Ecos de Eros - capítulo 26
CAPÍTULO 26
1. INT. CASA DE FÁTIMA / SALA – NOITE
CÉSAR ainda está amarrado a uma cadeira. O rosto marcado pelo golpe. Sonia está sentada à frente, tremendo. Fátima em pé, fumando. A Sacerdotisa observa à distância.
CÉSAR - Soltem isso aqui… vocês enlouqueceram.
SONIA - Você ia matá-la.
CÉSAR - Ela me destruiu. Expôs nossa história como se fosse lixo.
FÁTIMA - Porque sempre foi. Só que agora está todo mundo vendo.
CÉSAR [para a mãe] - E você? Vai proteger ela? Proteger isso?
SONIA - Eu vim proteger você de si mesmo. Mas talvez tenha chegado tarde demais.
CÉSAR - Se for preso, vou levar todos comigo.
FÁTIMA - Não vai ser preso, César.
Silêncio.
SACERDOTISA - Vai morrer.
Sônia abaixa a cabeça.
SACERDOTISA - O sangue original dos Sénéchal… ele não sobrevive. A maldição já está em curso.
César ri, debochado. Mas o suor em sua testa revela o medo.
CÉSAR - Sao loucas por acreditarem nisso.
FÁTIMA - Foi essa mesma ideia que trouxe Dahlía, e agora a tomou.
CÉSAR – Dahlía fugiu, isso sim.
FÁTIMA - Dahlía era um espírito.
CÉSAR - Que besteira, meu Deus.
SÔNIA - César, cale-se.
2. INT. REDAÇÃO DE JORNAL – DIA
Jorge, o editor, conversa com um grupo de jornalistas. Páginas da nova edição estão espalhadas. A imagem de Afonso e Dahlía domina a capa.
JORGE - Preparem a próxima bomba. Temos autorização para publicar tudo. Inclusive nomes de herdeiros.
JORNALISTA - E se alguém processar?
JORGE - Vão tentar. Mas a opinião pública já escolheu um lado.
Um telefonema interrompe.
JORGE - Jorge falando.
Pausa. Ouvimos só a voz de Jorge.
JORGE - Sim. Ele está onde?
O editor se levanta, pálido.
JORGE - Ligue para o hospital. Agora.
3. INT. HOSPITAL PSIQUIÁTRICO – SALA DE VIGIA – DIA
Um dos enfermeiros lê o jornal com a matéria dos Sénéchal. Um alarme soa ao fundo.
ENFERMEIRA - Quarto 12! URGÊNCIA!
Eles correm pelo corredor.
INT. HOSPITAL / QUARTO 12 – CONTINUADO
A porta está aberta. Um corpo caído no chão. Sangue no lençol.
ENFERMEIRA - Meu Deus...
É Ricardo. O companheiro de quarto de Alexandre. Está morto.
Alexandre está encostado no canto, com os olhos arregalados. A camisa suja de sangue.
ENFERMEIRO - O que aconteceu aqui?
ALEXANDRE - Eu… eu não sei, ele só…
SIRENES ao fundo. Ambulância se aproxima.
Um outro rapaz se aproxima.
ENFERMEIRO 2 - Venha, Alexandre.
Eles seguem pelo corredor.
ENFERMEIRO 2 - Não sabe mesmo o que houve?
ALEXANDRE - Eu odeio este lugar, eu odeio esta vida.
ENFERMEIRO 2 - Calma, Alê.
4. INT. CASA DE FÁTIMA / SALA – NOITE
César permanece preso. Fátima fala com alguém ao telefone.
FÁTIMA - A notícia chegou. Ele foi encontrado em estado de choque. Estava com o corpo do outro rapaz.
SONIA - Alexandre?
FÁTIMA - Sim. A maldição começou a cobrar.
CÉSAR - Vocês são todas loucas.
SACERDOTISA - Você é o próximo. E depois… Ariel e Helena.
SONIA - Helena e Ariel? Não! Eles não têm culpa de nada!
SACERDOTISA - Tem sangue. Isso basta.
SONIA - Então temos que impedir.
FÁTIMA - Não se impede o que já começou.
CÉSAR - Desamarra essa merda. Agora!
Sônia hesita.
SONIA - E se formos atrás deles? Tirá-los de lá?
SACERDOTISA - Pode tentar. Mas os mortos andam mais rápido.
