Ecos de Eros - capítulo 25
CAPÍTULO 25
1. INT. CASA DE FÁTIMA / SALA – DIA (FLASHBACK)
A câmera passeia por um salão elegante. Um retrato de Fátima jovem, grávida, domina a parede.
FÁTIMA (V.O) - Minha filha nasceu num dia de chuva. Dahlía. Nunca houve nome mais bonito.
2. INT. QUARTO DE FÁTIMA – NOITE (FLASHBACK)
Fátima segura a bebê nos braços, embalada por uma babá. Paulo entra, emocionado.
PAULO - Minha filha… vou cuidar tão bem dela, acredite, Fátima.
FÁTIMA - Eu só quero que ela esteja segura, Paulo. Só isso.
PAULO - Vai estar. Eu juro.
Ele beija a testa da criança. A câmera fecha em Dahlía, recém-nascida.
CORTE PARA:
3. MONTAGEM – O CRESCIMENTO DE DAHLÍA
DAHLÍA criança correndo pelo jardim.
FÁTIMA penteando seus cabelos em frente ao espelho.
PAULO ensinando-a a andar a cavalo.
Dahlía já adolescente tocando piano. Fátima observa, emocionada.
FÁTIMA (V.O) - Ela era luz. Era graça. Crescia como um milagre que me foi dado. Mas até os milagres atraem cobiça.
4. INT. CASA DE FÁTIMA / CORREDOR – NOITE (FLASHBACK)
Afonso espreita da escuridão. Observa Dahlía por uma fresta da porta. A jovem está de costas, se trocando para dormir.
FÁTIMA (V.O) - Ele voltou. Primeiro, pelas sombras. Eu não sabia. Ele sabia quem ela era. Sabia que era sangue dele.
5. INT. BIBLIOTECA – DIA
Dahlía, agora com 18 anos, lê um livro de poesia. Afonso surge do outro lado da estante.
AFONSO - Gosta de Kafka?
DAHLÍA - Gosto, mas acho triste demais pra uma tarde de sol.
Afonso sorri, contido.
AFONSO - Às vezes a tristeza também aquece. Como certas memórias.
FÁTIMA (V.O) - Ele mentia. Mentia com o olhar. Com a voz. Mas ela não sabia. Como poderia?
6. INT. CASA DE FÁTIMA / VARANDA – NOITE
Afonso e Dahlía conversam. O clima é íntimo, desconfortavelmente íntimo.
DAHLÍA - Minha mãe não gosta que eu fale com o senhor.
AFONSO - Sua mãe... tem suas razões. Mas eu só quero te escutar. Só isso.
Ele toca a mão dela. Ela hesita. Retribui.
FÁTIMA (V.O) - Ele se apaixonou pela própria filha. E quando percebeu... quando viu que já não conseguia se afastar...
CORTE RÁPIDO:
7. INT. QUARTO DE DAHLÍA – MADRUGADA
Dahlía está deitada, sonolenta. A porta se abre. É Afonso.
Ele entra em silêncio. Se aproxima, trêmulo. As mãos dele tremem. Ele senta na cama, acaricia os cabelos dela. Ela acorda.
DAHLÍA - O que está fazendo aqui?
AFONSO - Me perdoe. Eu… eu…
Ele chora. E então, tira uma faca das costas. A câmera treme. Gritos abafados.
CORTE PARA:
8. INT. QUARTO DE DAHLÍA – CONTINUADO
O corpo de Dahlía está caído ao lado da cama, os olhos abertos, fixos, e o sangue magenta derramando sobre o piso de madeira. Fátima cai de joelhos, gritando. Paulo tenta contê-la.
FÁTIMA - Nãoooo!
FÁTIMA (V.O) - Ele matou a própria filha. Meu castigo foi viver pra ver aquilo. Mas eu não ia deixar que terminasse ali.
9. INT. PRAÇA - DIA
FÁTIMA (V.O) - Afonso fugiu com a ajuda de Dolores, mas eu descobri onde ele havia ido parar. Construiu uma bela família. Mas isso não duraria muito tempo.
Fátima está na praça lendo um jornal, até que vê César caminhando.
FÁTIMA - César odiava o pai e a família. Um ganancioso. Seria fácil ganhá-lo.
Cena de César e Fátima conversando.
FÁTIMA - Ele me ajudou a tramar para enlouquecer Afonso e fazê-lo se matar.
