Ecos de Eros - capítulo 27

 





CAPÍTULO 27

1. INT. CASA DE FÁTIMA – NOITE

Sônia caminha de um lado para o outro. Está agitada. A sala está escura, iluminada apenas por algumas velas sobre a mesa. César está desacordado no chão, ainda amarrado, com o rosto suado e a respiração pesada. 

A sacerdotisa observa uma pequena chama oscilando dentro de um copo de vidro. Fátima bebe algo forte em silêncio.

SÔNIA - Ele vai acordar.

FÁTIMA - E daí? Vai espernear. Como sempre fez.

SÔNIA - Eu não sei se consigo.

SACERDOTISA - Consegue. Você é a única que pode.

Sônia encara a chama da vela, perturbada.

SÔNIA - Eu só queria proteger meus filhos. Só isso. E olha onde estamos.

SACERDOTISA - Os filhos da linhagem original dos Sénéchal vão morrer. Um por um. Se nada for feito.

FÁTIMA - E a culpa não é da maldição. É deles mesmos.

SÔNIA - Ariel e Helena… eles não têm culpa.

SACERDOTISA - Então proteja. Agora.

2. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / SALA – NOITE

Ariel está ofegante, andando de um lado para o outro. Catarina está sentada, chorando discretamente.

ARIEL - Eu nunca pedi pra nascer nisso. Nunca pedi pra ser parte dessa maldição!

CATARINA - Você é meu filho. E isso nunca vai mudar.

ARIEL - Você não entende! A morte tá grudada na gente! Ela não vai embora!

CATARINA - Ariel, por favor…

Ele chora. Catarina tenta se aproximar. Ele se afasta.

ARIEL - Eu preciso sair daqui.

CATARINA - Não! Ficar juntos é o único jeito.

ARIEL - Eu não quero morrer com vocês.

CATARINA - MORRER COM A GENTE? Você viverá com a gente! Não fale em morte. E eu sou sua mãe, você me deve presença, pois eu vivi ao seu lado todo esse tempo.

ARIEL - Porque era sua responsabilidade. Se não estava pronta para me criar, então que não me tivesse tido, ou que pelo menos tivesse me colocado na porta de uma igreja.

CATARINA - Meu filho, por favor, não fale assim comigo. É ingrato da sua parte.

ARIEL - Eu não sou ingrato, mamãe. Eu te amo, mas não sou obrigado a morrer por erros seus. Seu, da vovó, do César e dos outros! Não sou.

CATARINA – Se me deixar, quem o ajudará?

Dolores aparece.

DOLORES - O que está acontecendo aqui?

CATARINA - Ariel quer ir embora.

DOLORES - Por qual razão?

ARIEL - A maldição! A maldição que aquela mulher jogou sobre nós.

DOLORES - Deixe de besteira.

Pausa.

ARIEL - Você sabe. Você sabe, pois sabia o nome da negra e sabia algo sobre o passado dela.

Dolores fica calada.

ARIEL - Vocês duas sabiam! Vocês sabiam! 

Ele sai correndo. Catarina tenta ir atrás, mas hesita. Cobre o rosto, impotente.

3. EXT. JARDIM ANTIGO – MADRUGADA

A vegetação cresceu desordenada. Ariel caminha entre as sombras. Respira com dificuldade. Chora. Olha em volta como se escutasse vozes.

SFX: Vozes sussurradas. Ruidosas. E distantes.

Ele se ajoelha junto a uma estátua quebrada.

ARIEL - Me deixa em paz… por favor…

Imagens de Afonso, Denis, Fernando e outros parentes mortos surgem em flashes na mente dele. Ariel grita.

SFX: GRITO AGUDO DESESPERADO

Ele arranca a camisa. Cava a terra com as mãos. Como se quisesse enterrar a si mesmo. Está em estado de colapso.

4. INT. CASA DE FÁTIMA – MADRUGADA

César começa a recobrar a consciência. Geme. Tenta se mover, mas está preso.

CÉSAR - Sônia? Fátima? Soltem-me agora!

Fátima o observa com desdém. Sônia está com um mapa genealógico nas mãos, entregue pela sacerdotisa.

CÉSAR - Você não pode me manter assim. É crime. Vocês vão pagar por isso.

FÁTIMA - Isso vindo de quem mandou matar.

CÉSAR - Eu fiz o que tinha que fazer. Pela nossa família.

SÔNIA - Você destruiu nossa família. Só sobrou escuridão.

CÉSAR - Vocês são fracas.

Sônia se aproxima dele. Pela primeira vez, ela tem raiva nos olhos.

SÔNIA - E você está sozinho.

SACERDOTISA - Sônia, vamos! O tempo está passando.

Sônia se levanta e sai com a mambo.

5. INT. CASARÃO / QUARTO DE HELENA – MADRUGADA

Helena está deitada, inquieta. Sonha. Suor na testa. As mãos trêmulas.

SFX: Barulho de água. Sons abafados de crianças.

