Ecos de Eros - Último Capítulo

 





CAPÍTULO 30

1. INT. HERDADE DE EROS / SALA DE ESTAR – FINAL DE TARDE

SFX: “Moonlight Serenade” - Glenn Miller

SÔNIA - Parece que a casa finalmente respira, depois de tudo...

CATARINA - Sim, e o silêncio não é mais medo. É alívio.

HELENA - Mãe, você acha que a maldição acabou?

SÔNIA - Não sei, minha filha. Mas o que importa é que aprendemos a resistir.

ARIEL - Resistir, e seguir.

SÔNIA - Ariel... sua força é um milagre.

ARIEL (sorri fraco) - Não foi só minha. Vocês estavam comigo, mesmo quando eu não podia sentir.

CATARINA (se aproxima) - Estamos juntos, sempre estivemos.

SÔNIA - A herdade é nossa casa. E casa é onde a gente se reergue.

CATARINA - Eu sinto que o passado ainda quer nos lembrar do que fomos.

ARIEL (olha para ela) - Mas o futuro está no que escolhemos agora.

SÔNIA - E nessa casa, nas nossas histórias, nas nossas memórias, vamos construir um amanhã diferente.

CATARINA - É tempo de reconstrução. E de perdão.

ARIEL - Perdão a quem ainda pode ser perdoado.

HELENA - E amor, para quem quiser receber.

SÔNIA (pega a mão de Ariel) - O que importa é que estamos vivos. Que temos a chance de escrever nossa história, e não apenas repeti-la.

CATARINA (com um sorriso leve) - O sol está se pondo lá fora. Acho que é um sinal.

ARIEL - É um novo começo.

HELENA - E vai ser nosso.


2. INT. CASARÃO DE ADELAIDE / SALA DE ESTAR - FINAL DE TARDE

Adelaide e Clarêncio cochicham. Eleanor aparece, abatida.

ELEANOR - Sei que ele não foi o melhor marido, mas eu não acho que merecia a morte.

ADELAIDE - Ele que escolheu isso, menina. Infelizmente você não pode mais casar-se com nenhum rapaz dessa família. O erro foi meu de ter colocado você ali. Só vi o prestígio do nome, mas não sabia das coisas horrendas.

CLARÊNCIO - Não é bom comentarmos sobre isso agora. É um assunto delicado e recente.

ELEANOR - Claro que devemos falar, papai. É uma coisa horrenda, todos morrerem assim.

ADELAIDE - Terá velório? Ninguém merece velório.

ELEANOR - Vai começar, mamãe? (pausa) Bom, pelo menos me sobrou dinheiro.

ADELAIDE - Parte dele, não é minha filha? Parte dele.


3. EXT. QUILOMBO - FINAL DE TARDE

A Sacerdotisa está contente, e sorri com todos os dentes.

SACERDOTISA - Tudo acabou! Conseguimos vencer o desafio! O mal foi cortado pela raiz!

O povo comemora!

SACERDOTISA - O espírito da terra ouviu a dor dos nossos mortos. E os que plantaram discórdia colhem agora o próprio silêncio.

Kawame e Umina sorriem felizes.

SACERDOTISA - Este é um povo livre, um povo que teve tudo roubado, e agora está recuperando! Tentaram nos destruir novamente, mas nossa ancestralidade os venceu.

Os ouvintes balançam a cabeça positivamente, sorrindo.

SACERDOTISA - Vamos reconstruir isto e tornar nossa terra fértil novamente.

SFX: Instrumental Quilombola Feliz

A Sacerdotista sorri, contida, ergue uma taça e depois vira-se para Umina e Kawame.

SACERDOTISA - Vamos comemorar. Estamos livres, estamos bem, estamos libertos.

UMINA - Sempre “tivemo”, Os “santo” tão do nosso lado.

KAWAME [rindo] - Tem razão, Umina.

Close nos três completamente felizes.

SACERDOTISA - Sônia nos convidou para uma pequena comemoração na herdade. 

KAWAME - E você aceitou?

SACERDOTISA - Claro que sim. 

UMINA - Sacerdotisa, com todo respeito, isso é bobice. Eles “tudo” são “igual”. Não muda! Não pode se “aliá” de novo.

