Cidade do Bem - Capítulo 10

 


CENA 01: Quarto de Berenice | Hospital | Final de Tarde

[Madalena solta Berenice e continua apontando a arma para ela].


Berenice: Desgraçada, ASSASSINA, você é doente, eu não vou tirar a Marília do Brasil. Se quer tanto me matar atire, Madalena, mas não vou permitir que você mate a minha sobrinha.


[Madalena chacoalha a arma].


Madalena: Acha mesmo que está em condição de me desobedecer, Berenice?


Berenice: O que você quer comigo, como que você entrou aqui? 


Madalena: Digamos que isso aqui é um hospital vagabundo, sem a menor infraestrutura, qualquer um entra e sai a hora que quiser e ninguém faz nada. E eu só vim aqui te visitar, já que você atrapalhou meu plano, vim ver como que eu fui idiota em não ter percebido que você é irmã da Meire, para mim vocês só eram amigas. A tonta conseguiu esconder direitinho.


Berenice: Lava essa boca suja quando for falar da minha irmã. Eu lamento amargamente não ter conseguido feito a Meire parar de ceder as suas ameaças, você acabou com as nossas vidas por pura inveja que você tem da Maria Luísa.


Madalena (rindo): E vai dizer que você nunca sentiu qualquer resquício de ciúme pela Maria Luísa? Justo você, Berenice? Me poupe que não sou trouxa, reparo até demais nos detalhes, eu sei que você era apaixonada pelo Gildo!


[O instrumental de tensão toca. Berenice tenta desviar do assunto]. 


Berenice: Não sei do que você está falando, Madalena.


Madalena: Sabe sim, na época que a Maria Luísa estava com o Gildo, eu via os olhares que você trocava com ele, a sua expressão de rancor para a Maria Luísa quando só estava você, ela e a Meire. Confessa! Você era louca por ele e não foi capaz de assumir seus sentimentos. Você fala de mim, mas somos iguais, Berenice.


Berenice: NUNCA que eu sou igual a você, sua velha carniceira, NUNCA!


Madalena: É pior, porque eu nunca fingi ser amiga da Maria Luísa, sempre deixei claro que não gosto dela, já você andava junto, ia na casa dela, se vendia pela amizade dela, e é por isso que você não vai contar a verdade para a Marília, você não quer ver a Maria Luísa por cima, para correr o risco de perder sua única parente restante, que por sinal nem de sangue é.


Berenice: Madalena, CHEGA! 


Madalena: Fala aí, você e a Meire disputavam para ver qual irmã é pior? Porque nem eu sei escolher também, entre a morta frouxa incapaz de confrontar alguém ou a invejosa traíra incapaz de se doar.


[Madalena ri da cara de Berenice, que se enfurece e desfere um soco na cara dela. Madalena cai no chão e derruba o gravador. As duas trocam intensos olhares de ódio. O instrumental de tensão toca].


CENA 02: Casa de Gildo | Final de Tarde

[Heleno para na frente da casa de Gildo, que está protegido com fitas de isolamento e alguns peritos trabalhando. Ele reconhece um dos funcionários e o aborda].


Heleno: E aí, há alguma suspeita sobre o que pode ter acontecido?


Perito: Olha, foram encontradas manchas de gasolina e marcas de pegadas de sapatos diferentes, longe da onde a única vítima do incêndio estava, então ao que tudo indica foi criminoso. 


Heleno: Quando que as meninas podem voltar para a casa?


Perito: Hoje não dá, mas até amanhã já estará tudo coletado e elas podem voltar.


[Heleno acena a cabeça, confirmando sua dúvida e retorna para o seu carro, saindo em disparada].




CENA 03: Quarto de Berenice | Hospital | Final de Tarde 


Madalena: VAGABUNDA, VOCÊ ME PAGA, SUA VACA!


[Madalena se levanta e destrava a arma, porém Berenice consegue finalizar Madalena e pega a arma e o gravador e aponta o revólver para a cabeça dela].


Berenice: Acho que isso aqui me pertence. Você pensou o que, sua dissimulada, freira do demônio, que iria me intimidar e ficar por isso mesmo? Eu não tenho medo de você, nunca tive, sei muito mais a seu respeito do que você pensa, Madalena, não tenho provas, mas só uma pessoa burra para não saber que você tinha ou tem um caso com o Leonardo. É bom você aproveitar seus últimos momentos livre, porque sua quadrilha tá por um fio. 


