Ecos de Eros - capítulo 17
*CAPÍTULO 17*
*1. Int. Casarão de Fátima/Quarto - Noite*
A câmera sobrevoa agilmente o casarão e o invade pela janela, indo em direção à Fátima, que se contorce na cama.
A lente vai até seus olhos, que se abrem diante da mesma com rapidez.
Fátima acordou.
Ela se senta na cama, ofegante.
FÁTIMA - Dahlía?
Nenhum retorno.
FÁTIMA [levantando-se] - Dahlía, está aí?
Calça os chinelos e vai em busca da filha.
*2. Int. Casarão de Fátima/Corredores - Noite*
FÁTIMA - Dahlía!
Ela chega no quarto de Dahlía, mas não entra, apenas olha para a cama e a nota vazia.
*SFX: Instrumental de Tensão*
O semblante de Fátima expressa fúria.
FÁTIMA - Dahlía, espero que esteja aí embaixo!
Ela segue.
*3. Int. Casarão de Fátima/Cozinha - Noite*
Fátima liga as luzes do cômodo e tudo está vazio.
CORTA PARA:
*4. Int. Casarão de Fátima/Quarto de Serviço - Noite*
Sem aviso e sem pedir permissão, Fátima abre a porta do quarto de serviço dos funcionários. Eles acordam.
FÁTIMA - Dahlía não está em casa.
FUNCIONÁRIA - Será que foi “pros bar”, dona?
FUNCIONÁRIO - Ora, mas essa menina apronta, viu?
FÁTIMA - Preciso que a procurem.
FUNCIONÁRIA [olhando para o relógio] - Dona, nunca aconteceu nada de tão grave das outras “vez”.
FÁTIMA - Não interessam as outras vezes! Eu sinto que o demônio está rondando a minha filha.
FUNCIONÁRIO - Cruz, credo.
FÁTIMA - Vamos, levantem-se!
*5. Ext. Campo – Noite (continuação)*
Dahlía e Denis estão deitados, parcialmente cobertos pelas roupas, ainda ofegantes.
DENIS – Isso foi…
DAHLÍA – Diferente.
DENIS – Você sempre faz tudo parecer um segredo.
DAHLÍA – E você sempre tenta desvendar.
Eles trocam um olhar longo.
*SFX: Galho estalando ao longe.*
Denis ergue a cabeça.
DENIS – Espera... ouviu isso?
*SFX: Outra vez, mais próximo.*
_FÁTIMA (off, distante) – DAHLÍA!_
Dahlía se senta num pulo, com um leve sorriso travesso no canto da boca.
DAHLÍA – É minha mãe.
DENIS – O quê?!
DAHLÍA – Vem, rápido.
Ela se levanta de vez, pega a parte de cima do vestido e sai andando com pressa.
DENIS – Espera, espera! Você tá indo pra onde?
DAHLÍA – Por aqui. Vamos sair logo daqui.
Ela puxa a mão dele. Denis hesita por um segundo.
DENIS – A gente não devia ir pra estrada?
DAHLÍA – Não! Tá doido? Pela estrada ela nos vê. Vem!
Eles correm. Ela gargalhando baixinho.
CORTA PARA:
*6. Ext. Bosque – Noite*
A vegetação se fecha cada vez mais. Denis tropeça nos galhos, ofegante. Dahlía segue firme, determinada, como se soubesse exatamente onde estão.
DENIS – Dahlía, isso aqui não é o caminho de casa!
DAHLÍA – Não é o seu. É o meu.
DENIS – Onde a gente tá indo?
DAHLÍA [virando-se de leve, com um meio sorriso] - Confia em mim.
Eles correm mais um pouco até que a vegetação começa a se abrir.
A luz da Herdade de Eros surge por entre as árvores.
DENIS – Dahlía...
DAHLÍA – Chegamos [Denis para por um momento] Vem, Denis! Nós temos que nos esconder.
DENIS - Dahlía…
Ela atravessa a cerca sem hesitar. Denis olha em volta, apreensivo.
DAHLÍA – Vem logo!
Ele a segue.
CORTA PARA:
*7. Ext. Campo – Minutos depois*
Fátima chega ao ponto onde os dois estavam. O campo está pisoteado. Há marcas no mato. Ela se ajoelha e recolhe um brinco.
FUNCIONÁRIA – É dela?
FÁTIMA – É.
FUNCIONÁRIO – Acha que foi levada?
FÁTIMA – Não. Ela foi… conduzida.
FÁTIMA - Maldição.
Eles se entreolham.
FÁTIMA – A paz será perturbada outra vez.
*SFX: Tensão*
*8. Ext. Casarão Sénéchal / Varanda Principal – Madrugada*
Ariel está sentado no corrimão de madeira, os olhos fixos no jardim escuro à frente. Corpo tenso, olhar distante e braços cruzados.
*SFX: O som leve do vento, algumas folhas farfalhando.*
A porta se abre atrás dele. Alexandre surge, de casaco jogado por cima do pijama, coçando a cabeça.
ALEXANDRE – Ah, você.
ARIEL – O que quer?.
ALEXANDRE - Não consigo dormir.
ARIEL - Bom, nem eu.
Alexandre se aproxima, devagar.
ALEXANDRE – Você está se sentindo bem?
ARIEL – Não consigo decifrar meus sentimentos agora. Só sei que é como se meu corpo ainda estivesse preso àquela cena.
Alexandre chega mais perto.
ALEXANDRE – Eu também.
ARIEL – Todo aquele sangue não parava de sair.
ALEXANDRE – Eu sei.
Silêncio.
ARIEL – Nunca vi alguém morrer assim. E tão perto. Tão... frio.
Ele balança a cabeça, engole em seco.
