Ecos de Eros - capítulo 22




 CAPÍTULO 22


1. INT. CASA DE FÁTIMA / SALA – MADRUGADA

Fátima entra cansada, batendo a porta. O silêncio da casa é absoluto. Ela larga algo sobre a poltrona, sobe correndo as escadas.


2. INT. CASA DE FÁTIMA / QUARTO DE DAHLÍA – CONTÍNUO

Ela abre a porta de uma vez. O quarto está vazio, a janela escancarada. Cortinas tremulam com o vento.


FÁTIMA – Dahlía?


Ela se aproxima da cama, toca no lençol. Frio.


3. EXT. ESTRADA – MADRUGADA

Fátima sai correndo pela rua deserta, descalça, a barra da saia voando, então sai correndo em direção à herdade de Eros.


4. INT. LOUNGE – MADRUGADA

Fernando aguarda sentado no sofá, tenso, ajeita os punhos da camisa.

SFX: Barulho metálico distante, algo sendo arrancado.

Ele se levanta, tenta enxergar diante da escuridão, mas não vê nada e desiste.


5. EXT. HANGAR / JATINHO PARTICULAR – MESMO MOMENTO

Um homem encapuzado destrava a fuselagem lateral do avião. Arranca os fios do sistema elétrico e recoloca a tampa com pressa. Sai correndo pelas sombras.


6. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / SALA DE ESTAR – MADRUGADA

A porta da frente se escancara. César entra com o casaco jogado sobre o ombro, semblante triunfante. Sônia surge do alto da escada, desesperada.


SÔNIA – CÉSAR! Onde você estava, meu Deus? O Denis... o Denis sumiu! Aquela garota o levou! Aquela... aquela Dahlía!


CÉSAR – E eu com isso?


SÔNIA – Você com isso? É seu irmão! Está morto de preocupação ou virou pedra?


CÉSAR [grudando o casaco no cabide, irritado] – Não é meu filho, Sônia. Cansei de apagar incêndio que não é meu.


SÔNIA [gritando] – Não é seu filho, mas é seu sangue! Ele sumiu, CÉSAR! Acorde, pelo amor de Deus!


CÉSAR [se virando lentamente] – Sumiu porque quis. Vive correndo atrás de assombração! Acha que me surpreende?


SÔNIA – Você é um nojento... um inútil! Não sente nada por ninguém! Desde que seu pai morreu, você só quer saber de encher-se de poder! Se fosse você no lugar dele, ao menos chorávamos menos!


CÉSAR [avança, descontrolado] – Cala a boca, Sônia!


Ele ergue a mão e dá um tapa forte em Sônia. O som seco ecoa pela sala.


Silêncio.


Sônia fica parada, respirando fundo, sem reação imediata. Depois, devagar, vira o rosto para encará-lo.


SÔNIA [voz baixa, cortante] – Você... me bateu?


CÉSAR [se dá conta do que fez] – Eu... você me provocou, Sônia… eu…


Sônia avança e empurra César com força.


SÔNIA [gritando] – Seu imprestável! Você não é homem! Você é um fardo, CÉSAR!


SÔNIA – VOCÊ DEVERIA TER NASCIDO MORTO!


César tropeça e cai no sofá. Sônia continua a esmurrá-lo, cega de raiva. César tenta se defender, mas ela bate com tudo.


SÔNIA [pancada] – Inútil! [pancada] Covarde! [pancada] Tudo isso é sua culpa! Você e sua maldição!


ALEXANDRE – Mamãe!


Ariel, Helena, Catarina e Dolores aparecem, todos correndo.


CATARINA – Pelo amor de Deus!


DOLORES – Sônia, CHEGA!


Sônia para, ofegante. César está no chão com o orgulho em frangalhos. Todos olham, estáticos.


SÔNIA – Essa família foi destruída por dentro. E você, César... você é o verme que comeu o coração dela.


Silêncio cruel.


Fátima aparece de repente.


FÁTIMA – Onde está Dahlía?


Todos viram-se para ela.


DOLORES – Mas que inferno para se ter cão!


FÁTIMA – O meu silêncio durou demais. Agora, eu exijo saber: onde está minha filha?


Alexandre respira fundo. Ainda ofegante da cena anterior.


ALEXANDRE – Ela saiu... com o Denis.


Corte seco.


7. EXT. QUILOMBO / ALDEIA – MADRUGADA

O vento sopra forte. As árvores estalam. As tochas se apagam uma a uma, deixando o terreiro em penumbra.