[Berenice empurra Madalena no chão e joga a munição e a arma separados pela janela].


Berenice: E espero que quando a Maria Luísa descobrir toda a verdade ela te dê uma surra de criar bicho, porque eu vou contar toda a verdade para a Marília. Agora vai embora, seu veneno já contaminou meu quarto demais.


[Madalena se levanta e o ódio transparece com força entre elas].


Madalena (fria): Você não vai contar a verdade porque você não quer vê-las felizes, quer mesmo ver a Marília correndo para os braços da Maria Luísa? Você mexeu com a pessoa errada, Berenice, agora é guerra, quando você e a Marília menos esperarem, vão se arrepender de ter nascido, vou matar vocês de uma forma lenta e MUITO dolorosa. 


[Madalena cospe contra Berenice e sai do quarto disfarçada. Berenice começa a chorar, envolvida pelo ódio e culpa].


Mossâmedes - GO.


CENA 04: Escritório | Começo da Noite

[Maria Luísa entra no escritório de seu advogado e o cumprimenta].


Maria Luísa: Boa noite, doutor.


Advogado: Boa noite, Maria Luísa. No que posso lhe ajudar hoje? 


Maria Luísa: Eu quero o desquite, doutor, estou abdicando da minha posição de primeira-dama da Cidade do Bem. 


[O advogado fica surpreso].


Advogado: Maria Luísa, você tem certeza do que está pedindo? Se eu entrar com a ação não há como voltar atrás, e você não poderá nunca mais se casar.


Maria Luísa: Eu sei. 


Advogado: E porque veio até Mossâmedes para entrar com o desquite, não seria mais fácil para a senhora fazer isso na Cidade do Bem?


Maria Luísa: Não, doutor, eu conheço meu marido, tenho certeza que ele subornou os oficiais e os juízes de todas essas cidades próximas para não me darem a separação.


Advogado: Bem, sendo assim, essa decisão foi consensual ou unilateral da sua parte?


Maria Luísa: Unilateral, eu sei também dos litígios que estou prestes a lidar, porque o Leonardo já me comunicou que não irá assinar o desquite. 


Advogado: Então pense com mais calma, Maria, antes que isto vaze para a população e lhe traga prejuízos financeiros e até emocionais.


Maria Luísa: Eu enfrento tudo, doutor, mas me recuso a continuar vinculada ao Leonardo. Pode dar entrada no processo. Aqui estão todos os meus documentos que acho que precisa.


[Maria Luísa entrega seus documentos pessoais ao advogado].


Advogado: Amanhã isso já estará circulando na imprensa local e entre as pessoas, está preparada?


[Maria Luísa suspira, mas mantém sua decisão].


Maria Luísa: Sim.


[A Cidade do Bem anoitece].


CENA 05: Hospital | Quarto de Berenice | Noite

[Marília entra no quarto de Berenice e a encontra aflita, balançando sem parar os seus pés].


Marília: Tia, a senhora está bem? ENFERMEIRA!


Berenice: Não, Marília, não precisa, ainda bem que você chegou. Senta aqui, eu preciso ter uma conversa muito séria com você.


Marília: Eu também preciso falar com você. Tia, o médico me explicou que você foi golpeada na nuca por um objeto de madeira, só que ao tudo indica você estava sozinha na casa, então alguém invadiu e fez isso, não foi um acidente. Você sabe quem pode ter feito isso com você?


[Berenice tenta controlar suas palavras e Marília percebe a sua reação].


Marília: Tia? Tia, se você souber de algo, até quem foi, me diga, eu preciso saber, para colocar esse criminoso na cadeia, aquela casa era do Gildo, eu estou sabendo disso já, quem sabe isso não esteja ligado ao assassinato dele.


Berenice: CHEGA. Eu sei quem foi sim, Marília, eu e a Meire escondemos muitas coisas de você dessa cidade há anos, mas não dá mais, sua VIDA está em perigo, e preciso que você seja forte e o mais fria possível, não perca a cabeça se quiser continuar viva e ganhar o prêmio. Marília, quem arquitetou ele foi mesmo a assassina do Gildo. E foi isso que você escutou, ele foi SIM assassinado, e eu sei quem matou ele!


[O instrumental de tensão toca e fixa no olhar de Marília, completamente atordoada].


[A tela congela].