Flashback:
CÉSAR – Apesar disso, sempre há uma saída. Às vezes, meu pai [sorri], tudo o que se espera de um homem é que ele saiba quando deve sacrificar-se.
Fim do Flashback
CORTA PARA:
10. INT. CASARAO DE FÁTIMA / QUARTO ESCURO - MANHÃ
A Sacerdotisa a encara, incrédula.
SACERDOTISA - Então você trouxe o mal para nossas terras.
FÁTIMA - Eu estava ao lado de César até notar o erro que cometi. Entende porque quero denunciar a vergonha deles? Quero me reparar.
SACERDOTISA - Exponha isto em um jornal. Será um belo escândalo.
FÁTIMA [olhando para ela, admirada] - Perfeito.
11. INT. REDAÇÃO DE JORNAL – TARDE
O ambiente é abafado e movimentado. Homens de gravata fumam e discutem manchetes.
SFX: Máquinas de escrever martelam sem parar.
A porta de vidro se abre com força. Fátima entra com um envelope grosso nas mãos. Ela caminha até a recepção.
RECEPCIONISTA - A senhora tem hora marcada?
FÁTIMA - Tenho uma denúncia.
Ela tira os óculos. O olhar gélido e direto do rosto dela silencia a sala.
RECEPCIONISTA - Sobre… o quê?
FÁTIMA - Sobre os Sénéchal. Tudo o que a cidade inteira finge que não vê.
Um jornalista mais velho observa da porta entreaberta de uma salinha de vidro.
JORGE (o editor) - Deixe ela entrar. Agora.
12. INT. SALA DE JORGE – MINUTOS DEPOIS
Jorge está sentado à escrivaninha. Fátima deposita o envelope sobre a mesa.
JORGE - Se isso for o que eu estou pensando, vai abalar metade do estado.
FÁTIMA - Vai abalar uma dinastia inteira.
Ele abre o envelope. Dentro, documentos, cartas antigas, fotos borradas de Afonso com Dahlía, e o manuscrito de Fátima, com letras trêmulas e firmes.
JORGE [empolgado] - Meu Deus… Isso é sério.
FÁTIMA - É apenas a superfície. Há crimes escondidos há vinte anos. Assassinato. Corrupção. Um pai apaixonado pela filha. Tudo isso tem nome e sobrenome: Sénéchal.
JORGE - A senhora tem provas de que ele matou a moça?
FÁTIMA - O corpo foi apagado. Mas eu vi. Eu estava lá.
Silêncio. Jorge encara Fátima com peso.
JORGE - Publicaremos isso amanhã. Primeira página. Que Deus nos ajude.
FÁTIMA - Deus não vai ajudar ninguém. Ele já se retirou dessa história faz tempo.
Ela se levanta. Vai embora sem dizer mais nada.
13. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / ESCRITÓRIO DE CÉSAR – NOITE
César joga um copo de uísque contra a parede. O som do vidro quebrando ecoa no casarão.
Ele segura o jornal, amassado, com as mãos trêmulas. A matéria cobre quase toda a primeira página.
TÍTULO: “A CASA DOS MORTOS – SEGREDOS ESCONDIDOS PELOS SÉNÉCHAL”
Abaixo, uma foto antiga de Afonso e uma jovem Dahlía sorrindo ao piano.
CÉSAR - Desgraçada…
Eleanor observa da porta, pálida.
ELEANOR - César… o que está acontecendo?
CÉSAR - Ela me traiu. Ela me usou. Fátima… jogou nossa família na lama.
Ele caminha de um lado a outro, enlouquecido. Ele pega algo na gaveta e sai.
ELEANOR - Aonde vai?
CÉSAR - Acertar as contas.
14. EXT. CASA DE FÁTIMA – NOITE
O carro de César estaciona bruscamente. Ele salta, ofegante, com a arma escondida sob o paletó. Caminha decidido até a porta.
15. INT. CASA DE FÁTIMA / SALA – CONTINUADO
Fátima está sentada em silêncio. Um cinzeiro cheio ao lado. Ela escuta as batidas na porta.
SFX: Batidas fortes, urgentes.
Ela apaga o cigarro e vai até a porta. Abre. Vê César.
FÁTIMA - Veio me agradecer pela manchete?
CÉSAR - Você destruiu meus planos!
FÁTIMA - Eu só levantei o tapete.
César entra com violência. Fecha a porta atrás de si. Saca a arma.
