ROCAMBOLE - CAPÍTULO 11


ROCAMBOLE - CAPÍTULO 11

NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS 🟠

(CENA 1/ROCAMBOLE/ESCRITÓRIO/INTERIOR/TARDE)

Pierre entra em colapso enquanto vê a gravação.

PIERRE: Isso é IA.

ISABEL: Acredite se quiser! Mas aposto que se for agora mesmo em sua casa, verá essa cena com seus próprios olhos. Até porque, você não imagina o que faz uma mulher feito a Joana o dia inteiro sozinha e trancada?

Pierre limpa o suor do rosto e, num furor, parte em direção à saída.

MARIANA: Vá com calma, Pierre!

CLODOVIL (COCHICHANDO/RINDO): Ponha a mão na cabeça, patrãozinho… Só cuidado para não se furar com os chifres.

Mariana o reprova. Isabel se aproxima.

ISABEL: Mariana, também tenho que te dizer um negócio.

MARIANA (NERVOSA): O que seria?

ISABEL: Podemos ir ao dentista? Gostaria de te pagar um implante depois daquele episódio vergonhoso que lhe fiz passar com o meu morango do amor.

MARIANA (RINDO): Ai, que susto! Já pensei que ia me revelar uma traição de um cônjuge que eu nem tenho. Clodovil, põe aí no meu ponto que saí em consulta médica.

Ela escancara o sorriso banguela. Ao som de “Tá Escrito (Xande de Pilares)” as mulheres saem.

(CENA 2/MANSÃO FONSECA/SALA/INTERIOR/TARDE)

Um take de dentro da casa flagra Pierre saindo do carro e entrando em disparada na residência e logo subindo as escadas.

(CENA 3/MANSÃO FONSECA/QUARTO DE JOANA/INTERIOR/TARDE)

Joana e Lívio dançam uma coreografia ao som de “Vem Galopar (Juliette)” em frente à câmera do celular gravando um vídeo para o Tik Tok. Eles sarram a bunda uma com a do outro.

JOANA: Só você mesmo pra me fazer tão feliz assim, meu velho babão!

LÍVIO: Então por que você não foge logo comigo, hein?! Estou cansado daquele hotelzinho mequetrefe que estou hospedado.

JOANA: Cê sabe que eu tenho minhas contas com o Pierre. Se pelo menos eu já tivesse a escritura da separação de bens…

LÍVIO: O que eu tenho dá pra nós dois. Meu viveiro é um sucesso lá no Acre. E olhe que eu pensei que minha vida estivesse acabada depois que fui preso a mando de uns estadunidensezinhos de araque! Mas felizmente a sorte sempre esteve ao meu lado, ou melhor, as leis brasileiras.

Joana joga o homem na cama enquanto acopla as pernas sobre ele.

JOANA: Você só elogia o Brasil porque tem dinheiro. E esqueça essa história de juntar os trapos. Logo, logo darei um perdido no Pierre. Eu tô com a faca e o queijo na mão. Já nadei demais pra morrer na praia.

Pierre abre a porta com força e vê desacreditado a cena. As almas de Joana e Lívio saem do corpo.

PIERRE (SÉRIO): Pelo visto você vai morrer é naufragada, Joana.

(CENA 4/ORTOESTÉTICA BAFO DE BODE/EXTERIOR/TARDE)

Mariana e Isabel caminham.

MARIANA (GAGUEJANDO): Nossassa! Me sinto rerelovada.

Ela solta um largo sorriso exibindo o novo dente feito de ouro.

ISABEL: Eu imagino! E perdão pelo prejuízo. Não vai demorar pra você voltar a falar como antes.

MARIANA (GAGUEJANDO): Eu queque agradeceo. Sempre quis ter um denten de oulo.

ISABEL (RINDO): A melhor coisa dessa confusão toda foi a gente ter se conhecido. Tenho tanto pra te perguntar, principalmente sobre como você atura a megera da Joana.

Isabel chama a atenção de um táxi, que prontamente se aproxima delas.

MARIANA (GAGUEJANDO): Quandu eu estiver com a dicção memememelhor, te falu.

Isabel e Mariana entram no veículo.

MARIANA (GAGUEJANDO): Preciciso voltar pra papadearia.

ISABEL: Desse jeito? Você vem é comigo!

MARIANA (GAGUEJANDO): Cococomo?!

ISABEL: Vai me dizer que também não tá curiosa pra ver a queda da bruaca de perto? Motorista, vá o mais rápido que puder pra Mansão Fonseca!

ITALIANO: No te preocupes, madame! Vamo-nos!

O automóvel fumega com a música “De Graça ou Pagando (Grelo)” ao fundo.

(CENA 5/MANSÃO FONSECA/QUARTO/INTERIOR/DIA)

Joana se levanta num pulo.

