Cidade do Bem - Capítulo 19

 


CENA 01 - CONTINUAÇÃO: Cidade do Bem | Início da Noite
[Leonardo desliga a lanterna e liga a luz local. Ele se aproxima de Berenice com a motosserra ligada e ela grita ininterruptamente].

Berenice: PARA, LEONARDO, PARA! SOCORRO! SOCORRO!

Leonardo (maligno): PODE GRITAR A VONTADE, BERENICE, ESTAMOS SOMENTE NÓS DOIS, LIBEREI MEUS RAPAZES. Eu só vou parar quando ouvir da sua boca o que você tem contra mim. Porque você se interpôs numa história que não é da sua conta?

[Leonardo empurra Berenice com o pé e ela cai no chão, ainda amarrada. Ele desliga a motosserra e a desliza perto do corpo dela]. 

Leonardo: FALA, VOCÊ PERDEU A VOZ?

Berenice: Leonardo, por favor...

Leonardo: POR FAVOR O QUÊ? DUVIDO QUE VOCÊ ESTARIA SE LAMURARIANDO SE NÃO ESTIVESSE PRESTES A MORRER, ESTARIA GOZANDO DE MIM. Estou esperando, Berenice, você quis brincar com o perigo ou tem um motivo muito específico para você querer vir atrás de mim? Vingança? 

[Berenice fica em silêncio e Leonardo se irrita. Ele levanta a cadeira de novo e ela mantém a cabeça abaixada].

Leonardo: Muito bem, vamos brincar de operador, eu sou o operador e você a ÁRVORE.

[Berenice ergue a cabeça e encara Leonardo no fundo dos olhos dele].

Berenice (frio): É. Vingança sim. Você acha que é imbatível, Leonardo, que cumpre o papel de Deus, mas não, você é um MONSTRO, UM ASSASSINO, ASSASSINO!

Leonardo: ISSO, É EXATAMENTE O QUE EU QUERO OUVIR, ASSUMA SUA VERDADEIRA FACE, ABANDONE O SEU ÓDIO POR MIM E EXTRAVASE. ASSASSINO POR QUE? QUEM DE IMPORTANTE PARA VOCÊ EU MATEI?

Berenice: OS MEUS PAIS! VOCÊ MATOU ELES NA CONSTRUÇÃO DAQUELAS MALDITAS CASAS POPULARES EM 1934. ELES CONFIARAM EM VOCÊ, NO SEU TRABALHO E O SEU SUPOSTO CARÁTER E A SUA AMBIÇÃO FALOU MAIS ALTO, VOCÊ NÃO GOSTA DESSA CIDADE E MUITO MENOS DO POVO.

Leonardo: Você acabou de proferir uma verdade, realmente não me importo com ninguém, Berenice, apenas comigo, eu sou a pessoa mais importante para mim.

[A câmera se aproxima das costas de Berenice, que consegue pegar um nó e começa a se desamarrar].

Berenice (rindo): Só que essas pessoas das quais você não se importa elas podem tanto te introduzir ao poder como te derrubar e te transformar em pó. Você está longe de ser a pessoa mais perfeita do mundo, Leonardo.

Leonardo: Você não entende o básico de política, Berenice, por isso vou te contar um segredo, que todo político descobre. O Brasil é uma mina de ouro para quem sabe jogar. Não tem erro. Nós influenciamos a sociedade, controlamos esses otários como bonecas, e para isso continuar acontecendo é só não incentivar a leitura. Os brasileiros e principalmente os cidadãos-do-bem são preguiçosos, detestam ler e isso enfraquece a interpretação e o poder de voto deles, só a gente chegar e falar umas frases que todos querem ouvir e pronto, eleito. Essa país imundo seria salvo se as pessoas não esquecessem sua própria história, desde a época da escravidão e lessem mais. 

Berenice: Belas palavras, é a primeira vez que te vejo falar tão bem desde que começou a nos controlar.

Leonardo: Antes de eu lhe matar, me fale duas últimas coisas. Quem eram seus pais e onde estão as provas?

Berenice: Lúcia e Paulo Lopes.

