Cidade do Bem - Capítulo 05
CENA 01: Quarto de Leonardo e Maria Luísa | Começo da Manhã
[Madalena remove a fita da boca de Leonardo, que concilia sua expressão entre decepção e ódio].
Leonardo: DESGRAÇADA, ORDINÁRIA, A HORA QUE EU SAIR DAQUI EU VOU TE MATAR, ME SOLTA!!!
[Madalena tapa a boca de Leonardo de novo].
Madalena: Ai Leonardo, você já falou demais. Isso é pra você ficar esperto comigo, depois de vinte e tantos anos me fazendo de palhaça acabou. É o seguinte, você vai me dar a sua senha do banco e vai arrumar aquele horror que o Santa Teresa de Ávila ficou, tu é tão incompetente que nem pra reformar foi capaz, e irá vendê-lo e me dar a grana. Fui clara?
[Madalena remove de vez a fita].
Leonardo: Você tá louca se acha que vou fazer isso. Eu prefiro morrer a te dar metade de tudo que batalhei pra conseguir.
Madalena: Batalhou? Ah Leonardo, não me faça rir agora, desviando de obras públicas e roubando pobres até eu ficaria.
Leonardo: Você não tá armada? Porque não atira logo, é um favor que você me faz...
Madalena: Calma, Leonardo, eu não sou uma assassina, se eu te matar não vou ter mais o seu corpo gostoso...
[Madalena beija o abdômen de Leonardo e continua a descer, porém ele tenta chutá-la].
Leonardo: SAI!!!
[Ela ri e põe a calça dele de volta no corpo].
Madalena: É, tem razão, deixa para outro dia, quero falar agora, te ver algemado me deu vontade... lembra que uns dias atrás você me perguntou o porquê eu sustentava a Meire? Eu conto. A filha da Maria Luísa está viva, ela obriguei ela a criar a Marília nos Estados Unidos com seu "suado" dinheiro.
[Leonardo fica em choque e começa a rir].
Leonardo: Isso é uma piada de muito mal gosto. Por que você fez isso? Aí por conta dos seus problemas com a Maria Luísa eu que tenho que bancar essa sua vingancinha? Eu não tenho nada a ver com isso, vocês que se virem.
Madalena: Não importa, porque metade de tudo o que você tem pertence ao MEU FILHO, então esse dinheiro é meu também... Tô esperando a senha, Leonardo. Fala logo.
Leonardo: A senha é... VAI PRO INFERNO!!!
[Madalena destrava a arma e põe o dedo sobre o gatilho].
Madalena: Eu te dei uma chance, você não quis, NÃO QUIS.
[Leonardo fecha os olhos. O silêncio toma conta do local e ouve-se barulhos de passos nas escadas e a voz de Maria Luísa e Amadeu].
Madalena: Droga... eles voltaram!!!
[Madalena põe a chave das algemas na cabeceira e se esconde no guarda-roupa. Maria Luísa abre a porta e fica pasma ao encontrar Leonardo algemado].
Maria Luísa: LEONARDO? O QUE É ISSO? Por que você tá algemado?
[Leonardo se espanta e tenta contornar].
Leonardo: É, eu... quis fazer uma surpresa para você, Maria, para compensar por ontem.. vem aqui, vem...
[Maria Luísa fica indignada e tira as algemas de Leonardo].
Maria Luísa: Vou fingir que acredito, Leonardo, não tenho mais cabeça para discutir, faz o que você quiser, mas sem mim. Vou banhar, estou cansada demais, licença.
[Maria Luísa entra no banheiro. Madalena sai do guarda-roupa, joga um beijo para Leonardo e sai correndo. Ele a encara furioso].
[Amadeu bebe um copo de água na cozinha e escuta passos vindo da escada. Ele flagra Madalena saindo pela porta de costas, com um capuz e vai atrás. O instrumental de tensão toca].
[Madalena pula o portão e sai em disparada com o carro, enquanto ainda é espionada].
Amadeu: Quem é essa mulher? Agora até aqui pra dentro de casa meu pai tá trazendo prostituta...
[Amadeu volta para dentro de casa].
GOIÂNIA - GO.
CENA 02: Aeroporto Internacional Santa Genoveva | Começo da Manhã
[Em takes, a câmera filma a aeronave pousando em Goiânia e se aproxima de Marília desembarcando e caminhando pelo aeroporto, até encontrar Berenice. Elas se abraçam].
Berenice: Que saudades, Marília, esperei anos por esse reencontro.
Marília: Eu também, tia, não via a hora, obrigada por ter vindo. É uma pena que foi tudo tão rápido, na minha decisão de vir.
Berenice: Isso que eu não entendi, Marília, você desligou na minha cara, só disse que a Meire te contou toda a verdade... eu já sabia há muito tempo, e peço que me desculpe, mas quem tinha que te contar era a sua mãe... e cadê ela??
Marília: Tia, não sei como te dizer isso, mas... a minha mãe morreu... ela foi atropelada por um carro.
[Berenice se desespera e Marília se comove também].
