Ecos de Eros - capítulo 24
CAPÍTULO 24
1. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / TOPO DA ESCADA - AMANHECER
Alexandre desce os degraus devagar, ainda sonolento. Para de súbito.
Ao pé da escada, Sônia, de expressão abatida, está parada ao lado de Dolores, que carrega um olhar bruto, e César, firme, de braços cruzados e um leve sorriso de canto.
Perto da porta, um motorista de terno escuro aguarda ao lado de uma mala.
ALEXANDRE - O que está acontecendo?
Sônia baixa os olhos. Dolores não responde. César se adianta, com tom ensaiado:
CÉSAR - Uma decisão foi tomada, Alexandre. Para o bem da casa. E o seu.
ALEXANDRE - Como assim? Por quê? Que malas são estas?
SÔNIA - Só queremos que entenda que não é castigo. É... necessário. Você vai ficar um tempo sob cuidados médicos. Em São Paulo.
ALEXANDRE - Cuidados? Mas eu não estou doente!
CÉSAR - Há comportamentos que podem ser corrigidos antes que se tornem vergonhas definitivas.
ALEXANDRE [nervoso] - Vocês… Do que estão falando?
Helena aparece no canto da porta, encarando o irmão com tristeza.
Dolores engole seco, evitando olhá-lo. César ajeita a lapela do paletó.
CÉSAR - Estamos sendo discretos. Vamos fazer isso ser bem fácil para todos.
ALEXANDRE - Mãe...
SÔNIA - Vai ser melhor assim. Para todos.
Silêncio. Alexandre morde os lábios com força.
Ele desce o resto dos degraus. Pega a própria mala.
ALEXANDRE - Eu não volto, não é?
SÔNIA - O tempo dirá.
ALEXANDRE - Por favor, mamãe, me perdoe. Não quero voltar para aquele lugar.
DOLORES - Já temos muitos escândalos, Alexandre.
CÉSAR - E se não for por vontade, irá por força.
ALEXANDRE [para Sônia] - Você só me decepciona.
Alexandre caminha até a porta sem olhar para trás. O motorista abre. A luz da manhã entra.
ALEXANDRE [sem virar] - Eu espero que um dia vocês consigam se olhar no espelho.
Ele atravessa a porta. Fecha-se atrás dele. Sônia leva a mão ao peito, mas permanece firme.
César se vira, satisfeito.
Ariel surge no topo da escada, com o cabelo bagunçado, vestindo ainda o robe de dormir. Ele olha ao redor, notando o silêncio estranho no saguão.
ARIEL - Que foi aquele barulho de mala?
Desce dois degraus. Olha para César, depois para Sônia e Dolores, paradas no mesmo lugar.
ARIEL - Cadê o Alexandre?
Silêncio desconfortável. Dolores ajeita o broche no pescoço, impassível. Sônia hesita. César dá dois passos à frente, dominando a situação.
CÉSAR - Alexandre precisou partir. Vai passar um tempo em São Paulo, sob observação. Questões de... saúde.
ARIEL - Saúde? Apesar de tudo, ele tava bem ontem!
CÉSAR - Há certas fragilidades que nem sempre aparecem a olho nu.
ARIEL - Vocês estão mandando ele pra um hospital? Por quê? Ele fez alguma coisa?
SÔNIA - Ariel [suspira] As coisas precisam seguir um curso. Alexandre vai ser cuidado. E você deve focar em seguir também.
ARIEL [agitado] - Isso tem a ver comigo, não tem?
Dolores encara Ariel, firme como uma rocha.
DOLORES - Não convém continuar esse assunto.
ARIEL - Ele foi embora por minha culpa?
CÉSAR - Não torne isso dramático. Já foi decidido. E não é algo que se discute com menino mimado.
ARIEL - Vocês são ridículos!
César se aproxima, agora mais agressivo.
CÉSAR - Tenha modos, Ariel. Você ainda vive sob este teto. E se quiser continuar, vai aprender a obedecer sem fazer escândalo.
