ROCAMBOLE - CAPÍTULO 13


ROCAMBOLE - CAPÍTULO 13

NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS 🟠

(CENA 1/MANSÃO FONSECA/BANHEIRO/INTERIOR/NOITE)

Joana lava o rosto na pia e rapidamente sai do local, retornando ao escritório da residência. Ela pega novamente a peça valiosa de rocambole de ouro que havia ficado sobre a escrivaninha e o coloca dentro de uma maleta. Em seguida, desce as escadas e passa na direção da entrada, chegando ao jardim do casarão, local onde Mariana foi arremessada. A perua visualiza o momento de dor sentido pelo cônjuge, Pierre, que definha-se ao lado da enferma.

JOANA (PENSAMENTO/RINDO): Já vai tarde, coisa ruim. Vai pro inferno e não volta nunca mais… E vai você também, Pierre, e de quebra vira o advogado dela lá pra retribuir o serviço prestado pela ninfetinha na sua padaria xexelenta. A secretária do capeta e o advogado do diabo! Hahahaha!

A mulher esquiva entre os arbustos do local, dando a volta no terreno e saindo pelo portão dos fundos com a própria chave que possuía quando era casada. Uma ambulância e uma viatura policial chegam ao local da tragédia. Mariana ainda bate o coração e é levada desmaiada em uma maca pelos socorristas.

PIERRE: Eu vou com vocês!

BOMBEIRO: O estado dela parece grave, não será possível acompanhantes. Fique prestando depoimento à polícia e depois se dirija ao hospital.

Pierre concorda mesmo sem ser de seu feitio. O socorro parte. Os policiais se aproximam.

POLICIAL: Pode explicar como aconteceu?

(CENA 2/MANSÃO FONSECA/QUARTO/INTERIOR/NOITE)

PIERRE: Aí ela me empurrou, segurou meu pescoço e me jogou contra o muro da varanda. Só que eu consegui me soltar…

POLICIAL 1: Estranho um homem não conseguir se defender de uma mulher…

POLICIAL 2: E onde está essa Joana?

PIERRE: Deve ter fugido. Com essa demora que vocês levaram pra chegar!

POLICIAL 1: O senhor não é policial, não é?

PIERRE: Não, senhor.

POLICIAL 1: Pois então, essa daqui não é a única casa da cidade. Mesmo que aqui fosse a casa da Virgínia Fonseca, nós teríamos vindo no tempo que desse.

Pierre se cala. O policial encara a cama do casal.

POLICIAL 2: E essas algemas, chicote? A tal Joana usou na hora do crime?

PIERRE (CONFUSO): Não faço ideia de como isso foi parar aí… Eu… Eu às vezes brincava assim com ela.

POLICIAL 2: Com a vítima?

PIERRE: Não! A Joana, minha atual mulher.

POLICIAL 1: Se ela é a atual, então como você nos disse que era namorado da Mariana?

PIERRE: Porque eu sou, é que nós, ela, a Joana, me traiu…

POLICIAL 2: Lhe traiu? Hum… Seria conveniente demais se vingar acusando-a de tentativa de homicídio, não acha?

PIERRE: Não! Quer dizer, porque é verdade…

POLICIAL 1: O senhor já tem passagem conosco, Seu Pierre. Por mais que depois tenha sido provada a sua inocência, uma vez preso, a mancha é eterna.

O policial encara friamente Pierre, que engole seco. O outro oficial saca um leitor biométrico e começa a vasculhar o local. 

POLICIAL 2: Nós estamos usando isso porque o senhor disse que a mansão não tem câmeras de segurança.

PIERRE: Nunca gostei disso, tinha receio de me sentir em um Big Brother, vigiado. Agora eu vejo que estou precisando abraçar mais a tecnologia. Ela é capaz de salvar vidas inocentes…

POLICIAL 1: Seria muito útil nesse momento e nos pouparia de tanto trabalho! Sei que ultimamente está difícil de acreditar, mas o meio virtual também pode ser usado para o bem.

O aparelho rapidamente apita e mostra o resultado.

POLICIAL 1: O que constou aí? De quem são as digitais?

POLICIAL 2: O quarto está repleto de marcas de mãos e são recentes. O leitor identificou a origem, devemos levar para análise laboral.

Pierre se mostra nervoso.

(CENA 3/CASA DE GERTRUDES/SALA/INTERIOR/NOITE)

Pedro assiste televisão. Alguém toca a campainha. Gertrudes vai até a porta.

DETETIVE JÚLIO: Boa noite! Vim correndo assim que me ligaram. Que lástima a Isabel ter sumido assim!