Berenice: Não, minha irmã não, eu falei com ela esses dias, ela tava bem, me diz que é mentira, Marília... foi por isso que ela te contou tudo?
Marília: Foi... como eu queria ela aqui, tia, eu tentei socorrer ela, mas não deu tempo de fazer nada, ela morreu nos meus braços.
[Berenice grita de dor e uma parte do aeroporto para. Ela se ajoelha no chão e as duas se abraçam].
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DISTRITO DE UVÁ, GOIÁS VELHO.
CENA 03: Uvá | Começo da Manhã
[Heleno estaciona ao lado de uma casa abandonada e pega uma enxada e luvas cirúrgicas. Ele circula por ela indo para uma mata próxima e desenterra documentos protegidos por plásticos, e ao lado, remove uma pá coberta por um pano e se perde em suas visões. Heleno esconde novamente a pá com terra e puxa as pastas e é revelado ser provas contra Leonardo].
[Heleno liga para uma pessoa e sorri friamente].
Heleno: Alô... eu encontrei as pastas, estou levando de volta para a Cidade do Bem!!!
CENA 04: Terminal Ferroviário de Goiânia | Manhã
[Berenice caminha com a Marília com a cabeça apoiada em seu ombro e elas embarcam no trem, que recebe diversos passageiros. Berenice volta a chorar e Marília tenta se conter].
Marília: Tia, me perdoe por não ter te contado antes, mas eu precisava falar pessoalmente. Olha, pelo menos a minha mãe não sofreu... estou tentando ser forte por ela, meu coração tá estilhaçado por dentro.... Goiás Velho é pertinho, quando a gente chegar na sua casa a senhora descansa...
[O silêncio se instaura entre as duas. Berenice mantém seus pensamentos no automático].
Berenice: Marília.... eu não moro mais em Goiás Velho... eu voltei pra Cidade do Bem, eu e sua mãe também somos de lá...
[Marília se surpreende].
Marília: Vocês são de lá e nunca me contaram? E porque você voltou, tia? Você não tinha dito pra minha mãe que tava em Goiás Velho?
Berenice (emocionada): Eu menti pra ela. Tô me sufocando de culpa...
Marília: Porque mentiu, tia? E culpa de que? Você não fez nada.
Berenice: Você ainda não sabe de muita coisa, Marília, e quanto menos você souber por enquanto é melhor. Virei a sua mãe agora, tentando esconder as coisas...
Marília: Mas tia, dependendo do que for, eu posso te ajudar, tem alguma ligação com essa Cidade do Bem?
Berenice: Chega, Marília, não vou falar e ponto, você já errou comigo em ter me escondido, nem ir no enterro da minha irmã eu pude... a gente vai pegar um táxi pra Cidade do Bem e um dia eu te explico tudo... e eu ainda tenho que trabalhar hoje, vou começar no meu emprego, que inferno...
[Marília fica em silêncio e Berenice mantém-se fria e abatida emocionalmente].
[O vapor da locomotiva sai intensamente e ela parte da estação].
HORAS DEPOIS.
[A câmera filma o movimento vespertino das cidades de Goiás Velho, Cidade do Bem e Goiânia e foca exclusivamente na Cidade do Bem e em um carro que estaciona em frente a casa de Gildo].
CENA 05: Casa de Gildo | Começo da Tarde
[Marília e Berenice desembarcam do táxi. Marília para em frente a casa, espantada com o ambiente].
Marília: Que casa afastada, tia, no meio de uma estrada deserta, meio perigosa, não?
Berenice: Aqui é seguro, Marília, não irá acontecer nada, essa cidade, a sua cidade não é violenta. Aqui está a chave, seu quarto é o segundo à esquerda, entra e arruma suas coisas, agora tenho que ir para a prefeitura, não posso me atrasar justo no primeiro dia...
Marília: É, tia.. o atual prefeito daqui continua sendo o Leonardo de Queiroz?
[Berenice paralisa em frente a sobrinha].
Berenice: É, o terceiro mandato dele. Por que?
Marília: Curiosidade, a princípio. Até mais tarde, tia.
[Berenice embarca para o centro e Marília entra. Ela analisa todos os móveis, as fotografias e encontra uma de Berenice com ela e Meire juntas].
Marília: Uma das últimas vezes que vim ao Brasil... o tempo passa rápido demais. Por onde será que eu começo nesse lugar?
[Marília chega ao quarto e desfaz suas malas. Ela apanha uma pequena bolsa e põe um bloco de notas, uma caneta e uma pequena câmera de vídeo e segura uma máquina fotográfica em suas mãos].
Marília: É tudo ou nada...
[Marília respira fundo e sai de casa. Em vários takes, ela caminha pela estrada de terra e pelo centro e se esconde para tirar diversas fotos].
CENA 06: Prefeitura de Cidade do Bem | Começo da Tarde
[Berenice entra apressada dentro da prefeitura e recebe seu uniforme pelas mãos de uma secretária. Ela corre para o vestiário e troca a sua roupa].
[Berenice apanha os produtos e equipamentos de limpeza e esfrega o chão da cozinha, se debulhando em lágrimas].