Ariel olha para Sônia, esperando compaixão. Mas ela apenas desvia o olhar.
Ariel, indignado, empurra César, Sonia e corre para fora.
2. EXT. CASARÃO SÉNÉCHAL / ENTRADA - MANHA
SFX: Instrumental de despedida
O carro em que Alexandre está está partido, e Ariel corre para vê-lo.
ARIEL - Alexandre! Alexandre!
Alexandre se vira com a mão no vidro, deixando escapar uma lágrima, mas imediatamente se volta para frente e desaba sobre as próprias mãos.
ARIEL [agora mais baixo, quase sussurrando] - Alexandre…
Ariel se joga sobre a grama. O carro vai embora.
3. INT. CASA DE FÁTIMA / SALA ESCURA – NOITE
Velas acesas iluminam um pequeno altar improvisado, que se mistura com imagens de santos e fotos de Dahlía.
Fátima está ajoelhada no chão, os cabelos desgrenhados, sussurrando orações em um ritmo frenético.
FÁTIMA – Minha filha, minha flor, volte para mim. Volte para sua mãe. Eu dou minha vida, eu dou meu sangue. Só volte, só volte...
Seus olhos estão arregalados, vermelhos e lacrimenjantes.
Um vento repentino apaga uma das velas. Fátima estremece, olha em volta. O trinco da porta gira sozinho... e então a porta se abre devagar, sem que ninguém a toque.
A Sacerdotisa preenche a entrada. Seus olhos brilham no escuro.
FÁTIMA – Ah, graças a Deus!
Ela corre até a Sacerdotisa e segura suas mãos.
FÁTIMA – Traz ela de volta. Traz minha menina de volta pra mim, por favor. Ela não terminou, ela ainda... ela ainda não me olhou como devia! Ela ainda está aqui, eu sinto!
A Sacerdotisa caminha alguns passos para dentro. O silêncio parece se adensar à sua volta. Ela encara Fátima com seriedade solene.
SACERDOTISA – Dahlía partiu, Fátima. Ela cumpriu o que veio cumprir.
FÁTIMA – Não, não, não! Você me prometeu! Ela ia ficar comigo! Ela ia…
SACERDOTISA – Prometi que ela ficaria até concluir um ciclo que não dependia de mim e nem de você. Ninguém saberia o momento até ele chegar. E o momento foi agora. Tua filha não pertence mais a este lado.
FÁTIMA – Então... então é isso? Ela não volta mais?
SACERDOTISA – Não com o nome que conheceste. E não para este mundo.
Fátima desaba de joelhos e encara o chão, acabada.
FÁTIMA – Eles levaram ela de mim... Aqueles malditos! Aquela família maldita! Tudo que ela fez foi por vingança, não foi? Não foi por mim! Foi por eles! Foi por aquele desgraçado do Afonso! Miserável!
A Sacerdotisa se aproxima devagar, pousa a mão sobre o ombro da mulher que se entrega ao chão frio.
FÁTIMA - Eu cometi um erro cruel ao tentar intervir na vida daquele desgraçado, e agora estou pagando o preço, não é, Sacerdotisa?
SACERDOTISA – Eles são uma família desajustada, Fátima. A culpa não é tua. Quando Dolores escolheu encobrir o crime do filho, ela não abalou apenas as estruturas da sua vida, mas também a dela própria.
Close seco em Fátima, que expressa ódio.
FÁTIMA - Dolores escondeu o crime do próprio filho, e agora eu o exporei! Falarei a verdade. Mesmo que não acreditem, e mesmo que finjam que eu estou mentindo.
SACERDOTISA - Faça o que acreditar que é melhor.
SFX: Instrumental tenso
FÁTIMA - O melhor… ou o pior.
SACERDOTISA - Só tome cuidado com as consequências.
FÁTIMA [se levantando, irritada] - Tomar cuidado com as consequências? Só eu devo tomar cuidado com as consequências?
