Cidade do Bem - Capítulo 11

 


CENA 01 - CONTINUAÇÃO: Hospital | Quarto de Berenice | Noite

[Marília fica em pé, visivelmente perturbada com a revelação].


Marília: O que? É sério? QUEM FOI, TIA? QUEM MATOU ELE, FALA? VOCÊ FALOU ASSASSINA, FOI UMA MULHER?


Berenice (séria): Foi. A ex-líder do Santa Teresa de Ávila, Madalena Nunes.

 

Marília: Madalena Nunes?


[Marília recorda sua conversa com Amadeu a respeito de Madalena].


Marília: Espera, esse nome, eu sei quem é essa mulher, MEU DEUS, UMA FREIRA MATOU UM SER HUMANO? QUE ESPÉCIE DE FREIRA É ESSA? COMO QUE VOCÊ DESCOBRIU ISSO, TIA? FALA.


Berenice: Calma, Marília, por favor, não se exalte. Eu conheço ela há muitos anos, a sua mãe era freira, você sabe disso, era neste convento, e ela me contava todos os passos da Madalena, e na época que eu ainda morava aqui ela e o Gildo tinham uma péssima relação, ele a chantageava e ela ameaçou ele de morte. E ela esteve aqui no meu quarto pouco antes de você vir e me ameaçou mais uma vez.


Marília: Então ela está aqui na cidade? Mas o Amadeu me falou que ela se mudou de estado. ELA VOLTOU.


Berenice: O Amadeu? Vocês se conhecem?


[Marília tenta desviar do assunto].


Marília: Isso é assunto para outra hora, tia, essa mulher voltou para cá então. Mas isso não faz sentido, se você sabe de tantas coisas dela, porque ela quis te eliminar SÓ agora? Porque você voltou para a Cidade do Bem?


Berenice (fria): Aquele incêndio não foi para mim, Marília. Era para matar você.


[O instrumental de tensão toca].


Marília: O QUE? 


Berenice: Ela quer ver você morta, você não podia ter voltado para o Brasil, ela sabe que você veio investigar a morte do Gildo, porque foi ela, Marília, FOI ELA quem te entregou quando você era bebê para a Meire, ela quem te separou da sua mãe biológica.


[A tensão e o silêncio são duradouros, e lágrimas saem do rosto de Marília, que fica sem saber o que dizer].


Marília: Você realmente me ama, tia? PORQUE COMO QUE VOCÊ REVELA ESSES ABSURDOS PARA MIM COM A MAIOR NATURALIDADE? COMO QUE VOCÊ FALA O QUE EU TANTO TE IMPLOREI, IMPLOREI PARA A MINHA MÃE PARA SABER SEM SENTIR UM PINGO DE REMORSO? VOCÊ NUNCA SE PERGUNTOU SE EU QUERIA SABER OU NÃO? VOCÊ ME IMPEDIU DE DESCOBRIR A MINHA HISTÓRIA, A MINHA HISTÓRIA, TIA, EU TINHA O DIREITO DE SABER. COMO QUE VOCÊ E A MINHA MÃE FORAM CAPAZES DE FAZER ISSO COMIGO?


[Marília começa a chorar e Berenice fica nervosa e também desaba].


Berenice (chorando): Me perdoa, Marília, ME PERDOA, EU NÃO PODIA CONTAR, NÃO PODIA INTERFERIR NISSO, QUEM DEVIA TER TE CONTADO ERA A SUA MÃE, EU ALERTEI DEMAIS ELA, FALEI DESDE QUE VOCÊ ERA CRIANÇA QUE VOCÊ TINHA QUE SABER QUEM ERA A SUA MÃE BIOLÓGICA E QUE ESSA MULHER NÃO PRESTA. VOCÊ NÃO PODIA VOLTADO PRO SEU PRÓPRIO BEM, MAS ELA NUNCA ME ESCUTOU, A MADALENA AMEAÇAVA DEMAIS E ELA MORRIA DE MEDO DA MADALENA FAZER ALGO CONTRA VOCÊ NOS ESTADOS UNIDOS.


