Ecos de Eros - capítulo 21

 





CAPÍTULO 21


1. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / QUARTO DE DENIS – NOITE

Denis está deitado na cama, com os olhos abertos, a luz do abajur acesa. Ele se senta de repente, inquieto.

Corta para ele indo até a porta e saindo em silêncio.


2. INT. CORREDOR – NOITE

Denis anda em passos curtos, olha para os lados, vai até o quarto do irmão.


3. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / QUARTO DE ALEXANDRE – NOITE

O quarto está vazio.

Denis ri de canto, vai até a estante e puxa um dos livros, revelando a passagem secreta que Dahlía havia mostrado. Ele se prepara para sair por ali, mas...

Alexandre entra no quarto.


ALEXANDRE – Onde você pensa que vai?


Denis se assusta. Se vira, fecha a passagem depressa.


DENIS – Está me vigiando agora?


ALEXANDRE – Vi você pelo corredor. Não é difícil juntar dois e dois.


DENIS – Então junte logo. Estou saindo, e não vou discutir com você.


ALEXANDRE – Vai encontrar ela novamente?


DENIS – Isso não lhe diz respeito.


ALEXANDRE – Vai jogar fora tudo de novo? Não demorou nem uma semana!


DENIS – Pelo menos não fico me escondendo atrás de máscaras como você.


Alexandre franze a testa.


ALEXANDRE – Do que você tá falando?


DENIS – Você e o Ariel. Achei que ninguém tivesse notado, mas eu notei.


ALEXANDRE – Cuidado com o que diz.


DENIS – Cuidado você. Vive olhando pra ele como quem quer beijar, e ele também, mas finge que é só raiva. Que nojo.


Alexandre parte pra cima, empurra Denis.


ALEXANDRE – Cala essa boca!


DENIS – Acertei?


Alexandre respira fundo. Os dois se encaram. Silêncio.


DENIS – Não se mete comigo.


Ele sai, deixando Alexandre furioso e sem reação.


4. EXT. CASARÃO SÉNÉCHAL / JARDINS – NOITE

Denis pula o muro dos fundos. Ao cair do outro lado, Dahlía já o espera. Ela sorri.


DAHLÍA – Achei que não vinha.


DENIS – Eu sempre venho.


Eles se beijam, e ela segura a mão dele.


DAHLÍA – Pra onde vamos?


DENIS – Conhecer um pedaço do meu mundo.


Os dois seguem estrada abaixo.


5. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / COZINHA – NOITE

Alexandre entra, abre a geladeira, pega um copo d’água. Ariel está sentado na mesa, comendo um pedaço de bolo.


ARIEL – Você aqui de novo?


ALEXANDRE – Voltou a ser chato?


ARIEL – Estou brincando.


ALEXANDRE – Você brinca demais.


ARIEL – Foi mordido por um macaco, Alexandre?


ALEXANDRE – Pode ser.


ARIEL – Não pode ser. Ou foi ou não foi.


Alexandre fecha a geladeira, vira-se. Ariel joga uma casca de pão que acerta o ombro dele.


ALEXANDRE – Está maluco?


ARIEL – Errei. Era na testa.


ALEXANDRE – Vai ver só.


Alexandre joga de volta, acerta o peito de Ariel.


Ariel avança e pega Alexandre pelos ombros. Os dois rolam rindo até encostarem no balcão.

Eles se olham. Rosto com rosto. O riso vai sumindo, devagar. Os olhares ficam presos.


ARIEL – Vai desistir?


ALEXANDRE – Você é fraco demais.


Ariel empurra Alexandre mais contra a bancada. Alexandre segura a camisa de Ariel.

O momento se suspende no ar. Silêncio. Respiração.


SÔNIA [Off] – O que está acontecendo aqui?


Alexandre e Ariel se afastam como dois gatos assustados.


Sônia entra com uma expressão desconfiada.


SÔNIA – Que brincadeira é essa?


ALEXANDRE – Nada, mamãe. Só... só estávamos rindo.


ARIEL – Era uma piada. Alexandre escorregou.


Sônia olha para os dois. Demora um segundo.


SÔNIA – Vão dormir. Não quero bagunça nessa cozinha.


Ela sai.

Os dois meninos trocam olhares envergonhados.


6. EXT. ESTRADA DE TERRA – MADRUGADA

Denis e Dahlía chegam. Há carros antigos, pessoas fumando, rádio alto.

Um carro se posiciona pra uma corrida. Um homem grita:


CORREDOR – Valendo em três!


A multidão grita. Os carros disparam.

Denis observa, sorri.


DAHLÍA – É aqui que você se esconde?


DENIS – Isso é viver.


Eles se beijam.


DAHLÍA – Eu acho divertido, mas é muito barulhento! Vamos para um local só nosso!


