Eternamente - CAPÍTULO 10
ETERNAMENTE CAPÍTULO 10
Cena 01 - Casa de Rafael [DIA/INT]
GRAÇA - Você quer falar de crimes? |Ri.| Vamos lá. Conluio com máfias estrangeiras, extração ilegal de órgãos. Vai chamar a polícia? Chame... chame que ela vai saber com detalhes tudo o que contém neste dossiê |Ela mostra a pasta azul.| e como você ascendeu a ponto de conseguir abrir uma clínica própria de saúde. Afinal, quando o calo aperta, somos capazes de fazer coisas que até Deus duvida, não é mesmo? E então? Vai fazer o que eu estou pedindo ou vai ousar me desafiar? Sente-se! AGORA!
Rafael estremece. O homem se senta.
RAFAEL - O que quer de mim, afinal?
GRAÇA - Calma... você saberá.
RAFAEL - Seja objetiva.
GRAÇA - Você não está em condições de me pedir nada. Aquiete-se!
Rafael engole seco.
GRAÇA - Bom, você acompanha o tratamento do meu filho, o Bruninho... você sabe que ele precisa de um coração, não sabe?
RAFAEL - Disso eu sei, só não sei onde eu entro nessa história...
GRAÇA - Eu só preciso de dinheiro para bancar os procedimentos e tudo mais... quanto ao doador, eu já consegui.
RAFAEL - Dinheiro... é isso que você quer, não é? Pode falar a quantia. Eu dou o necessário, mas fico com o dossiê.
GRAÇA - O dossiê ficará comigo. E não, não quero o seu dinheiro. Pode ficar tranquilo. O que eu quero é que você realize o transplante com perfeição.
RAFAEL - NÃO... EU NÃO POSSO FAZER ISSO!
GRAÇA - Rafael, você pode tudo... nesta pasta |Levanta a pasta azul.| há provas de que sim, você é capaz de tudo.
RAFAEL - E quem é esse doador?
GRAÇA - É filho de uma pessoa que eu quero que sofra muito pela morte do garoto.
RAFAEL - Espera aí... você quer que eu suje as minhas mãos com o sangue de um inocente?
Graça gargalha.
GRAÇA - Oi? Eu é que não estou entendendo! |Ri.| Você está banhado em sangue, da cabeça aos pés. Vidas foram prejudicadas... pessoas sumiram do mapa. Você tem noção de quantas pessoas fez sofrer?
RAFAEL - Você não sabe a minha história... NÃO SABE!
GRAÇA - Guarde seus contos para a polícia e as demais autoridades. Se isso que eu sei cair nas mãos de qualquer outra pessoa que faça chegar à essas autoridades, você estará encrencado não só com a polícia, mas com todo a quadrilha da qual faz parte. Ainda que corra para a luz, as sombras do passado sempre irão lhe alcançar.
RAFAEL - Eu não estou metido com quadrilha nenhuma! São coisas antigas. Eu estava passando por uma situação muito difícil e precisei fazer esse pacto por dinheiro.
GRAÇA - Entendo muito de sofrimento, só não sei se a justiça vai entender... é bom que você pense muito, sabe? Pense no que vai fazer daqui em diante, no que você já fez, se vai realmente me desafiar... você tem três dias. Lembre-se que eu tenho um pen-drive e várias cópias disso aqui.
Graça pega a sua bolsa e se prepara para sair.
RAFAEL - Graça, espera!
Graça retorna, com um sorriso de satisfação.
RAFAEL - Eu faço a cirurgia do seu filho e os demais exames também.
GRAÇA - Vejo que é uma pessoa decidida e esperta. Amo negociar com pessoas assim...
Graça continua um sorriso, agora mais largo. A câmera mostra a expressão insatisfeita de Rafael com o encurralamento de Graça. Ela dá partida na conversa e se aprofunda nos detalhes da cirurgia. A câmera se afasta, escurecendo gradativamente.
Cena 02 - Praça - Comunidade [DIA]
Israel continua perplexo, é notório pelo semblante do rapaz.
ISRAEL - Como é que é, Liz? Isso que você está dizendo é muito sério!
LIZ - Eu sei do que estou falando, Israel. A relação entre o Jandir e a Júlia não é estritamente acadêmica, eles têm um caso! Eu os vi aos beijos!
