ROCAMBOLE - CAPÍTULO 10
ROCAMBOLE - CAPÍTULO 10
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS 🟠
(CENA 1/ROCAMBOLE/ESCRITÓRIO/INTERIOR/MANHÃ)
PIERRE: Seu dente caiu?
Mariana cobre a boca.
MARIANA: Isso é problema meu.
LAURA: Amiga, deixa eu te ajudar…
MARIANA: Tá tudo bem. Eu adorei te ver, mas é melhor você ir embora.
Ela se despede e se retira. Pierre a segue.
CLODOVIL: Tão jovem…
LAURA: Oi?
CLODOVIL: Sabe que quando eu comecei a usar prótese dentária ainda era um tanto enxuto.
LAURA: Que velho babão!
CLODOVIL: Acredite, sou capaz de fazer da sua sopa um belo jantar.
LAURA: Eu tô solteira, mas não sou pousada pra qualquer um morar. Passar bem!
A mulher sai de cena.
CLODOVIL: Você ainda será minha esposa. Oh, que mulheril de virilidade!
Ele se lambe.
(CENA 2/TORTILETE/VENDA/INTERIOR/MANHÃ)
Um homem se aproxima do balcão, onde está Felício.
HOMEM: Tem rocambole?
FELÍCIO: Acabou de sair do forno.
Felício o serve.
FELÍCIO: Foi feito pelo nosso ilustríssimo chefe Gin… Ginevalda.
HOMEM: É homem ou mulher?
FELÍCIO (MENTINDO): Mulher! Ginevalda tem mãos de fada.
O vendedor suspira de nervosismo. O homem come.
HOMEM: Que sabor é esse?
FELÍCIO: Ginevalda deu um toque apimentado.
HOMEM: Meio agridoce, diferente.
FELÍCIO: Sabia que ia amar!
(CENA 3/TORTILETE/COZINHA/INTERIOR/MANHÃ)
GINO: Como está a recepção da nova iguaria?
FELÍCIO: Estão devorando. Você sabe enfeitiçar o paladar do povo!
GINO: Queria que fosse eu, mas tô quase acreditando em forças sobrenaturais… Você não revelou a ninguém minha identidade, né? Todos sabem que eu trabalho aqui desde a festa de inauguração, mas jamais podem suspeitar que sou eu o padeiro da Tortilete.
FELÍCIO: Tudo certinho. Ginevalda já pegou na boca de geral.
(CENA 4/TORTILETE/VENDA/INTERIOR/MANHÃ)
Diversas pessoas ingerem do rocambole com pimenta. Minutos depois, alguém corre em direção ao banheiro. Logo há uma verdadeira maratona ao toalete, formando uma fila indiana.
HOMEM (GRITANDO): Não vou segurar, tá na portinha!
O homem descarrega excrementos de seu orifício anal, o sujando por completo. Ao verem aquilo, todos têm um desarranjo generalizado de vômitos e defecações. Felício sai da cozinha e é surpreendido por gotículas de fezes que atingem seu rosto.
(CENA 5/ROCAMBOLE/ESCRITÓRIO/INTERIOR/TARDE)
Pierre se aproxima de Mariana.
PIERRE: Podemos conversar?
MARIANA: Por que foi tão rude na frente da Laura?
PIERRE: Não estou acostumado com gente como ele.
MARIANA: É ela! E ela é como qualquer pessoa.
PIERRE: Me perdoa!
MARIANA: Não é a mim que você deve desculpas.
PIERRE: Quer dizer que… Ela é um traveco?
MARIANA: Se diz transexual, travesti, transgênero… Mas isso nem importa pra você, é tudo farinha do mesmo saco, tudo lixo.
PIERRE: Eu não disse isso.
MARIANA: Mas pensou.
PIERRE: Olha, Mari, espero ter oportunidade pra me retratar com a Laura. Eu fui imaturo, baixo, pequeno. Sou leigo com esse negócio de opção sexual.
MARIANA: Antes fosse apenas uma opção. Entenda uma coisa, Pierre: todos os seres humanos carregam algo de diferente dentro. Somos racionais, passionais, estimulantes… Ninguém nasce com uma regrinha estabelecida igual máquina que sai de fábrica. Mesmo que não saibam, todos têm um fetiche, uma atitude, um pensamento, um desejo que aos olhos alheios sofreria retaliação. Obedecer o instinto, para não viver na amargura da repreensão e negação da existência, é essencial na existência de quem não se encaixa nos padrões. Se alguém nada faz contra você, por qual motivo você quer que ele morra?
Pierre se cala. Marejando os olhos, ele abraça fortemente Mariana, também lacrimejando.
PIERRE: Eu vou falar com a Laura.
MARIANA: Não precisa. Apesar de tudo, você não expôs preconceito na frente dela. Talvez ela nem percebeu a razão da grosseria. Mas que as minhas palavras não tenham sido proferidas em vão para ti.
Mariana se retira. Pierre se mostra profundamente abalado.
(CENA 6/TORTILETE/VENDA/EXTERIOR/TARDE)
Isabel desce de um táxi e se depara com uma viatura estacionada. Há um verdadeiro cenário de guerra: objetos quebrados, mesas reviradas, restos de alimentos e dejetos humanos. Ela avista Gino sendo algemado e colocado no interior do carro.
