Ecos de Eros - capítulo 28
CAPÍTULO 28
1. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / SALA DE ESTAR - NOITE
Sacerdotisa e Sônia batem à porta com Ariel nos braços. Catarina atende.
CATARINA - Meu filho!
SÔNIA - Deixe-nos entrar.
SACERDOTISA - Ele está com febre. Precisa de um pano com água gelada na cabeça.
Catarina puxa o filho para dentro e Sônia corre para ir buscar o pano.
SÔNIA - Onde está Helena?
Dolores aparece, assustada.
DOLORES - Mas o que é isso?
SONIA - Vá ajudá-las.
DOLORES - O que está acontecendo, Sônia?
SONIA - Você sabe muito bem o que está acontecendo, Dolores.
Dolores corre para ver o neto.
DOLORES (olhando para Nandira) - O que essa mulher está fazendo aqui?
SACERDOTISA - Vim ajudar, Dolores.
DOLORES - Não praticará feitiços na cabeça de meu neto.
SACERDOTISA - Não seja ignorante. Seu neto pode morrer se não for ajudado.
CATARINA - Mamãe, por favor, pare com isso!
Dolores encara a Sacerdotisa e depois volta-se para o neto.
DOLORES - Calma, meu bem.
Catarina choraminga.
2. INT. CASARAO SENECHAL / CORREDORES - NOITE
Sônia corre até o quarto de Helena, e vê a garota na cama, de olhos fechados.
SONIA - Helena!
ELA sai desesperada em direção à garotinha, e a junta do chão.
SONIA - O que houve, Helena? O que houve?
HELENA - Estou apenas dormindo, mamãe.
SONIA (a apalpando) - Não está com febre. Não está se sentindo mal?
HELENA - Deveria, mamãe?
SONIA - Eu não entendo…
KAWAME (V.O) - Eu explico.
O homem surge das sombras, assustando Sonia.
SONIA - O que está fazendo aqui, intruso?!
HELENA - Não é um intruso, mamãe. Quer dizer, pelo menos não um intruso do mal.
A garota ri.
SONIA - Como assim, Helena?
HELENA - Kawame me disse que vou ficar segura, pois ele me abençoou com este amuleto.
Ela mostra um pequeno amuleto.
KAWAME - Achei injusto que a maldição afligisse inocentes, então, me perdoe, invadi sua casa para dar o amuleto a Helena.
SONIA - Então era você aquela noite?
HELENA - Ele mesmo.
SONIA - Porque não deu aos outros?
KAWAME - Só tenho um, e é feito com sangue. Ou seja, é muito poderoso.
SONIA - Não pode fazer um para Alexandre e Ariel?
KAWAME - Sinto muito, Sonia, mas a única forma de salvar seus outros filhos é sacrificando o primogênito primeiro.
SONIA - Não irei matar César. Ele ainda é meu filho.
KAWAME - Não precisa ser você.
SONIA - Não quero mais mortes!
KAWAME - Terá de uma forma ou de outra.
3. EXT. HERDADE DE EROS / PORTÕES DE ENTRADA - NOITE
César aparece sombrio nos portões, que são abertos sem pestanejar.
Ele entra escondendo algo no bolso.
4. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / SALA DE ESTAR - NOITE
O silêncio tenso domina a sala. Ariel está recostado num dos sofás, olhos semicerrados, o pano úmido sobre a testa. Dolores e Catarina o rodeiam, ansiosas, enquanto a sacerdotisa vigia à distância, observando cada movimento com olhos atentos.
Sônia entra com Helena pela mão, guiando a menina até o lado oposto da sala.
HELENA - Por que estão todos tão estranhos?
SÔNIA - Shhh, meu amor. Só sente-se aqui. Vai ficar tudo bem.
HELENA - Mas tem alguém chorando?
CATARINA (limpando as lágrimas) - Nada, querida. Só um pequeno susto. Já passou.
De repente, o som do portão se fechando reverbera pela casa. Todos se entreolham.
SACERDOTISA - Alguém entrou.