O investigador adentra e se senta no sofá.

GERTRUDES: Pois é! Desde ontem que ela não deu as caras, estamos muito preocupados.

DETETIVE JÚLIO: Para a sorte do menino ele tem a senhorita como companhia.

GERTRUDES: Sim, mas nada como uma mãe, não é verdade? O senhor por acaso teria alguma pista pra onde ela foi?

DETETIVE JÚLIO: Olha, ontem ela estava muito estranha. Chegou na Tortilete dizendo que um mal estava solto pela cidade e de que poderia atacar ela e o filho, talvez estivesse pressentindo algo. Vacilo meu foi não tê-la dado ouvidos!

GERTRUDES: Ai, minha Nossa Senhora! Tá começando a dar um aperto no meu coração. O senhor precisa ver também o que fizeram na casa dela, reviraram…

A conversa é interrompida pela chegada de Laura.

LAURA: Vozinha, tô aqui! Vim te visitar!

GERTRUDES: Minha netinha, que saudade!

As duas se abraçam. 

LAURA (NERVOSA): Tá tudo bem? Que cara é essa? Quem é esse?

GERTRUDES: Tá mais ou menos, minha linda! Esse é o Detetive Júlio. Ele é funcionário da Isabel, minha vizinha.

LAURA: Ah, sim! Lembro de ter visto a danada algumas vezes na calçada. Muito prazer, Laura!

Laura estende o braço para o detetive.

DETETIVE JÚLIO: O prazer é todo meu, cara moçoila!

Júlio beija a mão da mulher. Ambos se encaram.

LAURA: Mas então, o que tá acontecendo?

GERTRUDES: A Isabel desapareceu. Estamos à procura dela por todas as partes.

LAURA: Nossa, sumiu como? Evaporou? E esse rapazinho aí? É o filho dela? Pedro, né?

Laura se aproxima do garoto e o abraça. Em seguida ela assiste a imagem da TV.

LAURA: Você curte ver jornal? Credo!

PEDRO: Estou vendo se dão alguma notícia da minha mãe.

LAURA (ENVERGONHADA): Oh, tadinho…

VOZ/JORNALISTA (TELEVISÃO): E atenção: uma mulher foi jogada do segundo andar de um prédio no Bairro das Flores. Ao que tudo indica o estado é gravíssimo e aconteceu agora à tarde. A vítima se chama Mariana dos Santos Barreto.

LAURA (CHOCADA): O que? A Mariana?!

GERTRUDES: Você conhece, filha?

LAURA (DESESPERADA): É a minha amiga! Como isso foi acontecer?!

VOZ/JORNALISTA (TELEVISÃO): Segundo fontes, ela trabalha para o proprietário da casa onde o acidente aconteceu. E indícios apontam para uma tentativa de feminicídio. Mariana passa nesse momento pelo atendimento de urgência do Hospital Alberto Estanho.

LAURA: Meu Deus! Eu tenho que ir pra lá agora.

DETETIVE JÚLIO: Te dou uma carona no meu carro.

Os dois saem apressados.

GERTRUDES (SE BENZENDO): Vão com Deus!

(CENA 4/HOTEL SONHO MEU/QUARTO/INTERIOR/NOITE)

Joana invade com escândalo. 

LÍVIO: E aí? O que rolou?

JOANA (EUFÓRICA): Rolou que eu fiz a maior cagada da minha vida!

LÍVIO: Você fez ou deu uma cagada?

Joana abre a maleta que trazia e o quarto é iluminado pelo artefato revelado dentro dela.

LÍVIO: Pela santa madrugada, não sabia que vendia isso naquela padariazinha…

JOANA: Claro que não, débil! Isso aqui é o maior tesouro que o idiota do Pierre tem. Tinha, né? Porque agora a doninha sou eu!

LÍVIO: Que tara é essa por rocambole? Quem manda fazer um negócio desse de ouro?!

JOANA: Você também é gamado em periquito, papagaio, sei lá! O que importa é que muito em breve isso daqui vai ser apenas peça de uma joalheria cara de Paris…

LÍVIO: Paris?!

JOANA: Sim, nós precisamos cair fora o mais rápido que pudermos daqui, ir pra bem longe. Eu armei uma arapuca pro Pierre. Se eu tiver sorte, ele vai passar uns bons aninhos engaiolado igual as aves do seu viveiro. Hahahahaha!

LÍVIO: Você é pior do que eu pensei…

JOANA: E daí? Seu histórico também não é dos melhores, viu? E me agradeça por não querer ir pros Estados Unidos… Só que antes a gente pode dar uma passadinha na sua terra natal, pegar uma boa bufunfa, e aí viva la France!

