Eternamente - CAPÍTULO 04

 


ETERNAMENTE CAPÍTULO 04


Cena 01 - Casa de Jandir [DIA]


JANDIR - Eu não estou entendendo. Você veio na minha casa às seis da manhã para tratar de um assunto que não me diz respeito. Que ligação eu posso ter com o seu filho? Hein? Por que você está aqui depois de tanto tempo? Eu quero que você seja objetiva. Por quê? 


GRAÇA |Em tom alto.| - PORQUE ELE É SEU FILHO!


Jandir cambaleia. O homem se senta sobre um sofá que está a frente de Graça.


JANDIR - Meu filho?


GRAÇA - É... seu filho!


JANDIR - Não pode ser...


GRAÇA - Não só pode como é.


Jandir se levanta e começa a andar de um lado para o outro.


JANDIR |Gritando.| - ISSO É MENTIRA!!! VOCÊ SE PROSTITUÍA!!! ESSE MENINO PODE SER FILHO DE QUALQUER UM DAQUELES HOMENS QUE VOCÊ TRANSAVA POR DINHEIRO!!!


Graça se levanta e dá um tapa em Jandir.


GRAÇA - EU NUNCA DIRIA ISSO SE NÃO TIVESSE PLENA CERTEZA! O PRESERVATIVO SE ROMPEU!


JANDIR - MENTIROSA! DESGRAÇADA! MISERÁVEL! SAIA DA MINHA CASA!


GRAÇA - EU SÓ SAIO QUANDO DISSER SE ESTÁ COMIGO OU NÃO!


JANDIR - EU NÃO ESTOU COM VOCÊ! EU NÃO CONHEÇO VOCÊ! EU QUERO DISTÂNCIA DE VOCÊ! ISSO QUE VOCÊ ACABOU DE INVENTAR FOI NOJENTO, DESCEU TODOS OS NÍVEIS!


GRAÇA - CALA A BOCA! NÃO GRITA COMIGO!


JANDIR - COMO VOCÊ QUER QUE EU REAJA?


GRAÇA - VOCÊ VAI ME AJUDAR POR BEM OU POR MAL, SABE POR QUÊ? PORQUE CASO CONTRÁRIO, VOCÊ SERÁ INDICIADO POR ESTUPRO DE VULNERÁVEL!


JANDIR - NÃO! Você se prostituía!


GRAÇA - Você sabe quantos anos eu tinha quando eu engravidei do Bruninho? Doze! DOZE ANOS! 


JANDIR - Eu não vou ceder às tuas chantagens, Graça!


GRAÇA - Pois se eu fosse você, eu pensava duas vezes! O Bruno é a prova viva disso! Você é um pedófilo e eu tenho NOJO de você! Não imagina o sacrifício que eu tive que fazer para vir até aqui, mas pelo meu filho eu sou capaz até mesmo de matar!


JANDIR - EU NÃO QUERO OUVIR MAIS NADA! SAIA JÁ DA MINHA CASA! AGORA! AGORAAAA!!!!


GRAÇA - Muito bem! Eu te darei um prazo de três dias para me procurar e você sabe o que vai acontecer se não vier ao meu encontro, não sabe? |Graça deixa um papel sobre uma estante de madeira que está no local.|


Graça se retira. Jandir se escora em uma parede e vai descendo lentamente ao som de um instrumental tenso. Lágrimas rolam pelo rosto do homem.


Cena 02 - Mansão Aquiles [DIA]


Maria e Thiago estão de malas prontas na sala da casa. Júlia desce as escadas.


JÚLIA - Ué, vocês vão viajar?


THIAGO - Júlia, meu amor... a tia Dolores faleceu, iremos passar alguns dias... talvez semanas fora. 


JÚLIA - Poxa, papai! Sinto muito! Ela ajudou a te criar, não foi?


THIAGO - Sim.


MARIA - Pensamos em levar você, mas é melhor que fique para focar nos estudos. Contrataremos alguém para lhe olhar.


JÚLIA - Já sou grandinha, não preciso de babá.


MARIA - Mas é sempre bom se precaver.


THIAGO - Vamos, amor? Estamos atrasados para embarcar.


