Cidade do Bem - Capítulo 14

 

11/10/1935.

QUATORZE DIAS ANTES DO CRIME.

MADALENA NUNES

CENA 01: Convento Santa Teresa de Ávila | Noite
[A câmera se aproxima do convento e enfatiza no interior, iluminado com várias velas postas próximas as estátuas de Nossa Senhora Aparecida e Jesus Cristo, na escadaria de dentro, e diversas freiras ajoelhadas atrás dos bancos e realizando um coral. Madalena supervisiona todas de pé e chama a atenção delas. Elas ficam em silêncio].

Madalena: Minhas queridas irmãs, amanhã bem cedo iremos celebrar o dia de Nossa Senhora Aparecida, rezar por nossa santa e agradecê-la, além da óstia, iremos desfrutar do vinho que representa o sangue puro de Jesus Cristo. Estão dispensadas.

[As freiras se despedem entre si com abraços, e dentre elas, Meire, e retornam para seus quartos. Minutos depois, o local se encontra vazio e Madalena se afasta e parte para o seu escritório. Ela tranca a porta, aguardando uma chamada e logo recebe uma ligação].

Madalena: Oi, Leonardo.

Leonardo: Oi, meu bem. Está ocupada?

Madalena: Acabei de concluir a missa, estou liberada. Por que?

Leonardo: Ótimo, porque acho que você merece uma noite mesmo para descansar. Me encontre nos fundos da praça, como sempre, e cuidado para ninguém lhe ver, vamos para as Andorinhas.

Madalena (sorrindo): Então até mais tarde. Um beijo.

[Em takes, Madalena desliga a chamada e troca as suas roupas. Ela sai do convento discretamente e sem emitir sons, e finge fazer um Pai Nosso na fachada do convento. Madalena ri e sai].

CENA 02: Praça de Cidade do Bem | Madrugada
[Gildo caminha pela rua quase vazia, levemente alcoolizado e tropeça numa pedra e cai de cara no chão. Ele começa a rir e se levanta, e parte para os fundos da praça. Gildo sente fortes dores na cabeça, mas franze a sobrancelha ao ver Leonardo ao fundo, escorado em seu carro aguardando uma pessoa. Ele se esconde atrás de arbustos].

Gildo (suspeito/grogue): O Leonardo??? O que ele está fazendo ali afastado a essa hora?

[Gildo flagra Madalena correndo na direção de Leonardo e o abraço dos dois].

Gildo (chocado): Meu Deus. A Madalena?

[Eles se beijam e aceleram com o carro. Gildo fica chocado e abre um pequeno sorriso].

Gildo (rindo): Ora, ora, o irmãozinho da Renata está pegando uma freira dos tempos da Mesopotâmia, que coisa mais feia, elas não podem fazer isso. Vai ser agora que eu saio deste buraco, finalmente, senhor.

[Gildo ri e sai dos arbustos. No take seguinte, ele entra dentro de casa e lava o rosto e recupera totalmente a sobriedade. Ele sobe as escadas e comparece ao quarto de Heleno e acaricia o rosto do afilhado, que está dormindo].

[Gildo sai do quarto de Heleno e ele abre os olhos e se senta na cama, refletindo o contexto].

Heleno: Porque você é assim, padrinho? Me deixou sozinho mais uma vez...

[Heleno tilinta os dedos sobre o peito e fecha os olhos. A tela escurece junto da visão dele].

O dia amanhece.

12/10/1935 - DIA DE NOSSA SENHORA APARECIDA.

CENA 03: Convento Santa Teresa de Ávila | Final da Manhã 
[A câmera assiste as freiras saboreando uma porção de alimentos localizados nas mesas e se aproxima de Meire, que termina de almoçar e se levanta para ir ao seu quarto. Porém, durante o trajeto, ela ouve a campainha tocar e ao atender, tenta fechar a porta, mas Gildo não permite e e a derruba no chão].

Meire: O QUE VOCÊ QUER, GILDO? SOME DA MINHA VIDA, SOCORRO, SOCORRO, IRMÃ MADALENA, IRMÃ MADALENA!

Gildo: CALA A BOCA, SUA CADELA. Não vim aqui por sua causa, com você eu me entendo depois, porque eu quero saber aonde a Maria Luísa se escondeu.

Meire: Nunca que eu vou dizer, seu verme. VOCÊ É UM MONSTRO, A PESSOA MAIS ASQUEROSA QUE EU JÁ CONHECI NA VIDA, VOCÊ VAI PAGAR NO INFERNO O QUE FEZ COM ELA.

