Eternamente - CAPÍTULO 02


 Cena 01 - Escola [INT]


OLÍVIA - Ah, claro, que cabeça a minha... Você ficou de conhecer as dependências da escola, certo?


JANDIR - Exatamente.


OLÍVIA - Eu vou chamar o zelador. Espere um minutinho, por favor!


JANDIR - Certo.


Olívia se retira. Jandir anda pela sala observando o cenário. O homem se depara com uma garrafa de whisky. Ele se aproxima da garrafa e segura em suas mãos. O homem observa a garrafa e a câmera vai se aproximando de seu rosto. O clima é cortado quando a diretora adentra à sala. Jandir devolve a garrafa ao lugar onde estava.


OLÍVIA - Jandir, esse é o Firmino, nosso zelador.


JANDIR - Prazer, Firmino.


OLÍVIA - Firmino, quero que você apresente a escola ao rapaz, principalmente a sala de artes que é onde ele deve passar a maior parte do tempo.


FIRMINO - Certo, diretora Olívia. Vamos, sr. Jandir?


JANDIR - Vamos.


Jandir e Firmino se retiram. Olívia percebe que o homem mexeu em sua garrafa de whisky.


OLÍVIA - Eu, hein! Sujeitinho estranho!


Olívia continua pensando. *Corta para:* Mansão de Heloísa.


Cena 02 - Mansão de Heloísa [DIA]


A câmera mostra uma das serviçais do casarão manuseando algumas toalhas sobre uma cama de casal. É possível ouvir o cair da água na suíte. A câmera se aproxima do box do banheiro, onde Heloísa se faz presente. É visível a feição desligada da mulher, como se algo estivesse afligindo-a.|


HELOÍSA - Ah, minha irmã...


_Umas e Outras - Clara Nunes 🎶_


É possível ouvir, de forma cada vez mais intensa, os gritos de Graça enquanto corria atrás do carro da irmã há 17 anos atrás. A música cessa.


🎥 *FLASHBACK INÍCIO:* 🎥


De longe, Graça se desprende dos braços de sua tia e corre atrás do carro. Um instrumental emocionante 


GRAÇA - Não me deixa, Heloísa... por favor!


Heloísa, a irmã mais velha, olha para atrás segurando o seu choro. As lágrimas são visíveis no olhar da mais velha, é nítido que ela sentiu muito se separando da irmã. Heloísa vira o rosto para frente e mostra resistência por saber que aquilo deveria ser feito não só por ela, mas também pela caçula.


A câmera mostra, em pequenos takes, Heloísa numa esquina, bem produzida, uma bolsa e um cigarro. Carros param para a moça. Outros takes da vida de casada de Heloísa são mostrados, ela se casou com um homem de posses e isso explica a sua ascensão social. A câmera mostra Heloísa voltando ao aterro sanitário onde deixara sua irmã. É possível ver Cotinha se aproximando de Heloísa.


COTINHA - Olha... roupas chiques, joias, motorista... vejo que você se deu bem, hein?


HELOÍSA - É... eu vim para buscar a minha irmã.


COTINHA - Sua irmã...? A Graça?


HELOÍSA - E quem mais seria? Me dê licença, eu faço questão de buscá-la.


Cotinha entra no caminho de Heloísa, barrando-a.


COTINHA - Não será possível...


HELOÍSA - Ora e por que não?


COTINHA - A sua irmã, Heloísa... faleceu!


HELOÍSA - O quê? Você sabe que isso não é brincadeira que se faça, não sabe?


COTINHA - Eu sei e não estou brincando.


HELOÍSA - Pois eu não acredito! 


Heloísa invade o tugúrio de Cotinha e dá um giro com a cabeça, procurando por Graça.


HELOÍSA - GRAÇA! GRAÇA!


Heloísa não recebe respostas. A câmera mostra Heloísa entrando dentro do quarto de Graça. O quarto não tem reboco, nem piso de cerâmica e muito menos pintura, mas é muito bem ajeitado. A câmera foca na cama de Graça, onde há um globo musical. Heloísa é convencida da morte de sua irmã. Heloísa aciona o globo musical, a boneca que há em seu interior gira ao som da melodia da cantiga "Se Essa Rua Fosse Minha". Heloísa se senta sobre a cama e não consegue conter as lágrimas.