SACERDOTISA - Sabe que não é assim.
FÁTIMA - Ele ficou bem durante anos. EU que tive que sacrificar sonhos por conta das desgraças que ELE cometeu. Não se lembra, Nandira?
A Sacerdotisa dá um passo para trás.
4. EXT. JARDINS DA MANSÃO DOS PAIS DE FÁTIMA – FIM DE TARDE (FLASHBACK)
O jardim é amplo e sofisticado. A fonte de mármore, as esculturas e as roseiras bem podadas exibem um cenário clássico. Ao fundo, a mansão da família exibe imponência.
V.O. FÁTIMA - No princípio, eu cria que o amor bastava. Que bastava o calor de dois corpos pra deter o mundo lá fora.
5. INT. JARDINS / DEBAIXO DA ÁRVORE – CONTINUADO
Afonso, jovem e sedutor, usa terno bege, lenço no bolso e cabelo impecável. Fátima, elegante, veste um vestido branco de linho e luvas de renda nos joelhos.
Estão deitados sobre uma manta fina.
AFONSO - Fuja comigo, Fátima. Te levo para longe. Nos casamos na igreja de Saint-Sulpice. Você, de azul-acinzentado, como sonhou.
FÁTIMA - E você com a rosa vermelha no bolso do paletó?
AFONSO - Juro por Nossa Senhora que sim. Uma rosa colhida do teu jardim.
FÁTIMA - Minha mãe me interna, Afonso. Meu pai me deserdará.
AFONSO - Que me deserdem também. Que fiquem com o ouro. Eu quero tua mão.
Ele a beija com doçura, e as mãos deslizam com cuidado pelas suas costas.
FÁTIMA - Me promete que não me larga?
AFONSO - Prometo por tudo que é santo.
Ela sorri. Eles se beijam de novo. As mãos se procuram. O clima esquenta com delicadeza, mas não sem tensão.
V.O. FÁTIMA - Eu achava que, ao me entregar, eu selava o destino dos dois. Nunca soube que, ao contrário, selava minha ruína.
Os beijos se aprofundam. Afonso abre lentamente os botões do vestido de Fátima. Ela hesita, mas o olha nos olhos. Confia.
O som de um relógio distante marca a hora. De repente, um grito estoura a cena.
VOZ DO PAI DE FÁTIMA [distante] - MAS QUE DESGRAÇA É ESSA?!
Ambos se sobressaltam. Os PAIS DE FÁTIMA surgem como uma tempestade.
PAI DE FÁTIMA - Isso é vergonha que se apresente?! Vagabunda dentro do próprio jardim?! Com esse ordinário?
MÃE DE FÁTIMA - Meu Deus do céu! Fátima!
A mãe corre até ela e a puxa pelo braço com violência.
FÁTIMA - Me solta, mamãe! Eu amo ele!
PAI DE FÁTIMA - Ama?! Vai amar trancada no convento, isso sim!
AFONSO - Eu assumo a responsabilidade. Peço a mão de sua filha.
PAI DE FÁTIMA - Peça à polícia pra não te levar preso, moleque!
V.O. FÁTIMA - E ali, naquele jardim de rosas e promessas, começou o meu exílio.
CORTE SECO
6. INT. CASA DE FÁTIMA / SALA ESCURA – NOITE
A sala mergulhada numa penumbra instável.
FÁTIMA - Se é pra queimar o próprio nome, então que seja eu a incendiar tudo. Chega dessa família pisar em cima dos outros como se fossem donos do mundo!
SACERDOTISA – Não precisa acender tocha nenhuma, Fátima.
Fátima a encara, desconfiada.
FÁTIMA – Como não?
SACERDOTISA – Eles irão se destruir sozinhos.
Silêncio. A frase paira pesada no ar. Fátima respira fundo, ainda com o coração latejando.
FÁTIMA - E eu devo ficar aqui... parada... vendo?
SACERDOTISA – Vendo, sim. Mas não parada. Sofrimento também se move, e o teu já mexe coisas que eles nem sabem que existem.