Mulheres recolhem rapidamente objetos de ritual. Um tambor cai sozinho e rola até os pés da SACERDOTISA, que está sentada num banco de madeira, com os olhos voltados para a mata escura.

KAWAME se aproxima devagar, inquieto.


KAWAME – O vento mudou.


SACERDOTISA – Não foi o vento que mudou.


KAWAME – Não?


SACERDOTISA – Foi a terra. Foi o sangue.


SACERDOTISA – Eles chamaram alguém que já não pertence a este lado.


KAWAME – Quem?


SACERDOTISA – A filha perdida. A que não descansou, e meu maior erro.


SACERDOTISA [se vira para Kawame] – A maldição começou a assolar os Sénéchal.


Um trovão distante ecoa. Kawame engole seco.


KAWAME – Vai haver mais morte?


SACERDOTISA – O que foi tomado... exige retorno.


Ela suspira.


SACERDOTISA – E os vivos já não sabem a diferença entre amar e corromper.


Ela esfrega a terra entre os dedos. Um raio corta o céu.


SACERDOTISA – A terra gemeu esta noite, Kawame. E quando a terra geme é porque um inocente vai ser tragado com ela.


O vento aumenta. Folhas se agitam. A fogueira apaga de vez.


8. INT. AEROPORTO / HANGAR – MADRUGADA

O jatinho aguarda com as turbinas já ligadas. Fernando, de sobretudo claro e maleta de couro, caminha em passos calmos pela pista molhada.

Ele olha para o céu negro, pesado, ameaçador. Um trovão distante.

O piloto acena, e Fernando embarca sem hesitar.


CORTA PARA:


10. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / SALA DE ESTAR – NOITE

Sônia está sentada, trêmula, cercada por Catarina, Dolores, Alexandre e Ariel. Todos em silêncio tenso. Fátima está em um canto com as mãos na cabeça.

SFX: O relógio faz TIC-TAC alto.


CATARINA – Não se preocupe, Fátima. Irão voltar.


FÁTIMA – Você não sabe de nada, Catarina.


Um barulho súbito.


SFX: Batem à porta.


Todos se olham.


11. INT. JATINHO / INTERIOR – NOITE

FERNANDO afivela o cinto. Um copo com uísque sobre a mesinha.

A decolagem é violenta. O avião sacode forte. Um dos comissários se segura.


PILOTO (V.O.) – Atenção... estamos enfrentando ventos cruzados. Pedimos calma e paciência.


TURBULÊNCIA.

A maleta de Fernando cai no chão. Ele segura firme no assento.


12. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / HALL – NOITE

Catarina abre a porta.

Dois policiais de sobretudo e chapéu estão à porta, sérios, molhados de chuva.


CATARINA – Ai, meu Deus, não…


Sônia se levanta.


POLICIAL 1 – Boa noite. Procuramos a senhora Sônia Sénéchal.


CATARINA – É a minha cunhada... aconteceu algo?


13. INT. JATINHO / INTERIOR – NOITE

O avião treme. O painel apita.


PILOTO (V.O.) – Perda de altitude! Repito: perda de altitude!


Um estalo. Luzes piscam. O uísque se derrama.


FERNANDO – Que merda é esta acontecendo?!


CORTE PARA:


14. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / SALA – NOITE

SÔNIA levanta. Os policiais já estão dentro.


POLICIAL 1 – Precisamos que se sente, senhora.


SÔNIA – Diga de uma vez. Diga!


POLICIAL 1 – Seu filho, Denis Sénéchal, sofreu um acidente esta noite.


Pausa longa, e Sonia começa a hiperventilar.


POLICIAL 2 – O carro em que ele estava colidiu. Ele não resistiu.


Silêncio absoluto.


Helena cobre a boca. Dolores deixa cair um copo. Alexandre cambaleia. Catarina faz uma cara aterrorizada e começa a chorar.


FÁTIMA [sussurrando] – Minha filha…


15. INT. JATINHO / INTERIOR – NOITE

Alarme ensurdecedor. Tudo chacoalha. Um dos motores pega fogo. A asa se inclina.

Fernando grita, tentando se levantar, mas o cinto o prende. Ele olha para o teto, os olhos arregalados.


FERNANDO – Me tirem daqui! Me tirem daqui!


CORTE PARA:


16. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / SALA – NOITE

Sônia desaba de joelhos, um grito preso na garganta.


SÔNIA – Denis...!


A chuva começa a cair forte lá fora.


17. EXT. CÉU / NOITE

O jatinho desaparece entre as nuvens, envolto em relâmpagos.

Um clarão.


CORTE SECO. ESCURIDÃO.