SACERODTISA - Quem disse que é uma aliança? É apenas um festejo. Bom para afastar o mal.

KAWAME - Mas minha senhora…

SACERDOTISA - Não aprendeu a perdoar ainda, Kawame?

KAWAME - Perdão, não submissão.

SACERDOTISA - Não tem nada a ver com submissão.

UMINA - Sabe como é os branco, não é?

SACERDOTISA - Independentemente da cor, somos irmãos da mesma terra, Umina. Somos todos como um só. Sônia nos ajudou a não perder nossas terras, nos ajudou a derrotar o mal. Conheço um mal coração quando vejo um, e o de Sônia não compactua com o mal.

KAWAME - Tudo bem, minha senhora, tudo bem. Iremos. Mas pela paz, pelo amor e pela justiça!

UMINA - Eu posso ir também?

SACERDOTISA - Mas que pergunta boba, Umina (A sacerdotisa ri) Claro!

Eles sorriem. 

SFX: Instrumental de Paz


4. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / ESCRITÓRIO DE CÉSAR - NOITE

Sonia está diante da porta do escritório, olhando bem cada detalhe.

Dolores aparece.

DOLORES - Ainda me sinto mal por tudo o que houve. 

SONIA - Não entendo a necessidade dos homens de dominar por imposição. Imagine como tudo haveria de ter sido melhor se César tivesse falado como se sentia.

DOLORES - César não sentia, meu bem. É meu neto, mas reconheço a pessoa de cruel que foi.

SONIA - Não seja injusta. Ele sentia, sim. Só não sabia controlar isso.

DOLORES - César não olhava para si e nem para os outros. É por isso que não controlava. Ele só olhava para os objetivos, e não se importava de como chegaria neles.

SONIA (se vira para Dolores) - Não julgá-lo, Dolores. Você fazia igual. Fez igual. Só não digo pior porque não matou ninguém.

DOLORES - Eu fiz o que fiz porque foi necessário para manter a ordem.

SONIA - Para manter seu sobrenome.

DOLORES - O sobrenome da nossa família. Sempre fomos tradicionais no modo de agir, e isso não há de mudar.

SONIA - Talvez devesse. Talvez o “modo tradicional” já esteja ultrapassado o suficiente ao ponto de, como num efeito dominó, derrubar todos os que vierem a seguir. Inclusive os inocentes.

DOLORES - Não me culpe, Sonia.

SONIA - Não culpo, analiso. Pense, Dolores: se Afonso não tivesse saído impune disso tudo, nada teria acontecido.

DOLORES - Inclusive seus filhos não teriam nascido, você não herdaria um bom sobrenome e nem mesmo viveria tão bem.

SONIA - Mas eu teria paz. 

DOLORES - Não se engane. A vida não é assim. Se não fossem esses problemas, seriam outros.

Sônia para, reflete, olha para Dolores e respira fundo.

SONIA - Quer saber? Não importa mais olhar para trás, e é nisso que me agarro. O passado ficou, e o que importa é o que fazemos hoje para construir o dia de amanhã. Com o máximo de paz que pudermos garantir a quem realmente importa.

Dolores sorri, assente e dá um tapinha nos ombros de Sônia. 

DOLORES - Você quem manda agora, Sônia. Independente do que eu penso, é você que herdou tudo, e eu acredito no seu potencial. Não é um homem, mas sim uma grande mulher.

Dolores sai.


5. EXT. HERDADE DE EROS / JARDINS - DIA

Funcionários caminham de um lado para o outro. Mesas sendo montadas, flores sendo arrumadas. 

SFX: Instrumental animado de Glenn Miller ao fundo, leve e festivo.

Catarina está orientando os funcionários, observando tudo com atenção. Uma funcionária passa por ela.

CATARINA - Essas flores vão para a mesa principal, não para o canto!

FUNCIONÁRIA - Desculpa, dona Catarina!

CATARINA - E cuidado com o bolo, pelo amor de Deus. Não é hora de acidente.

Sônia se aproxima devagar, observando tudo ao redor.

SÔNIA - Está ficando lindo. Você se superou.

CATARINA - É o mínimo, depois do que passamos. Essa festa precisa marcar um recomeço.

SÔNIA - E está marcando... Só falta uma coisa.