A porta principal se abre com força. César entra. Os cabelos desgrenhados, os olhos em fúria, e na mão direita, uma arma apontada para o chão.
CÉSAR - Boa noite, família.
Todos congelam. Ariel tenta se levantar, mas falha. Sônia instintivamente se coloca à frente de Helena.
SÔNIA - O que está fazendo aqui?
CÉSAR - Voltando ao lar. O que me pertence. O que todos vocês tentaram me tirar.
CATARINA - César... abaixe essa arma.
CÉSAR - Cale a boca, Catarina. Não sou eu quem precisa se explicar aqui.
Ele caminha lentamente até o centro da sala. Passa os olhos por cada um deles com desprezo.
CÉSAR - Que belo teatrinho, não? A velha Dolores de volta ao trono, a bruxa mística como convidada de honra, Ariel bancando a donzela doente, Helena cercada como uma santa. E Sônia... oh, Sônia. Você me traiu.
SÔNIA - Eu não te trai.
CÉSAR - Acha que não sei da aliança com Fátima? Da exposição nos jornais? Dos recadinhos da sacerdotisa para a imprensa? Acha que não sei que você ajudou a destruir o legado dos Sénéchal?
SACERDOTISA - O legado dos Sénéchal era sangue e silêncio. Está na hora disso acabar.
CÉSAR - Cale a boca, bruxa.
Sônia dá um passo à frente.
SÔNIA - Fui enganada por Fátima tanto quanto você. Eu não sabia do plano final dela. Só queria justiça.
CÉSAR - Justiça? Você não tem ideia do que isso significa.
CATARINA - Você está transtornado, César. Está doente!
CÉSAR - Cale a boca, Catarina, ou lhe mato como matei meu pai.
IMPACTO
DOLORES (engasga) - O quê?
CÉSAR - Ah, não te contaram? Pois agora vai saber de tudo, dona Dolores. Afonso não se matou porque enlouqueceu. Fátima e eu o empurramos até o abismo. E ele pulou. Como um cão.
DOLORES (grita) - Assassino!
SÔNIA - Como é?
CÉSAR - É, Sônia… a Fátima não te contou tudo.
SACERDOTISA - A verdade sempre retorna. O que foi feito, o sangue que correu, tudo retorna à casa onde nasceu.
CÉSAR - A única coisa que vai correr aqui hoje é mais sangue. Assim como o de Fernando, que também ajudei a matar.
CATARINA - Desgraçado!
Ele ergue a arma. Ariel se levanta com esforço, cambaleando, mas encara o irmão.
ARIEL - Me mata, então.
CATARINA - Ariel, não!
ARIEL - Vai! Atira logo.
CÉSAR - Você não é nada.
ARIEL - Então acaba com isso. Ou é covarde demais?
César engasga. A arma treme em sua mão. Ele dá um passo, depois outro. Ariel permanece firme.
CÉSAR - Você quer morrer, Ariel? Quer mesmo?
ARIEL - Não. Mas se alguém tem que pagar por essa maldição, que seja eu. Você já matou o pai. Já destruiu a família. Que diferença faz?
SÔNIA (grita) - César, não!
HELENA (grita também) - Não, por favor!
CÉSAR - Calem a boca, todos vocês!
A arma sobe. Ariel fecha os olhos. Um disparo. Um som seco e brutal.
Catarina grita.
Ariel cai nos braços de Dolores, com um buraco no peito. Sangue escorre.
CATARINA - Ariel! MEU FILHO!
SÔNIA - Não, não...
HELENA - Ariel!!!
César recua, em choque com o que acabou de fazer. A arma ainda na mão, mas o olhar distante.
CÉSAR - Não era para...
Ele vira-se e corre pela porta da frente. Desaparece na noite.
Sônia corre até Ariel. Tenta estancar o sangue, em vão.
SÔNIA - Fique comigo, Ariel. Fique comigo, por favor...
CATARINA - Ele está morrendo! Alguém chame uma ambulância!
SACERDOTISA - Já não há tempo.
HELENA - Mamãe, ele vai ficar bem?
Sônia não responde. Olha para o telefone na parede. Vai até lá, trêmula, e disca.