ARIEL - E o jeito que todos simplesmente aceitaram.
ALEXANDRE – Eu estive falando a mesma coisa para minha mãe. O fato é que ninguém aceitou, Ariel. A gente só congelou [pausa] Eu congelei, e me odeio por isso.
ARIEL - Sabe que não é culpado.
ALEXANDRE – Mas parece, não é? Parece que fiz parte, mesmo parado.
ARIEL – A culpa é dele. Do César. Daquela gente… Poderiam ter resolvido aquilo de outra forma!
Alexandre se vira para olhar Ariel. O outro está olhando fixamente pra frente.
ALEXANDRE – Você está tremendo.
ARIEL - Bobagem.
Alexandre estende a mão e toca de leve o braço de Ariel.
ALEXANDRE – Você não está sozinho.
ARIEL - Não fale assim comigo. Como se eu precisasse de ajuda.
ALEXANDRE - Todos precisam, Ariel.
Ariel olha para a mão dele. Depois para os olhos.
Silêncio longo.
ALEXANDRE – Eu, por exemplo, tinha dias em que eu queria sumir. Ir pra bem longe. Mas desde que cheguei aqui tudo só piorou.
ARIEL - Aqui era um lugar de paz.
ALEXANDRE - Por favor, Ariel, não quero brigar com você. Eu gosto de você.
Ariel se assusta
ARIEL – O quê? Por quê?
ALEXANDRE – Porque quando você me olha, mesmo com sua raiva… parece que ainda tem algo de certo nesse lugar. Sinceridade.
Eles permanecem olhando um para o outro.
Ariel engole em seco.
ARIEL - Pare com isso. E eu não gosto de você. De nenhum de vocês. Só estou um pouco atordoado.
ALEXANDRE - Tudo bem. Só queria que soubesse.
Mas Ariel desvia o olhar e suspira. Alexandre respeita.
ARIEL – Eu ainda estou muito...
ALEXANDRE - Não precisa dizer. Eu sei.
Eles se olham por mais um tempo.
ALEXANDRE - Bom eu irei voltar para o quarto. Fica bem.
*SFX: Instrumental de Ternura*
Ariel acompanha Alexandre com os olhos até ele sumir… Depois que ele fecha a porta, Ariel suspira pesadamente e volta seu olhar para a Lua…
É então que o rapaz nota um movimento lá embaixo. Ele aperta os olhos para ver, e nota duas pessoas vindo por entre o mato e pulando as cercas. Dahlía e Denis.
ARIEL - Não pode ser.
*9. Int. Casarão Sénéchal/Quarto de Dolores – Noite*
Dolores está sentada à escrivaninha antiga, uma pena em punho, escrevendo com determinação o telegrama. A luz de uma lamparina destaca sua expressão rígida.
César entra devagar, apoiando as mãos na moldura da porta, com um sorriso calculado.
CÉSAR - Minha vó... não acha que é melhor pensar um pouco antes de enviar essa mensagem?
DOLORES [Pausa, sem olhar]- Pensar? Já pensei demais, César. Isso precisa acabar.
CÉSAR - Você sabe que Fernando é um homem pragmático. Ele não gosta de ser apressado por… essa confusão toda.
DOLORES - Fernando é o que manda aqui. Não mais você.
CÉSAR [aproximando-se, persuasivo] - Estamos em um momento delicado. Podemos negociar. Esse telegrama só vai piorar tudo.
DOLORES [Negando com a cabeça]- Não há mais negociações. Eles invadiram nosso terreno, mataram um homem na nossa porta.
CÉSAR - Você sabe o que Fernando pensa sobre quilombolas...
DOLORES - Fernando pensa no que eu mandar. E eu mando que ele volte imediatamente.
Dolores assina o telegrama, coloca o papel no envelope e o entrega a um criado que aguarda do lado.
CÉSAR - Está cometendo um erro que pode custar muito caro.
DOLORES - Eu cometo o erro que for preciso para proteger esta família.
Dolores se levanta, firme, e sai do quarto. César fica parado, respirando fundo, olhando para a porta por onde ela saiu.
*SFX: Som abafado de trovão ao longe.*
*10. Ext. Casinha ao lado da Herdade – Noite*
Dahlía caminha na frente, puxando Denis pela mão com firmeza. Ele a segue, meio sem fôlego e surpreso.
DENIS - Você realmente conhece este lugar?
DAHLÍA - Conheço bem. Sabe, tem coisas nesta casa que nem o dono imagina.
Ela pára diante de uma porta simples, feita de madeira velha, e abre sem hesitar.
DENIS - Você entrou aqui antes?
DAHLÍA - Mais vezes do que você pensa.
Ela dá um passo para dentro, iluminada apenas pela luz da lua que entra pela janela pequena.
DENIS - Eu nunca vi nada disso.
DAHLÍA - E ainda tem muito mais.
Eles caminham para dentro, desaparecendo na penumbra.
*11. Ext. Herdade/Portão Principal – Noite*
*SFX: Instrumental de Suspense*
Fátima para diante do portão imponente da herdade. Seu olhar é gélido
O guarda se aproxima, desconfiado.
GUARDA - Boa noite… dona Fátima? Posso ajudá-la?
FÁTIMA - Diga à Dolores que desejo ter uma palavra com ela. Agora!
GUARDA - Dona Dolores não costuma receber visitas a essa hora.
FÁTIMA - Diga a ela que se continuar ignorando as vozes certas, os gritos que virão em seguida serão ainda mais difíceis de calar.
O guarda hesita.
FÁTIMA - Não é um pedido, rapaz!
O homem engole seco e dá meia-volta, apressado.
Fátima permanece ali, imóvel como uma estátua, encarando o portão com um misto de desprezo e superioridade.