PIERRE (SÉRIO): Como você pôde?

JOANA (NERVOSA): Pierre, eu posso explicar. 

PIERRE (GRITANDO): Explicar o que, Joana?! Quer me dizer o que é um mais um?

JOANA (CHORANDO): Você não tá entendendo, esse tarado invadiu minha casa. Ele abusou de mim, amoreco.

LÍVIO: Oi?

PIERRE: Eu não sei como é que você tem coragem de inventar uma blasfêmia dessa! No fundo eu sempre soube, meu Deus! Aquele dia que eu vi esse vovô na garagem, se proclamando um espião da Isabel. Que espião coisa nenhuma! Bandido, isso sim. Vocês são uma quadrilha! Tava na cara: eu só tentava ignorar para não cair em uma depressão. 

JOANA (CHORANDO): Não fala isso, você é o grande amor da minha vida! Isso foi só um surto, acredita. Eu fiz isso por desespero depois que você me falou que queria se separar.

PIERRE (GRITANDO): E eu vou me separar! Mas não ache que você vai receber nenhum centavo meu com isso, Joana. Esse abestalhado aqui você não rouba mais!

Joana limpa as lágrimas do rosto.

JOANA: Quem te contou? Foi aquela vadia da Isabel, não foi? É impressionante como essa mulher gosta de ver o inferno na nossa vida!

PIERRE: Quem faz inferno na minha vida e na minha padaria sempre foi você! Agora se fosse, pelo menos, me trocar por alguém bonito, com porte, eu até entenderia, já que não tenho muitos atributos a meu favor. Mas me botar chifre com um velho que parece que fugiu do asilo? Essa é demais!

LÍVIO: Escuta aqui, meu senhor. A Joaninha me ama, muito mais do que você. Tu é um frouxo, fraco, nasceu pra ser corno…

Pierre voa para dar um soco em Lívio, mas é impedido por Joana.

LÍVIO: A Joana merece alguém que saiba atender às suas necessidades. 

PIERRE: Cala a boca, seu velho miserável!

JOANA: Para, Pierre! Eu te amo, não ouve o que esse maluco diz.

LIVIO: Ah, é, vai ser assim, Joana? Pois já que esse esclerosado não fala coisa com coisa, fica aí com teu veadinho chifrudo.

Lívio passa pela porta. Pierre e Joana o seguem.

(CENA 6/RUA/EXTERIOR/TARDE)

Um carro para. Mariana e Isabel descem.

ISABEL: Tá escutando esses gritos?

Lívio atravessa o portão. Pierre vem logo em seguida, com Joana à tira-colo.

JOANA (CHORANDO): Pierre, por tudo o que é mais sagrado, me perdoa! Olha como você está bonito! Isso tudo é para mim, a sua mulher.

PIERRE: Vai pedir perdão pro amor da tua vida, aquele ali que tá indo embora. Porque a mim você nunca amou. Eu posso ser feio, mas burro não sou. Sabe como eu tô me sentindo agora? Um passarinho fora da gaiola. É isso que você é Joana: uma chave de cadeia, ou melhor, a própria cadeia.

Pierre se vira e bate o portão na cara da vilã.

JOANA (GRITANDO): Pierre! Me perdoa, pelo amor de Deus! Eu te amo, não vou saber viver sem seu rocambole. 

ISABEL (RINDO): Hahahaha! Essa cena eu paguei pra ver de camarote!

Joana identifica as duas mulheres a observando e expressa fúria.

JOANA: As duas mulheres que roubam maridos alheios juntas. Vocês parecem até ser a mesma pessoa. Sabia que tinha o dedo podre de vocês nessa merda toda. É isso que só sabem fazer: cagar nos outros. 

ISABEL: Linda, quem parece que fez cocô aqui é você. E ainda tá se lambuzando na bosta.

Joana bufa e corre como uma leoa em direção à Isabel. Mariana se joga em sua frente e segura a inimiga.

MARIANA (GAGUEJANDO): Chamama a poliça, Dona Isabel. Isso é agressão!

ISABEL: É isso que eu vou fazer agora. Minha maior felicidade vai ser ver você no xilindró.

Joana corre para fugir. Mariana no seu percalço. Elas entram em um beco.

MARIANA: Joana, espere. Eu posso te dar o que você quer. 

JOANA: O que, garota?

MARIANA: Nós duas não temos nada em comum, mas se tem uma coisa que eu prezo é pela justiça. Vou te ajudar a receber uma pensão do Seu Pierre.

JOANA: Como assim?

MARIANA: Não posso permitir que uma pessoa fique a Deus dará. Nem o Seu Pierre vai querer que isso aconteça, mas eu posso ser a brecha pra que isso ocorra com mais facilidade.

JOANA (INTRIGADA): E o que você ganha com isso?

