Yemanjá - Capítulo 9 [Penúltimo]

 




Yemanjá - Capítulo 9


(Cena 01/Praia/Exterior/Dia)


Um carro vem correndo e para num piscar de olhos.


RENÊ: Ai, já não era sem tempo, Rosalb… Mas, essa mulher de novo?!


Dália arrasta Rato pelo braço do veículo até próximo do barco em que Renê e a turma estão.


DÁLIA: Escute-me, professor…


RATO: É Renê o nome dele, nem isso a senhora sabe…


DÁLIA: Quieto, Renato! Ô, querido, Renê…


O professor sorri sem graça.


DÁLIA: Por favor, o Rato também vai para essa excursão.


ROSALBA (GRITANDO): Mas o quean?!


Rosalba chega pinicando, arrastando Marcelina.


ROSALBA (GRITANDO): Esse demônio nunca que vai andar de navion junta da minha filhian!


RENÊ (NERVOSO): Ora, Rosalba, isso são horas?! E que peruca de rockeira é essa?! Que sotaque descarado é esse?!


ROSALBA (INTRIGADA): Renean?! Não era pra isso ter acont… My name is Taís… Taís Power.


RENÊ (INTRIGADO): Ma como é que é?!


Rosalba delira.


DÁLIA: Mas de onde saiu essa maluca?!


RATO (SARCÁSTICO): É a amante do Diretor Cornélios…


MARCELINA: Mentiroso!


ROSALBA (GRITANDO): Mas olhe aqui, mais respeito comigo, seu almofadinha! Até outro dia eu era sua professora… Se bem que mesmo quando eu era, tu nunca me respeitou! Tal flilho, tal mãe pra serem mal educados…


DÁLIA (NERVOSA): Eu não admito que tu me ofenda desse jeito, senhora!


ROSALBA (GRITANDO): Senhora?! Senhora?! Eu ouvi bem?! Senhora?!


Todos ali dispostos ficam alterados. Rosalba se move até as regiões dianteiras de Dália e lhe dispara um tabefe.


ROSALBA (GRITANDO): Isso é pra você aprender… Etarista comigo não se cria!


MARCELINA (GRITANDO): Mamãe?!


RENÊ (GRITANDO): Rosalba!


Num movimento instintivo, Rato voa em cima de Rosalba. Os alunos e marinheiros que já estão à bordo da embarcação acompanham tudo como uma batalha épica.


MAURO (GRITANDO): Acerta o quengo dessa velha, Ratinho!


FELIPE (GRITANDO): É, faz ela pagar por todos os chifres no Cornélios!


Mas antes que Rato encostasse na ex-professora, Renê o aparta.


RATO (GRITANDO): Sua maluca, quem você pensa que é pra bater na minha mãe?! Vagabunda!


Com todo aquele furdunço, Rosalba delira sendo puxada para longe por Marcelina.


RATO (GRITANDO): Me solta! Me solta agora!


Renê para de segurar Rato, que trata-se de acudir sua mãe, com um abraço. Apesar da agressão, Dália sente um enorme sentimento de carinho e conforto.


DÁLIA: Meu filho…


RATO: Eu te amo, mãe! Não fica assim…


RENÊ (AFLITO): Gente, me desculpa, eu não sei nem o que dizer…


Renê resolve não atrapalhar o momento de amor maternal.


RENÊ (PENSAMENTO): Aliás, eu sei sim…


O professor caminha em direção à Rosalba, com expressão de ira, mas é impedido pelo capitão da embarcação.


VELEJADOR: Nós precisamos partir ou não vamos conseguir retornar antes do pôr do Sol…


Renê percebe a gravidade da situação, pensando em mil e uma coisas ao mesmo tempo.


RENÊ (PREOCUPADO): Nós já vamos…


(Cena 02/Casa de Raíssa/Sala/Interior/Dia)


Vitória sai de seu quarto segurando uma caixa. Bento pula ao vê-la.


BENTO: Mainha? A senhora tá melhor?


VITÓRIA: Ainda não, mas vou ficar. Você, venha comigo!


BENTO: Mas pra onde, mãe?!


VITÓRIA: Não interessa! Eu sou sua mãe e tô mandano…


BENTO: Mas pra onde a gente vai?!