HELOÍSA - Ela... morreu? 


COTINHA - Sim, meu bem. Ela foi acometida por uma pneumonia... a pobrezinha foi forte, mas era algo muito pesado para que ela pudesse suportar. Faz 2 meses de seu óbito.


HELOÍSA - Se eu pudesse... se eu tivesse vindo vê-la antes... 


COTINHA - Nós tínhamos conhecimento do sufoco que você estava passando, não se martirize.


HELOÍSA - Como não? Desde que fui embora deixando-a para trás, sua voz não deixou de ecoar por um só minuto em meus pensamentos. Agora eu estou ouvindo os gritos dela quando fui embora: _"Não me deixe, Heloísa..."._ e eles se intensificam mais a cada momento em minha memória. Eu acho que nunca terei paz lembrando que aquela foi a última vez em que pus os meus olhos sobre a minha pequena... sobre a minha princesa!


O globo musical continua tocando ao fundo da cena. Uma voz ecoa: "Dona Heloísa! Dona Heloísa!". Heloísa volta lentamente ao presente. O flashback é finalizado.


*FLASHBACK FIM.*


É perceptível que a voz ouvida anteriormente era da empregada.


EMPREGADA - Dona Heloísa, aqui estão as toalhas.


HELOÍSA - Certo, Zilda.


|CORTA PARA: Clínica.|


Cena 03 - Clínica [INT/DIA]


GRAÇA - NÃO PODE SER! NÃO PODE SER! O MEU FILHO É O QUE EU TENHO DE MAIS PRECIOSO! ELE *NÃO* PODE MORRER!


MÉDICO - Olha, eu sei que a notícia é de deixar qualquer mãe abalada, mas peço que se acalme.


GRAÇA - NÃO DÁ PRA ME ACALMAR, DOUTOR... EU NÃO SUPORTARIA PERDER O MEU FILHO! ELE É O MOTIVO QUE ME MANTÉM DE PÉ!


O médico vai em direção ao bebedouro. Graça encurrala o médico.


GRAÇA - Salva o meu filho, doutor... é tudo que eu te peço...


O médico fica frente a frente com Graça. Graça olha no fundo dos olhos do profissional, que retribui o olhar.


MÉDICO - Senhora, isso não depende de mim. Há uma fila de pessoas que esperam por um coração.


GRAÇA - O meu filho é a única coisa boa que aconteceu na minha vida, sabe? Eu fui abandonada ainda criança, meu corpo foi violentado e eu não tinha maturidade pra entender tudo o que se passava, eu só sentia ódio, nojo. Eu era garota de programa aos 12 anos, vivi nas ruas e a minha vida mudou depois que ele nasceu. O Bruno despertou um lado bom na minha vida, que eu nunca havia conhecido. Eu prefiro morrer e doar o meu coração para ele do que vê-lo sofrer. 


O médico demonstra comoção com a história de Graça.


MÉDICO - Poxa, eu sinto muito e gostaria também de lhe ajudar... realmente não está ao meu alcance. Eu posso receitar alguns medicamentos que o auxiliarão temporariamente e muito repouso.


A ficha de Graça cai e ela percebe que não há o que fazer. Os olhos da mulher lacrimejam.


GRAÇA |Chorando.| - Eu entendo, doutor. Obrigado.


A moça toma o menino em seus braços e se retira levando um papel com as orientações do médico.


|CORTA PARA: Mansão Aquiles.|


Cena 04 - Quarto de Maria [INT.] 


O médico consulta Maria. A senhora está deitada sobre a cama, em repouso. O médico anota seus sintomas em uma caderneta. 


MARIA - Eu tenho passado muito mal nesses últimos dias... às vezes parece que vou desmaiar.


MÉDICO - Tem sentido algo mais? Enjoos? Desejo?


MARIA - Às vezes...


THIAGO - Não são os mesmos sintomas que você teve na gravidez da Júlia?


MÉDICO - Gravidez, é exatamente disso que suspeito.