Gildo: JÁ MANDEI VOCÊ FICAR QUIETA!

[Madalena surge e condena friamente com o olhar a cena].

Madalena (condenando): GILDO, MEIRE? MAS O QUE É ISSO? QUEM LHE DEU AUTORIZAÇÃO PARA ENTRAR NO MEU CONVENTO E AINDA ATACAR UMA DAS MINHAS IRMÃS? Venha, irmã, levante, vou te ajudar.

[Madalena ajuda Meire a levantar. Gildo tenta partir para cima de novo, mas ela põe os braços na frente para proteger Meire]. 

Madalena: PARA TRÁS, SE AFASTA! NELA VOCÊ NÃO ENCOSTA, OU VAI TER QUE PASSAR POR CIMA DE MIM, NÃO TENHO MEDO DE HOMEM COVARDE NÃO, É GENTE DA SUA RAÇA QUE DEVERIA TER DE MIM. AGORA VAI EMBORA, GILDO, NINGUÉM TE QUER AQUI.

Gildo: Não vou sem antes tratar com você um assunto muito sério.

Madalena: Eu não tenho nada a discutir com uma pessoa baixa e vazia de espírito como você, FORA! 

Gildo: Nem por curiosidade você gostaria de saber o que vou falar do nosso prefeito, que por sinal é tio do meu afilhado, o Leonardo?

[O instrumental de tensão toca].

Madalena (mentindo): Minha relação com o prefeito Leonardo é estritamente profissional, direcionada ao convento e as verbas que ele deposita.

Gildo (zombando): Será que é somente isso? 

[Madalena repreende Gildo enojada e furiosa e manda Meire ir para o seu quarto].

Madalena (fria): Venha ao meu escritório e sem levantar o tom de voz, você não está na sua casa.

[No take seguinte, Madalena tranca a porta e fica atrás de sua mesa, desconfortável com a presença de Gildo].

Madalena: Escuta aqui, seu mal educado, eu não aceito que absolutamente ninguém me afronte ou fale daquele jeito comigo, eu sou uma pessoa de respeito e não como esses depósitos femininos de esperma que você se atraca. Vá direto ao assunto e suma.

Gildo: Muito bem. Eu sei que você está sustentando uma máscara de freira, muito mal atuada, mas está, Madalena, afinal, acredito eu que uma freira que diz só manter relações profissionais com o prefeito não beija ele, não abraça ele e entra no carro dele, não é?

[Madalena fica em choque].

Madalena: Maldito. Ai, Gildo, de você eu só espero o pior, e você consegue se superar a cada evento. É dinheiro que tu quer, né? Quanto?

Gildo (sério): Eu quero dez mil réis.

Madalena (rindo): Você surtou? Aonde que eu vou arrumar esse dinheiro? E se eu tivesse nunca que te daria.

Gildo: O problema é seu, você não é amante do Leonardo? Dinheiro é o que não falta para ele, pede emprestado. Você tem até o final desse mês e nem mais um dia.

[Numa reação rápida, Madalena puxa a arma da gaveta de sua mesa e aponta para Gildo. Ele levanta as mãos].

Gildo: Você não vai ter a coragem de atirar em mim.

Madalena: Não?

[Madalena destrava o revólver].

Gildo: Quer ser presa, Madalena, vista como uma assassina pela cidade? No final quem sai como o coitado sou eu.

Madalena: Para me livrar de você eu faço qualquer coisa, Gildo, as pessoas iriam festejar. OLHA PARA MIM E OLHA PARA VOCÊ, você acha que se me entregar alguém vai acreditar na sua palavra? Se situa, engole essa coragem, você é um coitado, um NINGUÉM, um covarde nojento, agressor de mulheres, se um dia te prenderem jogam a chave fora.

Gildo: Eu não me subestimaria se fosse você, Madalena, você não é tão esperta quanto imagina. O seu teatro logo vai para o buraco.

Madalena: Quem vai para um buraco cheio de terra é você se continuar me enfrentando. SAI DAQUI, SAI DO MEU CONVENTO, ANTES QUE EU ATIRE DE VERDADE. VAI EMBORA, GILDO.

[Gildo começa a rir de Madalena e abaixa as mãos].

Gildo: Até o final desse mês, Madalena, e nenhum outro dia. Agora vou cobrar o seu amante. Adeus.

