Ecos de Eros - capítulo 18

 





CAPÍTULO 18


1. Ext. Herdade / Portão Principal – Noite

SFX: Instrumental de Suspense

Fátima para diante do portão imponente da herdade. Seu olhar é gélido.

O guarda se aproxima, desconfiado.


GUARDA – Boa noite… dona Fátima? Posso ajudá-la?


FÁTIMA – Diga à Dolores que desejo ter uma palavra com ela. Agora!


GUARDA – Dona Dolores não costuma receber visitas a essa hora.


FÁTIMA – Diga a ela que se continuar ignorando as vozes certas, os gritos que virão em seguida serão ainda mais difíceis de calar.


O guarda hesita.


FÁTIMA – Não é um pedido, rapaz!


O homem engole seco e dá meia-volta, apressado.

Fátima permanece ali, imóvel como uma estátua, encarando o portão com um misto de desprezo e superioridade.


2. Int. Casarão Sénéchal / Sala de Estar – Noite

Dolores está sentada com um copo de vinho entre os dedos, pensativa.

Sônia reza baixinho, de pé perto da lareira.

Catarina caminha lentamente pelo ambiente, com os braços cruzados.


SFX: Passos rápidos no corredor.

Um funcionário entra, nervoso.


FUNCIONÁRIO – Com licença, dona Dolores…


DOLORES – Fale.


FUNCIONÁRIO – Dona Fátima está no portão. Diz que precisa falar com a senhora... com urgência.


Sônia levanta os olhos imediatamente. Catarina também se vira, atenta.


SÔNIA – Fátima? A mulher da colina?


CATARINA – Ela veio aqui? A essa hora?


DOLORES (calma) – O que ela quer?


FUNCIONÁRIO – Não sei bem, senhora.


SÔNIA – Dolores… você disse que essa mulher nunca tem boas intenções. Se isso era verdade antes, não deve ter mudado agora.


CATARINA – Ninguém aparece na nossa porta de noite com boas intenções.


DOLORES – Ela pode entrar. Estou curiosa.


SÔNIA – Mas e se for uma provocação?


CATARINA – Ou pior... uma armadilha.


Dolores se levanta com lentidão, deixando a taça sobre a mesinha.


DOLORES – Não se faz armadilhas batendo à porta. Se ela veio, foi porque algo a incomoda mais do que o próprio orgulho.


SÔNIA – E você confia nisso?


DOLORES – Não confio em ninguém, Sônia. Por isso continuo viva.


(Silêncio por um momento)


DOLORES (para o funcionário) – Diga que pode entrar.


FUNCIONÁRIO – Sim, senhora.

Ele sai apressado.


CATARINA – Vai recebê-la aqui mesmo?


DOLORES – Claro. Não sairei do meu conforto para receber alguém que nem gosto no portão tão tarde.

(Ela ajeita os ombros e caminha com altivez até o centro da sala)

Sônia a observa com tensão. Catarina se aproxima devagar.


3. Ext. Herdade / Portão Principal – Noite

O funcionário destranca o portão com cuidado.

Fátima entra sem agradecer, com o mesmo olhar duro.


FUNCIONÁRIO – Por aqui.


4. Int. Casarão Sénéchal / Sala de Estar – Noite

As portas se abrem, revelando Fátima, em pé, ereta, de expressão impenetrável.

Dolores dá dois passos à frente, imponente.


DOLORES – Bem-vinda.


FÁTIMA – Vim buscar minha filha.


(Sônia e Catarina trocam um olhar confuso)


DOLORES (erguendo a sobrancelha) – Sua filha?


FÁTIMA – Sei que ela está aqui.


DOLORES – O que lhe dá esta certeza?


FÁTIMA – Há um rapaz aqui. Um jovem com o demônio e o espírito da desordem no olhar. Ela não parava de falar dele desde que chegou, e agora eu tenho certeza que ele a seduziu para trazer para este antro de vermes.


CATARINA – Não venha até nossa casa para nos desrespeitar, Fátima. Quer encontrar sua filha e acredita que ela está aqui, tudo bem, procuramos. Mas não nos xingue.