ISRAEL - Conta essa história direito.
LIZ - Conto. Eu fiquei de recuperação em artes e procurei o Jandir no período da tarde para tratar desse assunto... foi aí, Israel... foi aí que eu vi os dois aos beijos. A Júlia estava nua e ele estava pintando um quadro dela, despida.
ISRAEL - O quê? É muito difícil de acreditar nisso.
LIZ - Eu corri para contar a história para a diretora Olívia e foi aí que eu tropecei e rolei pela escadaria. A partir daí, só me lembro de acordar no hospital, onde fiquei até agora pouco.
ISRAEL - Você estava no hospital, Liz? Ontem aconteceu tanta coisa por aqui, nem fiquei sabendo.
LIZ - Eu estava... e o Jandir foi até lá.
ISRAEL - O Jandir? O que ele queria com você?
LIZ - Me ameaçar. Ele disse coisas do tipo "não mexa comigo, não sabe do que eu sou capaz de fazer", mas eu mantive a minha cabeça erguida e o afrontei, não sou a errada nessa história.
ISRAEL - Eu estou tentando processar tudo isso, mas eu sei que você jamais inventaria um absurdo desses.
LIZ - Que bom que você confia em mim, Israel. Ao menos você... acredito que se eu contar tudo o que sei para a diretora Olívia, isso passará batido. Ela certamente não acreditará na minha palavra e o Jandir sairá como o injustiçado.
ISRAEL - Sim, provavelmente pelo seu histórico de brigas na escola...
LIZ - Sim, não deito para aqueles branquelos preconceituosos da escola! Enfim, eu sabia que só poderia contar com você ou com o Lucas, mas ele não tem contato nenhum com a Júlia ou os pais dela. Vocês são amigos, foram criados juntos...
ISRAEL - Você fez bem em me procurar. Vamos à casa da Júlia.
LIZ - Você acha que devemos ir agora!?
ISRAEL - É um assunto urgente, não é?
LIZ - Então vamos.
Os dois se levantam e se retiram.
Cena 03 - Mansão de Heloísa [DIA]
A mulher passa pela extravagante entrada do casarão. Produzida, a mulher tira os caros brincos de argola, o cordão de milhares, o par de saltos marcante e a bolsa de couro. Lucas se aproxima da mulher.
LUCAS - Oi, mãe! Não dormiu em casa ontem... hummm!
HELOÍSA |Sorridente.| - Ah, meu filho! É que... eu encontrei um antigo conhecido no aniversário da dona Olga e nós saímos para conversar de forma mais íntima, se é que me entende.
LUCAS - Meu Deus!? Que maravilha! Faz tanto tempo da última vez em que lhe vi feliz assim.
HELOÍSA - É, filho... depois da morte do seu pai eu nunca mais fui a mesma pessoa. Sabe que essa aventura adolescente me fez bem!? Eu me sinto leve, feliz, relaxada...
LUCAS - Que bom, mãe. Fico feliz pela senhora.
HELOÍSA - Lucas, que tal irmos para a nossa casa de praia em Búzios passar esse fim de semana?
LUCAS - Ótima ideia. Há tempos que não vamos lá.
HELOÍSA - Pois é.
LUCAS - Chame esse seu amigo para ir.
HELOÍSA - Boa ideia.
LUCAS - Enfim, mamãe. Estou indo. Qualquer coisa me liga, ouviu?
HELOÍSA - Certo.
Lucas se retira.
Cena 04 - Mansão Aquilles [DIA]
Thiago, Maria e Júlia estão sentados, tomando o café da manhã.
THIAGO - Bom, meu amor! Preciso ir, já estou atrasado.
Thiago se despede de Maria com um beijo e se retira.
MARIA - Júlia, você tem visto o Israel ou a Léia!? Saudades, não a vejo desde que pegou férias.
JÚLIA - Não, não vi, mamãe. Às vezes até trombo com o Israel na escola, mas sinto que não estamos tão próximos.
MARIA - Por que você se afastou das suas amizades, filhinha?
JÚLIA - Rotina. Estou treinando para o atletismo, cuido dos eventos da escola... fica difícil, realmente.
MARIA - E aquele evento que você estava organizando com o seu professor?
Júlia engasga.
JÚLIA - O que tem?
