrumental é alcançado e intercala entre as reações do sexteto e enfatiza em Madalena e Heleno, que sorriem para os quatro amarrados].
CENA 07 - CONTINUAÇÃO: Hangar do Aeródromo de Itaberaí | Noite
Marília: VAI, ASSUME, MADALENA, VOCÊ NÃO ARMOU TUDO ISSO AQUI? POIS CONFESSA NA FRENTE DE TODOS NÓS. SÓ PODE TER SIDO VOCÊ QUE MATOU ELE, COM A AJUDA DESSE DESGRAÇADO DO HELENO.
Heleno: VOCÊ ME RESPEITA, MARÍLIA, VOCÊ SE METEU NUMA HISTÓRIA QUE NUNCA FOI DA SUA CONTA. POIS SE VOCÊ JÁ SABE DE TUDO, PODEMOS RECAPITULAR, NÃO É, MADALENA?
Madalena: Claro. Fomos nós sim, meu amorzinho. E EU NÃO ME ARREPENDO DISSO, NÃO ME ARREPENDO DE TER MATADO AQUELE CHANTAGISTA MISERÁVEL. EU AINDA TIVE PENA DELE, FOI SÓ UM GOLPE E CAIU NO BURACO DIRETO PRO INFERNO.
[Madalena e Heleno riem da cara deles. Berenice surta com o momento].
Maria Luísa: DEMÔNIOS.
Amadeu: VOCÊS NÃO PRESTAM!!!
Berenice: EU VOU MATAR VOCÊS, ME SOLTEM, EU TENHO NOJO DE VOCÊS DOIS, NOJO!!
Madalena: Ai, Berenice, fica quieta, por favor. Eu te fiz um favor te livrando dele, afinal o que você queria com um homem que era apaixonado por isso aqui e que a engravidou daquilo?
[Madalena aponta para Maria Luísa e Marília].
Marília: Tudo faz sentido, sempre fez, eu sabia, sabia que o Gildo te chantageou, e eu tinha quase certeza que era você, só faltou eu descobrir o motivo.
Madalena (fria): Eu falo, se o problema for esse. Ele descobriu o meu caso com o Leonardo e me pediu uma fortuna, e é óbvio que eu não iria pagar o que ele queria, a recompensa dele foi a morte.
Marília: E você, Heleno? ELE ERA TEU PADRINHO, VOCÊ VANGLORIOU TANTO AQUELE CAPETA QUE IRRITAVA A TODOS NÓS, E NO FINAL VOCÊ MATOU ELE?
Heleno: PORQUE ELE ME ABANDONOU, ME DEIXOU NA CASA DO LEONARDO PARA CORRER ATRÁS DA MARIA LUÍSA, EU JÁ SABIA QUE VOCÊ ERA FILHA DELE, EU TINHA CERTEZA ABSOLUTA, PORQUE ELE SAÍA COM ESSA VACA DA MARIA LUÍSA. VOCÊS TODOS SÃO UNS PATETAS E ACREDITARAM QUE EU ERA APENAS UM POBRE COITADO RESSENTIDO E AMARGURADO, MAS NÃO, SOU MUITO PIOR. E EU GOSTO, DESDE CRIANÇA ERA ASSIM.
Madalena (debochando): E eu, como uma boa pupila dele, para ajudá-lo, o que eu fiz? O busquei na casa do Leonardo quando ele saiu armado para ir atrás do Gildo.
FLASHBACK.
25/10/1935.
CENA 08: Casa de Leonardo | Final de Tarde
[Madalena estaciona o seu carro e vê Leonardo sair depressa com seu veículo e Heleno aos berros no fundo].
Madalena (estranhando): O que deu nele? É o Heleno?
[Heleno se senta no parapeito da calçada e põe as mãos sobre a cabeça, chorando. Madalena se aproxima e se senta ao seu lado].
Madalena: Heleno!!
Heleno (chocado): Irmã Madalena? O que a senhora está fazendo aqui?
