Ecos de Eros - capítulo 23

 





CAPÍTULO 23


1. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / SALA DE ESTAR – TARDE

Chove fino do lado de fora. No centro da sala, o caixão de Denis está aberto, rodeado por velas e coroas. O rosto dele está pálido, lívido, com um grande arranhão perto da testa.


Sônia está sentada ao lado do caixão, vestida de preto dos pés à cabeça. Seus olhos estão fundos, vermelhos. Ela não chora mais. Apenas fita o rosto do filho como se ainda esperasse que ele abrisse os olhos.


Catarina, de preto discreto, observa de longe, nervosa. Helena, Ariel, Alexandre e Dolores estão mais afastados, sentados, todos em silêncio.


O Monsenhor Leôncio reza baixinho em latim.


SÔNIA – Ele era só um menino... não sabia de nada da vida...


Ela acaricia os cabelos do morto. As mãos dela tremem.


SÔNIA – Era só um menino.


CATARINA – Sônia, venha descansar um pouco. Está desde ontem sem se deitar.


SÔNIA – Se eu me deitar, tenho medo de acordar viva.


CATARINA – Você precisa se cuidar. Denis não.


SÔNIA – Denis não volta. Eu sei.


Pausa.


SÔNIA – Mas ele também não devia ter ido.


MONSENHOR [acolhedor] – Deus recolhe os que são seus...


SÔNIA – Deus não recolhe ninguém. Ele toma. Como um ladrão.


Silêncio pesado.


Dolores cochicha algo para Catarina, que assente.

Ariel se mexe no assento, visivelmente desconfortável. Alexandre olha para ele, depois para o caixão, e desvia o olhar com força.

Helena observa Sônia com estranha inquietação.


SFX: O trovão ao longe. Uma rajada de vento faz as velas oscilarem.


SÔNIA – Eu daria meu lugar. Daria tudo. Tudo. Era pra ser eu.


Ela se encurva sobre o caixão e o abraça com cuidado, quase deitando-se sobre o corpo do filho.


SÔNIA – Era pra ser eu, meu filho...


Silêncio.


CORTE PARA:


2. INT. CASARÃO DE ADELAIDE / SALA DE ESTAR – TARDE

Eleanor, vestida de preto, passa pelos pais.


ELEANOR – Não irão ao velório?


ADELAIDE – Você sabe que odeio ver gente morta, Eleanor. Seu pai vai.


ELEANOR – É o Denis, minha mãe. O Denis!


ADELAIDE – Pode ser o Denis, o Papa, não importa!


CLARÊNCIO – Deixe sua mãe, Eleanor. Vamos.


ELEANOR – Você me envergonha assim, mamãe.


Adelaide faz uma careta. Eleanor e Clarêncio saem.


3. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / SALA DE ESTAR – TARDE

Dolores leva um chá a Catarina.


DOLORES – Fez mais frio hoje. Achei que um chá poderia aquecer um pouco.


CATARINA – Obrigada, mamãe.


Dolores serve a xícara e senta-se ao lado da filha.


DOLORES – Você está pálida.


CATARINA – Estou... angustiada.


DOLORES – Pelo Denis?


CATARINA – Claro. Mas... é o Fernando. Ele disse que voltaria no dia seguinte. E já faz quase uma semana.


DOLORES – Às vezes os negócios tomam mais tempo do que o previsto.


CATARINA – Fernando não some assim. Ele manda telegrama. Até liga. Ele... ele sabe como eu fico.


DOLORES – Catarina, ele é um homem responsável.


CATARINA – É justamente por isso que estou aflita.


DOLORES – Você quer que César tente fazer alguma ligação? Podemos pagar.


CATARINA – César só se importa consigo mesmo. Certamente brindou a morte do pai.


DOLORES – Não fale assim...


CATARINA – Digo o que vejo. Meu sobrinho perdeu a alma. E você sabe disso.


Pausa. O tique-taque do relógio volta a dominar.


CATARINA – Se Fernando não der sinal de vida até amanhã, eu mesma vou atrás.


DOLORES – Atrás onde?


CATARINA – Onde quer que ele esteja.


4. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / ESCRITÓRIO DE CÉSAR – TARDE

SFX: Batida discreta na porta.

VOZ DO MORDOMO (OFF) – Telegrama urgente, senhor César.


César não se vira.


CÉSAR – Pode deixar na mesa.