[Gildo vai embora e Madalena guarda a sua arma de volta. Ela suspira fundo e liga para Leonardo].

Madalena: Leonardo, ATENDE, IMBECIL. Leonardo, o Gildo descobriu tudo, ele viu a gente juntos. Sei lá, não sei como, mas ele está indo na prefeitura atrás de você. Dá o seu jeito, eu quero esse homem MORTO ou nossos planos não vão dar certo. Tchau.

[Madalena desliga a chamada].

LEONARDO DE QUEIROZ.

CENA 04: Prefeitura de Cidade do Bem | 

[Leonardo segura o telefone pelo cabo, preocupado, quando Gildo bate na porta e entra sem avisar. Leonardo se levanta e eles mantêm tensos olhares].

Leonardo: Eu não permiti que você entrasse na minha sala, Gildo, saia imediatamente ou eu chamo os seguranças.

Gildo: Até com o seu segredo nas minhas mãos você continua sendo arrogante comigo, Leonardo?

Leonardo: É? E você queria que eu te tratasse como? Com consideração depois do que você fez com a minha irmã? Com a Maria Luísa?

Gildo: Você é um traíra, Leonardo, um invejoso, não sabe um terço da história, nem da Renata e nem da Maria Luísa, eu AMAVA a Renata, só por isso que eu aceitei ser o padrinho do Heleno, porque ninguém nunca me tratou ou me entendeu como ela.

Leonardo: Aceitou porque era o mínimo que você podia ter feito por ela. Que amor era esse se quando ela se declarou para você tu a desprezou na primeira oportunidade? Morreu de repente? Foi culpa sua ela ter sofrido aquele acidente, culpa sua e do Heleno, se ele não tivesse na barriga dela ela não tinha tido aquelas complicações e falecido. 

Gildo: Eu me arrependo disso amargamente, todos os dias.

Leonardo: Remorso não trará a minha irmã de volta. E por isso acho é pouco você estar sozinho no mundo, você vai pagar caro pela dor que causou a tanta gente, tipo a Maria Luísa, ela me contou. Você é DOENTE, cara, O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA? Que péssima escolha a Renata fez e eu só não mandei te prender por causa do Heleno, porque eu não quero ele na minha casa, tudo nessa vida tem limite. 

Gildo: Tem limite sim e você passou dela quando me traiu, eu terminei com a Maria Luísa por sua culpa, porque quando eu ainda estava com ela você se empurrava para cima dela, dava em cima descaradamente, a sua cara nem ardia. E ao invés de ficar me dando essa lição de moral barata, porque você não cuida dessa porcaria de cidade, conserta a rodoviária, manda limpar essas ruas imundas, algo útil de verdade pelas pessoas? Como você não faz nada deve estar sobrando um monte de dinheiro nos cofres da cidade, e eu quero a minha parte.

Leonardo: Que parte? Você não tem direito a nada daqui, nada. Metade desse dinheiro foi muito bem usado na construção da placa da cidade que eu vou inaugurar dia 25, acho que tu não é cego, passa lá e confira.

[Gildo ri].

Gildo: Uma placa? Pelo amor de Deus, Leonardo. Bom, eu estendi meu tempo precioso demais com você, vou repetir a mesma coisa que falei a Madalena, vocês tem até o final de mês para me pagar. Você não quer se ver longe do Heleno? Vou pegar essa bolada e vazar com ele, porque eu também não quero nunca mais olhar para essa tua cara. O endereço você já sabe. Até mais.

[Gildo abre um pequeno sorriso e sai da sala de Leonardo. Ele passa a mão no cabelo e rosto, buscando uma alternativa, e se lembra que Madalena o quer morto. A tensão é incalculável].

*UM ANO ANTES*.

*11/10/1934*.

HORAS DEPOIS.

[O dia amanhece].

CENA 05: Rua sem saída de Cidade do Bem | Manhã 
[A câmera mostra a partir da visão de Maria Luísa e clareia lentamente, sendo possível ouvir gemidos de dor e a evidente dificuldade e fraqueza dela em se sentar. Ela consegue e olha gotas de sangue pelo chão e suas roupas totalmente rasgadas e compreende o que aconteceu. Maria tem uma forte crise de choro]. 

Maria Luísa (chorando/berrando): DESGRAÇADO, DEMÔNIO, DEMÔNIO, EU TE ODEIO, GILDO, EU TE ODEIO! VOCÊ ME PAGA, SEU VERME, VOU ACABAR COM A SUA VIDA NEM QUE EU TENHA QUE ACABAR COM A MINHA JUNTO!

