CENA 01 - CONTINUAÇÃO: Cidade do Bem | Manhã
Marília: Porque justamente a senhora tem provas contra eles, tia?
Amadeu: É, o que você tem contra o meu pai e o Heleno?
Berenice: O Heleno nada, mas ele tem a ficha criminal tão suja quanto a do Leonardo.
Amadeu: É, eu sei, ajudei eles...
Marília: Maravilha, tia, então vamos a polícia e entregamos elas, assim nenhum deles terá escapatória, porque essa sua ideia não há a menor chance de dar certo.
Berenice: MAS TEM QUE DAR! Não posso me arriscar em levar à polícia, e se eles estão comprados? Estou correndo o risco de ser assassinada a qualquer momento, Marília, ele quis me esquartejar com uma motosserra, o Leonardo está fora de si. Eu só ficarei em paz quando me vingar dele.
Marília: Não é apenas por causa disso. Ele fez mais alguma coisa, não é, tia? O que?
Berenice: Essa história é muito particular, Marília, nem a sua mãe soube de tudo.
Marília: Eu não sou ela, e só irei te ajudar se me contar tudo. E se for outro crime? Irá aumentar a pena do Leonardo.
Berenice (direta): Ele matou os meus pais, Marília. Os seus avós que você nunca chegou a conhecer.
[O instrumental de tensão toca. Marília e Amadeu ficam sem reação].
Amadeu: Meu pai realmente é um assassino? E porque ele faria uma barbaridade dessas?
Berenice: Porque ele é corrupto e não tem uma gota de humanidade correndo pelas veias dele. Ele vigorou aquele projeto de construir casas populares aqui e barateou o quanto pôde, e o teto da casa caiu em cima deles.
Marília: Estou horrorizada, que crueldade, tia.
Berenice: E então esperei todos esses anos para voltar e acumulei o tanto de provas que eu pude. E não sei como, mas ele descobriu e me raptou para me matar, e consegui fugir dele.
Amadeu: Te peço desculpas pelo meu pai, Berenice.
Berenice: Não precisa, porque se ele estivesse na minha frente não pediria, arranjaria outra forma de me matar. Marília, eu já estou muito exposta aqui na rua, podemos ir para um lugar mais reservado?
Amadeu: Posso te levar para a minha casa, Berenice, e a Marília grava todo o seu depoimento. Mas você vai ter que encarar a minha mãe.
Berenice (tensa): Encontrar a Maria Luísa?
Amadeu: É isso, ou fique na rua. Vocês precisam conversar.
[Berenice olha para Marília e vê que a sobrinha está séria. Elas e Amadeu saem da padaria].
CENA 02: Casa de Amadeu | Manhã
[Maria Luísa espera por Amadeu e Marília na fachada da residência. Eles aparecem e abraçam a mãe].
Amadeu: Mãe, tem uma pessoa no carro, que você estava procurando e queria muito encontrar. Por favor, se controle.
[Amadeu faz um sinal e Berenice sai do carro de capuz e com a cabeça baixa. Ela ergue a pessoa e o rosto e Maria Luísa desfaz o pequeno sorriso ao ver Berenice. O instrumental de tensão toca].
Maria Luísa (séria): Berenice...
Berenice: Maria Luísa...
[Maria Luísa e Berenice rodeiam uma a outra].
Maria Luísa: Pensei que nunca mais a veria. Temos contas a acertar, concorda?
[A tensão entre as duas aumenta].
CENA 03 - CONTINUAÇÃO: Casa de Amadeu | Manhã
Maria Luísa: Marília, Amadeu, vocês subam para os seus quartos, por favor, preciso conversar com a Berenice a sós na sala.
[Amadeu e Marília apenas concordam e obedecem Maria Luísa. As duas entram para a sala].
Maria Luísa: Sinta-se a vontade, Berenice, porque ao contrário de você, eu tenho educação e acima de tudo, caráter. Eu não faria o que você fez comigo nunca.
Berenice (sonsa): Desses dois no momento está ausente a educação. Não sei do que você está falando, Maria Luísa.
[Maria Luísa agarra o braço de Berenice].
Maria Luísa: PARA DE SE FAZER DE SONSA, CRIATURA.