Leonardo (rindo): Pelo amor de Deus, Berenice, você estragou vinte e seis anos da sua vida arquitetando uma vingança fajuta desta por causa de dois velhos caquéticos imprestáveis que dependiam de bengalas para se sustentar em pé? Você devia era me agradecer, contribui com a seleção natural, se eles levantassem a mão para o alto o capeta tinha os puxado pelos pés há séculos. Agora cadê as provas?

Berenice: Eu não vou falar, pode vir me esquartejar com essa serra, mas eu não digo.

[Berenice se desamarra por completo e segura as cordas, para despistar Leonardo].

Leonardo: Nem precisa gastar saliva, eu já sei mesmo. Estão nas suas malas, onde mais estariam? Pedi aos meus seguranças para colocar no meu carro, depois eu pego. Agora chega de falatório, vou me livrar de você para sempre.

[Leonardo liga a motosserra e avança contra Berenice, mas ela corre desesperada e desliga a luz e fecha a porta. Ela parte no sentido da madeireira e Leonardo abre a porta].

Leonardo: DESGRAÇADA, EU TE PEGO, BERENICE, VOCÊ NÃO VAI FUGIR.

[Berenice avista diversas pilhas de madeira espalhadas por todos os lados e se esconde atrás de uma].

Leonardo (cantarolando): BERENICE, ONDE VOCÊ ESTÁ? VOU CHAMAR MEUS SEGURANÇAS DE NOVO, OU VOCÊ MORRE NA BALA OU CORTADA.

[Leonardo corta pedaços de madeira das pilhas que vê pela frente. Eles se avistam novamente e Berenice grita].

Leonardo: VOLTA AQUI.

[Berenice dá a volta por toda a madeireira e despista Leonardo. Ela vê o carro de Leonardo e abre a porta às pressas, derrubando e bagunçando suas malas para pegar as provas. Ela pega e entra dentro do matagal].

[Segundos depois, Leonardo aparece e vê o seu carro aberto e desorganizado e joga a motosserra contra seu próprio veículo, e quebra o vidro de uma das janelas].

Leonardo: VAGABUNDA, QUE ÓDIO, QUE ÓDIO! BURRO, COMO VOCÊ É BURRO, LEONARDO, NÃO DEVIA TER DISPENSADO AQUELES INÚTEIS.

[Leonardo joga todas as malas de Berenice e caça pelas provas, mas não as encontra e engata o carro com tudo, deixando tudo para trás. A tensão é impenetrável].

CENA 02: Delegacia de Cidade do Bem | Noite
[Amadeu aguarda impaciente e se chacoalha nas grades da cela].

Amadeu: Cadê minha mãe e a Marília? Elas prometeram que estariam aqui, ME TIREM DAQUI, EU QUERO IR EMBORA.

[O delegado surge].

Delegado: Por favor, seu Amadeu, tenha modos e se controle, que falta de educação. O senhor está liberado, sua fiança foi paga.

Amadeu: GRAÇAS A DEUS? Cadê a minha mãe? 

Delegado: A dona Maria Luísa não veio mais aqui, desde o seu último encontro com ela.

Amadeu: Mas o senhor não acabou de dizer que estou livre?

Delegado: Sim e não que foi a dona Maria que pagou. Foi uma outra mulher.

Amadeu: Outra mulher? A Marília então?

Delegado: Também não. Ela está na minha sala e quer conversar em particular com você, vá até a minha sala, liberei para os dois.

[Amadeu se dirige a sala do delegado e vê uma mulher de costas. Ele entra e suspira fundo].

Amadeu (nervoso): Foi você quem pagou a minha fiança? Quem é a senhora?

[A mulher se vira. É Madalena].

Madalena (séria): Foi. Sou eu, meu filho, a sua mãe de sangue. 

[Amadeu fica transtornado com a revelação].



CENA 03 - CONTINUAÇÃO: Sala do Delegado | Noite
[Amadeu ri de nervoso diante da cena e tenta não surtar].

Amadeu: Madalena? Não, é mentira, que absurdo é esse que você acabou de dizer? Porque você está aqui? O QUE VOCÊ QUER COMIGO? VOCÊ ESTRAGOU A VIDA DA MINHA MÃE E DA MARÍLIA, DA MINHA FAMÍLIA, SAI DAQUI, SAI.

Madalena: NÃO, EU NÃO VOU SAIR, E VOCÊ IRÁ ME ESCUTAR ATÉ O FINAL. VOCÊ É MEU FILHO, AMADEU, COM O LEONARDO, E TERÁ QUE ENCARAR ESSA REALIDADE. 