Ela o puxa.


CORTA PARA:


7. EXT. MATO PRÓXIMO À PISTA – MADRUGADA

Denis e Dahlía saem correndo e deitam entre as folhas. Ele beija o pescoço dela.


DAHLÍA – Está tremendo.


DENIS – É que eu gosto de você.


DAHLÍA – E só me conhece há alguns dias.


DENIS – Quero poder dizer que conheço há anos!


Eles se olham profundamente, e seus lábios se tocam com delicadeza. A frequência aumenta, e agora os beijos são mais fortes.

Ela tira a camisa dele. Ele tira a dela. Os seios da garota à mostra, e novamente Denis os acaricia.

Ansiosa, Dahlía começa a remover a calça de Denis. Sua jaqueta é deixada de lado, e sua bunda está completamente explícita.


DAHLÍA – Eu te amo. Você é meu.


SFX: Instrumental romântico


Denis beija o pescoço dela. A garota abre as pernas, envolvendo Denis num abraço inferior forte, ao mesmo tempo que se enrosca nele como uma serpente, usando os braços.


DENIS [ofegante] – Você é minha. Totalmente minha.


Denis se move para frente e para trás, e Dahlía expressa prazer com gemidos altos.

A câmera sobe lentamente, deixando só os sons da floresta e das respirações misturadas.


8. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / CORREDOR – MADRUGADA

Sônia anda pelo corredor, pensativa. Para diante do quarto de Alexandre. Ouve murmúrios. Segue caminho.


9. INT. QUARTO DE CATARINA – MADRUGADA

Catarina dorme, inquieta. Sua respiração está acelerada.


CORTE PARA: Imagens distorcidas de Fernando sorrindo, com sangue nos olhos.


Ela acorda com um grito.


CATARINA – Fernando! Fernando!


Alguém bate à porta e entra. É Sônia.


SÔNIA – Catarina, o que houve? Estava andando pelos corredores e ouvi seus gritos!


CATARINA – Fernando, Sônia. Tive um sonho horrível com o Fernando!


Sônia corre para abraçá-la.


SÔNIA – Ficará tudo bem. Calma...


(Close no rosto de Catarina.)


10. INT. QUARTO DE ALEXANDRE – MADRUGADA

Alexandre está sentado na cama, chorando baixinho. Helena entra.


HELENA – Está doente?


ALEXANDRE – Só cansado.


HELENA – Quer que eu fique?


Alexandre puxa a irmã para um abraço. Ela encosta a cabeça no ombro dele.


ALEXANDRE – Acha que nascemos errado?


HELENA – O quê?


ALEXANDRE – Deixa pra lá. Você é só uma criança. Não entenderia.


HELENA – Uma criança, não uma mula!


Alexandre ri baixo.


HELENA – Acho que nascemos juntos.


Silêncio. Os dois ficam ali, abraçados.


ALEXANDRE – Boba... [pausa] É só que… muitas vezes parece que estou aprisionado aqui, Helena.

(Ele aponta para a própria cabeça.)

Assim como aqui...

(Ele faz um gesto abrangente pelo quarto.)


HELENA – Somos prisioneiros de qualquer forma, Lê. Se não somos prisioneiros do pai e da mãe, somos prisioneiros de nós mesmos. Só não podemos deixar que eles ditem nosso destino.


Alexandre a encara por um minuto e depois franze o cenho, pensativo.


ALEXANDRE – Eu já volto, Helena.


11. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / CORREDORES – NOITE

Alexandre caminha decidido em direção ao quarto de Ariel, mas Sônia, acompanhada de Catarina, acudida, aparece.


SÔNIA – Para onde está indo? Deveria estar em sua cama.


ALEXANDRE – Eu só...


CATARINA [abatida] – Deixe, Sônia. Ele deve estar indo para o quarto de Ariel.


SÔNIA – Fazer o que no quarto de Ariel?


Alexandre fica tenso. Ariel aparece.


ARIEL [notando a mãe] – Mãe? O que houve com você?


CATARINA – O seu pai, Ariel...


ARIEL – O que tem o papai?


SÔNIA – Ele teve apenas um pesadelo.


CATARINA [sombria] – Não foi um pesadelo, Sônia. Eu senti, e senti dentro de mim.


SFX: Instrumental de suspense


12. EXT. AEROPORTO – MADRUGADA

SFX: Instrumental de suspense continua


Fernando sobe num jatinho particular, auxiliado por dois homens.

Ele olha pela janela antes de o avião decolar.


13. EXT. MATO PRÓXIMO À PISTA – MADRUGADA

Denis e Dahlía estão deitados entre folhas e terra. Ele passa os dedos pelos cabelos dela, ofegante, satisfeito.