SÔNIA – Nem a nós e a nenhum de meus filhos.


(Fátima olha no fundo dos olhos de Sônia)


FÁTIMA – Então você é a geradora da criatura que atraiu meu filho para este lugar?


SÔNIA – Meu filho não atrai ninguém. Quem se aproxima dele, o faz por vontade própria.


FÁTIMA – Vontade? Uma casa construída sobre ossos. Um lar enfeitado com veludos e falsidades. Vocês chamam isso de vontade? Chamam isso de escolha?


DOLORES – Chega de rodeios, Fátima. Está procurando a menina ou veio discursar?


(Fátima se volta para ela, firme)


FÁTIMA – Vim buscar minha filha. E se encontrá-la em qualquer quarto, corredor ou porão desta casa maldita, vou levá-la. Nem que precise quebrar cada porta com minhas próprias mãos.


CATARINA – Sua filha não é prisioneira aqui. Mas se entrou, foi por escolha própria.


FÁTIMA – Uma menina cercada por olhos e intenções podres não tem plena consciência de suas escolhas.


(Dolores dá um passo à frente, imponente)


DOLORES – Esta casa tem muitos olhos, Fátima, mas os mais perigosos são os que fingem ver demais.


(Silêncio tenso. O relógio da parede marca meia-noite)


FÁTIMA – Quero ver cada canto. Cada sala. Cada esconderijo. E você vai me deixar, Dolores.


DOLORES – Vai ter o que deseja. Mas eu mesma a acompanharei.


(Fátima ergue o queixo, desafiadora)


FÁTIMA – Melhor assim.


DOLORES – Vamos.

(Dolores sai andando com elegância. Fátima a segue de perto, com passos firmes)


5. Int. Corredores da Herdade / Vários Ambientes – Noite

Montagem silenciosa.

Dolores e Fátima atravessam cômodos sombrios, corredores compridos.

Fátima observa cada detalhe como um animal farejando vestígios.

Dolores, ao lado, mantém-se fria, observando de esguelha.


SFX: A madeira do piso estralando, o som do vento forçando as janelas

A tensão é palpável.


6. Int. Casarão Sénéchal / Quarto de Alexandre – Noite

Denis e Dahlía saem por uma “passagem” no quarto de Alexandre, que ouve os rangidos.


ALEXANDRE (chocado) – OH, MEU DEUS, O QUE VOCÊ…

(Denis vai tapar a boca dele)

Quem é essa MENINA, DENIS?


DAHLÍA – Cale a boca. Você irá acordá-los.


ALEXANDRE – NÃO ESTOU NEM AÍ! QUE PALHAÇADA É ESTA?

Um homem ACABOU DE MORRER e você vai farrear?


DENIS – Fale baixo, em primeiro lugar. Em segundo, eu e Dahlía…


ALEXANDRE (interrompendo) – Minha nossa, você é a Dahlía? Meu Deus.


SFX: Rangidos são ouvidos do lado de fora

Ariel entra no quarto, indignado.


ARIEL – Que grande bagunça, não é? Está achando que isto é algum tipo de casa do prazer? Seu idiota!


DENIS – Falem baixo!


ARIEL – Não! Você deve ser punido!


ALEXANDRE – Calma, Ariel. Não é assim…


7. Int. Casarão / Corredores – Noite

César sai por uma porta, ainda de terno, e vê Sônia, Fátima e as outras andando.


CÉSAR – O que é isto?


DOLORES – História um pouco complicada.


CÉSAR – Você me deve satisfações, vovó.


DOLORES – Não devo mais desde que perdi o respeito que tinha por você.


CÉSAR – Eu sou o hom…


DOLORES – Você não é nada além de um moleque!


(César range os dentes e dilata as narinas. Elas ouvem murmúrios)


SÔNIA – Vamos.


(Chegam no quarto de Alexandre)


Int. Casarão / Quarto de Alexandre – Noite

SFX: Instrumental tenso


FÁTIMA – Dahlía!


(Elas se olham. Close em cada rosto.)