Madalena (manipulando): Eu vi que você estava chorando e vim te consolar. Diga para mim, para eu orar por você, o que aconteceu? Porque o seu tio saiu correndo?
Heleno (chorando): Ele foi atrás do meu padrinho, para matar ele. O Leonardo está armado.
[Madalena finge estar surpresa].
Madalena: Mas porque ele quer fazer isso?
Heleno: Eu não sei também. AI, QUE ÓDIO. QUE ÓDIO. ME DESCULPE, IRMÃ, NÃO QUERIA DIZER ISSO, MAS ESTOU TORCENDO PARA QUE MEU PADRINHO MORRA, PORQUE ELE ME DEIXOU AQUI, EU VOU TER QUE MORAR COM O LEONARDO A PARTIR DE HOJE, E EU NÃO QUERIA ESTAR AQUI.
[Madalena disfarça um pequeno sorriso ao ouvir o que Heleno disse].
Madalena: Você está desejando a morte do seu padrinho?
Heleno (com ódio): Estou, e se dependesse de mim, se eu tivesse força, eu matava ele com as minhas próprias mãos.
[Madalena mergulha em seus pensamentos e não consegue segurar sua emoção].
Madalena (diabólica): Eu sei o que fazer, Heleno. Eu posso te ajudar a se livrar do seu padrinho para sempre. Mas olha, esse é o nosso segredo, viu? Ninguém nunca pode saber disso.
[Heleno não demonstra nenhuma reação e fica paralisado].
25/10/1935.
CENA 09: Casa de Heleno | Começo da Noite
[No outro take, Madalena aguarda por Heleno em seu carro e o vê entrar com uma pá no veículo].
Madalena: Por que tivemos que vir até aqui na sua casa, Heleno?
Heleno: Para não pegarmos uma da casa do meu tio, e ele sente a falta dela?
Madalena: Boa ideia, garoto. Você tem uma mente perigosa, né. Eu gosto disso.
[Eles aceleram].
25/10/1935.
CENA 10: Placa da Cidade do Bem | Noite
[Madalena dirige em meio a uma leve chuva e se assusta com os diversos trovões e flagra um carro chocado contra a placa da Cidade do Bem e vê Gildo de longe se arrastando no chão, com diversos hematomas por seu corpo].
Madalena: O SEU PADRINHO ALI! ELE BATEU COM O CARRO. É A NOSSA HORA AGORA. FICA AQUI E ME DÁ A PÁ.
[Heleno entrega a pá para Madalena e ela desce do carro de forma sorrateira].
[A câmera se aproxima de Gildo, que consegue ficar em pé e põe as mãos sobre a cabeça. Madalena surge por suas costas com as mãos atrás de suas costas segurando a pá. O instrumental de tensão toca].
[Gildo se vira e se surpreende ao ver Madalena. Ele ri da cara dela].
Gildo: O que você tá fazendo aqui, Madalena? Isso aqui é um evento familiar. Ou você quer ver a sua amiguinha e a filha dela mortas?
[Madalena continua o encarando friamente].
Gildo: E essa pá aí? É para enterrar elas?
Madalena (fria): Não, Gildo, é para enterrar VOCÊ. Eu vim te pagar o que você me pediu.
[Numa ação de impulso, Madalena aplica com força um golpe de pá na cabeça de Gildo e o derruba no chão desacordado].
[No outro take, Madalena abre um buraco de terra fundo no chão e empurra o corpo de Gildo para dentro. Madalena cospe ao lado dele].
Madalena: Vai pro inferno, seu maldito. Eu livrei o mundo de um canalha a menos.
[Madalena decide voltar e aplica um último golpe mais forte ainda na cabeça de Gildo. Ela levanta a pá e observa com alegria as gotas de sangue que escorrem pela ponta da pá. Madalena joga a pá um pouco afastado da cena do crime e vai até Maria Luísa e dá um tapa leve na cara dela].
