Yemanjá - Capítulo 8
Yemanjá - Capítulo 8
(Cena 01/Casa de Raíssa/Quarto/Interior/Dia)
Raíssa cai no chão, enfraquecida.
VITÓRIA (GRITANDO/VOZ): Raíssa?! Filha?! Fala alguma coisa! Eu tô ficando nervosa!
Com muito esforço, Raíssa se apoia na perna da cama e absorve forças para se manter de pé. Ela caminha em direção à porta, abrindo a fechadura vagarosamente.
VITÓRIA (SURPRESA): Raíssa?! O que que tu tem?! Que bicho te mordeu?!
RAÍSSA (DESANIMADA): Não é nada, mainha…
VITÓRIA (INTRIGADA): Como nada?! E as tuas aulas? Você não vai ensinar aula hoje não, é? Olha a hora!
Vitória adentra no ambiente e verifica o celular de Raíssa, jogado no piso.
VITÓRIA (NERVOSA): Eu num acredito! Não tava nem na terceira parcela e já trincou a tela! É por isso que tu tá assim?
Raíssa toma o telefone de sua mão.
RAÍSSA (NERVOSA): Não! Ele escorregou da minha mão sem querer…
VITÓRIA (NERVOSA): Ai, minha mãe d'água! Fala logo o que tu tá sentindo, Raíssa! É aquele mal estar de novo? Quer que eu faça um chá de boldo? Você tem que parar um minuto! Naquele dia passou mal só por conta da formatura! Imagina agora que tá pegando no batente todo dia, dia e noite… Espera um cadinho que eu vou te trazer um chazinho, filh…
RAÍSSA (GRITANDO/NERVOSA): Não dá tempo, mãe!
Vitória se assusta.
RAÍSSA (NERVOSA): Eu tenho… Eu tenho que sair daqui imediatamente… Não posso faltar no trabalho hoje.
A mãe de Raíssa se coloca em frente à passagem.
VITÓRIA (NERVOSA): Daqui você não passa, daqui ninguém te tira…
As duas se encaram com semblantes afrontadores.
(Cena 02/Casa de Rosalba/Sala/Interior/Dia)
ROSALBA (GRITANDO): Filhiiiiiiiiiiiiiiiiiinhaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
Marcelina surge, atônita.
MARCELINA (ASSUSTADA): O que foi, mamãe? Você estourou meus tímpanos!
ROSALBA (GRITANDO): Isso é hora de ainda estarmos em casa, Marcelina?! Nós não vamos chegar a tempo! Cuide logo!
MARCELINA (NERVOSA): Já vou, mamãe! Só estou terminando de arrumar minha mala! São muitas maquiagens, a senhora sabe… E ainda tem o Stories do lookinho…
ROSALBA: Deixa o Stories pra depois! Nós temos que chegar no tempo certo, antes que o Renê suba no ônibus, pra que ele não me veja entrando. Você já esqueceu do nosso plano?!
MARCELINA (CONFIANTE): Claro que não, mamãe! Armar planos é comigo mesmo!
ROSALBA: Sei, sei… Só espero que você não esteja usando esse seu talento pra prejudicar ninguém, porque as coisas que a mamãe Rô te pede você tem ciência de que é pro bem da nossa família. Eu jamais faria algo errado pra prejudicar os outros!
Marcelina fica gelada.
MARCELINA (PÁLIDA): Com certeza… Eu nunca fingiria… Eu detesto fogo no parquinho…
Rosalba termina de se vestir, colocando uma peruca de cabelo arrepiado com luzes nas pontas dos fios.
ROSALBA (SORRINDO): Qualé?! Ninguém vai me notar assim… Eu não fiquei a cara da Tininha Turner?!
(Cena 03/Casa de Raíssa/Quarto/Interior/Dia)
RAÍSSA (FALANDO ALTO): Mãe, a senhora não entende… O meu emprego tá por um fio… Eu preciso ir.
VITÓRIA (INTRIGADA): Como assim?! O que foi que aconteceu?!
RAÍSSA (NERVOSA): Não dá tempo de explicar… Lembra quando eu disse que faria de tudo pra lutar pela nossa família? É exatamente sobre isso!
VITÓRIA (NERVOSA): Eu queria que você trabalhasse porque tinha medo de faltar dinheiro dentro de casa, filha! Mas agora a situação é outra…
RAÍSSA (INTRIGADA): Não sei como! A senhora vivia falando que tava sempre faltando alimento, acabando produto… E isso tudo no período em que você ainda trabalhava de empregada na vizinha… Agora nem isso e parece que tá tudo indo de vento em popa!