MARIANA: Nada. Apenas a certificação de que ajudei alguém que precisa. Por favor, acredite em mim. Meu sonho sempre foi estar ao lado da minha ídola influencer: Joana Fonseca.

Joana se mostra atordoada, se vira e some de vista. Mariana solta um sorriso satisfeito. Isabel chega.

ISABEL: Onde ela está?

MARIANA (GAGUEJANDO): Fofoi mais rápida que eu…

Isabel fica preocupada. O dia anoitece ao som de “Até Você Voltar (Seu Desejo)”.

(CENA 7/TORTILETE/ESCRITÓRIO/INTERIOR/NOITE)

Isabel entra, devastada.

DETETIVE JÚLIO: Tá tudo bem? Parece pálida. 

ISABEL: Não. Tem um perigo à solta e isso não é nada bom.

DETETIVE JÚLIO: Do que está falando?

ISABEL: Um demônio rondando as ruas dessa cidade e ele se chama Joana.

DETETIVE JÚLIO: Joana? A esposa do seu ex-patrão?

ISABEL: Essa diaba mesmo. Olha, agora mais do que nunca preciso de ti. Se acontecer alguma coisa comigo ou com meu filho, você será a única testemunha e poderá desvendar o mistério. 

Detetive Júlio fica pensativo.

(CENA 8/MANSÃO FONSECA/JARDIM/EXTERIOR/NOITE)

Pierre traz dezenas de malas com os objetos e roupas de Joana e as joga na calçada. Ele pega o celular e liga para Mariana.

PIERRE (COM O TELEFONE): Você poderia vir aqui agora?

(CENA 9/HOTEL SONHO MEU/QUARTO/INTERIOR/NOITE)

Lívio ouve a música “Faz Meu Pau de Elevador (Anônimos Records)” em fones de ouvido. A porta bate, ele não escuta. Em seguida, a passagem é arrombada por Joana. Estremecido, Livio tira os fones.

LIVIO: Joaninha, que milagre te ver por aqui! Não quer entrar e tomar uma xícara de café?

Joana dispara um tapa no rosto de Lívio, que sente a dor com um grito. 

(CENA 10/PRESÍDIO MARIA MOLE/CELA/INTERIOR/NOITE)

Gino está de cabeça baixa, sentado no chão.

INÍCIO DE FLASHBACK 📽

Isabel olha nos olhos de Gino.

GINO: Só saiba que eu te amo muito, Isabel.

Ele beija a janela por dentro do automóvel, que parte.

FIM DE FLASHBACK 📽

Um detento se aproxima do padeiro.

PRESIDIÁRIO 1: Essa noite, pelo esgoto.

Gino consente, apesar de sentir receio com a informação. Um outro preso recebe uma mensagem no celular. 

PRESIDIÁRIO 2: Haha! Eu já tenho meu primeiro trampo assim que sair.

PRESIDIÁRIO 3: Qual é a gata?

PRESIDIÁRIO 2: Não é isso, doidão! Vou receber uma bufunfa.

PRESIDIÁRIO 3: Ah, já vi que alguma alma vai penar. Haha!

PRESIDIÁRIO 2: Tenho até o nome completo da sortuda: Isabel Mendes de Sousa.

Gino se assusta. 

GINO (PENSAMENTO): A Isabel?!

(CENA 11/HOTEL SONHO MEU/QUARTO/INTERIOR/NOITE)

LÍVIO: Pronto, queridinha! Já entrei em contato e está tudo acertado, não precisa mais se preocupar. 

JOANA: Pelo menos pra isso você serve.

LÍVIO: Eu achava que Joana Fonseca nunca tivesse coragem de mexer com sangue.

JOANA: Tudo tem uma primeira vez. Aquela vaca de Belinha já deu motivos de sobra pra que eu tomasse essa providência.

LÍVIO: Pra mim também é novo. Antigamente eu só botava passarinho pra cantar. 

(CENA 12/MANSÃO FONSECA/SALA/INTERIOR/NOITE)

PIERRE: Que bom que veio. Essa noite seria difícil ficar só. Sinto muito pelo seu estado bocal. Esse dente dourado só te deixou ainda mais brilhante!

MARIANA (GAGUEJANDO): Obrigagado! Sinto muito por você e sua espoposa.

PIERRE: Pois é. Apesar de tudo, eu via a Joana como um casamento perfeito. Afinal, todo casal tem suas diferenças, embora as minhas com as delas fossem bem perceptíveis.

MARIANA (GAGUEJANDO): Não se rebaixe tanto, Pipierre! Você tem o seu valour. E eu não tô dizendo isso só porqueque você mudou o cabebelo, as roupas… Tudo bembem que às vezes você pode ser um pouquiquinho preconceituososo, mas nada é sem defeitos. Vai ver você tinha essesses pensamentos por influência da Joana.