CÉSAR - Você vai desmentir tudo. Hoje.
FÁTIMA - Não.
CÉSAR - Então vai morrer com essa pose de mártir.
Ele aponta a arma para ela. Fátima não se move.
FÁTIMA - Atire. Mas saiba que a manchete de amanhã vai ser ainda pior.
SFX: SOM DE PASSOS APRESSADOS
Sônia surge por trás de César. Em mãos, um abajur de metal.
SFX: IMPACTO SECO
Ela acerta César na cabeça. Ele cai, desmaiado.
Silêncio. Fátima respira fundo. Sônia observa o corpo caído, trêmula.
FÁTIMA - Demorou.
SFX: Instrumental de impacto
SÔNIA - Ele… ele ia te matar.
FÁTIMA - É o que sua família faz. Matam os que ameaçam os expor.
SONIA - Nao fale isso. Não tenho nada a ver com os erros deles.
FÁTIMA - De certa forma tem, afinal nunca fez nada para os impedir.
SONIA - Eu não sabia, Fátima. E agora sabendo, estou aqui para te ajudar. Foi para isso que me chamaram, não foi? Fazer o César parar!
A Sacerdotisa aparece da escuridão.
SACERDOTISA - Estamos fazendo o certo. Justiça.
Sônia olha para Fátima, assustada, depois para a Sacerdotisa.
As três ficam em silêncio, encarando César desacordado no chão.
16. INT. CASA DE FÁTIMA / SALA – CONTINUADO
SFX: Um GEMIDO baixo.
César se mexe no chão, tonto. Leva a mão à cabeça. Abre os olhos, vê as três mulheres em pé ao redor dele.
CÉSAR – O que…?
FÁTIMA – Você tentou me matar. Agora vai me ouvir.
CÉSAR – Vocês enlouqueceram…
SÔNIA – Cale a boca e escute, César. Você tem muito o que explicar.
César tenta se levantar. Fátima se aproxima e o empurra de volta com o pé.
FÁTIMA – Você destruiu minha vida, César. Usou minha dor, matou meu sangue, e agora quis calar a verdade. Não vai mais.
CÉSAR – A cidade toda já leu essa merda? Você contou pra mais alguém?
FÁTIMA – A cidade toda não, o estado, sim. E se algo acontecer comigo, cada redação do país vai receber um dossiê completo.
CÉSAR – Seu plano é me enterrar em praça pública?
FÁTIMA – Não. Isso você faz sozinho.
Sônia se aproxima, firme, mas visivelmente abalada.
SÔNIA – César, o que ela disse no jornal... é verdade?
CÉSAR – Não acredite nesta mulher, mãe. Ela quer destruir todos nós.
FÁTIMA - Ela já sabe que a própria família é um antro de desgosto. Poucos se salvam. Você não é um deles.
SÔNIA – Responda!
Silêncio. César abaixa os olhos.
SÔNIA – Você é pior que seu pai.
SFX: Passos leves.
A Sacerdotisa caminha até o centro da sala, atrás de Fátima.
SACERDOTISA – Não adianta tentar salvar o que está podre desde a raiz.
CÉSAR – A bruxa também quer pregar moral?
SACERDOTISA – Eu só anuncio o que já está escrito. A maldição está selada. A linhagem de Afonso foi marcada. O sangue que ele manchou se vingará. O pai... o filho... todos os que carregam o nome com orgulho, ou em silêncio.
César tenta se levantar novamente. Sônia o observa, tomada por um horror contido.
CÉSAR – Vocês estão doentes... isso é loucura.
FÁTIMA – Você está colhendo o que sua família plantou e você ajudou a regar. A morte de Dahlía foi o estopim. O resto é só consequência.
SÔNIA – Dahlía era mesmo sua filha, Afonso?
Silêncio. César engole seco.
FÁTIMA – Era. E ele sempre soube.
SACERDOTISA – E essa casa... essa cidade... esse mundo velho de aparências... todos vão assistir. O império está desmoronando.
SFX: Relâmpago ao longe.
Sônia recua, assustada. Fátima permanece imóvel, imponente.
FÁTIMA – Você pode tentar fugir, César. Mas a podridão já saiu no jornal. A maldição... essa você não escapa.
CÉSAR – Vocês acham que venceram?
FÁTIMA – A gente não venceu. Só deixamos de ter medo.
Silêncio. César permanece no chão, imóvel. O trovão ecoa ao fundo.