VITÓRIA: A um local especial fazer uma coisa que lhe diz respeito, a você e aos seus irmãos… Mas como eles não tão aqui, você vai servir de testemunha…


BENTO (DESANIMADO): Ah, não! Logo hoje que vai lançar Divertida Mente 2, o filme mais aguardado do ano…


VITÓRIA: O quê?! 


BENTO: É, eu tô muito ansioso pra assistir! Ia até pedir pra senhora deixar eu ir com meus amigos no cinema. Eles disseram que vão pagar meu ingresso… Eles sabem que a gente é pobre…


VITÓRIA (SÉRIA): Bom, pensando melhor… Os meus sentimentos tão me dizendo que é melhor você ir ver esse filme… Não precisa ir comigo não.


BENTO: Tem certeza? Não vai precisar de ajuda?


VITÓRIA: Absoluta! Ande, ande, vá, vá, vá! Antes que eu desista…


BENTO (FELIZ): Obrigado, mainha!


Bento beija a mãe na bochecha. 


BENTO: Eu tô indo lá, tá bom? Fica tranquila, não chore mais não…


VITÓRIA (GRITANDO): Eu tô bem, menino! Anda!


Bento passa como um foguete pela porta. Vitória solta risadas sinceras. Em seguida, ela põe a caixa em cima do sofá e retira de dentro o esqueleto de um crânio humano.


VITÓRIA (PENSAMENTO): Desgraçado… Nem depois de morto tu deixa minha família em paz, Tobia. Mas tu vai ter o que merece, com a ajuda de Xangô…


Ela guarda novamente a caveira. Logo depois, veste-se com uma roupa discreta e um capuz sobre a cabeça, saindo da residência.


(Cena 03/Rua/Exterior/Dia)


Vitória continua carregando os restos mortais em sua mão, disfarçando. Gorete a vê passando.


GORETE (GRITANDO): Ei, vizinha, e a minha roupa pro arraiá de domingo?!


VITÓRIA (GRITANDO): Depois eu ajeito, Gorete, depois…


A mãe de Raíssa apressa o andar.


GORETE (INTRIGADA/COCHICHANDO): Depois, é? Essa mulherzinha tá muito esquisita… Além de ser macumbeira, agora deu pra andar toda de preto igual o próprio diabo… Deus que me perdoe!


Ela se benze. A música “Jolene (Dolly Parton)” ganha ascendência sonora ao capturar diversos pontos da cidade finalizando com uma click da vastidão do oceano sob um céu parcialmente nublado.


(Cena 05/Colégio Expoente/Diretoria/Interior/Dia)


Cornélios se senta em sua poltrona. Ele recebe uma ligação. 


CORNÉLIOS (TELEFONE): Alô? Renê?! De onde você está falando?! Que número é esse?!


RENÊ (VOZ): Eu pedi ao capitão pra usar o telefone do barco, diretor… Nós já estamos partindo.


CORNÉLIOS (TELEFONE): Já não era sem tempo, né, não?! E a Raíssa?


RENÊ (VOZ): Foi exatamente por isso que eu liguei… A Raíssa não veio, senhor.


CORNÉLIOS (GRITANDO/TELEFONE): Como não?! Essa menina quer me enlouquecer?!


Alguém bate na porta. O diretor se assusta. 


CORNÉLIOS (TELEFONE): Escuta, Renê, vou ter que desligar…


A porta se abre, sem que possamos vê-la quem a empurrou.


CORNÉLIOS (TELEFONE/CONVICTO): Irei preparar imediatamente a cartilha de demissão de uma sujeitinha…


Renê se mostra ofegante com o que é dito, mas logo a ligação é finalizada. Cornélios vai até a entrada do escritório.


CORNÉLIOS (SÉRIO): Pois não? Entre…


Uma pessoa vestida com um blazer e chapéu de máfia adentra. Ela se senta. A câmera visualiza-o de costas.


VOZ: E então, senhore? Onde e quande será feite o trabaje?


A direção dá um giro 360°, relevando o rosto do visitante. 


CORNÉLIOS (SORRINDO): Detetive Júlio… É um prazer recebê-lo aqui, no Colégio Expoente!


DETETIVE JÚLIO (CUSPINDO/SORRINDO): O prazer é todo my, my brother!


Júlio e Cornélios se cumprimentam. Cornélios se sente enojado com a baba escorrendo pela boca do investigador, que jorra um jato do líquido bucal nas fuças do diretor. O Detetive Júlio solta um largo sorriso banguela.