[Maria Luísa levanta urrando de dor e caminha pela rua, atordoada e envergonhada e gritando de ódio. No outro take, ela se aproxima de uma das ruas principais e é julgada por muitas pessoas com um olhar de nojo. Leonardo passa com o carro e pede para o seu motorista parar. Ele tira o seu óculos escuros e vai até ela].

Leonardo: MARIA LUÍSA, MARIA, MEU DEUS, O QUE FOI ISSO, O QUE FIZERAM COM VOCÊ?

[Maria Luísa desaba em lágrimas e Leonardo apoia a cabeça dela em seu ombro e a leva para o carro. Várias pessoas param e olham a cena].

Pessoa 01: QUE HORROR PREFEITO, LEVANDO UMA PUTA PARA SEU CARRO!

Leonardo: VOCÊS NÃO SÃO DEUS PARA JULGAR ELA, SAIBAM QUE ESTÃO DEIXANDO DE CONHECER UMA PESSOA INCRÍVEL. Venha, Maria Luísa, entra.

[Maria Luísa e Leonardo entram e vão para a casa dele. No take seguinte, Maria entra na banheira do quarto de Leonardo e se esfrega, sentindo-se suja e com dores pelo corpo e a região íntima. Ela se arranha de ódio e chora desesperadamente. Segundos depois, ela se controla e se olha no reflexo com um olhar possuída].

Maria Luísa (irada): Eu juro por Deus que você vai me pagar, Gildo, nem que seja a última coisa que eu faça. Você destruiu a minha vida.

[O instrumental de tensão toca. Maria Luísa se enxuga e vai para um quarto afastado. Ela se troca e desliga o abajur. A tela escurece junto com o objeto].

26/10/1935.

CENA 06: Cidade do Bem | Manhã 
[Madalena passa com seu carro no local do crime e olha o buraco aonde Gildo foi encontrado morto. Ela vai até o buraco com um pano grande na mão e vê a pá suja com pequenas gotas de sangue do lado e a pega].

Madalena: Que morte mais estúpida, bem a cara do Gildo. Espero que esteja queimando no inferno.

[Madalena cobre a pá e a guarda].

CENA 07: Cemitério de Cidade do Bem | Manhã 
[A câmera se aproxima do cemitério, vazio na frente e com uma viatura de polícia no portão e foca nos fundos, onde Leonardo conversa discretamente com os quatro policiais responsáveis da cidade e entrega cinco maços de réis para cada um].

Leonardo: Essa é a primeira parte, a outra vou entregar até o fim da semana que vem. É para fazerem o que eu mandei, não pode ter erro, é muito simples, não aconteceu nada com o Gildo e se puderem nem iniciem a investigação. Ele não era uma boa pessoa e a sua morte logo vai ser esquecida, ele não vai fazer falta, esse desgraçado ainda destruiu minha placa antes de morrer, tenho certeza que fez isso de propósito. Agora deem-me licença.

[Leonardo coloca o seu óculos escuro e se afasta dos policiais e busca Amadeu, que está com o porteiro do cemitério. O instrumental de tensão toca].

[A chuva presente no dia do crime continua a pairar sobre as nuvens e cai no chão e sobre o caixão de Gildo, que é velado fechado e rodeado por apenas poucas pessoas, como Heleno]. 

Heleno: Vai com Deus, padrinho. Apesar de você ter me abandonado, eu ainda te amo.

[Heleno colhe pequenas flores-pentas do gramado do parapeito e as joga no caixão].

[Leonardo circula com Amadeu pelos arredores e ele apanha um punhado de terra e joga no caixão].

Leonardo (falando baixo): Já foi tarde. 

[Leonardo e Heleno se encaram duramente, separados pelo túmulo e Amadeu tenta abraçar Heleno].

Heleno: Eu não quero o seu abraço, Amadeu.

Amadeu: Heleno, nós somos primos. Deixa de ser tão ríspido comigo num momento como esse, guardar tudo só vai te fazer sofrer mais.

[Amadeu abraça Heleno e após alguns segundos, ele corresponde e começa a chorar. Leonardo julga as crianças com nojo e separa eles].

