Ecos de Eros - capítulo 20
CAPÍTULO 20
1. Int. Centro de Genebra / Prédio Comercial – Dia
Fernando está num café com alguns outros homens, até que um funcionário chega um pouco apressado.
FUNCIONÁRIO – Senhor Fernando, senhor Fernando!
FERNANDO – Pois não?
FUNCIONÁRIO – Chegou um telegrama urgente para o senhor.
(Fernando franze o cenho.)
CORTA PARA:
Fernando está em outra sala do prédio com o telegrama em mãos.
Sua expressão é preocupada. Ele se vira para o funcionário.
FERNANDO – Preciso que prepare meu transporte. Voltarei para o Brasil.
2. Int. Casarão Sénéchal / Escritório de César – Dia
César está conversando com um empregado qualquer.
CÉSAR – Todos os telegramas, cartas e ligações que chegarem devem vir diretamente para minha mesa, sem exceção!
(O empregado assente, sai e fecha a porta. Close no rosto de César. Ele pega o telefone e disca um número.)
SFX: Instrumental Armação
(Pausa.)
CÉSAR – Olá, minha amiga.
FÁTIMA [em off] – Não me venha com este tom amistoso. O que aconteceu ontem foi inadmissível.
CÉSAR – Ora, mas eu não tive parte naquele escarcéu. Foi culpa do imbecil do meu irmão, que não sabe controlar o que guarda entre as pernas; mas sua filha também não ajuda, não é, Fátima?
FÁTIMA [ameaçadora] – Acho melhor ponderar suas palavras, César.
CÉSAR [debochado] – Ah, eu sinto muito, sinto muito... [pausa] Bem, não liguei para você para tratar sobre isso. Estou com um problema maior: aquela negra fez minha reputação aqui cair. César agravou isso, e minha querida avó enviou um maldito telegrama à Fernando. Ele irá voltar se eu não fizer nada. Por isso, preciso que me forneça o seu mercenário.
FÁTIMA – Ele não é meu serviçal. Nem mesmo seu.
CÉSAR – Eu não disse que seria de graça. De todo modo, não preciso dele exatamente, mas sim de seus contatos. Especialmente na Europa, que sei que ele tem. Fernando não voltará para cá, pois eu não permitirei.
SFX: Instrumental se intensifica.
(Close no rosto de César.)
CORTA PARA:
3. Int. Casarão de Fátima / Sala – Dia
FÁTIMA – Tudo bem, então. Recomendo cautela.
CÉSAR [em off] – Quem deveria estar cauteloso é Fernando, não eu.
(Ela desliga. Dahlía desce as escadas.)
FÁTIMA (virando-se) – O que faz aqui? Deve permanecer lá em cima.
DAHLÍA – Não posso mais tomar café da manhã?
FÁTIMA – Irão levar seu café na cama.
(Dahlía faz uma cara feia, e lentamente volta para cima.)
4. Int. Casarão Sénéchal / Varanda – Dia
Catarina e Dolores estão tomando café da manhã.
DOLORES – Chamei Fernando de volta.
CATARINA – Como assim? Não me avisou antes por quê?
DOLORES – Supus que usaria o cérebro para presumir que eu faria isso. Afinal, veja só o que este ambiente se tornou... [faz um gesto abrangente] Um desvario!
CATARINA – Eu não considerei que tomaria este rumo.
DOLORES – Pois eu já sabia antes mesmo de pensar sobre.
CATARINA – Eu queria que vivêssemos em harmonia, cuidado e paz. Apenas isso.
DOLORES – Não seja inocente, Catarina.
CATARINA – Não é inocência, mamãe. Eu sei que as pessoas são complicadas, mas isso não significa que eu não possa aspirar por avença.
(Dolores entorta a boca.)
CATARINA – Eu amo essas crianças como se fossem minhas, e quero o bem de todos, pois são minha família. É apenas isso.
DOLORES – Eu também quero o bem de todos, e por essa razão mesmo que chamei Fernando de volta. Ora, veja, Catarina: César é ambicioso tal qual o pai; e tem, assim como Denis, diga-se de passagem, propensão a tomar decisões imponderadas. Não posso permitir que ele continue a passar seu trator por cima de nós mesmos.