MARIA - Vamos!


Eles se despedem e se retiram.


Cena 03 - Escola [DIA]


Israel está sentado sobre um pilar que separa uma árvore no pátio. Uma menina se aproxima do rapaz, ainda meio perdida.


MENINA - Moço, será que você pode me ajudar?


ISRAEL - Oi, você é novata?


MENINA - Sim, sou.


ISRAEL - Qual o seu nome? 


MENINA - Eu sou do segundo ano, me chamo Rosa.


ISRAEL - Rosa, provavelmente estudamos na mesma sala. Eu também sou novo por aqui e entendo a dificuldade que é pra se localizar.


ROSA - Ah, que bom que encontrei alguém que é da mesma sala que eu! Fico mais aliviada!


Rosa sorri.


Cena 04 - Casa de Léia [DIA]


Léia se prepara para mais um dia de trabalho.


LÉIA - Lourenço, surgiu uma vaga de emprego como chapeiro aqui perto, por que não se candidata?


LOURENÇO - Ah, obrigado por avisar, môzão! Mais tarde passo lá para ver.


O celular de Lourenço toca.


LOURENÇO - Gardênia...?


LÉIA - É a mãe da sua filha?


LOURENÇO - É.


Lourenço atende o telefone.


LOURENÇO - Alô...? É... eu tenho pagado tudo direitinho... como assim?... vocês estão aqui no Rio de Janeiro?... meu Deus!... tchau!


LÉIA - Então quer dizer que ela está aqui no Rio?


Lourenço consente inclinando levemente a cabeça para cima e para baixo.


LOURENÇO - E trouxe a Rosinha junto.


LÉIA - Ela deve estar uma moça já.


LOURENÇO - Deve mesmo, há tempos que não a vejo.


LÉIA - O Israel ainda era recém-nascido da última vez que fomos à Bahia, não é? 


LOURENÇO - Sim, era... no enterro da minha mãezinha.


LÉIA - Triste. Fica assim não, viu?


Léia vai em direção ao sofá, passando a mão na cabeça de Lourenço e, em seguida, se retira.


Cena 05 - Casa de Heloísa [DIA]


É manhã. Heloísa está dormindo. Seu quarto apresenta baixa iluminação, sua cama estofados aparentemente confortáveis e usa uma espécie de venda em seus olhos, comumente utilizada como peça de dormir em pijamas. A câmera vai se aproximando lentamente do rosto da mulher.


CORTA PARA:


> Heloísa está em pé em uma rua deserta, a câmera se aproxima de seu rosto. A luminação da cena é natural, visto que é dia. Uma brisa leve e suave paira sobre o rosto da mulher, fazendo com que seus cabelos ondulem com o vento. Heloísa usa óculos escuros e um blazer preto. A mulher dá um giro de 360⁰ graus para ver se reconhece o lugar. Ela começa a dar passos lentos para uma porta que está em sua dianteira, como se a esperasse. Um instrumental tenso leve compõe a trilha da cena, o som de brisa também. A câmera está de fronte com Heloísa. O som de seus passos se faz notório. Ela começa a ouvir a voz de sua irmã, ainda criança, ecoar em seus pensamentos.


> — HELOÍSA! NÃO ME DEIXE! NÃO ME DEIXE, POR FAVOR!


> Os passos de Heloísa cessam. A mulher começa a ficar tensa, aparentando tontura. A câmera corta em takes demasiadamente rápidos e com efeitos sonoros. Nesse momento, Heloísa vê um reflexo da pequena Graça.


> HELOÍSA - Graça! Graça! Minha irmã! Você! 


> Heloísa não contém as suas lágrimas e debulha-se em lágrimas. A câmera se aproxima do olhar de Heloísa, que muda de uma feição assustada e temerosa para um leve sorriso de canto. Heloísa se aproxima da menina que permanece de costas. Graça se vira para Heloísa e corrobora com uma cena assustadora. Graça, ainda criança, está com seus crespos cabelos presos e em sua roupa há marcas de sangue. A menina mantém sempre as mãos para trás, como se escondesse algo que Heloísa não pudesse ver o que é. Graça está com o seu corpo perfurado na região do seio esquerdo.