Leonardo (frio): Chega, né. Foi triste, eu sei, mas ele não vai voltar, vocês não têm idade para ficar sofrendo desse jeito. Amadeu, eu já volto, o papai vai resolver um negócio do trabalho, fica aqui com o Heleno, não vou demorar.

Heleno: Eu...

[Heleno é ignorado e Leonardo sai de cena. O clima fica constrangedor entre ele e Amadeu].

GOIÁS VELHO - GO.

CENA 08: Casa de Berenice | Manhã 
[Berenice realiza uma faxina por toda a sua casa e para, contente com sua conquista].

Berenice: Nem acredito que estou livre daquela cidade e do Gildo, se ele tivesse morto seria melhor ainda.

[No take seguinte, Berenice liga para Meire e ouve-se a voz das duas].

Berenice: Meire.

Meire: Oi, minha irmã, graças a Deus você ligou, estava demorando.

Berenice: Desculpa, eu cheguei de noite e fui dormir, só agora que terminei de arrumar a casa. Está tudo certo na cidade?

Meire: Berenice, você precisa saber de duas coisas. O Gildo morreu.

[Berenice não consegue disfarçar a felicidade com a notícia, mas tenta conter a voz].

Berenice (fingindo): O que? É mesmo? Foi do nada?

Meire: Encontraram ele morto e o carro dele batido na placa da cidade, todo destruído, uns falam de assassinato, outros de acidente, mas que acidente é esse que ele foi encontrado num buraco?

Berenice: Não consigo acreditar. Muito triste, que ele vá em paz e não tenha sofrido tanto. Qual a outra coisa?

Meire: É, não, nada, deixa, um outro momento eu te digo. Vou desligar, Berenice.

[Meire desliga e fica pensativa].

Meire: Melhor não falar que a Maria Luísa deixou a bebê dela aqui, não por agora.

[A câmera retorna a felicidade de Berenice, que comemora a morte de Gildo].

Berenice: AI QUE MARAVILHA, PARECE ATÉ PREMONIÇÃO, O DIA NÃO PODIA MELHORAR. Covarde maldito, quero ver ele encostar em alguém de novo estando no inferno.

[Berenice passa a mão no local aonde levou um tapa de Gildo e ri da cara dele].

CENA 09: Cidade do Bem | Manhã 
[Leonardo aguarda dentro de seu carro numa rua sem saída dos fundos do cemitério. Ele espera por uma pessoa e ela abre a porta. É Madalena segurando a pá, com uma aparência fria para Leonardo].

Leonardo: Você continua brava comigo por causa de ontem?

Madalena: Não, e o foco não é esse, aqui está a pá. Mas tem uma coisa que não tem lógica, Leonardo, porque se você ver ali na ponta ela está suja de sangue, e choveu ontem quando ele morreu, a água teria lavado. Ele levou outra pancada de alguém quando parou de chover, isso é certeza.

Leonardo: Sei que não fui eu, foi você?

Madalena: Eu também não, queria ter tido essa ideia. Quem deu esse outro golpe então? Ah quer saber, não interessa, ele tá morto, enterra isso lá em Uvá e ficamos livres dessa história.

Leonardo: Eu suspeito sabe de quem? Da Maria Luísa.

[Madalena revira os olhos].

Madalena: Você quer brigar comigo, não é, Leonardo? Vai falar dessa mulher de novo? Essa vagabunda teve a coragem de deixar aquela pentelha da filha dela na porta do MEU convento e não deu mais as caras, não sei o que fazer com essa criança. 

Leonardo: Não sei aonde ela se enfiou também, vi ela ontem na inauguração da placa, depois não mais, nem na casa dela, e não sei onde ela estava quando o Gildo morreu, por isso que há uma possibilidade sim de ter sido ela, ela queria se vingar dele por causa daquela relação conturbada deles.

Madalena: Será que há alguma chance de sermos considerados suspeitos?

Leonardo: Eu já dei um jeito nisso, a polícia vai esquecer essa história.

Madalena: E você confia? Não se pode confiar em ninguém, Leonardo, vai que o Gildo deixou alguém informado de nós dois e essa pessoa nos entrega, o que vai ser da sua imagem? Até agora pode sair então como principais suspeitos eu, você... e a Maria Luísa.

[O instrumental de tensão toca. A câmera alterna entre a aflição de Leonardo e Madalena e ouve-se as risadas dos quatro suspeitos comemorando a morte de Gildo]. 

[A tela se divide em quatro, nas reações de Berenice, Maria Luísa, Leonardo e Madalena e congela].