Marília: NÃO VEM JOGAR TODA A CULPA EM CIMA DA MINHA MÃE NÃO, VOCÊ ERROU TANTO QUANTO ELA, VOCÊ OMITIU A MINHA VIDA DE MIM. O QUE ESSA MULHER PODIA TER FEITO CONTRA MIM COM EU DO OUTRO LADO DO MUNDO? JÁ PENSOU O QUANTO ESSA MULHER QUE ME TEVE SOFREU POR MINHA CAUSA? QUE A SUA FILHA DESAPARECEU E NINGUÉM NUNCA MAIS SOUBE DE NOTÍCIAS DELA? VOCÊ, A MINHA MÃE E ESSA VADIA DESSA MADALENA FORAM COVARDES COMIGO, COVARDES!


[Berenice fica mais nervosa].


Berenice: EU NÃO ADMITO QUE VOCÊ FALE ASSIM COMIGO, MARÍLIA, ME RESPEITA, EU E A MEIRE SÓ QUISEMOS TE PROTEGER.


Marília: EU FALO O QUE EU QUISER, PORQUE VOCÊ NÃO ME PROTEGEU, VOCÊ SÓ ADIOU A MINHA DOR, COMPLICOU MAIS AS COISAS. MAS AGORA VOCÊ VAI ME FALAR TUDO ATÉ O FIM, PORQUE VOCÊ JÁ ME ESCONDEU QUE AQUELA PORCARIA DAQUELA CASA É DO GILDO, QUE VOCÊ TRABALHA NA PREFEITURA PORQUE O HELENO JÁ ME DISSE, VAI EXPLICAR PORQUE ESSA MADALENA MATOU ELE, PORQUE ELA FEZ ISSO COMIGO E QUIS ME MATAR, QUEM É A MINHA MÃE BIOLÓGICA, TUDO, MAS NÃO AGORA! VOU SAIR DAQUI ANTES QUE EU PERCA O CONTROLE, E A HORA QUE VOCÊ SAIR DAQUI NÃO QUERO QUE VOCÊ VENHA ATRÁS DE MIM, ME DEIXA SOZINHA, EM PAZ.


Berenice: Marília, MARÍLIA!!


[Marília apanha sua bolsa e sai em disparada do quarto. Berenice clama pela sobrinha, mas é em vão e ela se senta sobre a cama, arrasada. Em outro take, Marília corre pela praça, iluminada pelos postes de luz e se escora em uma árvore que recebe os feixes e é possível vê-la se arranhando toda, entre uma crise de choro e ódio].


[Marília suspira fundo e caminha pelas ruas, inconsolável, ao som de um instrumental de drama].


[A tela escurece].


O dia amanhece.


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CENA 02: Construção do Convento | Manhã 

[Leonardo passa as coordenadas da construção para os demais engenheiros e é abordado por um oficial de justiça].


Oficial: Bom dia. O senhor é o prefeito da Cidade do Bem, Leonardo de Queiroz?


Leonardo: Sou sim, porque?


Oficial: Preciso que assine este papel aqui, por gentileza, o senhor está sendo intimado a comparecer no fórum da cidade de Môssamedes para depor sobre o seu processo de desquite com a senhora Maria Luísa Muniz.


[O silêncio toma conta completamente do local e os funcionários param para olhar].


Leonardo: Você deve estar enganado, eu não estou me separando da minha esposa, que blasfêmia é esta? Ela nem conhece Mossâmedes.


Oficial: A dona Maria Luísa Muniz deu abertura na noite de ontem. Assine, por favor. E compareça amanhã ao meio-dia, lá o senhor esclarecerá tudo com o juiz.


Leonardo: Vou assinar, mas não sei de nada, eu ainda sou um homem casado e com orgulho. 


[Leonardo assina a ordem e o oficial vai embora. Ele vira para a obra e vê todos os funcionários o encarando].


Leonardo: O QUE VOCÊS ESTÃO OLHANDO? VOLTEM A TRABALHAR, SEUS ENERGÚMENOS, NINGUÉM ESTÁ AQUI DE GRAÇA. Desgraçada...


[Leonardo amassa a intimação e põe dentro do bolso. Ele vai a um orelhão e faz uma ligação].