ISABEL (CHOCADA): Gino? Meu Deus! O que aconteceu com a Tortilete? Por que você tá sendo preso?!
POLICIAL: Parece que Dona Ginevalda está envenenando pessoas mais uma vez.
Isabel olha nos olhos de Gino.
GINO: Só saiba que eu te amo muito, Isabel.
Ele beija a janela por dentro do automóvel, que parte. Isabel sente uma avalanche de emoções. Felício se aproxima.
ISABEL: Foi o rocambole outra vez?
O rapaz confirma com a cabeça. Um carro esportivo freia frente a eles. Dele desce um homem grisalho de terno verde com uma maleta.
ISABEL: Quem é você?
HOMEM: Júlio. Detetive Júlio.
Ele beija a mão de Isabel e parte para o interior da padaria, tapando o nariz.
DETETIVE JÚLIO: Já vi que vai ser trabalho de elefante.
ISABEL: Você é funcionário público?
DETETIVE JÚLIO (SORRINDO): Eu farejo o perigo de longe e apareço assim, do nada, como um zumbi, pronto para causar terror…
(CENA 7/TORTILETE/ESCRITÓRIO/INTERIOR/NOITE)
DETETIVE JÚLIO: O meu pai tinha grande personalidade, apesar da aparência fúnebre. Se meteu em investigações na Paraíba, mas infelizmente desapareceu ao se aventurar pelos mares da Bahia. Prefiro acreditar que Iemanjá o levou para uma dimensão melhor que esta. Como filho, tive que assumir o seu posto. Devo honrar o seu nome.
ISABEL: Minha cabeça dói! Surreal ele ter sido detetive mesmo depois de morto. Bom, vou para casa descansar. Tive um dia maluco e amanhã tem tudo pra ser pior. Pretendo jogar verdades na cara de um sujeito que se faz de sonso... Tomara mesmo que você seja alguém que caiu do céu para me ajudar! Além disso, sabe que vou ter que pagar um dente novo para uma moça?
DETETIVE JÚLIO (INTRIGADO): Como?!
ISABEL: Esqueça. Tenha uma boa noite.
O detetive lhe saúda e ela vai embora. Logo ele se aconchega em um sofá macio e ronca como bezerro.
(CENA 8/RUA/EXTERIOR/NOITE)
O dia amanhece ao som de “Até Você Voltar (Seu Desejo)”.
(CENA 9/MANSÃO FONSECA/SALA DE ESTAR/INTERIOR/MANHÃ)
Joana desce as escadas.
JOANA: Amoreco, já acordou?
Ela o beija e serve-se de café.
PIERRE: Eu que o diga: o que faz acordada a essa hora da madrugada? Joana Fonseca só levanta depois das dez.
JOANA (RINDO): Deixe de implicância! Só queria falar com você, estamos tão distantes. Consegui te arrastar pro quarto naquele dia com muito esforço… Como vai a Rocambole? Novidades de algum funcionário ou conhecido?
Pierre encara Joana fixamente.
PIERRE (SÉRIO): Joana… Acho que já está na hora de entrarmos com a papelada do divórcio.
Joana deixa cair a xícara, que se estilhaça.
JOANA (INCRÉDULA): O que disse?
PIERRE: É isso mesmo: eu quero me separar de você.
A saliva da ricaça arranha a goela. Pierre não dá margens para indagações e se retira.
(CENA 10/SALÃO OLHO DE SOGRA/INTERIOR/MANHÃ)
Pierre adentra.
PIERRE: Eu gostaria de mudar radicalmente.
CABELEIREIRA LEILA: Te transformarei num verdadeiro pão!
São mostrados diversos takes de Pierre cortando o cabelo, fazendo a barba e limpando a pele. Ao final, flagramos um visual de baixo para cima de seu figurino.
CABELEIREIRA LEILA: Isso parece uma cena da novela “Beto, O Feio”. Que pitel!
O empresário passa a mão no rosto.
PIERRE: Parece mágica! Você caiu do céu.
Ele a beija e paga com um apanhado de notas. Leila desmaia tamanha euforia.
(CENA 11/ROCAMBOLE/ESCRITÓRIO/INTERIOR/TARDE)
Pierre se aproxima.
CLODOVIL: Pois não? O que deseja?
PIERRE: Não está me reconhecendo, Clodovil?
CLODOVIL: Seu Pierre?! Que milagre plástico foi esse?!
PIERRE: O que?
CLODOVIL: Bom, já dizia minha mãezinha: viva à harmonização facial!
Mariana chega.
MARIANA: Pierre?!
Eles se comem pelos olhos com a música “Meu Grande Amor (Renato Terra)” ao fundo.
MARIANA: O senhor está belíssimo.
PIERRE: Obrigado, Mariana.
Isabel surge.
ISABEL: Pierre!
PIERRE: O que você quer?
ISABEL: Olha só! Vejo que está muito bem preparado para o que vim lhe mostrar.
Isabel saca o celular e mostra a gravação de Lívio escalando a sacada do quarto de Joana e em seguida as sombras de ambos praticando atos sexuais. Pierre fica branco.
ISABEL: E então, ainda acredita que aquela vagabunda da sua mulher vale alguma coisa?
Pierre esboça um semblante desacreditado.
A IMAGEM CONGELA EM PIERRE E SE FRAGMENTA EM VÁRIAS CURVAS DE UM ROCAMBOLE. 🍥