MARIA - Já aconteceu?
JÚLIA - Está para acontecer.
MARIA - Hum!
Neste momento, é possível ouvir a porta se abrindo abruptamente. Alguém invade a casa.
MARIA - Que barulho foi esse!?
JÚLIA - Precisamos ver o que está acontecendo!
Maria e Júlia correm para a sala. Na sala, Liz e Israel estão de pé, ofegantes.
MARIA - Israel, o que aconteceu? E quem é esta moça.
Liz e Júlia entreolham-se de forma contínua.
ISRAEL - Maria, nós temos algo muito importante para lhe falar. É sobre a Júlia. |Israel olha para Júlia, que demonstra medo. Maria olha para a filha procurando respostas, mas a menina nada diz.|
LIZ - Sente-se. Soube que a senhora está grávida e a notícia que temos para lhe dar é muito desagradável.
Maria atende ao pedido de Liz, sentando-se em um pufe. Júlia cruza os braços, mostrando que está preparada para se defender do ataque.
JÚLIA |De braços cruzados.| - O que vocês tem de tão importante para falar sobre mim? Andem! Abram a boca!
ISRAEL - Júlia, você quer mesmo que contemos?
JÚLIA - Quero! Eu já até imagino o que é... e estou muito decepcionada com você, Israel.
ISRAEL - Decepcionada estará a sua mãe quando ouvir o que temos para dizer.
MARIA - CHEGA! FALEM LOGO O QUE QUEREM DIZER!
ISRAEL - Calma, a senhora não pode se exaltar! Vamos lá... não sei nem como contar. Conte, Liz!
LIZ - É... eu sou a Liz. Eu estudo no mesmo colégio que sua filha estuda, só que sou mais velha, do terceiro ano do ensino médio. Bom, eu fui mal em Artes e acabei ficando de recuperação. Ontem, na parte da tarde, procurei pelo nosso professor de artes numa das salas do colégio e ele estava à sós com Júlia... aos beijos.
*Efeito de impacto no rosto de Maria, que olha para Júlia.*
LIZ - A Júlia estava nua e o professor pintava um quadro dela... pelada.
MARIA - O que!? Isso não pode ser verdade. Vocês têm noção da gravidade do que vocês estão me relatando?
JÚLIA - Mamãe!? Façam-me rir. Eu NUNCA me envolveria com professor nenhum e jamais permitiria que ele me pintasse despida. É claro que essa garota está mentindo. Talvez porque seja ela a pessoa que olha para o professor Jandir com segundas intenções.
LIZ |Furiosa.| - EU NÃO ESTOU ACREDITANDO NO QUE EU ESTOU OUVINDO! EU VOU QUEBRAR A CARA DESSA GAROTA, ISRAEL!
Liz avança em Júlia, Israel segura a moça negra pela camisa.
JÚLIA - Está vendo aí, mamãe!? O Israel é louco de dar ouvidos para uma menina desajustada como esta. Que vergonha, Israel... que decepção... eu confiava em você, o tinha como melhor amigo e você sequer pensou duas vezes antes de acreditar na palavra da primeira negrinha que aparece.
MARIA - RACISMO NÃO, JÚLIA! EU NÃO LHE CRIEI DESTA MANEIRA!
JÚLIA - Me perdoe, mamãe! Estou tão nervosa com tudo isso que estão inventando sobre mim que não estou sabendo filtrar as palavras.
Maria se mostra instável. A mulher passa mal.
JÚLIA |Preocupada.| - MAMÃE!
Israel e Liz se aproximam para acudir.
JÚLIA - NÃO! SAIAM DAQUI! VOCÊS NÃO ESTÃO VENDO O QUE VOCÊS FIZERAM!? NOJENTOS! EU NÃO QUERO NUNCA MAIS OLHAR PARA A CARA DE VOCÊS! JUDITH! JUDITH, VENHA!
Judith, a empregada, aparece.
JÚLIA - Me ajude, minha mãe está mal. Vamos levá-la para o quarto.
EMPREGADA - Vamos levá-la para o quarto de hóspedes que há aqui embaixo, será difícil subir as escadas.
JÚLIA - Ótima ideia!
Elas arrastam Maria.
ISRAEL - Foi inútil ter vindo aqui, Liz...