FÁTIMA – Não confio em destino. Já confiei demais.
SACERDOTISA – Isso não é destino. É ruína. Ruína nasce de dentro.
Pausa.
SACERDOTISA – E dentro daquela casa, Fátima... só tem veneno.
Fátima encara a chama vacilante da vela. Seus olhos brilham com uma nova estranheza. Não de vingança — mas de espera.
FÁTIMA – Então que apodreçam todos. Um por um. Mas eu nunca vou me esquecer do que fizeram. Primeiro Afonso, que matou a própria filha, minha filha, e eu tive de cometer um crime para recuperá-la. Agora, por conta do filho dele, ela se foi de vez.
CORTE SECO.
7. EXT. MANSÃO DOS PAIS DE FÁTIMA / FACHADA – DIA (FLASHBACK)
A grande propriedade da família de Fátima, cercada por colunas brancas e jardins bem-cuidados. O sol queima alto no céu.
V.O. FÁTIMA – Depois do escândalo com Afonso, fui tratada como uma vergonha viva. Nem minha mãe ousou me defender.
8. INT. MANSÃO DOS PAIS DE FÁTIMA / SALA PRINCIPAL – DIA
Fátima, muito jovem, está de pé diante dos pais. O pai, tenso, aponta para a porta. A mãe está sentada, com os olhos baixos, como se a vergonha a consumisse.
PAI – Você já nos envergonhou o suficiente. Sai desta casa. Agora!
MÃE – Leva só o que é seu, Fátima...
FÁTIMA – Mas eu estou grávida! E ele... ele é o culpado!
PAI – Grávida da sua própria ruína. Não quero saber. Anda!
O mordomo já aguarda com uma mala em mãos. Fátima sai pela porta com o rosto altivo, sem derramar uma lágrima.
V.O. FÁTIMA – Naquele dia, jurei que voltaria. Não pela porta da frente... mas pela escritura nas mãos.
9. INT. GABINETE DE UM DESPACHO – NOITE
Fátima conversa com um homem elegante, de cerca de 40 anos: o DESEMBARGADOR PAULO. Ele a escuta com atenção, depois sorri com doçura. Oferece-lhe abrigo.
V.O. FÁTIMA – Paulo era velho amigo da família. Me acolheu quando ninguém mais o faria. Tinha os olhos mais honestos que eu já vi. E aos poucos, aquele abrigo virou amor.
10. INT. CASA DO DESEMBARGADOR / SALA – NOITE
Fátima e Paulo dançam devagar, ao som de uma valsa num rádio baixo. A lareira acesa ilumina o semblante tranquilo de ambos.
V.O. FÁTIMA – Ele acreditava em justiça. E me ensinou a acreditar também. Só que justiça, no mundo real, não tem toga. Tem escritura e poder.
11. EXT. MANSÃO DOS PAIS DE FÁTIMA / PORTA PRINCIPAL – DIA
Anos depois. Um automóvel preto elegante para diante da mansão. Fátima desce com elegância, ao lado de Paulo, agora de terno formal. Um corretor abre a pasta com documentos.
Os pais de Fátima estão no alpendre, atônitos.
CORRETOR – A venda foi concretizada, senhores. Peço que desocupem o imóvel até o fim do mês.
O pai de Fátima explode.
PAI – Isso é um ultraje! Uma filha desonrada voltando pra comprar a casa do próprio sangue?
FÁTIMA – Desonrada por amar? Quem desonrou fui eu ou vocês, que preferiram o silêncio à verdade?
MÃE – Minha filha, por favor...
FÁTIMA – Eu não sou mais sua filha. Agora sou dona desta casa. Agora este será o meu casarão. Meu e de Paulo!
Ela passa entre eles, sem abaixar a cabeça.
V.O. FÁTIMA – Nunca desejei humilhá-los... só mostrar que o nome Sénéchal não era o único que podia vencer.
FADE-OUT…
CONTINUA…
