Ecos de Eros - Penúltimo Capítulo






 CAPÍTULO 29

1. INT. HOSPITAL / UTI – MADRUGADA

A sala é fria, iluminada por luz branca. Ariel está inconsciente, ligado a aparelhos. Um respirador mantém o peito em movimento. O monitor cardíaco emite bipes constantes.

Catarina senta-se ao lado, com as mãos cruzadas sobre o colo. Exausta. Observa o filho.

CATARINA - Você tem que voltar, Ariel...

Sônia entra devagar, com um terço nas mãos. Encara o sobrinho, imóvel.

SÔNIA - Ele está lutando. Eu sei.

CATARINA - Ele nem se mexe...

Helena entra em silêncio, traz o amuleto pendurado em um cordão.

HELENA - Posso pôr nele de novo?

CATARINA - Pode, querida.

A menina coloca o amuleto no pescoço de Ariel. O monitor cardíaco acelera.

SÔNIA - Você viu isso?

CATARINA - Ele sentiu...

A ENFERMEIRA entra, anota dados na prancheta.

ENFERMEIRA - Respondeu a estímulo. Pode ser um bom sinal.

Corte para Ariel.

2. INT. MENTE DE ARIEL / ESPAÇO ESCURO

ARIEL flutua no escuro. Nada ao redor. Uma VOZ distante ecoa.

VOZ FEMININA (O.S.) - Ariel... me escuta?

Ele tenta falar, mas não sai som. Um ponto de luz surge. Ele se move na direção.

3. INT. HOSPITAL MUNICIPAL / SALA DE ESPERA – MADRUGADA

Dolores está sentada, imóvel, olhos fixos no chão. Ao lado dela, a SACERDOTISA em silêncio, com as mãos entrelaçadas.

Sônia surge no corredor, abatida.

SÔNIA - Ele respondeu a um estímulo.

DOLORES - Não significa nada.

SACERDOTISA - Significa que ainda há batalha.

DOLORES - Batalha... como se ele tivesse escolha.

Helena aparece, segura a mão da avó.

HELENA - Ariel vai voltar, confie.

SACERDOTISA - A criança sabe o que nós esquecemos: a fé não precisa de prova.

DOLORES (olha para a sacerdotisa) - Você ainda acredita que pode desfazer o que começou?

SÔNIA - Ninguém aqui está limpo, Dolores.

Silêncio.

Um médico se aproxima. Todos se levantam.

MÉDICO - Ele entrou em estado de coma profundo. A pressão estabilizou, mas os sinais neurológicos são fracos.

DOLORES - Então agora ele é um corpo quente esperando um fim?

MÉDICO - Ainda não sabemos. Vamos mantê-lo monitorado.

O médico se afasta.

SACERDOTISA – Se a morte quer levá-lo, terá que passar por mim.

Corta para:

4. INT. MENTE DE ARIEL / CAMPO NEVOENTO

Ariel caminha sobre um solo irregular, coberto de neblina. Ao fundo, uma figura imóvel: FERNANDO, seu pai.

FERNANDO - Você não devia estar aqui, Ariel.

ARIEL - Eu morri?

FERNANDO - Ainda não.

Silêncio. Ariel hesita.

FERNANDO - A pergunta não é se você vai voltar... é se quer.

5. INT. HOSPITAL MUNICIPAL / SALA DE ESPERA – ALGUM TEMPO DEPOIS

A madrugada avança. Sônia segura um terço. Dolores está de pé, inquieta. Catarina sentada, olhos vermelhos. Helena cochila no colo da avó.

Um policial à paisana entra. Sônia o reconhece e se levanta.

SÔNIA - Notícias?

POLICIAL - Sim, senhora. Encontramos César numa estação abandonada. Houve troca de tiros...

Silêncio.

POLICIAL - Ele está morto.

Catarina se levanta, atordoada.

CATARINA - Não...

SÔNIA (abalada) - Como?

POLICIAL - Reagiu à prisão. Apontou arma para os oficiais. Foi alvejado.

Dolores fecha os olhos, pressente o inevitável.

DOLORES - Ele escolheu esse fim.

CATARINA - Foi cegado pela ganância!

SÔNIA -Apesar de tudo, era meu filho...

DOLORES - Era um Sénéchal.