(Close em Catarina, que demonstra tristeza.)
5. Int. Casarão Sénéchal / Quarto de Alexandre – Dia
Helena está brincando com suas bonecas, em silêncio e melancolia. Sônia empurra a porta devagar, que range, evidenciando sua presença. Helena vira para ela.
SÔNIA – Olá, meu amor. Como se sente hoje?
HELENA – Estou bem, mamãe. Bom, pelo menos até onde posso estar.
SÔNIA – Como assim, meu amor? E por que está no quarto de Alexandre, e não no seu?
HELENA – Fiquei um pouco assustada, confesso. Não gosto, mas confesso.
SÔNIA (preocupada) – Você não viu nada, não é, Helena?
HELENA – Somente ouvi falar.
SÔNIA – Minha nossa, Helena... [vai em direção à ela, segurando seu rosto] Você está bem? O que ouviu?
HELENA (afastando-a) – Pare com isso, mamãe!
SÔNIA – Como “pare com isso”, minha filha? Você passou por um trauma!
HELENA – Trauma? Eu de fato só ouvi falar. Não é como se tivesse visto o homem ser degolado diante do portão de entrada!
SÔNIA (levando as mãos ao peito) – Oh, Deus. Que horror.
HELENA – Sim, um horror, mas eu não vi. Só ouvi.
SÔNIA – Então por qual razão está assustada, meu bem?
HELENA – Bom... [pausa] É que...
(Sônia enruga a testa.)
HELENA – É bobagem, mamãe.
SÔNIA – Nada que possa dizer é bobagem, Helena!
(Helena pensa por um instante.)
HELENA – É que... ontem, eu vi alguém no meu quarto.
SFX: Instrumental Suspense
(Sônia engole em seco.)
HELENA – Alguém alto, forte e com olhos tão claros quanto os faróis de um carro em alta velocidade.
SÔNIA (ofegante) – Como assim, Helena? Como vem me dizer que isto não é nada? Ele lhe fez algo?
(Helena fica calada.)
SÔNIA (sacudindo a menina) – Fale, Helena!
HELENA – Pare! Me machuca desta forma!
(Sônia se afasta.)
Não queria contar porque sabia que ficaria assim.
SÔNIA – Mas é claro! Um homem invadiu seu...
HELENA – Foi apenas um sonho! Apenas isso, um sonho!
(Sônia relaxa, desacreditada.)
SÔNIA – Por que não falou isso antes?
HELENA – Porque pareceu real, mas sei que foi um sonho.
SÔNIA – Helena, por favor, qualquer coisa que acontecer, pode me contar, está bem? Pode me contar. Sempre!
(Helena fica cabisbaixa, e Sônia a puxa para um abraço apertado. Foco no rosto assustado de Sônia, depois no de Helena, em zoom lento.)
6. Int. Casarão Sénéchal / Sala de Estar – Tarde
TIME-LAPSE
(Cenas das colinas, funcionários trabalhando nos jardins, insetos polinizando flores…)
CORTA PARA:
Alexandre está no sofá lendo um romance. Alguém bate à porta, e um funcionário atende. É Eleanor. Ela está sorridente e segura um bolo nas mãos.
ELEANOR – Olá, Alexandre!
(O jovem se levanta rapidamente.)
ALEXANDRE – Veja só quem finalmente resolveu aparecer. E trouxe bolinho!
ELEANOR – Pegue um pedaço.
(Ele vai até ela.)
ELEANOR – O César está por aí?
ALEXANDRE – O César está no escritório, mas não recomendo ir até lá, pois ele está cheio de poréns para resolver.
ELEANOR – Deve haver um tempo na agenda dele para a própria esposa, não acha?
ALEXANDRE (contido, como quem tem pena) – Quer mesmo ouvir o que eu acho?
(De repente, César aparece apressado.)
ELEANOR – Meu bem! Ah, que saudades!
(Ela vai até o marido, feliz.)
CÉSAR – O que faz aqui?
ELEANOR – Vim visitá-los, principalmente você. Não estava com saudades?