SÔNIA - Polícia... por favor... aqui é Sônia Sénéchal... meu filho... meu filho César atirou no meu outro filho... ele fugiu... sim... aqui é o casarão da família, na herdade de Eros...
Ela desaba.
5. INT. HOSPITAL / EMERGÊNCIA - MADRUGADA
O saguão da emergência está quase vazio. Uma Enfermeira cochila na recepção quando as portas se abrem bruscamente.
Sônia e Catarina entram correndo, acompanhando os PARAMÉDICOS que empurram Ariel numa maca. Ele está pálido, inconsciente, com tubos e curativos improvisados no peito. Dolores vem logo atrás, de mãos trêmulas. Helena segura firme a mão da avó.
ENFERMEIRA (erguendo-se) — O que houve?
PARAMÉDICO 1 — Ferimento por arma de fogo no tórax. Hemorragia interna. Pressão despencando.
PARAMÉDICO 2 — Entrou em choque no trajeto. Precisamos de uma sala imediatamente!
Uma equipe médica já se mobiliza. A porta da SALA DE EMERGÊNCIA se abre com violência, e Ariel é levado para dentro. Sônia tenta segui-los.
MÉDICA (bloqueando-a) — Senhora, precisa esperar aqui fora.
CATARINA — É meu filho! Eu...
DOLORES — Ele vai sobreviver. Tem que sobreviver.
HELENA — Eu dei o amuleto pra ele, vovó... por que não funcionou?
Todos se entreolham. Silêncio. O choro contido de Catarina e o som distante dos aparelhos tomam conta da cena.
6. INT. HOSPITAL MUNICIPAL / SALA DE EMERGÊNCIA - CONTÍNUAÇÃO
Ariel é transferido da maca para a maca cirúrgica.
MÉDICA (gritando) — Pressão 60 por 40! Ele está indo!
ENFERMEIRO — Pulso fraco. Pupilas reativas.
MÉDICA — Pré-operação, AGORA! Vamos entubar. Preciso de acesso venoso e 2 litros de O negativo correndo!
Ele murmura algo imperceptível. A médica se aproxima.
MÉDICA (baixinho) — Fica comigo, garoto... aguenta só mais um pouco...
7. INT. HOSPITAL MUNICIPAL / SALA DE ESPERA - MADRUGADA
Horas se passaram.
Sônia está sentada, imóvel, com as mãos unidas como em prece. Catarina anda de um lado para o outro. Dolores segura a mão de Helena, que dorme com a cabeça no colo da avó.
A sacerdotisa entra pela porta principal, coberta por um manto simples. Encaram-na em silêncio.
DOLORES — O que você está fazendo aqui?
SACERDOTISA — Vim protegê-lo... até onde minha fé alcançar.
SÔNIA — Não é hora de discussões. Só reze, se quiser fazer algo.
SACERDOTISA — Já estou fazendo.
DOLORES — Essa família está pagando pelos pecados de gerações.
SÔNIA — Já chega, Dolores.
CATARINA — Ele não merecia isso. Ariel...
A porta da ala cirúrgica se abre. A MÉDICA surge, pálida, cansada. Todos se levantam de súbito.
MÉDICA — Ariel está vivo.
Todos exalam alívio, quase em uníssono.
MÉDICA — Mas a bala atingiu o pulmão. Conseguimos estancar a hemorragia, mas o estado ainda é grave. Ele está sedado, vai passar a noite na UTI.
HELENA — Eu sabia que ele ia lutar. O amuleto... ele ajudou, né?
A sacerdotisa olha para a menina, depois para a médica, sem dizer uma palavra.
CATARINA — Posso vê-lo?
MÉDICA — Apenas uma pessoa por vez, e por poucos minutos.
Sônia hesita.
SÔNIA — Vá.
Catarina levanta-se lentamente e segue.
8. INT. HOSPITAL MUNICIPAL / UTI - ALGUNS MINUTOS DEPOIS
Ariel está deitado, tubos ligados ao corpo. Parece menor, frágil.