Amadeu: NÃO, EU PREFIRO CONTINUAR PRESO. DELEGADO! 

Madalena: DEIXE DE SER INGRATO, MOLEQUE. VOCÊ ME CUSTOU MUITO CARO, DEVERIA ME AGRADECER PELO EXEMPLO MATERNO QUE ESTOU SENDO.

Amadeu (rindo): Exemplo materno?

[A risada de Amadeu se transforma em lágrimas].

Amadeu (chorando): ISSO NÃO É VERDADE, VOCÊ ERA UMA FREIRA, MADALENA, UMA FREIRA, VOCÊ NÃO É MINHA MÃE, ISSO NÃO FAZ O MENOR SENTIDO. VOCÊ ME VIU CRESCER, MEU PAI ME LEVAVA AO CONVENTO E RARAMENTE VOCÊ ME TRATAVA BEM, É DELÍRIO SEU PORQUE VOCÊ GOSTA DO LEONARDO.

Madalena: Posso falar agora? Para de histeria. Gritar não alterará os fatos. Eu vou explicar. Eu não morava aqui, era de Santa Cruz de Goiás, quase na divisa com Minas Gerais, conheci o seu pai lá enquanto ele acompanhava o seu avô pelas cidades do interior para disputar o governo do estado, nos apaixonamos e eu engravidei de você. Só que eu estava próxima de fazer quarenta anos de idade, fui mãe muito tarde e eu tinha vergonha da situação, você não sabe como era naquela época, as pessoas condenavam uma gravidez tardia muito mais que atualmente, então eu te entreguei para o Leonardo e ele te criou da pior maneira possível, o que não me surpreendeu porque ele é homem. E pra eu não me afastar de você vim para essa cidade nojenta e virei freira. Eu sempre odiei igreja, Amadeu, me tornei o que eu mais detestava por sua causa, POR AMOR A VOCÊ, E SOU RECEPCIONADA ASSIM? A BASE DE GRITOS?

Amadeu: AMOR? QUE ESPÉCIE DE MÃE É VOCÊ? PORQUE TODA VEZ QUE O LEONARDO ME LEVAVA PARA TE VER TODAS AS FREIRAS ME TRATAVAM COM MUITO CARINHO, VOCÊ NÃO, ME MALTRATAVA, ERA RÍSPIDA COMIGO QUANDO NINGUÉM ESTAVA POR PERTO. VOCÊ NÃO É A MINHA MÃE.

Madalena: CALA A BOCA, JÁ CHEGA, MOLEQUE.

Amadeu: CHEGA VOCÊ, VAI EMBORA DAQUI E ENGOLE O SEU DINHEIRO, PODE PEGAR TUDO DE VOLTA COM O DELEGADO E ME MANTER ENCARCERADO. ME RECUSO A SER SOLTO POR VOCÊ. VOCÊ NÃO ENTENDE O CONCEITO DE MATERNIDADE, VOCÊ SEPAROU MÃE E FILHA, TENTOU MATAR A MARÍLIA, A FILHA DA MINHA MÃE, PORQUE A MARIA LUÍSA É A MINHA MÃE.

Madalena: NÃO, ELA NÃO É A SUA MÃE, NUNCA MAIS REPITA ISSO NA MINHA FRENTE, ELA SÓ TE CRIOU PORQUE ELA ABANDONOU A MARÍLIA, VOCÊ SABIA DISSO? ELA TE USOU, PARA TENTAR PREENCHER O VAZIO E A INSIGNIFICÂNCIA QUE A VIDA DELA É. ELA É TOTALMENTE DESCONTROLADA, OLHA O QUE ELA FEZ COMIGO, ESTOU TODA MACHUCADA.

Amadeu: MEU DEUS, PARA, PARA, EU NÃO VOU ADMITIR QUE VOCÊ A AGRIDA VERBALMENTE NA MINHA FRENTE. FOI POUCO, VOCÊ MERECEU, EU TERIA FEITO PIOR NO LUGAR DELA. NÃO QUERO OUVIR MAIS NADA, MADALENA, VAI EMBORA.