CÉSAR – Eu não tenho tempo, Eleanor. Com licença, por favor.
ELEANOR – Eu fiz um bolo para você.
ALEXANDRE – Está maravilhoso, César. Prove um pedaço.
CÉSAR (seco) – Bolo com fatia faltando eu não quero. Com licença.
(Ele afasta Eleanor, que vai atrás dele.)
ELEANOR – César, por favor! Só 5 minutos. Faz tanto tempo que não nos vemos. Somos marido e mulher.
(César se vira, furioso.)
CÉSAR (grita) – Me deixe em paz, Eleanor!
(Alexandre e Eleanor se assustam.)
Porque você sempre procura aparecer nos momentos mais inoportunos? Será que não tem mais nada para fazer? Ah, certamente não. Mulher, né?
(Alexandre caminha para perto dela, com agilidade.)
CÉSAR – Pegue este bolo e dê para os porcos, como já fez.
ALEXANDRE – Você é um porco! Um moleque imundo e sem valores!
(César se vira e sai.)
ALEXANDRE – Seu babaca!
(joga o bolo na direção de César, mas erra)
(Eleanor se derrama no chão, chorando desmedidamente, e deixa cair o bolo.)
ALEXANDRE (indo até ela) – Calma, Eleanor. Calma.
ELEANOR – Eu só queria agradá-lo, fazê-lo feliz.
ALEXANDRE – Ele não merece o que você faz por ele.
(Ariel chega de repente.)
ARIEL – O que houve aqui?
(vai até Eleanor)
Você está bem?
ALEXANDRE – Foi César. Ele está passando de todos os limites.
(Os garotos abraçam Eleanor, enquanto um funcionário junta o bolo deformado. Close em Ariel, depois em Alexandre.)
7. Int. Casarão de Fátima / Sala de Entrada – Fim de Tarde
SFX: alguém bate à porta
Fátima atende, e César está diante dela, com um sorriso malicioso.
FÁTIMA – Entre, por favor.
(César entra com as mãos nos bolsos.)
CÉSAR – Onde está nosso aleijadinho?
(Um homem com roupas e olhar soturno aparece de repente. É o mercenário Fausto.)
SFX: Instrumental de Maldade
CÉSAR – Faaausto! Que saudades, meu grande amigo. Como está o seu cotoco?
FAUSTO – Está abusando da minha paciência, César.
FÁTIMA – Por favor, César, vamos manter o respeito. Fausto já aprendeu a lição dele.
CÉSAR – É, pois é. Traição é uma coisa complicada.
FAUSTO – Ele era um potencial cliente. Não tenho contratos. Quem me paga melhor, ganha.
CÉSAR – Nessa você perdeu um dedo.
FAUSTO – Diga logo o que quer, César, ou eu te mato aqui mesmo.
CÉSAR – Ah, claro! Vim contratar seus serviços, mas desta vez será um trabalho internacional! Sei que tem contatos na Europa, e lá, tenho uma grande dor de cabeça prestes a retornar. Se depender de mim, isso não acontecerá. E eu conto com você para isso, meu amigo, mas é pra ontem!
FAUSTO – Não sou seu amigo, que fique claro. E sim, é verdade, tenho muitos contatos estrangeiros. Se quer que eu organize tudo, eu faço com tranquilidade. É só me passar o nome do alvo.
SFX: Instrumental se intensifica
(Close no rosto de César.)
8. Int. Casarão de Fátima / Quarto de Dahlía – Noite
Dahlía está deitada na cama, reflexiva, até que ouve os murmúrios no andar de baixo, e vai até a porta.
CÉSAR [em off] – Adorei o nosso acordo, mas agora preciso ir. Fátima, pode me levar até o portão? Não quero ir sozinho com nosso amigo aqui.
(Os olhos de Dahlía brilham, e ela ligeiramente sai na ponta dos pés, chegando no topo da escada e observando a mãe sair com os dois homens.)
9. Int. Casarão de Fátima / Sala de Entrada – Fim de Tarde
Dahlía corre até a porta em silêncio, e sai em direção à liberdade. Seus cabelos dançam com o vento frio. Dahlía foge.
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