> GRAÇA - Você me abandonou, Heloísa! Você me deixou, minha irmã! |Heloísa afirma que não, gesticulando com a cabeça.| Você me tirou o coração! Sorte sua que eu tenho este!


> A pequena Graça começa a dar gargalhadas e lentamente revela o que escondia por de trás de seu corpo: um coração humano. O órgão está pulsando, mesmo estando desmembrado. Há muito sangue no órgão, sujando toda a calçada que está diante àquela porta. Heloísa esboça estar horrorizada. Neste momento, criaturas horrendas surgem na cena e começam a torturar a criança. Os "demônios" começam a perfurar o corpo de Graça, entrando em guerra pelo órgão que a menina leva nas mãos. 


> GRAÇA - VOCÊS NÃO VÃO ME PEGAR!


> Graça tenta fugir, mas não consegue. Seu corpo é consumido vivo pelas medonhas criaturas. Graça olha no fundo dos olhos de Heloísa.


> GRAÇA - É tarde demais! Eles estão me sufocando e eu não posso resistir, a minha vida se dá graças a isso!


> Heloísa tenta tocar na irmã, mas a menina é envolta pelos seres bizarros que estão ali. Graça e as criaturas que a envolvem se esvaem no ar. Heloísa tenta se recuperar pelas cenas horríveis que acabara de presenciar. A mulher corre pela rua em busca de ajuda e não encontra ninguém. Aos prantos, ela decide voltar para o lugar onde presenciou aquela terrível cena. Heloísa olha atentamente para o lugar em que Graça se encontrava. Ela se lembra do coração que a menina carregava em suas mãos em takes curtos. Vozes delicadas começam a ecoar pelo ambiente, como se chamasse Heloísa. Heloísa ouve o chamado das vozes que estão em coro cantando uma música católica. Heloísa volta a dar passos em direção à porta descrita no começo desta cena. Os passos de Heloísa são acompanhados por um instrumental de suspense. Heloísa adentra ao ambiente que parece ser uma igreja. A câmera mostra o lugar em primeira pessoa, há uma roda de pessoas cercando um caixão que está sendo velado. Dentre amigos, familiares e pessoas queridas pela mulher, ela vê a si mesma vestindo roupas pretas e acessórios que enfatizam o seu luto.


> HELOÍSA |Confusa.| - Sou eu?


> Heloísa começa a bater nas pessoas, mas elas não reagem, é como se Heloísa não estivesse ali. Ela se aproxima de sua versão replicada que está observando atentamente o caixão com um semblante sofrido. O rito fúnebre continua. Heloísa vira-se lentamente para o caixão para ver quem está sendo velado. Heloísa se assusta com o que vê: Benjamim, seu filho caçula, com o peito aberto e com o seu coração em falta. A cabeça de Benjamim está desmembrada de seu corpo e há marcas de tiro pelo menino. Seu rosto já está se decompondo e com aspecto de podridão, como se já estivesse morto há certo tempo. Heloísa se lembra do coração que viu nas mãos da pequena Graça e se mostra horrorizada. Heloísa começa a chorar de desespero.


> HELOÍSA - Meu filho NÃO! NÃÃÃÃO! NÃO! NÃO PODE SER!!


A visão de Heloísa é cortada e a câmera volta para o quarto da mulher.


HELOÍSA - AH!


Heloísa se dá conta que tudo aquilo não passou de um sonho. A mulher se mostra ofegante. Uma empregada adentra ao quarto com o intuito de chamar a patroa para o desjejum matutino. Heloísa se levanta da cama e a câmera gira em seu entorno, com efeitos sonoros que representam a sua confusão. Heloísa desmaia.


EMPREGADA - Dona Heloísa, a senhora não vai desc- |A empregada vê a patroa passando mal.| DONA HELOÍSA! |Diz a empregada em tom afoito.|


A empregada corre na direção de Heloísa. 


EMPREGADA - Ai, meu Deus! Que tragédia!


A mulher corre desesperada para a parte externa do quarto. Após alguns minutos, a mulher retorna com Lucas, filho mais velho de Heloísa.