Madalena (fria) Tudo bem, eu vou, não sou obrigada a tolerar escândalo de um adulto mimado. Você é uma vergonha para a sociedade, Amadeu. Se eu tivesse te criado você teria recebido muitas surras para seguir na linha comigo. Quanto a sua prisão, foi dinheiro desperdiçado, e eu não tenho como eu te soltar mais da sua principal prisão, que é você estar ligado aquelas duas. Tenho tanta pena de mim em ver que eu gestei por nove meses e pari e no final se transformou nisso. Realmente não nasci para ser mãe.

[O instrumental de tensão toca. Madalena junta a sua bolsa e sai da sala. Amadeu chora sem parar, ainda impactado].

CENA 04: Delegacia de Cidade do Bem | Noite
[Maria Luísa e Marília chegam e estacionam o carro na delegacia. Elas vêem Madalena saindo da delegacia].

Marília: A Madalena. O que essa bruxa veio fazer aqui?

Maria Luísa: Ela veio atrás do meu filho. Vou bater nessa mulher de novo.

Marília: Não, Maria, nem gaste o seu tempo e suje seus punhos com ela. Vamos liberar o Amadeu.

[Madalena vai embora e Marília e Maria Luísa entram. Elas flagram Amadeu sentado numa cadeira da recepção e os três se abraçam coletivamente].

Marília: Amadeu, porque você está chorando?

Maria Luísa: E solto também? Nós viemos fazer isso agora.

[Amadeu não responde, mas Maria Luísa compreende a mensagem].

Maria Luísa: Meu Deus. Foi a Madalena? Sinto muito, Amadeu, que você tenha descoberto dessa maneira. Ela se favoreceu da sua prisão para contra atacar.

Amadeu: Porque você não me revelou antes, mãe? Eu tinha total direito de saber.

Maria Luísa: Eu não sabia também, Amadeu, fui descobrir hoje quando visitei seu pai no hospital. Eles estavam juntos e ouvi parte da conversa deles. Eu tentei falar aquela hora que eu vim.

Marília: Porque a Madalena te soltou, Amadeu? Quais motivos ela teria para isso?

Amadeu: Ela é minha mãe biológica, Marília. Aquela mulher que me gestou.

[Marília fica chocada e mergulha em teorias].

Marília (pensando): Será que esse era o motivo da chantagem que o Gildo fez contra a Madalena? 

[Marília abraça Amadeu mais uma vez e a troca de afeto é genuína. Eles se beijam e Amadeu deita a cabeça no ombro de Marília].

Marília: Eu estou aqui, que nem você me disse aquele dia. Vamos superar isso juntos os três, eu, você e a Maria. Essa mulher só trouxe desgraças para as nossas vidas. 

[Os três saem da delegacia].

O dia amanhece.

MOSSÂMEDES - GO.

CENA 05: Fórum de Mossâmedes | Manhã 
[A câmera acompanha o amanhecer na cidade de Môssamedes e o escasso movimento de pessoas pelas ruas e avenidas].

[Em outro take, Leonardo estaciona no fórum e desce de seu automóvel, acompanhado por um segurança e seu advogado, de terno e óculos escuros e é aguardado e fotografado por dois jornalistas].

Jornalista: Senhor prefeito da Cidade do Bem, o que você tem a dizer sobre o seu desquite com a senhora Maria Luísa Muniz? E porque a mesma resolveu dar entrada na separação do casal em outra cidade?

Leonardo: Não tenho nada a manifestar, meu caro, tudo será esclarecido esta manhã. Eu jamais me divorciaria de minha mulher, são falsas informações que pessoas como você espalham por qualquer canto. Deem-me licença.

[Leonardo entra dentro do fórum e ele e seu advogado são conduzidos por um oficial de justiça para a sala do juiz. Ele entra e se senta em uma cadeira].

Oficial de justiça: Sua excelência, o juiz Eduardo Magalhães.

[O juiz adentra a sala e Leonardo e seu advogado se levantam. Os três se sentam].

Juiz: Bom dia, seu Leonardo de Queiroz. Darei início à segunda parte do processo de desquite movido pela senhora Maria Luísa Muniz. Serão audiências unilaterais, e hoje será ouvido o senhor e a sua versão.

[O instrumental de tensão toca. A câmera se aproxima de Leonardo e sua frieza, prestes a depor].

[A tela congela].