Madalena: Apagou mesmo. Perdeu, viu, garota. A sua vida vai ser um inferno e eu vou fazer de tudo para que seja assim até você morrer.
[Madalena observa Marília no chão, chorando e com diversas feridas e sangue escorrendo pelos seus braços].
Madalena: E essa pentelha chorona também. Adeus.
[Em outro take, Madalena entra no carro e Heleno a olha espantado].
Heleno: IRMÃ, MADALENA, O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ?
Madalena: EU FIZ O QUE TINHA QUE TER SIDO FEITO, HELENO, FIZ UM BEM PARA A HUMANIDADE. O GILDO ESTAVA ATRAPALHANDO OS MEUS PLANOS E IRIA DESTRUIR SUA VIDA. VOCÊ VAI EXTRAIR ESSA MEMÓRIA DO SEU CÉREBRO E JOGAR NA LIXEIRA, VOCÊ NÃO VIU NADA DO QUE ACONTECEU AQUI, É FANTASIA DA SUA MENTE E A GENTE NEM SE CONHECE. FUI CLARA?
[Heleno concorda com a cabeça, nervoso. Madalena se olha no retrovisor do espelho e ri maleficamente. As gotas de chuva desfocam a cena].
FIM DOS FLASHBACKS.
CENA 11: Hangar do Aeródromo de Itaberaí | Noite
[Marília fecha os seus olhos, representando que confirmou suas suspeitas].
[Berenice, Maria Luísa, Marília e Amadeu falam ao mesmo tempo e irritam Madalena e Heleno].
Heleno: CALEM A BOCA VOCÊS, VOCÊS QUERIAM A VERDADE? ESTÁ AÍ!!!
Maria Luísa: ASSASSINA, ASSASSINA, PSICOPATA, O QUE VOCÊ TEM NO LUGAR DO CORAÇÃO?
Madalena: EU TENHO RACIONALIDADE, VOCÊS DEVIAM ERA ME AGRADECER, SEUS INGRATOS, TODOS NÓS AQUI QUERÍAMOS A MORTE DO GILDO, ESTAMOS HÁ 25 ANOS LIVRE DELE, VOCÊS NÃO TEM NADA A RECLAMAR NÃO.
Maria Luísa: VOCÊ ME SEPAROU DA MINHA FILHA.
Berenice: E VOCÊ MATOU O HOMEM QUE EU AMO.
Madalena: EU JÁ MANDEI VOCÊS CALAREM A BOCA, CHEGA DE FALATÓRIO. SÓ ESPERO QUE VOCÊS TENHAM APROVEITADO ESSE PRIMEIRO E ÚLTIMO ENCONTRO DO NOSSO SEXTETO, PORQUE NUNCA MAIS VOCÊS VÃO NOS VER, LITERALMENTE.
[Madalena ordena que seus seguranças vão para a aeronave e eles obedecem. Ela entrega uma das armas para Heleno e reveza a sua mira entre os quatro].
[Madalena destrava a arma e mira contra Marília. Ela atira contra, mas Berenice joga seu corpo na frente e é atingida de raspão na altura do pescoço. O sangue sai pelo pescoço de Berenice e ela chora, agonizando de dor].
Marília (desesperada): TIA, TIA!!
Amadeu: MEU DEUS!!!
Maria Luísa: SEUS COVARDES!!
[Madalena e Heleno riem de Berenice desfalecendo].
Heleno: Espero que demore ainda para morrer, viu, Berenice.
Madalena: Vamos, deixe esses quatro aí, eles que se virem com o corpo dessa vaca. Até nunca mais, seus babacas.
[No outro take, Madalena e Heleno embarcam no avião, à espera deles].
[Eles brindam e Madalena agarra um dos seguranças e o beija loucamente].
Madalena: VITÓRIA NA GUERRA!
[A aeronave decola].
Marília: TIA, TIA, NÃO MORRE, AGUENTA FIRME, EU VOU TENTAR ME SOLTAR, AMADEU, TENTA SE DESAMARRAR, MÃE, VOCÊ TAMBÉM, POR FAVOR.