A Sacerdotisa observa em silêncio, olhos fixos em Sônia.

SACERDOTISA - O sangue se cobra com sangue.

Sônia desaba. Sentada, chora em silêncio.

Corte para:

6. INT. MENTE DE ARIEL / CAMPO NEVOENTO – CONTINUAÇÃO

Ariel encara Fernando.

ARIEL - César... ele fez isso?

FERNANDO - A terra o cegou. Agora está do outro lado.

ARIEL - E você?

FERNANDO - Eu espero. Como você.

ARIEL - Mas eu não morri ainda. Você que disse.

FERNANDO - Não morreu, mas está perto. Se ninguém fizer nada, você virá esperar comigo.

7. INT. HOSPITAL / ALTAR – MADRUGADA

A pequena capela está vazia, silenciosa. A SACERDOTISA ajoelha-se no chão frio. À frente, três velas dispostas em triângulo. Ela acende uma a uma, sussurrando em uma língua ancestral.

SACERDOTISA - Pelo elo entre os mundos, pelo nome que carrego… (pega uma pequena faca cerimonial) que ele me escute, onde quer que esteja.

Ela corta levemente a palma da mão. O sangue pinga entre as velas. Fecha os olhos, concentrada.

SACERDOTISA - Tragam-no de volta. Ainda não é a hora. Que o sopro da vida encontre caminho.

A vela central treme, como soprada por vento invisível. A sacerdotisa começa a tremer, olhos revirados.

Corte para:

8. INT. MENTE DE ARIEL / CAMPO NEVOENTO 

A neblina se agita ao redor de Ariel. Ele para de andar. Olha em volta.

VOZ DA SACERDOTISA (O.S.) - Ariel... me escute.

ARIEL (olhos arregalados) - Quem tá falando?

Fernando se aproxima lentamente, observando o filho.

FERNANDO - Ela está tentando puxar você de volta. Não é fácil. Nem para ela, nem para você.

ARIEL - Eu estou... sonhando?

FERNANDO - Não. Você está entre dois mundos. E tem que decidir.

VOZ DA SACERDOTISA (O.S.) - Você não está sozinho. Há quem te espere. Há quem precise de você.

Ariel encara a luz distante no horizonte.

ARIEL - Mas... e se eu não quiser voltar?

FERNANDO - A dor não some. Mas você ainda tem escolhas.

Corte para:

9. INT. HOSPITAL MUNICIPAL / CAPELA – CONTINUAÇÃO

A SACERDOTISA sangra pelo nariz. Cai de joelhos. As velas apagam uma a uma. Ela sorri, fraca.

SACERDOTISA - Ele... ouviu.

INT. HOSPITAL / MACA - MADRUGADA

Ariel, agilmente, abre os olhos!

10. INT. HOSPITAL / SALA DE ESPERA – INÍCIO DA MANHÃ

Catarina está sentada, mãos entrelaçadas, olhando fixamente para o chão.

Sônia dorme encostada na parede, exausta.

Helena toma café frio num copo de isopor.

A porta se abre.

O médico entra, de jaleco amassado, expressão confusa.

MÉDICO - Bom dia... desculpem interromper.

Pausa, hesitando. 

MÉDICO - Preciso falar com vocês sobre o estado de Ariel.

Todos se levantam, de imediato. Sônia desperta assustada.

CATARINA - Ele… ele está bem?

MÉDICO - Mais do que isso (olha os rostos incrédulos) Ele… acordou. Há pouco.

SÔNIA (acreditando com dificuldade) - Acordou?

MÉDICO - Sim. Ainda está fraco, claro, mas… está consciente. E... lúcido.

Todos sorriem e se alegram.

MÉDICO - É… incomum. A hemorragia tinha sido extensa, o trauma no pulmão grave. Mas os sinais vitais se estabilizaram de forma abrupta, durante a última hora.

HELENA - Eu falei que ele ia voltar…

CATARINA - Posso vê-lo?

MÉDICO - Um por vez. Mas sim. Estamos monitorando de perto. Ele está na UTI, mas sem sedação. Pode falar. Só evitem emocioná-lo demais.

Sônia cruza o olhar com Dolores e a sacerdotisa, que estão sentadas à parte, em silêncio.

SÔNIA - Você vem?

DOLORES (não se levanta) - Não agora.