[Leonardo, com um semblante irado, vai a cozinha e encontra Berenice trabalhando e chorando ao mesmo tempo].
Leonardo: Uma mulher da sua idade chorona desse jeito, acabou de começar e já tá assim? É muita ingratidão mesmo... vê se chora mais baixo, tá dando pra ouvir da minha sala.
[Berenice fecha os olhos e tenta voltar ao normal].
Berenice: Bom dia, seu Leonardo. É que hoje não estou muito bem...
Leonardo: Eu também não, estamos iguais. Pra quem acabou de começar você limpa o chão rápido mesmo, pena que já está sujo de café.
Berenice: Que café?
[Leonardo joga café no chão e debocha de Berenice. Ela grita de ódio por dentro e tenta não demonstrar].
Leonardo: Esse aí que você não limpou. Lava com as suas lágrimas, aí o sal dela aproveita e neutraliza o amargo desse café que essas inúteis fazem. Eu não quero melodrama nessa prefeitura, se quer chorar chore na sua casa ou vai ser despedida no primeiro dia.
[Leonardo coloca café novamente e sai da cozinha. Berenice segura o cabo da vassoura com tanta força que quase a quebra].
Berenice: Demônio... respira, Berenice, respira, esse cara vai responder por tudo o que ele fez...
CENA 07: Sala de Leonardo | Prefeitura de Cidade do Bem | Começo da Tarde
[Leonardo retorna a sua sala e senta em sua cadeira. Ele visualiza o seu computador, quando Amadeu invade o local e tenta agarrar o pai pela gola da roupa].
Leonardo: TÁ LOUCO, MOLEQUE, ACORDOU MORDIDO HOJE PORQUE? ME LARGA QUE EU NÃO ESTOU PRA BRINCADEIRA, MEU DIA TÁ PÉSSIMO, NÃO VEM ME ABORRECER MAIS.
Amadeu: CALA A TUA BOCA, SEU VERME, PREFEITO DE MERDA, VOCÊ É UM LIXO DE SER HUMANO, PAI, UM LIXO, EU VI UMA MULHER SAINDO DE CASA HOJE, VOCÊ TÁ LEVANDO PROSTITUTA PRA DENTRO DA NOSSA CASA, PRO QUARTO DA MINHA MÃE.
Leonardo: COMO É QUE É? REPETE ISSO, SEU PIRRALHO, REPETE!
Amadeu: CAFETÃO NOJENTO, É ISSO QUE VOCÊ É!
[Leonardo acerta um soco na cara de Amadeu e o derruba no chão. Amadeu surta e agarra o pai novamente, o jogando por cima da mesa e derrubando tudo].
[Eles rolam no chão e Amadeu imobiliza o pai. Ele desfere diversos socos fortes na cara de Leonardo e faz sua boca sangrar].
Leonardo: PARA, AMADEU, PARA, ME LARGA, SEU MERDA!
Amadeu: DESGRAÇADO, ISSO É POR MIM, PELA MINHA MÃE, POR TODA A DOR QUE VOCÊ FEZ A GENTE PASSAR, SEU VELHO FILHO DA PUTA!
[Amadeu golpeia Leonardo pela última vez e ofega de cansaço. Ele sai de cima do pai, que se encontra estirado no chão com diversos hematomas e cuspindo sangue e os olhos vermelhos de fúria].
Amadeu: Não precisa nem me demitir ou me expulsar daquela casa, papai, eu mesmo faço isso. Estou fora! Fora da sua vida pra sempre, já te ajudei demais nos seus crimes, não quero nunca mais olhar na sua cara, nunca mais apareça na minha frente.
[Amadeu chuta as costas do pai e sai da sala, descabelado e arrasado. Leonardo se levanta com dificuldades e entra no banheiro de sua sala. Ele se olha no espelho e o quebra, com o rancor tendo lhe tomado por completo].
Leonardo: DEMÔNIO, COVARDE, CAPETA, MISERÁVEL, IMPRESTÁVEL!!! VOCÊ NÃO VAI ME DESTRUIR, AMADEU, EU VOU ACABAR COM VOCÊ E VOCÊ NUNCA MAIS VAI SE LEVANTAR. VOCÊ VAI VER QUE MEXEU COM O HOMEM ERRADO.
[Leonardo urra de dor devido aos ferimentos pelo corpo e tenta limpá-los na água corrente, chorando].
CENA 08: Centro de Cidade do Bem | Tarde
[Marília continua a tentar coletar provas e pede informações na rua, porém é julgada no olhar pelas pessoas por suas roupas modernas. Ela vê uma mulher de costas indo ao seu carro e para atrás dela. É revelado ser Madalena].
Marília: Oi, boa tarde. Eu sou nova aqui na cidade e gostaria de tirar uma dúvida, por favor.
Madalena: Olha, moça, estou com pressa, se você for daquelas que...
[Madalena se vira e fica perturbada ao reconhecer que é Marília. Elas trocam olhares diferentes].
Madalena (chocada): Você????
Marília (confusa): Você me conhece, por acaso?
[A câmera alterna entre a perturbação de Madalena e a confusão de Marília].
[A tela congela].