Catarina olha para ela, curiosa.

CATARINA - O quê?

SÔNIA - Alexandre.

Catarina respira fundo.

SÔNIA - É estranho comemorar sem ele aqui. Parece que falta um pedaço da casa... um pedaço de mim.

CATARINA - Eu sei.

SÔNIA - Muita gente morreu. Muita coisa se perdeu... Mas Alexandre não morreu. Ele só... precisou de tempo.

CATARINA - E teve. Às vezes, é só disso que a gente precisa.

SÔNIA - Você acha que ele vai me perdoar?

CATARINA - Ele nunca deixou de te amar, Sônia. E… (pausa, segura a mão de Sônia) Na verdade, eu tenho uma surpresa.

Sônia franze o cenho.

SÔNIA - Que tipo de surpresa?

CATARINA - A melhor. Espera um pouco.

Catarina sinaliza discretamente para alguém ao longe. Sônia observa, confusa. Depois de alguns segundos, Alexandre surge atrás de uma árvore, caminhando devagar, sorrindo tímido.

SÔNIA (emocionada) - Meu Deus...

Ela caminha até ele, hesitante. Ele a encara, os olhos úmidos.

ALEXANDRE - Mãe.

Sônia não aguenta, corre e o abraça com força, chorando.

SÔNIA - Meu filho! Você voltou! Me perdoe, meu filho, me perdoe! Você está bem?

ALEXANDRE - Estou melhor. Precisava ver vocês para me sentir melhor.

SÔNIA - Isso aqui não seria nada sem você, meu amor.

ALEXANDRE - Eu li as cartas. Todas.

SÔNIA - Eu escrevi todos os dias.

ALEXANDRE - Eu sei. Cada palavra me puxava de volta.

Eles permanecem abraçados. Catarina se afasta, discretamente emocionada.

SÔNIA (ainda no abraço) - Você é parte do que sobrou de mim. Parte do que me dá forças pra continuar. Você e Helena. 

Corte suave para os dois de mãos dadas, olhando o jardim enfeitado.

SFX: Fade-out da música instrumental.


6. EXT. HERDADE DE EROS / JARDINS – DIA

SFX: Sing, Sing, Sing - Benny Goodman

A decoração está viva, elegante e cheia de flores. Sônia está posicionada na entrada do jardim, pronta para recepcionar os convidados. Há um clima de recomeço no ar.

Umina, Kawame e a Sacerdotisa são os primeiros a chegar, todos bem vestidos, mas mantendo suas raízes nos trajes.

SÔNIA - Sejam muito bem-vindos. É uma alegria imensa tê-los aqui.

SACERDOTISA - A alegria é nossa. Obrigada pelo convite.

UMINA - Isso aqui tá é bonito, viu? Nem parece aquela casa de antes.

KAWAME - É… está leve. Está... respirável.

SÔNIA - É isso que nós queremos. Um novo tempo.

A sacerdotisa segura firme as mãos de Sônia.

SACERDOTISA - Que a paz fique nesta terra, Sônia.

SÔNIA - Que nunca mais nos falte.

Clarencio se aproxima, discreto, ajeitando o paletó. Eleanor e Adelaide o acompanham.

SÔNIA - Olááá! Que bom ver vocês aqui.

CLARÊNCIO - Eu que agradeço. Não sou muito de festa, mas... hoje é um dia especial.

ADELAIDE - Espero que a paz dure mais que os escândalos, desta vez.

ELEANOR - Mamãe!

SÔNIA - Amém, Adelaide, amém.

Eleanor observa discretamente Umina e Kawame. Eles se encaram por um breve segundo. Silêncio tenso. Mas logo, um aceno educado quebra o gelo.

UMINA - Você é aquela que casou com o ruim, né?

ELEANOR (envergonhada) - É… fui.

UMINA - Meus pêsames. Mas agora você pode viver.

ELEANOR - Eu vou tentar.

Chegam alguns moradores da região, amigos, funcionários e familiares. Todos com roupas festivas, trocando cumprimentos e risos.

FUNCIONÁRIO 1 - Dona Sônia! A senhora tá que tá um luxo!

SÔNIA - E você está metido com essa gravata!

FUNCIONÁRIA 2 - Estamos todos torcendo pra que essa paz dure, viu?