Leonardo: Eu não queria te ver, mas é preciso. Me encontre em breve na nossa antiga cabana nas Andorinhas, amorzinho.


[Leonardo desliga e se desloca da construção, frustrado. O instrumental de tensão toca].


CENA 03: Cemitério de Cidade do Bem | Manhã 


Pedaço de Mim - Chico Buarque, Zizi Possi 🎵


[Maria Luísa caminha pelo cemitério da cidade segurando um arranjo de rosas brancas e para em frente ao túmulo de Marília. Ela se agacha e deita a sua cabeça sobre o caixão, chorando e repousa as flores].


Maria Luísa (chorando): Ai minha filha, essa coincidência do seu nome está perturbando tanto, será que há alguma chance de você estar viva, de você ser essa jornalista? Me diga que sim, diga que você voltou para mim, para eu te pedir perdão de joelhos. Mas eu acho que já sei o que fazer.


[Maria Luísa beija a lápide da filha e vai até o túmulo de Gildo. Ela o observa enojada. O instrumental de tensão toca]. 


Maria Luísa: Espero que você esteja apodrecendo no inferno, seu verme nojento. O mundo ficou mais feliz sem você. 


[Maria Luísa cospe nele e se retira do cemitério].


CENA 04: Casa de Amadeu | Manhã 


Cheirando a Amor - Ângela RoRo 🎵


[A campainha toca e Amadeu aparece para recepcionar a visita. Ele abre a porta e junto um sorriso misturado com preocupação e encontra Marília transparente, com uma feição de tristeza].


Amadeu: Marília, aonde você esteve ontem de noite? Te liguei várias vezes. Você está bem?


Marília: Amadeu, só me abraça.


[Amadeu abraça Marília e eles se entrelaçam fortemente. Ela chora em seus braços e ele acaricia os seus cabelos].


Amadeu: Não sei o que aconteceu, mas estou aqui, está tudo bem agora. Quando você quiser falar estarei a disposição. 


[Marília sorri e abraça Amadeu mais forte ainda. Eles se encaram e se beijam novamente, declaradamente apaixonados um pelo outro].


Amadeu: Eu gosto de você, Marília. 


Marília: Eu também gosto de você, Amadeu, mas não podemos ficar juntos agora, quero primeiro ganhar meu prêmio.


Amadeu: Tudo bem, eu te espero o tempo que for necessário. Agora está mais calma para me contar o que aconteceu?


Marília: Para isso preciso de uma foto daquela Madalena Nunes primeiro, você tem?


Amadeu: Não sei, mas posso descobrir, porque tenho as minhas fotos de quando fui ao convento algumas vezes criança. 


[Em takes, eles entram dentro da casa e é visto a decepção de Amadeu. Eles vasculham pelas caixas de recordações e Marília derruba um álbum sem querer. Ela apanha o objeto e ao abri-lo, encontra uma foto de Madalena ao lado de Amadeu e Leonardo e a pega. O instrumental de tensão toca].


[Marília relembra o seu encontro com Madalena e a reconhece].


Marília: Então é você, desgraçada, é você a Madalena, É VOCÊ!


[A tensão se mantém].




CENA 05 - CONTINUAÇÃO: Casa de Amadeu | Manhã 

[Marília segura a foto tentando se controlar de raiva].

Marília: Amadeu, essa aqui é a Madalena mesmo?

Amadeu: Sim, é ela.

Marília (irritada): Vagabunda, essa mulher aqui é uma ordinária, de freira não tem nada, cruzou comigo na rua e foi extremamente mal educada.

Amadeu (espantado): Porque, Marília?

Marília: Porque foi ela, Amadeu, essa ratazana que matou o Gildo e me separou da minha mãe biológica. 

[O instrumental de tensão toca. Amadeu fica impressionado].

Amadeu: O QUE? Que acusação mais descabida é essa? Como que você descobriu isso?

Marília: A minha tia me contou. Eu não confiei totalmente porque ainda tenho muita coisa para saber, e vou pressionar ela a me dizer tudo, mas por enquanto é um grande passo dado, a partir disso já podemos cercar a Madalena, já que ela está na cidade.

Amadeu: A Madalena está aqui??? 