Berenice: SOLTA O MEU BRAÇO, MARIA LUÍSA, VOCÊ ESTÁ ME MACHUCANDO. O QUE DEU EM VOCÊ? ACHEI QUE DEPOIS DE VINTE E TANTOS ANOS SEM SE VER SERIA RECEPCIONADA COM ABRAÇOS, UM BEIJO E DISCURSO DE SAUDADE. SOLTA!!
[Berenice se solta de Maria Luísa].
Maria Luisa: Eu gostaria muito que nosso reencontro fosse assim, mas você não me permite. E só não terei essa conversa com a Meire também porque ela não está mais entre nós.
Berenice: Da minha irmã você não fala!!
Maria Luísa: Falo, eu falo sim, PORQUE VOCÊS CRIARAM A MINHA FILHA SABENDO QUE EU SOU A MÃE BIOLÓGICA DELA, ASSISTINDO DE LONGE AO MEU SOFRIMENTO, A AMARGURA QUE EU TINHA DENTRO DE MIM POR CAUSA DA MORTE DA MARÍLIA, E O SEU CASO É AINDA PIOR, BERENICE, VOCÊ VOLTOU PARA A CIDADE COM A MINHA FILHA E SEQUER COGITOU ME PROCURAR PARA SE RETRATAR E ME DIZER A VERDADE. Vocês eram minhas amigas, quase irmãs, porque não vieram atrás de mim?
Berenice (fria): A situação não foi tão fácil quanto você acha, a Meire estava nos Estados Unidos com a Marília, você sabe disso, e eu em Goiás Velho, até para o Rio de Janeiro eu fui. Eu falei muitas vezes para a minha irmã, tantas que você nem imagina, que vocês deviam saber dos seus laços de sangue, mas aquela demônia da Madalena ameaçava tanto ela que a Marília descobriu por conta própria aqui no Brasil, porque EU CONFESSEI PARA ELA. NÓS SALVAMOS A TUA FILHA E VOCÊ É INCAPAZ DE RECONHECER.
Maria Luísa: Salvaram, mas também me impediram de conviver com ela, ver o desenvolvimento da Marília, a formação dela como jornalista, vocês me tiraram TUDO. Eu só queria que uma das duas tivessem vindo até mim me contar a verdade. Por que você escondeu, Berenice?
Berenice: Essa conversa está ficando insustentável e incoerente, Maria Luísa, você quer descontar as suas frustrações em mim, e eu não sou obrigada a tolerar sermões seus, independente de estar na sua casa ou não.
Maria Luísa: É incoerente porque você não foi mãe, não conhece essa sensação, e você tinha esse desejo que eu lembro bem. Mas ninguém nunca foi capaz de te amar, não é? Você passou a vida toda sozinha, olhando eu de longe com os homens que eu queria quando éramos jovens. Eu relevava porque te considerava, fingia que era loucura minha.
Berenice: Eles não estavam com você porque te amavam, mas porque queriam o seu corpo. Você acha que é única, Maria, e no final se tornou exclusiva por ter tantos pares de chifres na cabeça vindas do Leonardo, e do seu querido Gildo.
Maria Luísa (chocada): Como assim?
[Berenice ri da cara de Maria Luísa e se revela contra ela].
Berenice: Enquanto você ficava correndo e usando os sentimentos do Gildo, ele vinha para os meus braços, beijava o meu pescoço, todo o meu corpo, me dava e eu dava prazer para ele, que você nunca foi capaz. Já rimos tanto da sua cara pelas costas, da sua arrogância. Vou custar a entender algum dia o que os homens viam tanto em você, você roubou as únicas pessoas que eu e a Madalena amamos na vida.
Maria Luísa: Eu nunca roubei homem nenhum de ninguém, sua maluca. Vocês se apaixonaram pelos homens errados, eles não prestam.
Berenice: E mesmo assim você casou com um e teve uma filha com o outro?
Maria Luísa (brava): Não fala do que você não sabe, Berenice.