VITÓRIA (NERVOSA): Ah, é… É que… Eu tô pensando no seu melhor! Adianta você ir lá se matar de trabalhar nesse estado?! Ainda agora você tava com um chilique danado quando abriu a porta…
RAÍSSA (EM VOZ ALTA): Eu tô assim porque eu tô indo enfrentar o meu pior pesadelo, mãe!
Bento chega correndo e temendo o pior.
BENTO (ASSUSTADO): Ufa! Com essa gritaria, eu pensei até que fosse a polícia de novo atrás do Henrique…
Vitória se desincorpora do próprio corpo.
RAÍSSA (CHOCADA): Polícia?! Atrás do Henrique?! O Henrique foi preso?!
O smartphone de Raíssa começa a vibrar, tirando a atenção da situação. A jovem atende.
(Cena 04/Colégio Expoente/Pátio/Exterior/Dia)
RENÊ (FALANDO COM O TELEFONE): Raíssa, o que aconteceu? Cadê você? O ônibus logo, logo vai sair…
RAÍSSA (VOZ/NERVOSA): Renê, olha… Eu me atrasei aqui na condução… Mas tô saindo nestante…
RENÊ (INTRIGADO/TELEFONE): Como assim? Você não saiu ainda?
O celular desliga.
CORNÉLIOS: E então?
RENÊ: Não sei, parece que ela tá enrolada, pegou um veículo errado…
CORNÉLIOS: Oh, céus! Justo hoje…
RENÊ: Será que a gente não consegue dar uma seguradinha?
CORNÉLIOS: Te vira! Eu cansei de esperar aqui em pé… Tô indo pra dentro.
Cornélios se manda. Renê se mostra impaciente.
RENÊ (PENSAMENTO): Ai, ai, ai! Nada da Rosalba também. Eu falei que era melhor que eu trouxesse a Marcelina, mas adianta discutir com aquela mulher?! Quando me lembro do papelão de ontem, parece que tô vivendo tudo de novo…
MAURO (RINDO): Aê, tio Renê! A Albinha fica toda… Como é que é mesmo?!
FELIPE (CANTANDO): Eu fico toda mijada!
RENÊ (FURIOSO): Ora, seus pivetes…
Mauro e Felipe pulam para dentro do ônibus. Renê se recompõe. Um carro esportivo magnânimo estaciona no arredor. Dele descem, Dália e Rato.
DÁLIA: Bom dia!
RENÊ: Bom dia!
DÁLIA: Vim trazer a criança pra aula… De agora em diante vai ter de ser assim… Até ele tomar juízo na vida.
RENÊ: Ah, mas senhora Dália… Perdão, hoje não tem aula.
DÁLIA: Não? Hoje é feriado?
RENÊ: Ah, não, não… É que não sei se a senhora percebeu, pelo ônibus, a turma inteira vai viajar hoje…
DÁLIA: Viajar? Para onde? Não me avisaram de nada
RENÊ: Uma excursão de barco para o mar… O comunicado foi enviado há umas duas semanas.
DÁLIA: Você disse duas semanas?
Dália encara ferrenhamente Rato, que disfarça sua visão. Felipe e Mauro veem da janela do ônibus o amigo.
MAURO: Olha só aquilo, parceiro!
FELIPE (GRITANDO): Rato!
MAURO (GRITANDO): Ratinho! Eu gosto assim, amostradinho!
O filho de Dália devolve o aceno com uma continência. Dália observa a cena com uma cara emburrada.
(Cena 05/Casa de Rato/Cozinha/Interior/Dia)
Cida acende uma vela em frente a uma imagem de Jesus.
CIDA: Ai, meu Jesus Cristinho! Protege o meu Ratinho! Faça ele prestar atenção nas aulas dele que é o mais importante, se tornar um doutor…
De repente, um vento forte bate na janela soprando a chama do castiçal.
CIDA: Valha, meu Deus! Será que vai chover? Mas não deu nada na previsão do tempo de onte…
Maria Aparecida liga a televisão e se depara com um telejornal.
JORNALISTA (TELEVISÃO/SOM): Atenção, atenção! Notícia urgente! Um vendaval se aproxima depressa do litoral norte de Salvador. São esperados mais de 500 milímetros de água que caíram em um intervalo curto de tempo. Protejam-se! Não saiam de casa, e acima de tudo: não andem de barco hoje. Nós vamos agora mostrar o pronunciamento do presidente Lul…
CIDA (ASSUSTADA): Cruz credo! Inda bem que eu vou ficá aqui, bem quietinha… Coitada da Dona Dalila, quer dizer, Dália… Vai se molhar todinha com aquele carro convertido dela… Quem já viu, automóvel não ter teto?!