SONIA - Minha filha! Minha filha! [se vira para César e lhe dá um tapa] Sua irmã!
CÉSAR - Pare de acreditar nessas merdas!
SONIA - Você poderia ir no lugar deles, você!
5. EXT. HERDADE DE EROS / CASA DE CATARINA – NOITE
Ariel e Helena observam a movimentação na estrada. POLICIAIS passam.
Catarina aparece na porta.
CATARINA - Ariel, entre. Já está escuro.
HELENA - Tia… por que está todo mundo falando da nossa família?
CATARINA - São mentiras. Tudo armação daquela mulher.
ARIEL - Então por que estamos escondidos?
CATARINA - Porque há gente que quer nos ver destruídos.
Eles entram, desconfiado.
Na estrada, um carro desacelera. A Sacerdotisa observa de longe, do banco traseiro de outro veículo. Ela murmura:
SACERDOTISA - Mais cordeiros à beira do abate.
6. INT. CASA DE FÁTIMA / QUARTO – MADRUGADA
Sônia tenta dormir, mas ouve César gemendo no outro cômodo. Levanta, veste o robe e vai até ele.
INT. SALA – CONTINUADO
CÉSAR está suando, olhos revirados.
CÉSAR - (sussurrando) Afonso… não… Dahlía…
Sônia se aproxima.
SONIA - Você está sonhando?
CÉSAR - (chorando) Ele… ele matou ela… ele gostava dela. Você sabia?
SONIA - Eu imaginava. Mas fingi que não.
CÉSAR - Por isso ele se matou.
SONIA - E você?
CÉSAR - Eu só queria livrar a família da lama. Mas a lama era a gente.
Sônia o encara com pena.
7. INT. MANSÃO SÉNÉCHAL / QUARTO DE ARIEL – MANHÃ
Ariel se veste com pressa. Catarina entra.
CATARINA - Vai aonde?
ARIEL - Quero ver Alexandre. Disseram que ele… que ele matou alguém.
CATARINA - Ele está doente. Você não pode.
ARIEL - E se eu for o próximo? Se esse destino for nosso?
CATARINA - Isso é superstição! Isso tudo é invenção daquela mulher.
ARIEL - E se for verdade?
Ele sai correndo, decidido. Catarina grita atrás.
CATARINA - Ariel!
Mas ele já se foi.
8. INT. HOSPITAL PSIQUIÁTRICO – RECEPÇÃO – TARDE
ARIEL chega ofegante. Fala com a recepcionista.
ARIEL - Quero ver Alexandre Sénéchal.
RECEPCIONISTA - Visitas proibidas.
ARIEL - Eu sou família. Ele precisa de mim!
RECEPCIONISTA - Ele está sob observação. Tentou suicídio.
ARIEL - O quê?
Uma ENFERMEIRA surge.
ENFERMEIRA - Você é Ariel?
ARIEL - Sim.
ENFERMEIRA - Ele pediu para ver você.
Ariel o segue, trêmulo.
9. INT. HOSPITAL / SALA ACOLHIMENTO – MOMENTOS DEPOIS
Alexandre está fraco, deitado na cama. Ariel entra.
ALEXANDRE - Você veio…
ARIEL - Claro. Me disseram que… que você…
ALEXANDRE - Eu tentei. Mas não consegui. Ricardo... ele gritou… e depois caiu.
ARIEL - Você não fez nada?
ALEXANDRE - Acho que não. Mas vi alguém. Uma mulher. Ela estava no quarto.
ARIEL - Que mulher?
ALEXANDRE - Não sei. Tinha os olhos brancos.
ARIEL - Alexandre, por favor…
Silêncio.
ALEXANDRE - A morte está atrás de você e da minha irmã.
10. INT. CASA DE FÁTIMA – SALA – NOITE
Fátima, Sônia e a Sacerdotisa estão diante de um tabuleiro com símbolos. Velas acesas.
SACERDOTISA - Os vivos caem um a um. O sangue velho se desfaz.
SONIA - E os inocentes?
SACERDOTISA - Não há inocência no sangue.
FÁTIMA - Não vamos recuar. Falta pouco.
SACERDOTISA - A justiça virá quando o último Sénéchal cair, mas vou tentar ajudá-la a livrar os seus filhos, à exceção de Cés
ar, sinto muito. Ele deve pagar pelo que fez
A câmera desce até o rosto desacordado de César. Seus dedos começam a se mexer.
FADE-OUT.