Maria se mostra preocupada.


MARIA - Grávida... eu?


Thiago demonstra sua felicidade através de um sorriso.


|CORTA PARA: Escola.|


Cena 05 - Escola - Sala de Artes 

           

São mostradas cenas de Jandir organizando a sala de artes da escola que está em desordem. A música _Say It Right - Nelly Furtado_ toca ao fundo. 


JANDIR - Acho que está ficando bom. |Pensa alto e sorri.|


Neste momento, uma estudante se aproxima de Jandir. É Júlia.


JÚLIA - Licença, posso entrar?


JANDIR - Oi, claro! Perdão pela bagunça.


JÚLIA - Que nada! Estudo nessa escola há séculos e já vi essa sala assim muitas vezes. Sempre estão trocando de professor.


JANDIR - Qual o seu nome?


JÚLIA - Meu nome é Júlia, faço parte da direção do núcleo de artes no colégio.


JANDIR - Ah sim, Júlia. Eu sou o Jandir, mais novo professor de artes aqui desta instituição.


Júlia e Jandir se cumprimentam com as mãos. A câmera foca no rosto de Jandir. A música que tocava anteriormente é substituída por um instrumental de tensão.


JÚLIA - Então é isso, nos vemos em aula.


Júlia se retira. Jandir sorri.


JANDIR - Júlia...


Jandir volta para o trabalho.


CORTA PARA: Mansão Aquiles.


Cena 06 - Mansão Aquiles - Quarto de Maria [DIA


MÉDICO - Como eu disse, são suspeitas. Acho uma gravidez bem provável mas é preciso confirmar com um exame de sangue.


THIAGO - Muito obrigado, doutor. Estávamos preocupados com esse mal-estar que a Maria estava sentindo.


MÉDICO - Ela precisa de repouso até que os exames sejam consumados. Bom, com licenla, preciso ir.


THIAGO - Claro, venha!


Thiago acompanha o médico até a porta.


THIAGO |Retornando.| - Grávida! Notícia maravilhosa!


MARIA |Preocupada.| - Ai, não sei! Já me aproximo dos quarenta, pode haver riscos. 


THIAGO - Oh, meu amor... eu entendo a sua preocupação, mas os riscos existem em todas as idades.


MARIA - Pode ser, mas de qualquer forma há mais riscos na minha idade do que poderia existir quando nós tivemos a Júlia, por exemplo.


THIAGO - Não se preocupe com isso. Vai dar tudo certo.


Thiago beija Maria e acaricia os negros cabelos da mulher.


MARIA - Não existem homens como você, sabia?


THIAGO - Tampouco existem mulheres como você! Bendito o dia em que nossos caminhos se cruzaram.


Maria sorri. Eles se beijam novamente.


Cena 07 - Escola - Pátio [DIA]


Israel, Liz e Lucas estão sentados juntos em uma mesa durante o intervalo das aulas. Eles comem sanduíches.


ISRAEL - Não curti muito esse novo professor de artes.


LUCAS - Ai, também senti uma coisa muito estranha... um presságio talvez.


LIZ - Por que, gente? Eu gostei da apresentação do Jandir, sem contar que ele é um gato.


LUCAS |Sorri.| - Você achou, Liz?


LIZ - Achei.


ISRAEL - Não dá pra negar. |Ri.|


LIZ - Você não acha, Lucas?


LUCAS - Achar? Acho. Mas também o estranho e isso me faz perder o tesão.


ISRAEL - Você sente atração por homens?


LUCAS - Sim, eu sou gay.


LIZ - Nota-se à distância.


ISRAEL - Pois eu não notei.


LUCAS - E você, Israel? Também sente atração por garotos?


ISRAEL - Sabe que eu nunca parei pra refletir sobre isso? Eu sei que gosto de garotas, mas acho que a vida é curta demais para não vivenciarmos novas sensações.


LUCAS - Entendo. |Lucas sorri ao ouvir a resposta de Israel.|


LIZ - Ih, acho que estou sobrando por aqui...


ISRAEL - Ora, Liz. Por quê?


LIZ - Ai, ai!


Lucas sorri. Israel demonstra confusão.