LUCAS - MÃE! MÃÃE!! ACORDA, POR FAVOR!! |A câmera dá close no rosto desesperado de Lucas.|


*CORTA PARA: Hospital.*


Cena 06 - Hospital [INT/DIA]


Após alguns minutos, no hospital, é possível ver Heloísa sobre uma cama.


LUCAS - Mãe, que susto!


HELOÍSA - Eu tive um sonho... um sonho tão real... será que foi um presságio, um pressentimento? 


LUCAS - Que sonho foi esse?


HELOÍSA - Eu estou sem forças, agora... só me abraça, meu filho... só me abraça!


Lucas abraça Heloísa, como se fosse um pai acalmando uma criança que teve pesadelo. Um instrumental emocionante se intensifica.


*CORTA PARA: Escola.*


Cena 07 - Escola [PÁTIO]


Júlia vê Jandir no corredor, que está vazio. Os olhos de Jandir estão vermelhos pelo conflito que teve com Graça anteriormente.


JÚLIA - Professor! |Chamando.|


JANDIR - Ah... oi...


Jandir está com os olhos inchados.


JÚLIA - O que aconteceu? Seus olhos estão inchados. 


JANDIR - Não é nada...


JÚLIA - Você está muito ocupado?


JANDIR - Não, hoje tenho poucas aulas. A próxima é daqui uma hora.


JÚLIA - Me ajuda com um negócio? 


JANDIR - O que seria?


JÚLIA - É que o Mauro, meu treinador no atletismo, não pode vir à escola hoje.


JANDIR - Ah, eu soube... a mãe dele faleceu, não é?


JÚLIA - Isso, virou centenária ano passado, tadinha...


JANDIR - Triste.


JÚLIA - Enfim, eu gostaria que você cronometrasse a minha volta. Pode ser? Não há ninguém disponível no momento e eu gostaria de aproveitar minha aula vaga para treinar.


JANDIR - Certo. |Sorri.|


Na parte externa da escola, é possível ver a moça treinando ao som de "Say It Right - Nelly Furtado". Jandir observa a corrida de modo sério, como se estivesse concentrado. O clima corta quando Júlia tomba e corta o joelho. Jandir corre na direção da menina para socorrê-la.


JANDIR - Ai, meu Deus! Está doendo muito?


JÚLIA - Acho que não foi nada, só está ardendo um pouco pelas raladuras.


JANDIR - Venha comigo! Tenho alguns medicamentos na minha bolsa e curativos pra emergência, você tem alguma alergia?


JÚLIA - Não, me ajude!


Jandir dá a sua mão para Júlia e ela se escora em seu ombro. Ênfase em Júlia que é alta e aparenta ter mais idade que os seus reles doze anos. É possível ouvir um sinal escolar.


JÚLIA - Tocou o sinal, você tem aula agora?


JANDIR - Daqui vinte minutos, após o intervalo. Venha comigo.


*CORTA PARA: Casa de Heloísa.*


Cena 08 - Casa de Heloísa - Quarto da Mulher [DIA].


Lucas está com a mãe. Heloísa se levanta da cama onde estava deitada.


LUCAS - Mãe, a senhora não pode fazer esforço, lembra? O médico recomendou.


HELOÍSA - Filho, eu preciso desabafar... |Heloísa se senta sobre a cama.| Eu sonhei com a minha irmãzinha, a Graça, aquela que faleceu de pneumonia, eu via ela com um coração nas mãos. Ela desapareceu e... eu entrei por uma porta, atrás dessa porta acontecia um velório... era o velório do Benjamin, Lucas...


LUCAS - O quê? Mãe... eu senti um calafrio, eu estou arrepiado... 


HELOÍSA - Eu não sei se foi um sinal da minha irmãzinha, um mal presságio ou outra coisa, mas de uma coisa eu tenho certeza... algo de muito ruim vai acontecer em breve! 


A câmera se aproxima do rosto de Heloísa, ainda ao som do instrumental tenso que tocava na cena anterior.


*CONGELAMENTO EM HELOÍSA:* A cena fica pouco a pouco em câmera lenta, sinalizando o fim do capítulo.