LIZ - Não, não foi inútil. Me senti no dever de avisar aos responsáveis pela Júlia. Agora vejo, vejo que ela consegue ser tão baixa e cínica quanto o Jandir. Ela merece todas as desgraças que estão por vir!
ISRAEL |Tentando apaziguar.| - Não fale assim...
LIZ - É a verdade, Israel. Agora vamos, o ambiente aqui é irrespirável!
Liz se retira e Israel a acompanha.
Cena 05 - Quarto - Mansão Aquilles [DIA]
Júlia e Judith colocam Maria na cama.
JÚLIA - Fique bem, mamãe! Eu preciso ir para a escola. Cuide dela, Judith.
JUDITH - Cuido, cuido sim!
Júlia se retira.
MARIA |Balbuciando.| - Judith...
JUDITH - Me chamou, dona Maria?
MARIA - Me ajude... me ajude...
JUDITH - O que a senhora está sentindo?
MARIA - Eu me sinto melhor, o que quero mesmo é que traga a Léia até mim.
JUDITH - Certo, pode ficar tranquila!
MARIA - Obrigada por tudo, Judith! |Sorri.|
Cena 06 - Casa de Graça [MANHÃ]
Graça conversa ao telefone com uma de suas amigas de serviço.
AMIGA DE GRAÇA - O que foi, mulher? Seu filho não melhorou?
GRAÇA - Não, pelo contrário, não foi nada muito grave. Hoje irei para o trabalho, inclusive.
AMIGA DE GRAÇA - Venha... hoje a tarde a família vai para a casa de praia, a dona Heloísa deixou avisado.
GRAÇA - Ah, é!?
AMIGA DE GRAÇA - Sim... na verdade, a dona Heloísa já foi. O Lucas virá mais tarde, já que está na escola, e levará o caçula.
GRAÇA - Então teremos menos serviço hoje. Bom, preciso cuidar de umas coisas aqui, até mais!
AMIGA DE GRAÇA - Até.
Graça desliga a chamada.
GRAÇA - Casa de praia... essa pode ser uma oportunidade de ouro.
Graça sorri. Barulhos são ouvidos. É Bruninho.
GRAÇA - Bruninho, meu filho!? O que está acontecendo?
BRUNINHO - Eu estou com falta de ar, mamãe!
GRAÇA - Venha comigo. Vamos fazer uma inalação, quem sabe resolve?
Graça toma o aparelho de inalação em suas mãos e manuseia para que seu filho faça uso. Ela começa o processo. A mulher pega o telefone celular e manda uma mensagem para Jandir.
GRAÇA - Jandir, preciso que venha até a minha casa. É urgente. Lembre-se do que tenho contra você, não corra o risco de morrer atrás das grades.
Cena 07 - Sala de Artes [DIA]
Jandir está olhando para o quadro de Júlia, a menina aparece.
JÚLIA - Bom dia, Jandir!
Jandir se aproxima de Júlia.
JANDIR - Olá, Júlia!
Jandir passa a mão sobre o rosto de Júlia de forma delicada.
JÚLIA - Melhor não, Jandir...
JANDIR - Por quê? Por que não? Você sente que há uma química entre nós, não sente?
JÚLIA - Alguém pode chegar...
JANDIR - Não tenha medo, ainda é cedo.
Jandir continua tentando se aproximar da garota, que recua.
JÚLIA - Jandir, a Liz foi até a minha casa hoje.
*Efeito de impacto no rosto de Jandir.*
JANDIR - Aquela desgraçada... ela teve coragem mesmo de contar o que viu?
JÚLIA - Teve.
JANDIR - E o que você fez pra sair da situação?
JÚLIA - Eu neguei... por sorte, meu pai não estava em casa. Quando essa história cair nos ouvidos dele, você estará encrencado, Jandir.
JANDIR - Eu sei lidar.
JÚLIA - Não, não sabe... cuidado! Eu vou me afastar de você até a poeira abaixar. Tire esse quadro daqui.
JANDIR - Sim, já ia fazer isso. Vou levá-lo para a minha casa hoje.
JÚLIA - Não vai dar aula?
JANDIR - Não tenho aulas hoje, vim só para resolver algumas pendências mas já está tudo certo.
JÚLIA - E o evento?
JANDIR - Eu pensei em adiá-lo, terá mais impacto com as festas de São João. O que acha?
