Cidade do Bem - Capítulo 08
CENA 01: Casa de Amadeu | Manhã
[Maria Luísa se levanta, completamente perturbada].
Maria Luísa: Amadeu, a minha filha está morta, eu devo estar delirando, não é Marília Muniz.
Amadeu: Mãe, calma, eu não queria te deixar assim. Mas ela nasceu aqui, NA CIDADE DO BEM, e foi criada nos Estados Unidos, pode haver uma possibilidade.
Maria Luísa: Não, não, NÃO, NÃO!!
[Maria Luísa põe a mão sobre a cabeça, se culpando novamente pelos erros do passado e Amadeu a consola].
Maria Luísa: Não é ela, filho, eu tenho o anúncio fúnebre da MINHA Marília que aquela nojenta da Madalena me entregou, fui ao túmulo dela, eu chorei, é uma coincidência nos nomes.
Amadeu: Mãe, você viu o corpo da Marília no túmulo?
Maria Luísa: Não, quando eu soube ela já havia falecido alguns meses e sido enterrada, fiquei quase um ano sem vê-la.
Amadeu: É um outro motivo perfeito para a senhora se auto questionar. Pense que exista uma pequena possibilidade de ela estar viva, mãe. E se a Madalena tiver te enganado?
Maria Luísa: Ela não faria isso, ela era uma freira, não é um monstro.
Amadeu: Mas sempre te tratou com rispidez por motivos desconhecidos. As coisas se encaixam aos poucos, mãe.
[Maria Luísa passa a mão na cabeça novamente e olha para o filho com seriedade].
Maria Luísa: Eu quero ver essa menina, Amadeu, promova um encontro entre nós duas, agora preciso vê-la no fundo dos olhos dela, só assim para meu coração ficar em alento.
Amadeu: Tudo bem, mãe, eu tenho o número dela.
[Maria Luísa concorda com a cabeça, claramente mais calma].
CENA 02: Casa de Gildo | Manhã
[Marília tenta discar para Heleno várias vezes e se frustra ao perceber que ele não atende].
Marília: Porcaria.
[Ela pega os seus pertences e parte a pé para o centro. Em outro take, ela vê com mais clareza os vários materiais de construção e as condições do local e de repente, ao virar de costas, encontra Leonardo a julgando e se assusta. O instrumental de tensão toca].
Leonardo: Quem é você e o que está fazendo aqui, menininha?
[Marília permanece sem responder].
CENA 03: Cidade do Bem | Manhã
[Marília encara Leonardo e olha os ferimentos por seu rosto, deixando-o constrangido].
Leonardo: Responda logo, quem é você? Não viu a placa pendurada ali no canto direito? Este lugar está em obras, reformando, a senhorita não pode ficar aqui, é expressamente proibido.
Marília: Perdoe-me, seu prefeito, estava com a cabeça aérea, prazer, sou a jornalista Marília Lopes, vim a trabalho e seria muito grata se o senhor aceitasse fazer uma entrevista comigo.
Leonardo: Uma entrevista? Sobre qual tema?
Marília: Dois assuntos fundamentais para essa pacata cidade, sobre toda a sua vida política, os seus passos até a sua atual posição, e a morte do padrinho de seu sobrinho, Gildo Valadares.
[Leonardo desfaz o sorriso].
Leonardo: Como você sabe quem foi o Gildo e do parentesco dele com meu sobrinho? Quem lhe deu essas informações sigilosas? Você não tem o direito de se intrometer na vida particular da minha família, quem você pensa que é?
Marília: Posso explicar, atuo nessa área há anos, quero resolver este caso para a sua família e quem sabe deixá-los em paz após tantos anos sem respostas e com o culpado preso.
Leonardo: E o que você ganha em troca com isso?
Marília: Nada com a sua família e sim na minha carreira, posso conquistar prestígio com ela. E para isso, estou andando pela cidade, ouvindo os habitantes, e como o senhor é bastante influente tanto aqui quanto para o estado, um pronunciamento público seu seria extremamente relevante.
Leonardo: Agradeço a sua dedicação e o interesse pela morte do Gildo, mas realmente não me encontro disposto a falar sobre esta história, ele está morto há muitos anos e não quero retomar amargos sentimentos.
Marília: Seu Leonardo, reflita mais a minha oferta, por favor. O senhor só ganhará com isso.
Leonardo: Não, mocinha, muito obrigado, quando eu tomo uma decisão, não gosto que me contrariem. Essa é uma das primeiras coisas que uma boa jornalista deveria saber sobre políticos importantes, detestamos ser contestados.
