Ecos de Eros - capítulo 19




 CAPÍTULO 19


1. Int. Casarão / Quarto de Alexandre – Noite

SFX: Instrumental tenso

FÁTIMA – Dahlía!

(Elas se olham. Close em cada rosto.)


Fátima nem pensa: vai em direção à garota atropelando todos pelo caminho, agarra a filha pelo braço e começa a puxá-la.


FÁTIMA – Sua inconsequente!

(Leva a menina pelo corredor.)


SFX: Instrumental de Briga

Denis vai atrás, e Sônia o barra.


SÔNIA (severa) – Fique bem aí.

(Dolores o encara com reprovação, Catarina com pena, e César com ódio. Helena aparece, coçando os olhos de sono.)


HELENA – O que houve?

(Todos a ignoram.)


2. Ext. Casarão / Porta de Entrada – Noite

Fátima voa contra a porta, puxando e apertando o braço de Dahlía, que se esforça para segurar as roupas e geme de dor.


DAHLÍA – Está me machucando, minha mãe!


FÁTIMA – E irei machucar mais!


(Dolores e Catarina vêm lentamente ver as duas saindo.)


DOLORES – Deplorável.


CATARINA – Não acho que deveria ser resolvido desta forma.


DOLORES – Uma hora dessas, Catarina?


DAHLÍA – Por favor, mãe, me solte!


(Fátima continua arrastando até passarem pelo portão.)


DOLORES – Como esta demônia entrou aqui?


CATARINA – E isso importa?


3. Int. Casarão Sénéchal / Escritório de César – Noite


CÉSAR (gritando) – O que estava pensando?


DENIS – Não é culpa minha.


SÔNIA – Nunca é culpa sua, não é, Denis? Sempre terceiriza as suas tolices!


CÉSAR – Você é patético.


DENIS – Meu único erro foi ter dormido com uma garota. É menos mortal que o seu, que literalmente causou uma morte!


CÉSAR – A diferença é que aconteceu como consequência de algo bom que estou fazendo por esta família.


SÔNIA – Ora, calem-se. Os dois têm agido com estupidez.


CÉSAR – Como diz isto? Se não for eu, quem será?


(Dolores entra na sala.)


DOLORES – O que foi que aconteceu aqui?


CÉSAR – Já estamos resolvendo, vó.


DOLORES – Você não resolve nem os seus problemas, garoto!


(César recua, irritado.)


DOLORES – Já enviei um telegrama para Fernando. Ele voltará em breve e colocará ordem neste lugar.


(César vai em direção à mulher.)


CÉSAR – O que a senhora pensa que está fazendo?


DOLORES – O certo.

(Ela sai.)


SÔNIA – Meus parabéns, meus filhos.

(Sônia sai.)


CÉSAR – Seu imbecil.


DENIS (se levantando) – Antes imbecil do que incompetente.

(Denis sai da sala, deixando César só.)


4. Int. Casarão de Fátima / Sala – Noite

Fátima entra com Dahlía, jogando a garota para dentro.


DAHLÍA (gritando) – Por que me humilhou daquela forma?


FÁTIMA – Você que me humilhou e segue humilhando! Sai de casa e ainda por cima com alguém daquele lugar…


DAHLÍA – Como posso sentir raiva gratuitamente de pessoas que nem sei o que fizeram? Você nem me conta. Nunca conta nada, nunca me explica nada. Só diz não, não e não! Me proíbe de viver, de respirar. E ainda quer que eu fique tranquila com isso?


FÁTIMA – É para te manter bem.


DAHLÍA – Aprisionada? Me diga, mãe, por que não posso nem pisar os pés para fora desta caverna que chama de casa? Por que sou obrigada a viver confinada aqui? Me diga, me conte por que não posso nem ao menos viver um romance como nos livros!


(Fátima balança a cabeça em negação.)


FÁTIMA – Deixe de ser boba, Dahlía. Romance literário? Eu sei o que é melhor para você, e sei o que deve e não deve fazer.


DAHLÍA – Não! Você acha que sabe só porque é velha!


(Fátima esbofeteia a menina. O silêncio domina por instantes, até que Dahlía vira-se para a mãe.)


FÁTIMA – Se faço tudo o que faço, é porque sei o que estou fazendo, e faço para que você possa se ver livre dos perigos lá de fora.