[Amadeu e Maria Luísa tentam se desamarrar].
Berenice (agonizando): Me, me perdoe, Marília, me perdoa, por favor, eu errei demais, mas eu te amo mais que tudo no mundo.
[Marília se emociona].
Marília (chorando): Eu te perdoo, me perdoa também pelos meus erros, tia. Aguenta, não, NÃO, NÃO!!
[Berenice desfalece e Maria Luísa e Amadeu ficam atordoados com a cena. Marília grita desesperadamente e deita a cabeça no corpo da tia].
[A câmera se distancia do hangar, exibindo uma vista aérea do local, e o som dos gritos de Marília também diminuem, até a tela escurecer].
DOIS MESES DEPOIS.
NOVA YORK, ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA.
CENA 12: Universidade de Colúmbia | Noite
[A câmera exibe diversas imagens da cidade de Nova York durante a noite e acompanha o movimento intenso das pessoas pelas avenidas e se aproxima da Universidade de Colúmbia e do auditório, e foca em Marília, apresentando o seu projeto e as provas adquiridas sobre a morte de Gildo, e é assistida por vários jornalistas, políticos e pessoas influentes].
[Marília encerra sua apresentação e é aplaudida por todo o auditório].
[No outro take, uma das representantes da premiação se aproxima do palco com um envelope e uma medalha de ouro numa caixa exposta e entrega ao anunciante].
Anunciante: And the award for best investigative report of the year goes to... MARÍLIA LOPES MUNIZ. (E o prêmio de melhor reportagem investigativa do ano vai para... MARÍLIA LOPES MUNIZ).
[Marília se levanta e abraça Maria Luísa, emocionada].
Maria Luísa: Parabéns, meu amor. Eu estou MUITO orgulhosa por você. Tenho certeza que a Meire ficaria também, da NOSSA filha.
[Marília se emociona com a fala da mãe e beija Amadeu. Ela sobe ao palco e é agraciada com a medalha de ouro em seu pescoço. O auditório a aplaude e ela abaixa a sua cabeça, para simbolizar respeito. A tela escurece junto].
CENA 13: Nova casa de Marília e Amadeu | Manhã
[Amadeu mantém os olhos de Marília tapados e entra junto com ela no novo apartamento. Ele abre os olhos dela e a mesma fica encantada com a decoração e com as suas fotos com Meire e Berenice penduradas na parede].
Marília: Tenho tanta saudade delas.. na emoção do momento eu falei para a Berenice que não a tinha perdoado, mas acho que consegui perdoar ela sim, foi lindo o gesto dela de me salvar. E você com o seu pai?
Amadeu: Eu queria muito sentir ódio dele, mas não consigo mais, eu também o perdooei.
Marília: A gente está livre, Amadeu, para sempre, do Leonardo, do Heleno e da Madalena. Espero nunca mais ver a Madalena na minha frente porque senão eu mato ela de verdade, eu quero paz, na Cidade do Bem só enfrentamos desgraças o tempo todo, aquele lugar demoníaco não devia se chamar nunca do Bem.
Amadeu: Nunca mais vamos pisar lá, não se preocupe, nosso lar é aqui, estamos seguros.
Marília (sorrindo): Eu te amo.
Amadeu: Eu também te amo.
[Marília e Amadeu se beijam e correm para a fachada do apartamento, e vislumbram a vista de Nova York].
[A câmera se afasta deles gradativamente até ser possível ver os Estados Unidos em vista de satélite e se aproxima do Brasil e da Cidade do Bem, colorida pelo céu, as ruas e as pessoas].
[Porém, o efeito das cores se distorce e a cidade e o céu avermelham totalmente e diversas descargas elétricas atingem pontos da cidade, fazendo ela pegar fogo].
[A tela congela].
FIM.
IN MEMORIAM MARÍLIA MENDONÇA (1995 - 2021) E PRETA GIL (1974 - 2025).