LÍVIO: Sabe nem falar francês… Mas agora eu gostei. Vou te apresentar meu cafofo.

JOANA: Vem cá, e a Isabel?

LÍVIO: Não é mais dor de cabeça sua, meu bem. Os meus meliantes relataram que arrombaram tudo do casebre dela, esmagaram a cabecinha e arrancaram até um pedacinho da orelha. Hihihihi!

JOANA (RADIANTE): Ai, Mon Dieu! É alegria demais pra um dia só! Eu vou infartar… I'm glory! I'm devastated!

Joana sobe no colo de Lívio, que carrega ela em seus braços.

LÍVIO (COM RAIVA): Já disse pra parar de falar na merda desse idioma…

JOANA (RINDO) Sorry! 

Lívio agarra Joana, repreendendo-a. Momentos depois, eles arrumam as bagagens e saem. A música “Abracadabra (Lady Gaga)” compõe a cena.

(CENA 5/HOSPITAL ALBERTO ESTANHO/RECEPÇÃO/INTERIOR/NOITE)

Laura chega acompanhada de Detetive Júlio. Pierre os recebe.

LAURA (NERVOSA): O que fizeram com a minha amiga?!

PIERRE (ABALADO): Foi a Joana, ela quem realizou todo o ato.

DETETIVE JÚLIO: Você disse Joana?

PIERRE: Sim, minha ex-mulher.

DETETIVE JÚLIO: Então o senhor seria o famoso Pierre Fonseca Cabral?

PIERRE: Sim, mas como me conhece?

DETETIVE JÚLIO: Li muito sobre sua pessoa no caso do desarranjo com um rocambole de doce de leite.

PIERRE: A última coisa que eu quero me lembrar no dia de hoje é de mais um desastre… E você?

DETETIVE JÚLIO: Sou o detetive particular de Isabel Mendes de Sousa.

PIERRE: Ah, Isabel…

DETETIVE JÚLIO: Algo contra?

PIERRE: Não, nada.

DETETIVE JÚLIO: Suspeito que sua ex-esposa esteja por trás do desaparecimento de minha cliente.

PIERRE: A Isabel sumiu?!

DETETIVE JÚLIO: Sim, e depois de saber quem foi a responsável pelo acidente com a senhorita Mariana, começo a temer sobre o que pode ter acontecido com a mesma.

PIERRE: A Joana realmente é muito louca!

LAURA (AFLITA): Será que posso entrar pra ver ela? Quero saber como ela está!

Um médico passa.

PIERRE: Doutor, pode nos dizer o estado da paciente Mariana?

O doutor os observa friamente.

(CENA 6/RUA/EXTERIOR/NOITE)

A câmera mostra cenas de locais de Lagoa Dourada ao som de “Faded (Alan Walker)”. O dia amanhece. É possível ver Joana e Lívio saindo de um táxi carregando malas de viagem. Ao chegar em frente à entrada do aeroporto, Joana faz um gesto cruzando os braços num formato de banana.

JOANA: Au revoir, terra de rocambole mofado!

Eles entram no aeródromo e somem de vista.

(CENA 6/DELEGACIA/SALA DO DELEGADO/INTERIOR/MANHÃ)

Um oficial se aproxima do Delegado.

POLICIAL: Saiu o resultado do laboratório de papiloscopia, chefe. As digitais vão desde a cama até a sacada da cena do crime.

DELEGADO: E o responsável por elas? Temos?

POLICIAL: Sim. Além disso, investigamos a propriedade e parece que a suspeita não morava mais lá como a testemunha relatou. Não havia nenhum vestígio da mesma no local.

Ele entrega a documentação ao procurador, que capta.

DELEGADO: Vou acionar uma viatura. Imprima o mandato de prisão!

(CENA 7/HOSPITAL ALBERTO ESTANHO/RECEPÇÃO/INTERIOR/MANHÃ)

Pierre se aproxima de Laura, que segura um copo plástico com café.

PIERRE: Laura, eu queria te pedir perdão.

LAURA: Perdão pelo que?

PIERRE: Aquele dia, lá na padaria, eu te tratei mal por quem você é…

LAURA: Mas você não me faltou com respeito. Lembro-me que você foi grosseiro com a Mariana.

PIERRE (CABISBAIXO): Exato, mas a razão foi pela sua presença. Eu estou muito envergonhado pelo que aconteceu.

Laura percebe o sentido do clamor.