Marília: Sim, ela voltou, e ainda foi ao hospital ameaçar a minha tia ontem. Onde será que ela pode estar?

Amadeu: Como assim, Marília? Hospital? O que houve?

Marília: A Madalena incendiou a casa do Gildo, Amadeu. A vítima era para ter sido eu, ela quer me matar porque eu abri a investigação, e agora que eu já sei de tudo vai querer concluir o serviço.

Amadeu: E porque ela mataria o Gildo? Ela é uma FREIRA, Marília, isso é assustador.

Marília: Nem todos assumem o seu verdadeiro caráter, se escondem atrás de religiões. Minha tia falou de chantagem, mas não é só isso, tenho certeza, o Gildo chantageou ela pelo que? Eu quero ir até o túmulo desse homem, me leva ao cemitério, Amadeu, por favor.

Amadeu: Claro, eu te mostro, você vai ver também o da minha finada mãe e da filha da Maria Luísa.

[Marília fica com o coração apertado. Eles embarcam para o cemitério].

CENA 06: Hospital | Quarto de Berenice | Manhã 
[Berenice termina de arrumar suas coisas e troca sua roupa. Ela sai de seu quarto e encontra Heleno na recepção, lhe aguardando].

Berenice: Heleno?

Heleno (frio): Oi, Berenice. Está melhor, recebeu alta?

Berenice (fria) Já. Olha só, vou adiantando, Heleno, não fico mais um dia naquela casa, eu quase morri, a minha sobrinha que me salvou.

Heleno: Eu já estou sabendo que foi criminoso, Berenice, e vou atrás do responsável.

[Heleno começa a rodear Berenice e ela fica um pouco assustada].

Heleno: Vim aqui por outro motivo. Sabe, você está muito estranha, desde que começou a trabalhar na prefeitura, saindo mais cedo sem avisar, nem a Marília sabia que você trabalhava ali, entrando na minha sala várias vezes sem necessidade.

Berenice (nervosa): Eu entro ali para fazer o meu serviço, que é limpar a sua sala.

Heleno: Será mesmo que é só para isso? Será que você não está pegando coisas, documentos, que não te pertencem?

Berenice (nervosa): Heleno, o que você está deduzindo? Que eu sou ladra? Veio aqui apenas para me importunar? Porque senão pode ir embora, vou ir juntar minhas coisas e deixo a chave na sua sala.

[Heleno se aproxima de Berenice e dá uma volta por ela, sussurrando em seu ouvido].

Heleno: Não estou deduzindo, estou afirmando. A mim você não me engana mais, Berenice, ficarei de olho em você, vinte e quatro horas por dia agora, vendo todos os seus passos, e se eu descobrir que você está tramando qualquer coisa contra mim, eu é que não queria estar na sua pele. Até mais tarde. 

[Heleno sai do quarto de Berenice e ela suspira, bastante nervosa]. 

CENA 07: Cemitério de Cidade do Bem | Manhã 

Pedaço de Mim - Chico Buarque, Zizi Possi 🎵

[Em vários closes, Marília e Amadeu caminham entre os túmulos e finalmente, param em frente ao da filha de Maria Luísa. Marília se atenta nos detalhes escritos na lápide e começa a chorar].

MARÍLIA MUNIZ
⭐️ 22/07/1935
✝️ 21/01/1936

Marília (chorando): MEU DEUS! ELA NASCEU NO MESMO DIA QUE EU! 

[Amadeu fica impressionado, mas se emociona de felicidade].

[Marília se ajoelha e passa a sua mão sobre a sepultura. Ela enxuga suas lágrimas e segura as flores que Maria Luísa deixou, numa batalha interna contra seus próprios sentimentos e as últimas revelações sobre sua maternidade].

Marília (chorando): Essas rosas brancas... são as minhas flores preferidas.

Amadeu: São as da Maria Luísa também, ela deixou essas aqui hoje de manhã. Agora você está entendendo tudo? Você É A MARÍLIA DELA, VOCÊ que é a filha biológica que a Madalena separou da minha mãe.

[A câmera se aproxima de Marília e enfatiza totalmente nas suas lágrimas e o seu enorme sorriso, comovida].

[A tela congela].