A porta range, o mordomo entra e sai sem uma palavra. O silêncio se impõe novamente.

César termina a frase que escrevia, cuidadosamente. Pousa a caneta, acende um cigarro com calma. Só então estende a mão e abre o envelope.

Pausa longa.

Ele lê.

A câmera foca seu rosto: imperturbável... até que um sorrisinho discreto aparece no canto da boca.


Ele dobra o papel, levanta-se, caminha até o bar e serve-se de conhaque.

Brinda consigo mesmo diante do espelho antigo que há no fundo da sala.


CÉSAR – À liberdade!


Ele toma um gole.

Olha para o quadro de Afonso, o pai morto, pendurado na parede, como se pudesse ouvi-lo. Ao lado, o quadro de Fernando.


CÉSAR – Menos um para me atrapalhar.


Pega uma folha em branco e começa a escrever outra coisa, com firmeza. A câmera se aproxima devagar por trás dele: vemos o que está no topo da página.


TÍTULO: POSSE DEFINITIVA, CASARÃO SÉNÉCHAL


CORTE SECO.


5. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / SALA – TARDE

Eleanor e Clarêncio entram, e Catarina os recebe. De longe, César observa a todos com um leve sorriso no olhar.


CÉSAR – Não irei esperar muito tempo… hoje à noite terão uma surpresa.


FADE-OUT.


6. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / SALA DE ESTAR – NOITE

Todos estão reunidos: Catarina, Dolores, Ariel, Helena, Alexandre e Sônia, em silêncio denso. O clima ainda é de luto.


SFX: PASSOS FIRMES NO ANDAR DE CIMA.


César desce as escadas calmamente. Veste-se com elegância, o telegrama dobrado na mão.


CÉSAR – Recebi notícias do tio Fernando.


Todos se viram para ele, atentos.


CATARINA [pulando do sofá] – O que houve? Ele está bem?


César ergue o telegrama.


CÉSAR – O jatinho caiu no mar.


SFX: Impacto.


CÉSAR – Encontraram destroços. Nenhum sobrevivente.


CATARINA – Não… não, isso não é verdade…


Ela leva a mão ao rosto, trêmula.


SÔNIA – Meu Deus! Fernando?


DOLORES – Santo nome de Jesus…


ARIEL [tremendo] – Isso… é certo?


CÉSAR – Certo o suficiente. Foi o que chegou por via oficial.


CATARINA – Mas… ele sempre avisava. Ele nunca sumiria assim. Ele nunca…


CÉSAR – Era um risco calculado. Quem vive de altos voos, cedo ou tarde cai.


CATARINA – Não fale do meu marido como se fosse uma ação em falência!


CÉSAR – E você se esquece de que este casarão pertencia a ele. Com sua ausência definitiva, passo a ser o único homem legalmente apto a manter essa propriedade.


DOLORES – César…


CÉSAR – Isso aqui precisa de comando. Ordem. E eu estou mais do que preparado para assumir. Oficialmente.


SÔNIA – Você não perde tempo, não é?


CÉSAR – Tempo é a única coisa que não podemos negociar, minha mãe. Eu aviso: a partir de amanhã, quem ficar aqui, será sob minha responsabilidade. Quem discordar, que junte suas malas.


SÔNIA – Seu pai teria vergonha de você.


CÉSAR [com um sorriso maldito] – Meu pai está morto. E os mortos não têm opinião.


Catarina desaba.


CATARINA – Não, não, não! Isso não está acontecendo! NÃO ESTÁ!


Ela empurra a mesa à frente com um braço trêmulo. Os vasos de prata caem no chão com estrondo.


CATARINA – ELE PROMETEU! ELE DISSE QUE VOLTAVA, QUE AINDA IA FAZER A FESTA DE ARIEL! [se vira para César] MENTIROSO! MALDITO!


César faz uma careta de deboche.


Ariel sobe num pulo.


ARIEL – O quê?!


Ele sai correndo escada acima, tropeçando nos degraus. Alexandre reage e corre atrás.


ALEXANDRE – Ariel! Ariel, espera!


Catarina continua gritando, rasgando o próprio casaco.


CATARINA – Ele me deixou! Ele me deixou! O homem da minha vida me deixou!


César sai dali assobiando.


Sônia se aproxima, tenta segurá-la.


SÔNIA – Catarina, calma... venha cá, vem...


CATARINA – NÃO ENCOSTE EM MIM!