DAHLÍA – O único perigo que eu vejo diante de mim, é você!


(Dahlía sai, pisando forte contra o chão. Fátima respira profundamente.)


5. Int. Quilombo / Tenda da Sacerdotisa – Noite

Kawame e a Sacerdotisa estão acendendo velas.


KAWAME – Acha que eles recuarão?


SACERDOTISA – Se refere-se à César, sei que não. Mas os outros não aguentarão.


KAWAME – Senhora, a praga é irreversível. Não acha que poderia ter feito algo menos destrutivo?


SACERDOTISA – Infelizmente eles precisarão provar do próprio sangue podre para aprenderem o que deve ser aprendido.


KAWAME – Que não há força humana contra o ancestral.


SACERDOTISA – Que não há força contra quem está protegido pelo ancestral.


KAWAME – Se refere a si mesma?


SACERDOTISA – Me refiro a tudo o que represento para o meu povo.


6. Int. Quilombo / Tenda de Umina – Noite

Kawame entra na tenda, e vê Umina trocando-se para dormir.


UMINA – Oh, senhor!


KAWAME – Perdão, Umina!

(Ele cobre os olhos.)


UMINA – Pronto, pode “olhá”.


KAWAME – Me desculpe.


UMINA – O que era que o “sinhô” quer?


KAWAME – Só queria dizer que fez o certo. Sei que era muito próximo de Samuel, mas acredito que ele está em um bom lugar, pois se arrependeu.


UMINA – “Comé”?


KAWAME – Bom, como ele se foi…


UMINA – Se foi? O que o “sinhô” tá “falano”?


KAWAME – Umina, achei que sabia.


UMINA – Não sei de nada, não! O que foi com Samuel?


KAWAME – Umina, Samuel foi sacrificado.


SFX: Instrumental Quilombola Tenso


UMINA – “Comé”? Quem?


KAWAME – Umina…


UMINA – QUEM, KAWAME?


KAWAME – Ele foi sacrificado na porta da família, Umina. Pela Sacerdotisa.


(Umina cai no chão, sendo acudida pelo homem.)


UMINA (bate na própria testa) – Culpa minha, culpa minha... [chora] Eu, eu!


KAWAME – Calma, calma…


SFX: Instrumental Quilombola Triste

Fade-out…


7. Int. Casarão Sénéchal / Cozinha – Noite

Alexandre está buscando algo para comer. Ariel chega.


ARIEL – Só faltam você e Helena darem o desgosto final.


ALEXANDRE – Por favor, Ariel.


ARIEL – Me desculpe.


ALEXANDRE (franzindo a testa) – Me desculpe?


ARIEL – Sim, ué.


ALEXANDRE – Você está bem?


ARIEL – Por que não estaria?


ALEXANDRE (pegando um pote com doce) – Bom, pelo menos um milagre.


ARIEL – Não seja tolo. [se aproximando] Me dê um pouco desta goiabada.


(Alexandre corta um pedaço do doce e dá na mão do menino, que pega com delicadeza. Ariel olha Alexandre nos olhos, mas desvia.)


SFX: Instrumental Doce


ARIEL – Espero que consigam resolver tudo isso logo.


(Alexandre ignora, continua olhando para Ariel. Até que toca sua mão. O outro recua.)


ARIEL – O que está fazendo?


ALEXANDRE (constrangido) – Desculpe, eu… desculpe.

(Alexandre sai, envergonhado, e Ariel fica parado, pensativo.)


TIME-LAPSE

(Cenas do sol nascendo e se pondo entre as colinas…)


CORTA PARA:

Cenas aéreas externas de Genebra.


8. Int. Centro de Genebra / Prédio Comercial – Dia

Fernando está num café com alguns outros homens, até que um funcionário chega um pouco apressado.


FUNCIONÁRIO – Senhor Fernando, senhor Fernando!


FERNANDO – Pois não?


FUNCIONÁRIO – Chegou um telegrama urgente para o senhor.


(Fernando franze o cenho.)


CORTA PARA:

Fernando está em outra sala do prédio com o telegrama em mãos.

Sua expressão é preocupada. Ele se vira para o funcionário.


FERNANDO – Preciso que prepare meu transporte. Voltarei para o Brasil.