Berenice: Que se exploda a sua opinião, você não falou? Vai ouvir também. Tu és uma pessoa horrenda, Maria Luísa, vazia, sem alma, que se fez de coitada a vida inteira, mas ninguém te obrigou a deixar a Marília no convento, você se separou sozinha dela. Eu odiava quando você ficava perto de mim ou da Meire, porque eu não queria PUTA DO MEU LADO, e por isso, gostei de cada sonho diário que eu tinha com você sofrendo, definhando por conta da Marília e ela o tempo todo do meu lado. A Madalena fez o certo em ter dado ela para a Meire, porque senão ela teria sido criada num lar tóxico, com um casal mentalmente instável, ninguém quer ser filha de bandido e VAGABUNDA.
[Maria Luísa dá um tapa na cara de Berenice].
Berenice: SUA CADELA IMUNDA!
[Berenice também desfere um tapa na cara dela e avança contra ela, puxando os seus cabelos e a derrubando no chão].
[Berenice fica por cima de Maria Luísa e a ataca com socos, mas ela pressiona com força os dedos nos olhos de Berenice e levanta. Maria Luísa dá golpes nas costas de Berenice e a chuta na barriga várias vezes].
Maria Luísa: VOCÊ É UMA FALSA, BERENICE, UM MONSTRO, EU NÃO SEI COMO EU TIVE CORAGEM DE SER SUA AMIGA, DE ACREDITAR EM VOCÊ E TE AJUDAR TANTO COMO EU AJUDEI. EU TE ODEIO, EU TE ODEIO.
[Amadeu tira Maria Luísa de cima de Berenice e Marília segura a tia].
Marília: MÃE, TIA, O QUE É ISSO?
Berenice: ME SOLTA, MARÍLIA, EU VOU QUEBRAR ESSA DESGRAÇADA.
Maria Luísa: ORDINÁRIA!
Amadeu: MARÍLIA, TIRA A BERENICE DAQUI, VAI EMBORA!
Berenice: VOCÊ ME PAGA, MARIA LUÍSA.
Marília: TIA, CALA A BOCA, SE ACALMA, VOCÊ NÃO VAI ENCONSTAR NA MINHA MÃE.
[Marília sai com Berenice para fora da casa].
Marília: O QUE FOI ISSO, TIA? Você disse que queria a minha ajuda, não que viria se atracar com a minha mãe.
Berenice: Ela que começou, Marília. Ela me agrediu primeiro e eu revidei, a culpada é ela.
Marília: Eu escutei uma parte da conversa, você falou coisas horríveis para ela, tia. Eu jamais pensei que a senhora tivesse esse lado tão obscuro. Você se envolveu com o Gildo?
Berenice: Eu amava ele, Marília, a Maria Luísa que o roubou de mim. Eu sei que cometi um grande erro, não irá mais acontecer, mas me ajude, por favor.
[Berenice se ajoelha diante de Marília].
Berenice (manipulando): Eu estou te implorando de joelhos, sobrinha, vamos acabar com o Leonardo.
Marília: Você quem quer acabar com ele. Vou deixar claro, essa é a ÚLTIMA vez que te ajudo, e só vou porque eu também quero isso tanto quanto você, meu prazo está se esgotando. O que pretende fazer?
[Berenice conta o seu plano e a sua voz diminui gradativamente, enquanto Marília a julga com o olhar. O instrumental de tensão toca].
CENA 04: Casa de Amadeu | Manhã
[Maria Luísa joga um quadro contra a parede e Amadeu tenta controlá-la].
Amadeu: Mãe, se acalma, ela já foi embora. O que ela falou para te deixar neste estado?
Maria Luísa: Ela é uma víbora, Amadeu, completamente traiçoeira. Eu acreditei nela, na amizade dela enquanto eu ainda mantinha contato com a Meire e ela é o oposto do que imaginava. Ela colaborou com a Madalena, é tão responsável quanto por eu ter me afastado da Marília.
Amadeu (chocado): Meu Deus, mãe.
[Marília entra na casa e corre para abraçar Maria Luísa].
Marília: Me desculpe pela Berenice, mãe, de coração, eu nunca soube dessas coisas e tampouco ela demonstrou ser assim perto de mim.
Maria Luísa: Você não tem responsabilidade nenhuma nisso, minha filha, ela quem foi conivente.