DAHLÍA – Estou feliz por isso.


Denis ri, passando a mão nos cabelos dela.


DAHLÍA – Você é diferente dos outros. A maioria corre pra longe de mim.


DENIS – É impossível correr para longe de você.


Ela se levanta, ainda sem a camisa, e se estica como um gato. Veste-se devagar. Denis a observa, encantado.


SFX: Som distante de carros acelerando e vozes.


DAHLÍA – Ainda há um circo ali fora.


DENIS – Vamos ver quem ganhou?


Eles se aprumam e caminham de volta à pista improvisada.


14. EXT. ESTRADA DE TERRA – PISTA DE RACHA – MADRUGADA

Ao retornarem, a multidão está mais agitada. Faróis acesos. Música no rádio de um Chevrolet Bel Air. Gritos. Fumaça.


FELIPE está ali. Jaqueta de couro, rosto afilado e cínico. Ele vê Denis e Dahlía de mãos dadas.


FELIPE – Ah, só pode mesmo ser brincadeira.


DENIS – Não acredito que o Diabo mandou seu enviado especial do canto mais quente do inferno só pra me atormentar.


FELIPE [indo para cima] – Você pensa que venceu, mas fracassou ridiculamente da última vez.


DENIS – Nunca disse que venci.


FELIPE – Ótimo. Então podemos tentar novamente. Vai correr ou vai fugir?


ALGUÉM NA PLATEIA [gritando] – Corre nada! Ele é um Sénéchal! Frouxo!


RISADAS.


Denis solta a mão de Dahlía. A olha por um momento. Ela parece distante, quase translúcida sob os faróis.


DAHLÍA – Se for... corra por mim.


DENIS – Vocês são ridículos!

(se vira para Felipe)

Vamos!


15. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / QUARTO DE DENIS – MESMO MOMENTO

Sônia bate à porta.


SÔNIA – Denis? Está acordado?


Nada. Ela empurra a porta.


INT. QUARTO DE DENIS – CONTÍNUO

Cama vazia, lençóis bagunçados. Ela entra, olha ao redor. Franze a testa. Volta ao corredor, tensa.


16. INT. CASARÃO SÉNÉCHAL / QUARTO DE ALEXANDRE – MOMENTOS DEPOIS

Sônia entra sem bater. Alexandre se levanta, surpreso.


ALEXANDRE – Mamãe?


SÔNIA – Onde está seu irmão?


ALEXANDRE – Não sei...


SÔNIA – Não minta pra mim, Alexandre. Já basta ter um filho rebelde. Não quero ter dois.


Alexandre hesita. Senta na beira da cama.


ALEXANDRE – Ele saiu. Com a... garota.


SÔNIA – Eu não estou acreditando...


Alexandre não responde. Sônia sai rápido, assustada.


17. EXT. PISTA DE CORRIDA – MINUTOS DEPOIS

Denis está ao volante de um Ford preto. Felipe no outro carro. Uma garota com lenço sobe numa caixa e levanta o braço.


GAROTA DO LENÇO – Aos meus três!


Denis olha para o banco do passageiro. Dahlía está lá, olhando pra frente com um sorriso misterioso.


GAROTA DO LENÇO – Um... dois... TRÊS!


Ela solta o lenço.


SFX: Motores rugem. Pneus gritam. Poeira sobe.


Os carros disparam.


Denis sorri, adrenalina pura. Dahlía está imóvel. Ele acelera!

O carro, a toda velocidade, parece um foguete!

Os dois lado a lado quase colidem, mas Denis consegue manobrar bem.


DAHLÍA [off] – Eles nunca gostaram de mim.


DENIS [assustado] – An? Dahlía?


Ele olha de relance pra plateia. Dahlía não está mais ali.


DENIS – Dahlía?


Os faróis do carro adversário se aproximam. Denis tenta focar. Olha pra plateia. Não vê Dahlía.


SFX: Motor engasga.


O carro trepida. Denis vira o volante com força, perde controle.


SFX: TROMBA — o carro capota.


CORTE RÁPIDO: Roda girando no ar. O mundo de cabeça pra baixo.


CORTE: Chamas. Uma EXPLOSÃO. A multidão grita.


FELIPE, pulando do carro, assiste em choque.


GAROTA DO LENÇO – Meu Deus... alguém chama ajuda!


CORTE LENTO: O rosto de Denis entre as chamas, olhos entreabertos, como se visse algo que mais ninguém vê.


DENIS [sussurra] – Dahlía...


18. EXT. PLATEIA / PISTA – INSTANTES DEPOIS

No meio da multidão em pânico, entre fumaça e caos... alguém jura ver uma garota pálida, de vestido branco, chorando entre os carros.


SFX: Sirenes distantes.


FADE OUT.