Imagens desconexas: o rosto de Afonso, as paredes do casarão sendo manchadas de sangue, uma criança chorando.

HELENA [em sonho] - Mamãe…

Ela desperta assustada. Olha em volta. O quarto parece estranho. A luz está oscilando. Ela se levanta, tateia a parede, como se estivesse sendo observada.

HELENA - Tem alguém aí?

Nada. Apenas o som distante do vento. Ela caminha até a janela e vê o jardim ao longe.

6. EXT. CAMINHO ATÉ O JARDIM – MADRUGADA

Sônia corre ao lado da sacerdotisa. Ambas estão ofegantes, com lanternas nas mãos.

SACERDOTISA - Ele está perto. Eu consigo sentir.

SÔNIA - E se for tarde demais?

SACERDOTISA - Não pense assim.

Sônia tropeça, mas continua. A lanterna ilumina pegadas na terra. Elas se entreolham e seguem as marcas.

7. EXT. JARDIM ANTIGO – CONTINUADO

Ariel está encostado numa árvore, exausto. Suas unhas estão sujas de terra. O peito sobe e desce rapidamente. A imagem de Denis aparece à sua frente.

DENIS - Fraco.

ARIEL - Cala a boca.

AFONSO - Você é igual a mim.

ARIEL - Eu não sou nada de vocês!

Ele grita novamente. As visões somem. Ele vê ao longe uma luz.

SÔNIA - Ariel!

Sônia se aproxima. Ele se encolhe.

ARIEL - Vai embora. Me deixa aqui.

SÔNIA - Eu não vou te deixar.

SACERDOTISA - Está quase na hora.

Sônia ajoelha e abraça Ariel, mesmo contra sua resistência.

SÔNIA - Você vai sair disso. Eu juro.

8. INT. CASA DE FÁTIMA – MESMA HORA

César tenta se soltar. Ouve passos. Fátima volta com um prato de comida. Coloca sobre a mesa, sem olhá-lo.

CÉSAR - Vai me deixar apodrecer aqui?

FÁTIMA - Já passou da hora.

CÉSAR - Você não sabe com quem está lidando.

FÁTIMA - Eu sei exatamente. E é por isso que você está amarrado.

Ele tenta rir, mas sente dor. Está fraco. Olha ao redor, calculando.

CÉSAR - Você vai se arrepender.

FÁTIMA - Já me arrependi de muita coisa. Mas não disso.

CÉSAR - Você não tem vergonha? Trair um aliado! Fizemos tudo juntos, inclusive matar meu pai. Minha mãe não…

Ele faz uma expressão como se tivesse entendido algo.

CÉSAR - Ora, ora, você não contou a Sônia que estávamos juntos na morte do meu pai, não é?

FÁTIMA - Cale essa boca.

CÉSAR - Não gosta de encarar a verdade? Não contou que contratou o mercenário dele para dar tiros em direção à Helena? [ele gargalha] Sônia vai amar isso.

FÁTIMA - Cale essa boca.

CÉSAR - Como convenceu minha mãe certinha, ein? Como convenceu ela a trair o próprio filho?

FÁTIMA - Você mesmo se enterra em sua lama.

CÉSAR - Assim como você também está fazendo.

FÁTIMA - Não vou ficar aqui lhe dando ouvidos.

CÉSAR - Mas Sônia vai, e quando ela souber a verdade, você está frita.

FÁTIMA - Afonso suicidou-se. 

CÉSAR - Com nossa ajuda.

FÁTIMA - Eu digo que mente.

CÉSAR - Posso ter muitos defeitos, mas mentiroso não sou.

Fátima se agacha e desamarra César.

CÉSAR - O que está fazendo?

FÁTIMA - Some daqui, agora! Mas não fale nada a Sônia!

César fica impressionado, e se levanta incrédulo.

CÉSAR - Bom, obrigado e…

FÁTIMA - Saia daqui, César! Antes que eu mude de ideia.

César sai, gargalhando.

9. INT. CASARÃO / SALA – MADRUGADA

Helena desce as escadas com uma vela acesa. Olha para os quadros na parede. Todos os ancestrais Sénéchal. Ela sente algo.

HELENA - Me ajudem a entender…

A vela apaga de repente. Escuridão. Ela segura a respiração.

SFX: Som de passos no andar de cima.

Ela corre de volta para o quarto.

10. EXT. JARDIM ANTIGO – FIM DE MADRUGADA

A luz azul do amanhecer surge no horizonte. Ariel dorme sobre o colo de Sônia. A sacerdotisa observa em silêncio.

SÔNIA - Ele está mais calmo.

SACERDOTISA - Mas não salvo. Ainda não.

SÔNIA - Eu vou cuidar deles. Ariel. Helena.

SACERDOTISA - Você sabe o que precisa ser feito.

Sônia assente, com lágrimas nos olhos. O vento sopra forte. A noite está acabando. Mas o pior está por vir.