JÚLIA - É uma ótima ideia!
JANDIR - Enfim, preciso ir, realmente... aproveitarei que está cedo e que há poucas pessoas aqui nas instalações e levarei este quadro para o meu carro.
JÚLIA - Eu o ajudo.
Cena 08 - Casa de Israel [DIA]
Alguém chama na parte externa da casa. Israel atende, abrindo a porta. É Rosa.
ISRAEL - Rosa...
ROSA - Israel.
🎶 _"Amado - Vanessa da Mata"_ 🎶
Os olhos inchados de Israel transbordam-se em lágrimas. Com soluços e gemidos, o rapaz se abraça com Rosa e chora desesperadamente em seus ombros. Rosa, que, até então, mostrava-se resistente, não suporta e chora nos braços do amado.
ROSA - Ah, Israel... será que isso vai passar?
ISRAEL - Não, não vai. Mas não podemos...
ROSA - Eu queria que fosse diferente...
ISRAEL - O destino nos condenou.
ROSA - Eu te amo pra sempre.
Eles se abraçam novamente.
ISRAEL - Eu não vou conseguir te olhar... toda vez que eu te vejo, sinto um aperto insuportável aqui dentro. |Aponta para a região esquerda de seu peito.|
ROSA - Eu também... é por isso que eu tomei uma decisão, Israel...
ISRAEL - O quê?
ROSA - Eu passei a noite em claro e decidi que será melhor para todos me afastar da cidade. A minha mãe ainda tem uns problemas pessoais para resolver por aqui, provavelmente permanecerá por mais um tempo. Enquanto isso, morarei com a minha avó no interior.
ISRAEL - Eu sinto muito por ter que te fazer ir pra tão longe de sua mãe.
ROSA - A culpa não é sua, Israel. O Lourenço é que é um maldito. Eu já conversei com a minha mãe e ela me apoiou, mas me senti na obrigação de te falar sobre isso pessoalmente.
ISRAEL - Rosa, eu nunca vou te esquecer...
ROSA - Mas eu preciso que você me esqueça, que me veja com outros olhos... provavelmente nos esbarraremos por essas esquinas no futuro. Somos irmãos, ainda que por parte de pai.
ISRAEL - Eu sei...
ROSA - Eu não suporto te ver chorar, mas é necessário. Quero que você seja feliz, Israel... com a pessoa certa. Eu buscarei a minha felicidade também.
ISRAEL - Isto é um adeus!?
ROSA - É um até breve. Há feridas que só o tempo pode cicatrizar.
Eles dão mais um longo abraço. Em seguida, os dois se olham nos olhos e se aproximam, de forma lenta. Rosa interrompe o clima.
ROSA - Não podemos, Israel...
Rosa foge para a parte externa da casa. Israel vai em seu encalço. Na rua, Rosa some ao longe. Em seu último ato, ela se vira, manda um beijo para Israel e um aceno de adeus. A câmera se afasta mostrando a menina sumindo no horizonte e Israel ali, na calçada, desolado.
Cena 09 - Casa de Graça [DIA]
Graça está sentada com seu filho no sofá da sala. A mulher já está pronta para o serviço, mas olha para o relógio apreensiva.
GRAÇA - Ah, Jandir! Que demora!
A porta se abre. Jandir se revela. O homem traz as chaves de seu carro nas mãos.
JANDIR - Graça? O que queria-
Jandir interrompe a sua fala ao ver Bruninho. Uma lágrima molha os olhos do homem barbado. Alguns flashs são mostrados.
*FLASH 1:*
Jandir é criança e extremamente parecido com Bruninho. O menino está acocorado perto de uma parede. Gritos são ouvidos. Um homem, o pai de Jandir, está bêbado.
PAI DE JANDIR |Gritando.| - EU SOU O HOMEM DESTA CASA E VOCÊ ME DEVE RESPEITO!
O homem disfere um soco contra a mãe de Jandir, que cai ensanguentada e desacordada. Jandir chora, demonstrando medo.
*FLASH FIM.*
Jandir está paralisado, olhando para o menino. Seus olhos estão encharcados, mas a lágrima ainda se retém.