SACERDOTISA (numa calma tensa) - Nosso papel termina aqui, por enquanto.

Sônia hesita, depois segue atrás do médico.

11. INT. CORREDOR DO HOSPITAL / CAMINHO PARA A UTI 

Helena caminha ao lado de Catarina, apertando sua mão.

HELENA - Você acha que ele lembra?

CATARINA - Não sei, querida.

MÉDICO - Ele perguntou por vocês. Está muito cansado, mas… sabe quem é. Não parece ter perdido a memória.

Eles chegam à porta envidraçada da UTI.

MÉDICO - Vamos revezar. Quem entra primeiro?

Catarina faz que sim. Entra.

12. INT. HOSPITAL / UTI – MOMENTOS DEPOIS

Ariel está deitado, pálido, tubos e curativos no peito. Mas os olhos estão abertos. Fracos… vivos.

CATARINA - Meu filho… você me ouviu, não é?

ARIEL - Mãe…

Ela segura sua mão com cuidado.

CATARINA - Você voltou. Você... sobreviveu.

ARIEL - Havia tanta névoa… pensei que não ia sair.

Ela se emociona, mas se contém.

CATARINA - Descanse agora. Só isso. Estamos aqui.

13. INT. CORREDOR / DO LADO DE FORA DA UTI – ALGUNS MINUTOS DEPOIS

Catarina sai. Chora silenciosamente. Sônia entra no lugar dela.

INT. UTI – CONTINUAÇÃO

Sônia se aproxima da cama.

SÔNIA - Você me dá sustos desde pequeno.

ARIEL - Me desculpa, tia.

SÔNIA - Você não tem que pedir desculpas por sobreviver.

Ela o observa. O toca no cabelo.

SÔNIA - Você é mais forte do que pensa.

Ele pisca, fechando os olhos por um momento.

14. INT. SALA DE ESPERA

Helena aperta o amuleto no pescoço. Dolores observa.

HELENA - Ele voltou por causa do amuleto, não é?

DOLORES - Talvez. Ou talvez tenha voltado por você.

SACERDOTISA - A travessia não foi completa. Conseguimos.

SFX: Instrumental feliz

15. INT. HOSPITAL MUNICIPAL / QUARTO DE INTERNAMENTO – MANHÃ

Ariel está sentado na cama, ainda frágil, curativos no peito, olhos cansados, mas vivos. Catarina ajeita o travesseiro atrás dele.

CATARINA - Você está melhor, meu filho. Muito melhor que ontem.

ARIEL - Eu nunca achei que fosse sair daqui... pensei que era o fim.

Sônia entra, com uma bandeja de café.

SÔNIA - Nada fácil, não é? Mas aqui estamos.

Ariel olha para ela, com um sorriso torto.

ARIEL - Obrigado, titia. Por não desistir.

Helena aparece com o amuleto no pescoço.

HELENA - Segure firme. Não vai largar você.

Ariel pega a mão dela e segura com força.

ARIEL - Você me salvou.

CATARINA - Essa luta é nossa, juntos. Você não está sozinho.

O telefone do quarto toca. Catarina atende, o olhar preocupado cresce.

CATARINA - Sim... Entendi. Estamos indo.

Ela desliga e se vira para Ariel.

CATARINA - Precisamos nos apressar. Você vai sair hoje.

ARIEL - E se piorar?

SÔNIA - Você vai estar cercado de gente que ama. A luta continua, mas em casa.

HELENA - E o amuleto vai cuidar de você.

Ariel sorri, uma lágrima escorre.

SFX: Instrumental feliz

ARIEL - Eu quero ir pra casa.

16. INT. HOSPITAL MUNICIPAL / CORREDOR – MOMENTOS DEPOIS

Ariel caminha apoiado em Catarina, passos vacilantes e um olhar firme.

SÔNIA - Calma, Ariel. Devagar.

CATARINA - Logo, logo você vai estar melhor.

ARIEL (olha para o céu através da janela) -Prometem que vai ficar tudo bem?

HELENA (com firmeza) - Vamos cuidar disso.

Eles chegam na saída. O sol da manhã aquece o rosto de Ariel.

CATARINA - Bem-vindo de volta.

Ariel respira fundo, olhos brilhando.

ARIEL - Estou pronto.

FADE OUT.