SÔNIA - Vai durar.

Sônia olha ao redor. As pessoas estão se reunindo, sorrindo, comendo, conversando. Um novo espírito toma conta da herdade. Ela respira fundo, satisfeita.


7. EXT. HERDADE DE EROS / JARDINS – FIM DE TARDE

A festa segue com suavidade. Algumas crianças correm ao fundo, pessoas riem, taças tilintam. Uma mesa elegante foi montada no jardim. Sônia se posiciona ao centro, segurando uma taça.

Ela dá alguns passos, chamando atenção dos convidados com um leve tilintar de colher na taça.

SÔNIA - Amigos... família... vizinhos. Estamos aqui hoje para comemorar não apenas o fim de uma tormenta... mas o início de um novo tempo.

Todos se voltam para ela, atentos.

SÔNIA - Vocês sabem o quanto essa terra sofreu. O quanto nós sofremos. Mas, mesmo diante da dor, houve quem estendesse a mão. Quem acreditou que o bem ainda poderia florescer por aqui.

A sacerdotisa observa, emocionada. Kawame abaixa discretamente a cabeça em respeito.

SÔNIA - Não somos santos. Mas sobrevivemos. Aprendemos. E hoje... escolhemos a paz.

CLARÊNCIO - Muito bem dito, Sônia.

ADELAIDE (ao fundo, cochichando) - Se fosse eu no lugar dela, teria erguido esse copo mais alto.

CLARÊNCIO - Adelaide, por favor...

SÔNIA - Quero agradecer especialmente a sacerdotisa e a comunidade do quilombo, que nos ensinaram que perdão e resistência não são opostos. São companheiros.

SACERDOTISA - Nós também aprendemos. Nem todo branco é inimigo. Nem todo silêncio é desprezo. Às vezes, é dor.

ELEANOR (quebrando a tensão) - E às vezes é só cansaço mesmo.

Risos leves.

SÔNIA - Ariel, Helena, Catarina, Dolores... obrigada por me manterem de pé.

ARIEL - Quem ficou de pé foi você. Nós apenas seguramos as pontas.

CATARINA - E você segurou a gente.

HELENA - E agora a gente pode dançar?

SÔNIA (rindo) - Pode, minha filha. Pode dançar sim.

SFX: In The Mood – Glenn Miller

A música começa e alguns convidados se levantam para dançar. Dolores observa de longe, com um meio sorriso.

DOLORES - Nunca achei que viveria pra ver isso.

SÔNIA (chegando perto) - E o que acha agora?

DOLORES - Que talvez... tenha valido a pena.

Sônia toma mais um gole da taça e se mistura à pequena multidão alegre, enquanto o sol vai se pondo lentamente.

Dolores cutuca Sônia.

DOLORES (baixinho) - Sabe uma coisa que não ainda ficou clara para mim? Onde está Fátima? O que houve?

SONIA - Não sei e não me importo mais, desde que ela não nos atormente. Ela também foi culpada por muitas desgraças (zoom lento no rosto de Sônia, como tensão) Entendo o lado de querer justiça, mas nada justifica traições. Fátima é mais perigosa do que parece. Ela agiu pouco, mas eu tenho certeza de que, onde quer que ela esteja, certamente não está fazendo coisa boa.

Há uma sobreposição de imagens, e levemente somos transportados a outro cenário…


8. INT. AVIÃO / DIA

A câmera segue por entre os passageiros, mostrando o rosto de cada um e seguindo para o outro. Até que chegamos em Fátima.

SFX: Instrumental de armação

No colo da mulher, uma mala. A AEROMOÇA se aproxima.

AEROMOÇA - Precisa de algo, senhora?

FÁTIMA (falsamente gentil) - Já tenho tudo o que preciso, meu bem, obrigada.

A aeromoça sai, e a câmera dá zoom em Fátima.

FÁTIMA (sussurrando) - Já tenho tudo o que preciso. Minha história ainda não terminou. 

A câmera segue até a mala, que ela abre, revelando que lá dentro há maços de dinheiro e moedas. 

CORTA para o rosto dela.

FÁTIMA - Não acabou… Eu terei você de volta, minha filha.

IMPACTO

Fade-out… FIM