Ela se solta de Sônia, vai até a parede e começa a bater com as mãos, como se quisesse arrancar a casa do lugar.


CATARINA – Maldição! É tudo culpa de vocês! Ele só foi pra fugir dessa casa! Dessa casa suja! SUJA!


Dolores se aproxima devagar.


DOLORES – Filha... meu amor, vire-se, olhe para mim.


CATARINA – Eu... eu fiquei sozinha de novo, mãe. Eu estou sozinha...


Ela cai de joelhos, desabando como uma criança. Dolores corre até ela e a abraça. Sônia se junta, e as duas tentam segurá-la, acalmá-la como podem.


Helena, parada no canto da escada, observa tudo em silêncio. Seus olhos acompanham o caos com espanto e medo. De repente, ela dá um passo atrás, trêmula, e corre escada acima também.


7. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / QUARTO DE ARIEL – NOITE

Ariel entra atordoado, os olhos vermelhos. Bate a porta, encosta as costas nela. Desliza até o chão. O quarto está à meia-luz, com a janela aberta, deixando entrar o vento da noite.

Alexandre entra logo depois, ofegante também. Para na porta.


ALEXANDRE – Ariel...


ARIEL esconde o rosto entre os braços.


ARIEL – Vai embora, por favor...


ALEXANDRE – Eu não vou deixar você sozinho.


Ariel chora baixo, sem fazer alarde.


ARIEL – Faz o que quiser. Ninguém manda em nada aqui mesmo.


Alexandre fecha a porta atrás de si. Caminha até o meio do quarto, sem saber onde parar.


ALEXANDRE – Eu... escutei você gritando mais cedo. Só queria saber se está bem.


ARIEL – “Estar bem” não existe mais. Meu pai morreu, Alexandre. Morreu. Assim... de repente. E ninguém vai fazer nada. A vida vai continuar como se ele fosse só mais um nome no telegrama do César.


Alexandre abaixa o olhar.


ALEXANDRE – Eu sei exatamente o que está sentindo, mas ninguém nunca me ensinou o que fazer quando as pessoas que a gente gosta somem para sempre.


Ariel levanta o olhar, encarando Alexandre.


ARIEL – Você gostava do meu pai?


ALEXANDRE – Eu respeitava ele. Era um dos únicos que parecia… diferente do resto.


Ariel solta um riso seco, meio nervoso.


ARIEL – Pois é. E agora sobrou só o resto.


Silêncio.


ALEXANDRE – Eu sei que isso não muda nada, mas... se você quiser, eu fico aqui. Não precisa falar nada. Era algo que me fez falta quando perdi meu pai, e que ninguém teve tempo de dar, sabe? Todos estavam atordoados demais; mas eu estou aqui para você.


Ariel baixa a cabeça. Depois de um momento, estica o braço e dá um leve tapa no chão, ao lado dele.


ARIEL – Senta aí, então.


Alexandre se senta. Os dois ficam lado a lado, quietos, ouvindo o barulho do vento lá fora, e vozes abafadas da movimentação no andar de baixo.


ARIEL – Eu odeio esse lugar. Odeio essa família. Odeio tudo aqui dentro. Mas você… bem, é o único que ainda parece real.


Alexandre olha pra ele com surpresa.


ALEXANDRE – Eu?


ARIEL – É. Você não finge. Você só... é. E mesmo quando faz merda, não tenta se esconder. E isso importa mais do que você imagina.


Alexandre respira fundo, sem conseguir dizer nada.


ARIEL – E eu não sei se isso é certo, ou se faz algum sentido agora, mas... eu tô cansado de guardar as coisas. Cansado de fingir que não sinto nada.


Alexandre vira o rosto, devagar, e os olhos dos dois se encontram. Um silêncio estranho e elétrico surge entre eles.


ALEXANDRE – Ariel...


ARIEL [sussurrando] – Se for pra parar, para agora.


Alexandre não para. Ele se aproxima, devagar, trêmulo. Ariel também. O beijo acontece, contido no começo, depois mais firme. Alexandre coloca a mão atrás da cabeça de Ariel, e suas línguas se encontram sem hesitação.


CORTE:


7. INT. CORREDOR DO CASARÃO – MESMO INSTANTE

SFX: Instrumental tenso.

Helena, parada atrás da porta entreaberta, observa. Os olhos arregalados.

Ela leva a mão ao próprio peito, sentindo o coração bater forte. Um passo para trás. Sai correndo pelo corredor escuro.