Marília: Assim a população continua a ser refém de vocês, né? A educação do Brasil ainda tem muito a melhorar, nada aprendeu com os conflitos passados. Olha, não preciso que o vosso político importante me ensine o meu trabalho, e como o senhor não quer cooperar, vou tomar outras medidas.
Leonardo: Deveria interpretar isso como uma ameaça? Você não sabe com quem está lidando, olhe para você e olhe para mim.
Marília: Estou descobrindo agora, mas não, seu Leonardo, não é uma ameaça, mas não vou permitir que "vosmecê" ou qualquer outro indivíduo prejudique os meus sonhos. Com licença.
[Marília se retira e Leonardo revira os olhos e retoma os trabalhos].
CENA 04: Sala de Arquivos da Prefeitura de Cidade do Bem | Manhã
[Berenice entra com vários produtos de limpeza e tampa uma pequena câmera na sala de modo sutil. Ela vasculha por todos os arquivos em ordem alfabética e para nas letras L e P.
Berenice: Cadê o Minha Casa, Minha Vida... AQUI! Papai e mamãe, que falta vocês me fazem.
[Berenice guarda todos os registros em seus devidos lugares e põe em um compartimento do carrinho de limpeza. No outro take, ela caminha pelo corredor e vê Amadeu entrando na sala de Heleno e fica atrás da parede observando. Amadeu sai e ela entra disfarçadamente e abre um largo sorriso por ver que são provas contra Leonardo].
Berenice: Como o Amadeu não percebeu que isso aqui é super valioso? Obrigado, Deus, pela burrice dele, minhas provas contra o Leonardo só aumentam.
[Heleno sai do banheiro e flagra Berenice saindo em silêncio de sua sala com uma pasta nas mãos. Ele percebe o conteúdo e se esconde].
Heleno: Desgraçada, me apunhalou pelas costas. Berenice, Berenice, você cometeu o pior erro que podia ter feito com a sua vida. Coitada.
[O instrumental de tensão toca].
CENA 05: Rua | Manhã
[Amadeu anda pela rua e disca para Marília. Ouve-se a voz de ambos durante a conversa].
Amadeu: Bom dia, Marília.
Marília: Bom dia, Amadeu. Tudo bem?
Amadeu: Sim, acabei de sair daqui da prefeitura. Marília, conheço uma peça fundamental deste quebra cabeça da morte do Gildo, e mais do que isso, pode ser da sua própria vida também.
Marília: Não entendi, Amadeu. A quem você se refere?
Amadeu: A primeira dama e minha mãe, Maria Luísa Muniz.
[A câmera sinaliza na expressão de Marília, que sente um nó na garganta].
Amadeu: Acho que vocês precisam conversar, Marília. Muito sério. Quando você tiver um tempo consegue vir a minha atual casa? Te passei o endereço.
Marília: É, sim, sim, vou. Preciso desligar, Amadeu, estou ocupada, um beijo. Que sensação esquisita é essa.
[Marília se sente fadigada e lembra da revelação de Amadeu a respeito dos sobrenomes. Ela fecha os olhos e retoma sua escrita].
GOIÁS VELHO - GO.
CENA 06: Rua | Manhã
[Madalena telefona para um número estrangeiro em um orelhão e quando é atendida, rapidamente muda de expressão].
Madalena: Como se não bastasse ele ter feito o serviço mal feito, ainda morreu. O mundo hoje em dia não é para os amadores não, bem feito também para ele. E que morra você junto.
[Madalena desliga a chamada].
Madalena: O bom de ela estar na Cidade do Bem agora é que posso ter o prazer de acabar com mãe e filha juntas.
[Ela ri descaradamente e faz uma nova ligação].
Madalena: Podem atear fogo, o restante eu me responsabilizo. Sim, pelo Heleno também. Dessa vez essa garota TEM QUE MORRER, não pode haver falhas. Adeus.
[Madalena joga o telefone e lhe deixa pendurado pelo cabo].
CENA 07: Prefeitura de Cidade do Bem | Manhã
[Marília comparece na recepção da prefeitura e conversa com a outra secretária].
Marília: Bom dia, o seu Heleno está? Aonde é a sala dele? Obrigada.
[Ela é guiada até a sala de Heleno e suspira fundo. Marília bate a porta e a abre e dá de cara com Heleno trabalhando].
Marília: Bom dia.
Heleno: Bom dia? Quem é você? Posso lhe ajudar?
Marília: Sim. Seu Heleno, o senhor não me conhece, mas serei direta. Me chamo Marília, sou uma jornalista americana e vim ao Brasil para apurar a morte do seu padrinho.
[A câmera se aproxima do rosto de Heleno e de sua visão mista entre alegria e confusão].
[A tela congela].