Marília: Esquece este assunto, mãe. Novamente peço perdão, mas ela teve uma ótima ideia para desmascarar o Leonardo, mãe. Ela tem várias provas contra ele, até a pá que matou o Gildo nós encontramos, estava na casa dele e eu vou encaminhar para a perícia.
Amadeu: Marília, você está pensando nisso justamente agora?
Marília: E em qual horário vamos pensar, Amadeu? O seu pai está cercado e com os recursos que ele tem, ele pode sair do país a qualquer momento e nunca mais o encontramos.
[Amadeu decide se calar].
Maria Luísa: O que essa ratazana pensou?
Marília: Vamos ter que arriscar a sorte, mãe. Como a senhora está se separando dele, certamente ele vai se pronunciar a respeito disso, e ela quer usar esse dia para desmascará-lo.
Amadeu: Que ideia mais estapafúrdia, Marília. Quem garante que isso dará certo?
Marília: Se os crimes dele forem revelados publicamente, a população, os prefeitos e a imprensa de Goiânia cairão em cima dele. É a melhor maneira de acabar com isso.
Maria Luísa: E ela quer a nossa ajuda em que exatamente?
Marília: Vou explicar...
[Marília explica o plano, mas não é possível ouvir a sua voz. Amadeu e Maria Luísa olham para ela, entre expressões de julgamentos e concordância].
HORAS DEPOIS.
GOIÂNIA - GO.
CENA 05: Aeroporto Santa Genoveva | Começo da Tarde
[Heleno caminha pelo aeroporto de Goiânia em direção ao portão de embarque e se senta em uma das cadeiras próximo ao portão de embarque e folheia uma revista. O agente anuncia o voo].
[No take seguinte, Heleno entra dentro da aeronave e olha os demais aviões pela janela].
Heleno (rindo): Chegou a hora de me livrar desse país miserável. Adeus, Brasil.
[Ele dá uma pequena gargalhada e fecha os olhos e escora na parede por alguns segundos, quando é cutucado por agentes federais].
Policial: Seu Heleno Valadares, Polícia Federal do Brasil. Queira me acompanhar, por favor.
[Heleno não demonstra nenhuma reação].
Heleno: O senhor está me confundindo com alguém, não me chamo Heleno.
Policial: Queira me acompanhar, seu Heleno, assim você evitará escândalos, agora.
[Em outro take, Heleno desce da aeronave e é algemado por outro policial. Um delegado o aborda].
Heleno (resistindo): MAS O QUE É ISSO? ME SOLTA, PORQUE VOCÊS ESTÃO ME PRENDENDO?
Delegado: No momento o senhor não está preso, seu Heleno, mas detido e retornará para a Cidade do Bem para prestar esclarecimentos, e se não colaborar, converteremos para a prisão.
Heleno: TRAIDOR! Você é um traidor, delegado. Eu e o Leonardo molhamos tanto a sua mão com dinheiro e você faz isso comigo? Eu exijo que me solte, ou me devolve TODO O MEU DINHEIRO.
Delegado: Você não está em condição de exigir algo. Eu acordei para a vida, Heleno, nunca mais me submeterei ao que eu fazia. Levem ele na frente.
[Heleno é conduzido à força e as pessoas se afastam ou o olham com desdém].
A tela escurece.
DUAS SEMANAS DEPOIS.
MOSSÂMEDES - GO.
CENA 06: Fórum de Mossâmedes | Manhã
[A câmera se aproxima da fachada do fórum de Mossâmedes e do seu interior e para na sala, aonde se encontram Maria Luísa e Leonardo se encarando friamente e com seus advogados do lado. O juiz entra e todos se levantam].
Juiz: Bom dia. Seguiremos a última etapa do processo de desquite entre a senhora Maria Luísa Muniz e o senhor Leonardo de Queiroz, e desta vez, de forma bilateral, na qual será anexada as versões de ambos e seguindo o Decreto-Lei n° 1.608, do Código de Processo Civil de 1939, para definirmos se o casal se separará consensualmente ou não.
[O instrumental de tensão toca. A câmera intercala entre as reações de Leonardo e Maria Luísa e para nela].
[A tela congela].