ISRAEL - Mudando de assunto, estão estudando para o ENEM?


LUCAS - Estou me matando de estudar.


LIZ - Ai, nem estou! Escolhi ser feliz!


LUCAS - Menina, tome tento! Já estamos no terceiro ano.


LIZ - E daí? Estamos em fevereiro, quando chegar agosto eu começo a estudar.


ISRAEL |Sorri.| - Esse ano eu faço como treineiro, posso me dar o luxo de deixar pra estudar depois.


LUCAS - Te invejo.


LIZ - "Hidem". 


LUCAS - Ih, deu o horário, vamos? 


Os três se levantam e partem para as suas respectivas salas.


Cena 08 - Pista de Atletismo [DIA/INT]


O treinador de Júlia a aconselha com técnicas sobre o esporte.


TREINADOR - Vamos lá! Você consegue!


Júlia se posiciona e prepara para iniciar, ela está sozinha na pista.


TREINADOR - Já!


É dada a largada e Júlia dispara. Um instrumental de ação dá tom à cena. Corta para Júlia já terminando a volta.


TREINADOR |Orgulhoso.| - MEENINAAA! VOCÊ É UMA MONSTRA! Não tem pra ninguém no campeonato estadual da escolas, já é seu!


Júlia sorri.


JÚLIA - Assim eu fico sem graça.


TREINADOR - Não fique, você é ótima! 2020 pouco capaz, mas em 2024 eu tenho certeza que você faria bonito representando o Brasil nas olimpíadas, já pensou?


JÚLIA - Eu espero um dia chegar lá!


Júlia sorri e, com muita ânsia, bebe toda a água de sua garrafa.


*CORTA PARA: Mansão Aquiles.*


Cena 09 - Mansão Aquiles - Cozinha [INT]


A cozinha da casa tem tons sóbrios, indo do branco ao cinza. Léia prepara o almoço da família. Maria adentra ao cômodo da mansão.


LÉIA - Oh, dona Maria!


MARIA - Corta esse "dona", Léia. Praticamente uma vida que nós nos conhecemos, acho que temos mais intimidade, não é?


LÉIA - É a formalidade. Você é a minha patroa.


MARIA - Te considero uma amiga, além de uma empregada.


LÉIA - É bom saber que tenho a sua confiança.


MARIA - Sim, confio tanto que vou lhe contar uma novidade que é do conhecimento de pouquíssimas pessoas.


LÉIA - Fiquei curiosa. Conta tudo!


MARIA - Estou grávida!


LÉIA |Surpresa.| - O QUÊ? 


MARIA - Exatamente!


LÉIA - QUE NOTÍCIA MARAVILHOSA, MARIA! 


MARIA - E não é? Mas confesso que uma gravidez nesta idade me assusta um tanto.


LÉIA - Não há motivos para se preocupar. Você é jovem, saudável e tem toda uma rede de apoio. Não há de acontecer nada de ruim.


MARIA - Eu espero...


LÉIA - Bom, pra comemorar a novidade, prepararei um almoço especial.


MARIA - Hummmmm! Não há tempero como o seu!


*CORTA PARA:* Casa de Graça.


_Abandono - Roberto Carlos_🎶


Cena 10 - Casa de Graça [INT/DIA]


A câmera se aproxima da janela do casebre onde moram Graça e seu filho. O ambiente é escuro, a moça ainda está com o menino em seus braços, que dorme. Graça se aproxima da cama da criança, o deita e lhe dá um beijo na testa. As lágrimas molham o rosto de Graça. Graça se olha no espelho e, em seguida, lança um pedaço sobre o mesmo, não restando cacos sobre cacos. Ela coloca as mãos sobre a cabeça, demonstrando desespero.


GRAÇA - Não, você não irá morrer, meu filho... eu não vou ficar de braços cruzados vendo isso acontecer! 


Graça coloca óculos escuros e apanha uma bolsa com uma visível determinação. A câmera fica frente a frente com Graça que caminha decidida.


*CONGELAMENTO EM GRAÇA:* A cena fica pouco a pouco em câmera lenta, sinalizando o fim do capítulo.