*FLASH 2:*
É noite. Jandir é criança, mas está um pouco maior, agora ele não está apenas parecido com Bruninho. Ele é idêntico, como se fossem gêmeos nascidos em tempos diferentes. Gritos são ouvidos. O pai de Jandir está sobre a mãe do rapaz, desferindo socos. O ambiente é sombrio e pouco iluminado.
MÃE DE JANDIR |Cansada, ao mesmo tempo que desesperada.| - SOCORRO! ME AJUDEM! ELE VAI ME MATAR!
Jandir tenta correr para um telefone sem fio, passando pelo pai, que está alcoolizado. O pai vai em direção ao filho, impedindo que o mesmo disque para a polícia.
MÃE DE JANDIR - MEU FILHO NÃO! SEU VERME! MISERÁVEL!
A mulher, com suas últimas forças, gruda suas mãos sobre os cabelos do esposo. Tufos de cabelo se prendem às mãos da mulher, ainda assim, a ação não impede que Jandir desmaie após um golpe violento do pai com um objeto em sua cabeça. Os gritos se silenciam. Fade in.
Fade out. Jandir está recuperando a sua consciência após o golpe que levara de seu genitor. O menino se levanta e procura por sua mãe.
JANDIR |Choro.| - Mamãe!?
Jandir se desespera ao ver a mãe caída, desacordada.
JANDIR - Mamãe, acorde! Não me deixe!
Jandir percebe que já é tarde. Ela está sem vida.
JANDIR |Desesperando-se.| - NÃO! VOLTE, MAMÃE! FALE COMIGO! FALE JÁ! NÃO ME DEIXE SOZINHO! VOCÊ É A ÚNICA QUE PESSOA QUE EU TENHO! A ÚNICA NESTE MUNDO CAPAZ DE ME AMAR! SEM A SENHORA EU FICO SEM NADA, SEM NENHUM RESQUÍCIO DE DIGNIDADE! O MEU PAI É UM MONSTRO! VOCÊ NÃO PODE ME DEIXAR!
Jandir percebe que seus apelos não são atendidos. Jandir vira-se para os céus.
JANDIR - DEEEEEEEEUSSSS!? POR QUÊ? POR QUE, MEU DEUS? DIZEM QUE O SENHOR É BENIGNO, É AMOROSO... QUE ÉS JUSTO! QUE JUSTIÇA É ESSA!? A JUSTIÇA QUE DEIXA UM FILHO SEU DESAMPARADO? QUE FAZ COM QUE UMA MULHER MORRA SEM CONHECER A PAZ QUE TANTO ASSOCIAM AO SENHOR!? HOJE VEJO... NÃO PASSAM DE CRENDICES! O SENHOR NÃO EXISTE, PORQUE SE EXISTISSE... VERIA O MEU SOFRIMENTO E ME ESTENDERIA A SUA MÃO! VOCÊ NÃO É BENIGNO COMO DIZEM! É ODIOSO... ASSIM COMO OS HOMENS E A TERRA!
Jandir desaba sobre o cadáver da mãe, acariciando seus cabelos.
JANDIR |Rouco.| - Eu não vou sair de perto da senhora, mamãe... não vou!
A câmera se afasta.
*FLASH FIM.*
Graça se assusta com Jandir, que se encontra ainda paralisado. Graça está com medo.
GRAÇA |Preocupada.| - Jandir, o que está acontecendo!?
Lágrimas rolam pelo rosto de Jandir. Graça se aproxima e encosta no rosto do homem para ver se ele reage.
JANDIR |Gritando.| - NÃO ENCOSTA EM MIM!
Jandir sai dali cambalhotando. O molho de chaves, que estava em suas mãos, cai no local. Jandir corre, de forma inalcançável. Graça para, ainda assustada.
GRAÇA - Ele está louco, só pode...
Cena 10 - Bar [DIA]
Em um barzinho de esquina, Jandir se aproxima. O homem está visivelmente transtornado, com lágrimas em seus olhos. Jandir se aproxima do homem que atende os clientes do humilde estabelecimento.
JANDIR - Hum... |Inaudível.|
ATENDENTE - O quê?
JANDIR |Ofegante.| - Um whisky, por favor!
O homem arregala os olhos, decidido. A câmera se aproxima de seu rosto.
*CONGELAMENTO EM JANDIR:* A cena fica pouco a pouco em câmera lenta, sinalizando o fim do capítulo.