Ela aproxima-se, pega na mão dele.
CATARINA — Meu filhinho...
As lágrimas finalmente caem.
CATARINA — Você não deveria estar aqui. Nenhum de vocês. Isso tudo foi longe demais...
Ela fecha os olhos, e reza.
9. EXT. ESTRADA DE TERRA / MARGENS DA HERDADE - MADRUGADA
SFX: O som dos grilos noturnos é cortado por passadas apressadas e desajeitadas.
César corre, suado, descabelado. A arma ainda na mão, o paletó encharcado de sangue e terra.
CÉSAR — Droga... droga...
Ele tropeça. Cai. A arma desliza longe. Ele se arrasta até ela, pega, levanta-se com dificuldade.
O som distante de um carro.
Ele se vira.
Faróis ao longe. Um veículo preto surge na curva. CÉSAR se esconde entre os arbustos.
10. INT. VIATURA POLICIAL / ESTRADA - CONTÍNUAÇÃO
POLICIAL 1 — Foi ele quem atirou?
POLICIAL 2 — Sônia Sénéchal fez o chamado. Atirou no próprio primo e fugiu a pé pela estrada. Está armado.
POLICIAL 1 — Essa família é uma novela maldita.
Eles passam sem ver César escondido atrás da vegetação.
11. EXT. BOSQUE / ESTRADA RURAL - POUCO DEPOIS
CÉSAR emerge dos arbustos, coberto de arranhões. O suor escorre. A camisa está rasgada. Ele caminha agora, sem rumo, com os olhos vidrados.
CÉSAR — Eles vão me matar... todos eles. A maldição... a porcaria da maldição...
Ele começa a rir, um riso quebrado, doente.
CÉSAR — Ariel... idiota.
O som de uma sirene ao longe o interrompe. Ele corre de novo.
12. EXT. ESTAÇÃO DE TREM ABANDONADA - ALGUM TEMPO DEPOIS
Um lugar esquecido pelo tempo. Estruturas enferrujadas, madeira podre. O vento geme entre os trilhos abandonados.
César entra mancando, encostando-se às paredes. Senta-se. Respira fundo. A arma ainda apertada nas mãos.
César fecha os olhos com força. Treme. Grita.
CÉSAR — VOCÊS TODOS MERECEM ISSO!
Passos.
Ele se cala. Escuta.
Passos vindos da lateral da estação.
Ele se levanta de súbito, arma em punho.
CÉSAR — Quem está aí?!
Nada.
O silêncio absoluto, exceto o vento.
De repente, uma silhueta surge. Uma figura escura, com um chapéu.
VOZ MASCULINA — César Sénéchal. Está cercado. Jogue a arma no chão.
CÉSAR recua. Mira. As mãos tremem.
CÉSAR — Cheguem perto e eu atiro! Eu mato!
Outras luzes se acendem. Lanternas. Uniformes surgem das sombras.
POLICIAL — Você está cercado! Largue a arma!
CÉSAR — Eu sou um Sénéchal! Eu sou o herdeiro! Essa terra é minha!
Ele gira, tentando encontrar saída. Corre para o fundo da estação.
13. INT. ESTAÇÃO / ARMAZÉM NOS FUNDOS - CONTÍNUO
É um espaço apertado, escuro. Pilhas de caixas velhas, cheias de pó e ratos.
César se esconde atrás de uma. Respira com dificuldade.
As vozes se aproximam. Lanternas começam a varrer o lugar.
POLICIAL 2 (O.S.) — Aqui! Acho que ele entrou aqui!
Luzes o encontram. Gritos.
POLICIAL 1 — Solte a arma, agora!
Ele hesita.
POLICIAL 2 — É sua última chance!
CÉSAR fecha os olhos. Ele aponta a arma para os homens e atira. Os tiros ricocheteiam numa estrutura metálica e quase o acertam.
Os policiais reagem e atiram, acertando César impiedosamente, sem cessar. Seu corpo sangra com violência.
Os policiais cessam. César cai de joelhos.
CÉSAR — Malditos…
Ele desaba no chão.
FADE OUT.