PIERRE (MAREJANDO): A Mariana, foi ela quem me alertou e abriu os meus olhos para a minha estupidez, burrice, demência mesmo… Aquilo que eu senti foi algo de tanta trivialidade que depois que conversei com ela me senti como se fosse um homem das cavernas. Eu fui leviano, desleal com as minhas crenças. Cometi um imenso pecado achando que estava me livrando de outro. Mas enfim, como alguém que está tentando verdadeiramente mudar e praticar uma nova filosofia de vida, estou aqui pra te dizer que eu te amo, como ser humano. Eu sei que você pode não levar essas palavras em consideração e ter só mais a certeza de que sou um ogro e de que não merecia estar ao lado da sua amiga mas, acredite em mim: você é uma mulher muito especial, não só pra mim a partir de agora, mas com certeza pra Mariana também. E tenho plena consciência de que ela estaria muito feliz de te ver aqui, emanando o que há de melhor dentro de ti para que ela se recupere.

Laura nada diz, mas esboça uma reação sentida. Inesperadamente ela abraça o homem, que se sente reconfortado e solta lágrimas pelos seus olhos.

LAURA: Mariana estaria engrandecida de ouvir tudo isso. Seja feliz, Pierre. Apenas isso. Quando você entender o que é felicidade, vai aprender que todas as diferenças ao seu redor são um mero detalhe. E espero que essa sua mudança tenha sido realmente de dentro para fora.

O médico se aproxima com agitação perto de ambos.

MÉDICO (AFLITO): Tenho uma notícia não muito boa para dar a vocês.

Um policial adentra o ambiente.

POLICIAL: Eu tenho uma pior ainda: Pierre Fonseca Cabral, o senhor está preso pela tentativa de homicídio contra Mariana dos Santos Barreto.

Pierre empalidece.

LAURA (NERVOSA): O que houve com a Mariana?! Fala! Fala!

MÉDICO (AFLITO): Infelizmente ela está… Morta.

O chão sob Laura e Pierre se abrem. A câmera mostra Pierre sendo agarrado e algemado pelos policiais e gritando de desespero pela partida da amada. Laura também cai ao relento chorando e sentindo muita dor. Pierre é retirado do local à força aos berros e lágrimas rolando sobre sua face. A imagem escurece gradativamente enquanto um instrumental dramático dá o tom da cena.

(CENA 8)

A música “Die With A Smile (Lady Gaga & Bruno Mars)” começa a tocar. A câmera registra as seguintes cenas:

Pierre é levado para uma cela. A sua feição é de apatia, desgosto e desespero. Ele observa todos os lados do ambiente como se quisesse encontrar um ponto de respiro. Sua prisão agora, mais do que física, é psicológica;
O funeral e enterro de Mariana é realizado. Laura, Pedro, Detetive Júlio, Clodovil, Felício e Gertrudes se fazem presentes. O caixão é enterrado com uma cerimônia breve, porém melancólica;
Isabel faz uma ligação da cidade em que está para Pedro, que finalmente se alegra ao saber da mãe. Dias depois, ele parte ao seu encontro com a desculpa de que ia morar com uns parentes no interior. Isabel mantém contato com Detetive Júlio, que faz sigilo e resolve trâmites acerca da Tortilete que consequentemente é fechada;
Joana e Lívio viajam do Acre em direção à Paris e ostentam às custas do rocambole de ouro, que nessa altura fora empenhada em uma joalheria;
O julgamento de Pierre é realizado, com a sentença sendo de 25 anos de reclusão em regime fechado. Ele é transferido para o Presídio Maria Mole;
Clodovil entra pela última vez na Padaria Rocambole depois de saber que a empresa será fechada com a prisão de Pierre, o que logicamente o deixará sem emprego. Ele olha por todos os lados do escritório como se sua alma estivesse naquelas paredes. Em seguida tranca o portão de entrada com força e fecha-o com cadeado.

(CENA 9/RUA/EXTERIOR/MANHÃ)

O mesmo take do portão com cadeado é mantido só que com uma transição de aspecto. Agora, ambos aparecem com uma textura envelhecida, sinalizando que anos se passaram. Uma mulher se aproxima com uma chave e destranca a fechadura. Ela passa pelo portão, e invade o local tomado por poeira e teias de aranha. A câmera flagra apenas as suas costas, mas com um giro frontal, é possível ver seu rosto.

ROSALBA (GRITANDO): Um novo negócio está prestes a surgir! Se antes eu era uma professorinha empreguete do governo, agora serei uma bela de uma empresária cheia da grana! Rosalba está mais viva do que nunca!

Rosalba solta uma risada sincera e satisfatória.

A IMAGEM CONGELA EM ROSALBA E SE FRAGMENTA EM VÁRIAS CURVAS DE UM ROCAMBOLE. 🍥