Pierre submerge no olhar de Mariana. 

PIERRE: Mari, sei que é muito cedo, mas se tem uma coisa que eu aprendi agora é que nunca devemos deixar o tempo passar sem fazer o queremos. Digo isso porque vivi esses anos todos com a Joana, mesmo sabendo que ela não me amava, apenas por osmose.

MARIANA (GAGUEJANDO): O queque quer dizer, Seu Pierre?

PIERRE: Aceita namorar comigo?

Mariana internamente sucumbe de felicidade.

MARIANA (GAGUEJANDO): Bom, não é mumuitoto cecedo? 

Com a música “Meu Grande Amor (Renato Terra)” ecoando, ele arranca um beijo da amada, que geme com a dor da cirurgia dentária.

PIERRE: Desculpa.

MARIANA: Eu te amo.

Eles tocam novamente os lábios.

(CENA 13/ESGOTO/BUEIRO/INTERIOR/MANHÃ)

No raiar do dia, fugitivos da prisão se esgueiram. Gino está entre eles.

PRESIDIÁRIO 1: Jamanta disse que a barra tá livre lá em cima.

GINO: Jamanta?

PRESIDIÁRIO 2: É o vigia do presídio.

PRESIDIÁRIO 3: Vamos, maricas! Querem morar com os ratos e as baratas, é?

Eles escalam e saem pelo buraco, dando de cara com a rua.

PRESIDIÁRIO 2: Liberdade!

PRESIDIÁRIO 3: Corre! Corre! Corre! 

Eles avançam por terrenos baldios.

PRESIDIÁRIO 2: E aquela tua parada, ainda tá de pé?

PRESIDIÁRIO 3: Ô, se tá! 

Um deles quebra a vidraça de um carro estacionado, entra e o liga juntando os fios condutores.

PRESIDIÁRIO 2: Eu posso ir contigo? A gente racha! Eu seguro ela e você puxa o gatilho, que tal?

PRESIDIÁRIO 3: Não vem com esperteza não. E o trabalho precisa ser bem feito, se não o Lívio queima meu couro.

Gino ouve tudo com temor. Os ladrões partem. Outro fugitivo aparece dirigindo também um veículo.

PRESIDIÁRIO 1: Tá tudo bem, amigão? Eu te dou uma carona!

Gino entra apressadamente.

(CENA 14/TORTILETE/VENDA/INTERIOR/MANHÃ)

ISABEL: Está uma belezura, Felício! Nem parece que aqui aconteceu uma tragédia. 

FELÍCIO: Pois é! É uma pena que parece que os clientes não vão voltar mais.

ISABEL: O que mais me entristece é lembrar que o Gino está preso de novo, e por minha culpa. Ele mesmo disse que não queria voltar a cozinhar depois do que houve na Rocambole. 

FELÍCIO: Às vezes penso que o Gino que erra a mão nas receitas ou só é louco mesmo.

ISABEL: Louco é você que ainda não está lá fora chamando a clientela. Anda!

Felício se retira, pulando. Detetive Júlio se aproxima. 

DETETIVE JÚLIO: Dona Isabel? Acho que posso ajudar a soltar o acusado. Tenho doutorado em advocacia. 

ISABEL: Nossa, você realmente caiu do céu! Afinal, o que te trouxe aqui?

DETETIVE JÚLIO: Como detetive nato, assim como meu pai já foi, eu vou atrás dos problemas mais difíceis de solucionar. Eu vi a notícia sobre a contaminação na Padaria Rocambole. Me interessei em descobrir o que provocou isso tudo e porque até agora não descobriram o causador de tamanha indigestão generalizada.

ISABEL: Então você é da vigilância sanitária como eu suspeitava.

DETETIVE JÚLIO: Não literalmente, mas eu tenho que ter meu ganha pão. 

ISABEL: Bom, enquanto você fica aí brincando de Scooby-Doo, eu tenho que levar meu filho à escola. Até!

Isabel sai em direção à rua. Ela vai caminhando pelas calçadas. Uma câmera a persegue como se alguém realmente estivesse a seguindo. Esse movimento deixa Isabel desconfiada e agitada. Ela olha para trás para ver se vem alguém. Atravessa a rua. Respira ofegante. Sua pupila dilata. Ela sente como se a qualquer momento alguém fosse pular em seu cangote. De repente, um carro quase a atropela e ela é puxada à força para dentro do veículo por alguém não identificado. Por instinto, Isabel descobre o rosto do meliante.

ISABEL (CHOCADA): GINO?!

Gino a olha com frenesi.

A IMAGEM CONGELA EM GINO E SE FRAGMENTA EM VÁRIAS CURVAS DE UM ROCAMBOLE. 🍥