Cida ri de si mesma.
CIDA (GRITANDO): Ai, senhor! As roupas do varal! Corre! Me ajuda aqui, Silas…
(Cena 06/Casa de Raíssa/Sala/Interior/Dia)
VITÓRIA: Você tem certeza que vai sair assim mesmo, Raíssa?
RAÍSSA: Mãe, depois eu quero ter com uma conversinha boa com a senhora.
Vitória roi as unhas.
VITÓRIA: E isso aqui? Tava largada no chão do seu quarto também…
Raíssa confere a imagem de sua fisionomia quando criança na praia, agarrada na mão de Henrique, também mais novo.
RAÍSSA (SÉRIA): Eu vou levar comigo…
Ela coloca a foto em sua bolsa.
BENTO: Já vai, maninha?
RAÍSSA: Já, Bentinho… E olha, Dona Vitória, me mande depois o número da tia Avani. Quero ouvir pela voz dela se o Henrique foi mesmo pra Feira de Santana… E você, Bentinho, larga um pouco esse Free Fire, tá bom?
BENTO (CABISBAIXO): Tá… Eu vou tentar…
RAÍSSA: A verdadeira batalha que devemos venerar é a de um lápis e papel na nossa mão.
Raíssa passa a mão na cabeça do irmão. Em seguida, abraça de forma estarrecedora Vitória.
RAÍSSA: Te amo, mainha. Amo vocês duas!
VITÓRIA (SORRINDO): Eu vou pedir ainda mais bonança pra ti, minha linda! A energia de Oxalá vai iluminar o teu caminho e a Pomba Gira despertará sua força interior te fazendo brilhar…
RAÍSSA: Eparrey, Iansã! Que a verdade venha como uma tempestade! Kaô Kabecilê, Xangô! Que a verdade venha e a justiça seja feita!
VITÓRIA: Odoyá, minha mãe Iemanjá! Epa Babá! Protege minha família envolta pelas tuas águas efervescentes e poderosas… Guia minha menina no destino que ela tenha escolhido!
RAÍSSA: Odoyá, mãe d’água! Eu sou filha do oceano. Confio nas tuas marés, agarro-me no leme do barco que Iansã sopra e não temo as ondas que a senhora faz surgir… Odoyá, Yemanjá! Odò Ìyá!
Raíssa e Vitória se beijam. Ambas trocam olhares profundos antes de se avistarem pela última vez, até Raíssa fechar a porta e ir embora. Vitória deságua em lágrimas. Bento sente compaixão pela mãe.
(Cena 07/Casa de Raíssa/Quarto de Vitória/Interior/Dia)
Vitória entra em prantos.
BENTO (PREOCUPADO): Mainha, não fica assim…
VITÓRIA (CHORANDO): Sai daqui, Bento! Deixe tua mãe botar pra fora todas as desgraças que ela cometeu…
Bento tenta resistir, mas recua, obedecendo-a. Vitória se joga na cama, completamente arrasada. Ela passa minutos a fio jorrando litros pelos olhos. Uma mistura de ressentimentos antigos à situação atual esbravejam em sua mente. A música “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar (Odair José)” toca não só na cena, como na alma de Vitória. Ela se levanta, ainda abalada, levantando o colchão e retirando de baixo uma caixa.
VITÓRIA (CHORANDO/CONFIANTE): Eu vou acabar de uma vez por todas com essa maluquice… Pela minha integridade, pela minha família.
(Cena 08/Praia/Exterior/Dia)
Um ônibus se aproxima, com rapidez. Dele descem diversos alunos e Renê. Eles se organizam em uma fila, prontos para subir em uma embarcação atracada na costa.
RENÊ (NERVOSO/PENSAMENTO): Ai, ai, ai… Cadê Raíssa? Cadê Rosalba com a Marcelina? Aqui é o último ponto delas aparecerem…
A câmera se afasta da areia da praia em direção ao mar. Bem no meio do oceano, podemos ver o céu limpo de um dia ensolarado com apenas algumas manchas de nuvens carregadas. Navegando sem rumo, é possível ver o barquinho de flores brancas que Janaína havia colocado na água como oferta na noite anterior. Ele sacoleja com a força do ar e das ondas até se desmanchar por completo, naufragando e sumindo na imensidão do pélago.